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	<title>Secundo Caderno</title>
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	<description>Reflexões sobre cultura e todo o resto</description>
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		<title>Secundo Caderno</title>
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		<title>Por que e para que publicar?! *</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 22:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Antônio Ozaí da Silva** “Há gente demais desesperada em publicar” Lindsay Waters [1] O imperativo é publicar: “as publicações acadêmicas se tornaram tarefa em série, como as peças que rolam pelas esteiras de uma linha de montagem. A produção é &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2012/01/16/por-que-e-para-que-publicar/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=145&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Antônio Ozaí da Silva**</em></p>
<p style="text-align:right;"><em><em>“Há gente demais desesperada em publicar”</em> </em></p>
<p style="text-align:right;">Lindsay Waters <a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftn1">[1]</a></p>
<p style="text-align:left;">O imperativo é publicar: “as publicações acadêmicas se tornaram tarefa em série, como as peças que rolam pelas esteiras de uma linha de montagem. A produção é ofuscada, do mesmo modo que a recepção de tais produtos”. Ou seja: “O produto é tudo que conta, não sua recepção, não o uso humano. Isso é produção de um fim em si mesmo e praticamente mais nenhum outro”.<a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftn2">[2]</a></p>
<p style="text-align:left;">Estamos num ritmo de produção taylorista-fordista: “O estudioso típico se parece cada vez mais com a figura retratada por Charlie Chaplin em seu Tempos modernos, trabalhando louca e insensatamente para produzir. Estaríamos tomados por uma força que ultrapassou nosso controle? Devemos nos render ou lutar? O que se pode fazer?”<a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftn3">[3]</a></p>
<p style="text-align:left;">A julgar pelos sábios da “Casa de Salomão”, só nos resta a adaptação. A sabedoria atual diz: “não formule grandes questões; não pergunte por que as coisas são como são”.<a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftn4">[4]</a> Fique dentro da baleia!<a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftn5">[5]</a> Cada vez mais pessoas reduzem o trabalho acadêmico ao objetivo de conquistar postos, se dar bem em editais, etc. Abandonam “a aprendizagem como um valor em si em nome da busca por credenciais”.<a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftn6">[6]</a> Mas, “enquanto aceitarmos esse sistema, permaneceremos dentro da baleia”.<a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftn7">[7]</a></p>
<p style="text-align:left;">Afinal, por que escrever e publicar? Por que nos submetemos à pressão produtivista? Por que aceitamos que as estruturas burocráticas determinem o ritmo das nossas vidas? Para que servem tantos artigos “científicos”? Em que consiste o caráter “científico”? Na mera obediência aos padrões normativos? Quais as conseqüências deste produtivismo? Qual a cultura que fortalecemos quando aceitamos as regras como se fossem inexoráveis? Claro, há recompensas simbólicas e materiais!</p>
<p style="text-align:left;">Se questionamos, nos lançam à face o argumento de que os que determinam as normas que direcionam a vida acadêmica são nossos pares. Além de não contestar o poder burocrático, querem nos responsabilizar. Não sei dos demais, mas, quanto a mim, não indiquei nem elegi ninguém para me representar nos órgãos <em>superiores</em>. Ao poder burocrático interessa manter a ordem das coisas, sua força advém da aceitação da cultura produtivista. Seus alicerces estão bem fincados no <em>ethos</em> do profissional acadêmico que aceita acriticamente as ordens de cima. A servidão voluntária predomina até mesmo em setores dos quais se espera a atitude da reflexão crítica. O poder burocrático não é uma abstração, mas aparatos materiais com gente de carne e osso. Ele se legitima pelo conformismo e capacidade de adaptabilidade dos pares. Que os que dão vida aos aparatos burocráticos falem em nome dos que os apóiam, mas <strong>não em meu nome</strong>!</p>
<p style="text-align:left;">A necessidade de critérios para a avaliação das atividades no <em>campus</em> não justifica a camisa-de-força do poder burocrático. A exigência de mais e mais produção científica produz deformações e estimula atitudes anti-éticas e abusivas. No limite, abrem-se as portas para práticas nada condizentes com o que se espera dos intelectuais e favorecem a delinqüência acadêmica. É lógico que não podemos fechar os olhos ou nos considerarmos totalmente isentos dos “pecados” inerentes à cultura produtivista. Como editor de revistas, por exemplo, compreendo a angústia dos colegas diante da exigência de publicação. Até entendo a pressa que têm em publicarem. Disto, muitas vezes, depende a carreira a acadêmica, a aprovação em determinados estágios. É o presente e o futuro que estão em jogo. Por outro lado, é preciso diferenciar entre a atitude motivada pela necessidade imperiosa de publicar, mas que se mantém dentro dos limites do razoável e ético, e aquela que beira as raias da delinqüência acadêmica. Ou seja, nem todos somos delinqüentes acadêmicos.</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftn1">[1]</a> WATERS, Lindsay. <em>Inimigos da esperança: </em><em>publicar</em>, perecer e o eclipse da erudição. São Paulo: Editora da UNESP, 2006, p.88.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftnref2">[2]</a> Idem, p. 42.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftnref3">[3]</a> Idem, p. 52.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftnref4">[4]</a> Idem, p. 53.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftnref5">[5]</a> “As entranhas da baleia”, escreve George Orwell, “são apenas um útero grande o suficiente para conter um adulto. Lá ficamos, no espaço almofadado e escuro em que nos encaixamos perfeitamente, com metros de gordura entre nós e a realidade, capazes de manter uma atitude da mais completa indiferença, não importa o que aconteça” (ORWELL, G. <em>Dentro da baleia e outros ensaios</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 135).</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftnref6">[6]</a> WATERS, 2006, p. 81.</p>
<p style="text-align:left;"><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/08%20Por%20que%20e%20pr%C3%A1%20qu%C3%AA%20publicar.docx#_ftnref7">[7]</a> Idem, p. 83.</p>
<p>* Texto originalmente postado no <em>Blog do Ozaí</em>, em 05/03/2011:</p>
<p style="text-align:left;"><a href="http://antoniozai.wordpress.com/2011/03/05/por-que-e-para-que-publicar/">http://antoniozai.wordpress.com/2011/03/05/por-que-e-para-que-publicar/</a></p>
<p style="text-align:left;">** Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de <em>Maurício Tragtenberg</em>: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/secundo.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/secundo.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/secundo.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/secundo.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/secundo.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/secundo.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/secundo.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/secundo.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/secundo.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/secundo.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/secundo.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/secundo.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/secundo.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/secundo.wordpress.com/145/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=145&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Humor Ousado</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Oct 2011 21:28:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Francisco Secundo Neto* &#8220;E que você descubra que rir é bom, Mas que rir de tudo é desespero&#8221; Trecho da canção Amor Pra Recomeçar de Frejat O ator escocês Sean Conery, numa entrevista à revista americana Playboy, nos anos 1960, &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2011/10/12/humor-ousado/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=140&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Francisco Secundo Neto*</p>
<p align="right"><em>&#8220;E que você descubra que rir é bom,</em></p>
<p align="right"><em>Mas que rir de tudo é desespero&#8221;</em></p>
<p align="right">Trecho da canção <em>Amor Pra Recomeçar</em> de Frejat</p>
<p style="text-align:left;" align="right">O ator escocês Sean Conery, numa entrevista à revista americana Playboy, nos anos 1960, declarou que a mulher, em certas ocasiões, merece apanhar. Naquela época o ator fazia sucesso mundial interpretando o personagem James Bond e teve depois que se explicar melhor e, mesmo, pedir desculpas, alegando que não teria sido bem isso o que queria ter dito. À época, os anos 1960, na Europa e em boa parte do mundo, a “revolução sexual feminina” questionava o machismo próprio das sociedades formadas sob a influência das religiões patriarcais, como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Tal declaração não fora, com certeza, adequada à sua época, e continua não sendo hoje.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">O humorista Rafinha Bastos, ex-integrante do programa humorístico CQC da TV Bandeirantes de São Paulo, recentemente, fez piadas no seu show de humor do tipo “toda mulher feia, violentada sexualmente, devia agradecer ao agressor” e, no referido programa televisivo, ao se referir à gravidez da cantora Wanessa Camargo declarou que “comia ela e o bebê”. O humorista ainda está envolvido em outras polêmicas devido ao humor que pratica. Numa sociedade e em uma época nas quais o combate aos preconceitos e à violência à mulher como, também, o repúdio à pedofilia estão em voga, tais piadas não são, de modo algum, aceitas ou bem vistas. As consequências imediatas de tais polêmicas piadas foram a demissão do humorista da TV Bandeirantes, processos judiciais e uma espécie de campanha contra o Rafinha Bastos, propalada na internet e noutros meios de comunicação.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">É possível rir de tudo? Não. Não rimos de tudo, não achamos engraçado todo e qualquer acontecimento ou pessoa. Não caiamos num relativismo ingênuo, o qual diria “depende do ponto de vista”. Na verdade, o que é aceito ou não como risível numa sociedade, ou melhor, numa configuração social de indivíduos inter-relacionados, estará sempre sujeito à mudança. O que antes era engraçado em uma sociedade historicamente situada, em outro tempo pode não ser mais, porém, o crivo ou as sanções são sempre sociais.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">É necessário sublinhar, contudo, que o humor e o riso são fenômenos humanos diferentes. O riso pode ser um efeito esperado do humor, e este pode ser entendido como uma <em>espécie do cômico</em>, mas não são definitivamente termos sinônimos. Na perspectiva psicanalítica, o humor se situa como um fenômeno especificamente humano e dependente do discurso; o riso, por seu turno, pode ser uma “descarga catártica gerada por contágio social” (PEREDA, 2005).</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Na perspectiva freudiana, O humor é um meio de obter prazer apesar dos “afetos dolorosos” que interferem com ele, atuando como um substitutivo para a geração destes, colocando-se no lugar deles. O prazer do humor revela-se ao custo de uma liberação de afeto que teve a expectativa de ocorrer. Freud (1987) exemplifica a geração do prazer humorístico na economia de despesa de um afeto como a compaixão pelo criminoso sentenciado a forca, o qual sendo levado para execução numa segunda-feira, comenta: “É, a semana está começando otimamente”. Aqui, a despesa psíquica com o sentimento de compaixão pelo sentenciado é descarregada com essa “tirada” humorística e, em vez de compadecimento, ri-se francamente.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Em um curto texto intitulado <em>Humor</em>, publicado em 1928, Sigmund Freud afirma que há duas maneiras de realizar a “atitude humorística”: ela pode dar-se em relação ao próprio <em>eu</em> do indivíduo ou para outras pessoas. Freud defende a ideia de uma “economia psíquica” e indica que o humor proporciona uma poupança no “gasto de sentimento”; para ele, “a essência do humor é poupar afetos” (FREUD, s/d, p. 190). De outro modo, o humor tem algo de liberador, assim como os <em>chistes</em>, mas possui, o que falta nestes, “qualquer coisa de grandeza e elevação”. Freud (perdoem o chiste) explica:</p>
<p style="text-align:left;" align="right">&#8220;Essa grandeza reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do ego (<em>eu</em>). O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões para obter prazer. Esse último aspecto constitui um elemento inteiramente essencial do humor. […] O humor não é resignado, mas rebelde. Significa não apenas o triunfo do ego, mas também do principio do prazer, que pode aqui afirmar-se contra a crueldade das circunstâncias reais&#8221; (FREUD, s/d, p. 190).</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Em outras palavras, a atitude humorística rejeita as reivindicações da realidade e procura efetivar o <em>princípio do prazer</em>, ela configura-se como uma atitude, portanto, de recusa do sofrimento. <em>O humor ousa desafiar a civilização</em>, ele enfatiza a invencibilidade do <em>eu</em> pelo mundo real e sustenta a busca por prazer, é o triunfo do <em>eu </em>contra o social que, eventualmente, o reprime. O humor é, afirma Freud (s/d), a contribuição feita ao cômico pela intervenção consoladora e protetora do <em>supereu</em>, que nem por isso contradiz sua origem repressora no <em>agente paterno</em>.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Para a psicanálise, no geral, a vida em sociedade é construída sobre a renúncia instintual, ela pressupõe justamente a não satisfação (supressão, recalque) de instintos poderosos. A dita sentença, <em>grosso modo</em>, retrata o entendimento freudiano do trabalho da civilização sobre os seres humanos. Nesta concepção, somente sob a civilização é que podem existir seres humanos; é esta a condição na qual o <em>homo sapiens</em> humaniza-se. Sigmund Freud (2010, p. 48-49) toma a palavra “civilização” como o termo que designa a inteira soma das realizações e instituições que afastam a vida humana daquela dos seus antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos homens entre si.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Assim, para o “pai da psicanálise”, o humor é ousado, tenta enfrentar no âmbito psíquico as pressões da realidade circundante dizendo “não temo, prefiro rir”. Poderíamos sugerir com essa explanação que as polêmicas piadas de Rafinha Bastos são como que um investimento emocional contra as pressões sociais em voga hoje. Pressões que impõem ao indivíduo se ajustar às demandas sociais atuais como, por exemplo, o combate aos preconceitos, à violência contra a mulher e à pedofilia. Entretanto, é preciso lembrar que Freud é incisivo ao afirmar que a civilização humana apenas se realiza sobrepujando nossos impulsos agressivos e sexuais. Logo, combater tais impulsos, inclusive em formas de piadas, é de extrema necessidade para a eterna aventura humana de conviver.</p>
<p><strong>Referências Bibliográficas Básicas</strong></p>
<p>BERGSON, Henri. <em>O riso</em>: ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987.</p>
<p>FREUD, Sigmund. <em>Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Os chistes e sua relação com o inconsciente</em>. 2ª ed. Volume VIII. Rio de Janeiro: Imago Editora LDTA, 1987.</p>
<p>______. “O Humor”. In: <em>Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: O Futuro de uma Civilização, O Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos</em>. Volume XXI. Rio de Janeiro: Imago Editora LTDA, s/d.</p>
<p>______. <em>O Mal-Estar na civilização, Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise e outros textos</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p>
<p>KHAN, Michael. <em>Freud básico</em>: pensamentos psicanalíticos para o século XXI. Guanabara, RJ: Civilização Brasileira, 2003.</p>
<p>KUPERMANN, Daniel. <em>Ousar Rir</em>: humor, criação e psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.</p>
<p>MINOIS, Georges. <em>História do Riso e do Escárnio</em>. São Paulo: Editora UNESP, 2003.</p>
<p>PEREDA, Luis Campalans. “Humor e Psicanálise” In: SLAVUTZKY, Abrão e KUPERMANN, Daniel. <em>Seria Trágico&#8230; Se Não Fosse Cômico</em> – Humor e Psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.</p>
<p>WOUTERS, Cars. “Mudanças nos Regimes de Costumes e Emoções: da disciplinarização à informalização”. In<em>:</em> GEBARA, Ademir e WOUTERS, Cas. <em>O controle das emoções</em>. João Pessoa: Editora Universitária UFPB, 2009</p>
<p style="text-align:left;" align="right">ZILLES, Urbano. O significado do humor. <em>Revista FAMECOS</em>, Porto Alegre-RS, nº 22, dec. 2009.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">*Mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Estudante e pesquisador das teorias e dos tratamentos sociais do humor.</p>
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		<title>Política, Religião e Violência*</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Sep 2011 00:20:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Antônio Ozaí** O desejo de saber o porquê e o como chama-se curiosidade, e não existe em qualquer criatura viva a não ser no homem. Assim, não é só por sua razão que o homem se distingue dos outros animais, &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2011/09/19/politica-religiao-e-violencia/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=135&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;">Antônio Ozaí**</p>
<p>O <em>desejo </em>de saber o porquê e o como chama-se <em>curiosidade</em>, e não existe em<br />
qualquer criatura viva a não ser no homem. Assim, não é só por sua razão que o<br />
homem se distingue dos outros <em>animais</em>, mas também por esta singular<br />
paixão”, afirma Hobbes.<a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftn1">[1]</a> A curiosidade humana pressupõe uma atitude<br />
crítica diante dos fatos, dos discursos e das ideologias que interpretam-nos.<br />
Trata-se uma postura de ruptura com o maniqueísmo, o sectarismo e o dogmatismo<br />
que tomam a <em>sua</em> verdade como a verdade absoluta.</p>
<p>O <em>olhar curioso</em> não se contenta com a divisão do mundo em polaridades absolutas,<br />
entre o mal e o bem; é um <em>olhar</em> que coloca em suspenso as nossas certezas, os nossos preconceitos e os princípios que geralmente aceitamos como dados para a análise da realidade. Esta é muito mais complexa do que os fáceis raciocínios esquemáticos e próprios dos que se vêem como profetas e guardiões do bem, da palavra e do livro sagrados, contra o <em>outro</em>, o qual representaria o mal.</p>
<p>Embora sejam esferas autônomas da ação humana, política e religião se mesclam tanto no<br />
que diz respeito ao quanto aos recursos práticos. Na verdade, a política não pode prescindir plenamente da religião e, em certas circunstâncias, o discurso religioso cumpre uma função claramente política. Dessa forma, o dissidente político passa a ser tratado como o herege, merecedor de todas as punições; os que não aceitam o poder político imperial e hegemônico passam a ser classificados como representantes das forças do mal; os que defendem a ordem social vigente não titubeiam em demonizar os seus oponentes; o mal é incorporado no <em>outro</em>. A linguagem maniqueísta transforma o bem em mal e<br />
vice-versa. Pois o que representa o paraíso para uns, pode ser o inferno para outros. Nesta senda, a política é pensada como a luta entre o bem e mal.</p>
<p>A modernidade pretendeu romper as amarras da superstição e da ignorância e instituir a razão; pleiteou a separação do Estado das amarras da moral  religiosa e do poder espiritual representado pelas autoridades eclesiásticas. Maquiavel advogou que a ação política tem um <em>status</em> próprio e diferente da moral religiosa. A ação política busca resultados; o estadista, ao contrário do profeta, é julgado por sua eficácia. O florentino observa que, do ponto de vista da política, o mal e o bem não são absolutos; o mal pode se transmutar em<br />
bem, e vice-versa. Cabe ao estadista ter a sabedoria (<em>virtù</em>) para usar o mal e o bem conforme a necessidade. Como afirma Maquiavel, “o tempo arrasta consigo todas as coisas e pode transmudar o bem em mal e o mal em bem”.<a title="" href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftn2">[2]</a></p>
<p><strong>A lógica da força</strong></p>
<p>Referir-se ao bem e ao mal nos leva a um aspecto negligenciado e/ou objeto de polêmica: a<br />
violência na política. Os gregos ensinaram que a política é a esfera da <em>pólis</em>, o que pressupõe argumentação e discussão de ideias. Hannah Arendt observou que a política, isto é, o <em>poder político</em>, se refere ao coletivo, pressupõe consenso e se legitima no consentimento do povo. “O poder e a violência se opõem: onde um predomina de forma absoluta, o outro está ausente”. <a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftn3">[3]</a></p>
<p>Porém, se é verdade que o poder, em sua essência, se distingue da violência e que não se<br />
sustenta única e exclusivamente pelo recurso a esta, também é fato que o poder não prescinde da violência e recorre à mesma sempre que necessário. Como escreve Bobbio:</p>
<p>“O que caracteriza o poder político é a exclusividade do uso da força em relação à<br />
totalidade dos grupos que atuam num determinado contexto social, exclusividade<br />
que é o resultado de um processo que se desenvolve em toda sociedade<br />
organizada, no sentido de monopolização da posse e uso dos meios com que se<br />
pode exercer a coerção física”.<a title="" href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftn4">[4]</a></p>
<p>O monopólio da coerção física é a condição <em>sine qua non</em> da soberania do Estado moderno. Essa tese, compartilhada por marxistas e liberais, concebe a política como uma atividade cujo <em>locus</em> e referência é o Estado. Foucault expressa a voz dissonante nessa maneira de ver a política. Para ele o poder está difuso pela sociedade: “A questão do poder fica empobrecida quando é colocada unicamente em termos de legislação, de Constituição, ou somente em termos de Estado ou de aparelho de Estado”.<a title="" href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftn5">[5]</a> O poder se manifesta em todos os aspectos da vida humana, em todos os níveis da sociedade, interligados ou<br />
não ao Estado. Na concepção foucaultiana, o poder impregnou o próprio corpo, encontra-se exposto neste.</p>
<p>Chega a ser preocupante como a <em>santa ingenuidade</em> e/ou a ignorância quanto aos fatos históricos resultam em um moralismo abstrato no que se refere à presença da violência na política. As <em>boas consciências</em> ficam estupefatas e até demonstram um certo mal estar quando se confrontam com esta realidade histórica. “Mas como pode ter sido assim?”, se perguntam; e terminam por debitar tais eventos à sanha pelo poder deste ou daquele indivíduo, desconsiderando-se o processo histórico e, inclusive, a realidade presente.</p>
<p>A política, para o bem ou para o mal, não prescinde da violência. A ascensão<br />
política da burguesia exigiu rupturas fundadas no recurso à guerra e à revolução; do ponto de vista econômico, não foi diferente: a burguesia precisou expropriar violentamente os camponeses e transformá-los em <em>mão-de-obra livre</em>, isto é, prisioneiros do sistema industrial enquanto trabalhadores assalariados. A revolução industrial consumiu, literalmente, milhares de corpos, em especial as mulheres e crianças. O progresso da civilização encontra-se estreitamente vinculado ao sangue de milhões, vítimas da expansão colonialista e da escravidão. <a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftn6">[6]</a> Eis o <em>pecado original</em> da burguesia ou “o segredo da acumulação primitiva” desvendado por Marx em <em>O Capital</em>.<a title="" href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftn7">[7]</a></p>
<p>Que seria dos poderosos e suas nações sem o extermínio de populações inteiras? Por acaso as duas grandes guerras mundiais, o holocausto, o nazismo e o stalinismo, são obras apenas da irracionalidade humana desvinculadas dos interesses políticos e econômicos em permanente disputa? Foi a lógica da força que se impôs.</p>
<p>Eis a outra face da política: a força materializada na violência em toda a sua crueldade. Este fator, por mais bárbaro que se apresente, não é estranho à ação política. Maquiavel, analisando os exemplos históricos do seu tempo, observou como o uso da violência aberta resultou em determinados casos em fracasso e noutros em sucesso. A que se deve esta diferença? Ele responde:</p>
<p>“Creio seja isto conseqüência de as crueldades serem mal ou bem praticadas. Bem utilizadas podem ser chamadas aquelas (se bem se pode dizer do mal) feitas de<br />
uma vez só, pela necessidade de prover sua própria segurança, e depois são relegadas à margem tornando-se o mais possível em vantagens para os súditos. Mal utilizadas são as que, se bem sejam a princípio poucas, não se extinguem mas crescem com o tempo”.<a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftn8">[8]</a></p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftnref1">[1]</a> HOBBES, Thomas. <em>Leviatã</em>. São Paulo: Abril Cultural, s.d,. p.39.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftnref2">[2]</a> MACHIAVELLI, Niccolò. <em>O Príncipe</em>. São Paulo: Hemus, 1977, p.20.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftnref3">[3]</a> ARENDT, Hannah. <em>Da Violência</em>. In: <strong><em>Religião e Sociedade</em></strong> 15/1 1990, p.30.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftnref4">[4]</a> BOBBIO, Norberto. <em>Política</em>. In: BOBBIO, Norberto, MATTEUCCU, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. <em>Dicionário de Política</em>. Brasília: Editora da UnB: 1992, p.956.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftnref5">[5]</a> FOUCAULT, Michel. <em>Microfísica do Poder</em>. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1979, p.221.</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftnref6">[6]</a> “Se o dinheiro, segundo Augier, “vem ao mundo com manchas naturais de sangue em uma de suas faces”, então o capital nasce escorrendo por todos os poros sangue e sujeira da cabeça aos pés” (MARX, 1985: p.292).</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftnref7">[7]</a> “Essa acumulação primitiva desempenha na Economia Política um papel análogo ao Pecado original na Teologia. Adão mordeu a maça e, com isso, o pecado sobreveio à humanidade. Explica-se sua origem contando-a como anedota ocorrida no passado. Em tempos muito remotos, havia por um lado, uma elite laboriosa, inteligente e sobretudo parcimoniosa, e, por outro, vagabundos dissipando tudo o que tinham e mais ainda. A legenda do pecado original teológico conta-nos, contudo, como o homem foi condenado a<br />
comer seu pão com o suor de seu rosto; a história do pecado original econômico no entanto nos revela por que há gente que não tem necessidade disso. Tanto faz. Assim se explica que os primeiros acumularam riquezas e os últimos, finalmente, nada tinham para vender senão sua própria pele. E desse pecado original data a pobreza da grande massa que até agora, apesar de todo seu trabalho, nada possui para vender senão a si mesma, e a riqueza dos poucos, que cresce continuamente, embora há muito tenham parado de trabalhar” (MARX, 1985:p.261).</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/Meus%20documentos/2011%20BLOG/BLOG%202011/16%20Pol%C3%ADtica%20e%20religi%C3%A3o.docx#_ftnref8">[8]</a> MACHIAVELLI, Niccolò. <em>O Príncipe</em>. São Paulo: Hemus, 1977, p.54.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p>ARENDT, Hannah. <em>Da Violência</em>. In: <em>Religião e Sociedade</em> 15/1 1990, p.142-150.</p>
<p>BOBBIO, Norberto. <em>Política</em>. In: BOBBIO, Norberto, MATTEUCCU, Nicola e PASQUINO,<br />
Gianfranco. <em>Dicionário de Política</em>. Brasília: Editora da UnB: 1992 (Volume 2).</p>
<p>FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1979.</p>
<p>HOBBES, Thomas Hobbes. <em>Leviatã</em>. São Paulo: Abril Cultural, s.d. (Os Pensadores).</p>
<p>MACHIAVELLI, Niccolò. O Príncipe. São Paulo: Hemus, 1977.</p>
<p>MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985. (Os Economistas – Volume II)</p>
<p>*Este texto foi originalmente postado no <em>Blog do Ozaí</em> em 30/04/2011. Link:</p>
<p><a href="http://antoniozai.wordpress.com/2011/04/30/politica-religiao-e-violencia/">http://antoniozai.wordpress.com/2011/04/30/politica-religiao-e-violencia/</a></p>
<p>**Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da <a href="http://www.espacoacademico.com.br/">Revista Espaço Acadêmico</a>, <a href="http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Urutagua">Revista Urutágua</a><br />
e <a href="http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci">ActaScientiarum. Human and Social Sciences</a> e autor de <em>Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária</em> (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/secundo.wordpress.com/135/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/secundo.wordpress.com/135/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/secundo.wordpress.com/135/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/secundo.wordpress.com/135/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/secundo.wordpress.com/135/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/secundo.wordpress.com/135/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/secundo.wordpress.com/135/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/secundo.wordpress.com/135/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/secundo.wordpress.com/135/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/secundo.wordpress.com/135/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/secundo.wordpress.com/135/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/secundo.wordpress.com/135/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/secundo.wordpress.com/135/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/secundo.wordpress.com/135/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=135&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Notas sobre o sentido da verdade em Michel Foucault</title>
		<link>http://secundo.wordpress.com/2011/09/01/notas-sobre-o-sentido-da-verdade-em-michel-foucault/</link>
		<comments>http://secundo.wordpress.com/2011/09/01/notas-sobre-o-sentido-da-verdade-em-michel-foucault/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 18:38:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Ubiracy de Souza Braga* “O sexo não se julga apenas, administra-se&#8221; (Foucault, 1984: 27) O filósofo Michel Foucault deixou inscrita uma das mais belas profecias sobre o “cuidado de si”. Uma ética política sobre a história da sexualidade, incluída a morte. &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2011/09/01/notas-sobre-o-sentido-da-verdade-em-michel-foucault/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=129&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;">Ubiracy de Souza Braga*</p>
<p style="text-align:right;">“O sexo não se julga apenas, administra-se&#8221; (Foucault, 1984: 27)</p>
<p style="text-align:left;">O filósofo Michel Foucault deixou inscrita uma das mais belas profecias sobre o “cuidado de si”. Uma ética política sobre a história da sexualidade, incluída a morte. A problemática da <strong>governamentalidade</strong> (cf. Foucault, 1979; 1984a; 1984b) fora retomada no “resumo dos cursos do <strong>College</strong> de France” (1970-1984): “gostaria de me insinuar sub-repticiamente no discurso que devo pronunciar hoje, e nos que deverei<br />
pronunciar aqui, talvez durante dez anos”. Veio a falecer em 25 de junho de<br />
1984, “quando seu estado de saúde não mais lhe permitia prepará-los”.</p>
<p style="text-align:left;">Metodologicamente Foucault, entende que</p>
<p style="text-align:left;"><em>“o silêncio, ou melhor, a prudência com que as teorias unitárias cercam a genealogia dos<br />
saberes seria talvez uma razão para continuar. Poderíamos multiplicar os<br />
fragmentos genealógicos. Mas seria otimista, tratando-se de uma batalha dos<br />
saberes contra os efeitos de poder do discurso científico – tomar o silêncio do<br />
adversário como a prova de que lhe metemos medo. O silêncio do adversário –<br />
este é um princípio metodológico, um princípio tático que se deve sempre ter em<br />
mente – talvez seja também o sinal de que nós de modo algum lhe metemos medo.<br />
Em todo caso, deveríamos agir como se não lhe metêssemos medo. Trata-se,<br />
portanto não de dar um fundamento teórico contínuo e sólido a todas as<br />
genealogias dispersas, nem de impor uma espécie de coroamento teórico que as<br />
unificaria, mas de precisar ou evidenciar o problema que está em jogo nesta<br />
oposição, nesta luta, nesta insurreição dos saberes contra a instituição e os<br />
efeitos de poder e de saber do discurso científico” </em>(Foucault, 1984:173-74, grifos meus).</p>
<p style="text-align:left;">Politicamente falando Foucault, entende ainda que</p>
<p style="text-align:left;">“<em>deve-se falar do sexo, e falar publicamente, de uma maneira que não seja ordenada em<br />
função de uma demarcação entre o lícito e o ilícito, mesmo se o locutor<br />
preservar para si a distinção (é para mostra-lo que servem essas declarações<br />
solenes e liminares); cumpre falar do sexo como de uma coisa que não se deve<br />
simplesmente condenar ou tolerar mas gerir, inserir em sistemas de utilidade,<br />
regular para o bem de todos, fazer funcionar segundo um padrão ótimo. O sexo,<br />
não se julga apenas, administra-se</em>” (Foucault, 1984: 27). Está tudo aí: o<br />
sentido da verdade para o Autor.</p>
<p style="text-align:left;">Salvo engano, nenhum <strong>sistema de pensamento</strong> (cf. Foucault, 2000a) em tão pouco tempo, obteve repercussão tão ampla e evidente, do ponto de vista da mudança de<br />
simbólica, a partir de temas como: a crítica da razão governamental, a<br />
analítica do poder, sobre as relações “espaço-tempo” e “poder-saber”, “estética<br />
da existência” e “experimento moral”, e mesmo entre o “império do olhar” e a<br />
“arte de ver”. É impossível esquecer a tese segundo a qual “a visibilidade é<br />
uma armadilha” numa sociedade que “canceriza” a vista a través do poder disciplinar.</p>
<p style="text-align:left;">O estudo dedicado ao “cuidado de si” teve como referência Alcibíades, retratado pelo pintor Pedro Américo em 1865. Nele, as questões dizem respeito ao “cuidado de si” com a política, com a pedagogia e com o conhecimento de si. Sócrates recomendava a Alcibíades que aproveitasse a sua juventude para ocupar-se de si mesmo, pois, “com 50 anos, seria tarde demais”. Mas isso, numa relação que diz respeito talvez ao “enamoramento”, na<br />
acepção de Francesco Alberoni (1986) e que não pode “ocupar-se de si” sem a ajuda do outro.</p>
<p style="text-align:left;">Contudo, é no discurso dedicado à formação da “hermenêutica de si” (1981-1982) que Foucault pretendeu estudá-lo “não somente em suas formulações teóricas, mas de analisá-lo em relação ao conjunto de práticas que tiveram uma grande importância na Antiguidade clássica ou tardia”. Isto porque, para ele, esse princípio de “ocupar-se de si”, de “cuidar-se de si mesmo” estão associados.</p>
<p style="text-align:left;">O exercício da morte, tal como fora evocado por Sêneca, consiste em viver a longa duração da vida como se fosse tão curta quanto um dia e viver cada dia como se a vida inteira coubesse nele; todas as manhãs, deve-se estar na infância da vida, mas deve-se viver toda a duração do dia como se a noite fosse o momento da morte. Na hora de ir dormir, afirma na<br />
Carta 12, digamos com alegria, com um sorriso: “eu vivi”.</p>
<p style="text-align:left;">Isto quer dizer que através dos exercícios de abstinência e de domínio que constituem a <strong>askesis </strong>necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se pôr à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca <strong>a questão da verdade</strong> – da “verdade do que se é, do que se faz e do que é capaz de fazer – no cerne da constituição do sujeito moral”. E, finalmente, o<br />
ponto de chegada dessa elaboração é ainda e sempre definido pela <strong>soberania do indivíduo </strong>sobre si mesmo; mas essa soberania amplia-se numa experiência onde a relação consigo mesmo assume a forma, não somente de uma dominação ´<strong>mas de um gozo sem desejo e sem perturbação</strong>`”.</p>
<p style="text-align:left;">Nesse lento desenvolvimento da arte de viver sob o signo do “cuidado de si”, ou sem temor a erro, a tese que sustentamos aqui, do <strong>sentido da verdade</strong> em Michel Foucault, os dois primeiros séculos da época imperial podem ser considerados como o ápice de uma curva: uma espécie de idade de ouro na cultura de si, sendo subentendido, evidentemente, que esse fenômeno só concerne aos grupos sociais, bem limitados em número, que eram portadores de cultura e para os quais uma <strong>techne tou biou</strong> podia ter um sentido e<br />
uma realidade: ou seja, “aqueles que querem salvar-se devem viver cuidando-se sem cessar”. Ademais, é conhecida a amplitude tomada em Sêneca pelo tema da aplicação a si próprio: é para consagrar-se a esta que é preciso renunciar às outras ocupações: poder-se-ia desse modo tornar-se disponível para si próprio. Sêneca dispõe de todo um vocabulário para designar as diferentes formas que o cuidado de si deve tomar e a pressa com a qual se procura unir-se a si mesmo. Apressa-te, pois para o objetivo: “dize adeus às esperanças vãs, acorre em tua própria ajuda se te lembras de ti mesmo, enquanto ainda é possível”.</p>
<p style="text-align:left;">Portanto, é possível dizer que não há idade para se ocupar consigo. Dizia Epicuro: “nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para ocupar-se com a própria alma. De sorte que devem filosofar o jovem e o velho, este para que, ao envelhecer, seja jovem em bens pela gratidão ao que foi, e o outro para que, jovem, seja ao mesmo tempo ancião pela ausência de temor pelo futuro”. Aprender a viver a vida inteira era um aforismo citado por Sêneca e que convida a transformar a existência numa espécie de exercício permanente; e mesmo que seja bom começar cedo, é importante jamais relaxar.</p>
<p>Mas há uma advertência: “é preciso tempo para isso”. E é um dos grandes problemas dessa cultura de si, fixar, no decorrer do dia ou da vida, a parte que convém consagrar-lhe. Recorre-se a muitas fórmulas diversas. Podem-se reservar, à noite ou de manhã, alguns momentos de recolhimento para o exame daquilo que se fez para a memorização de certos princípios úteis, para o exame do dia transcorrido; o exame matinal e vesperal dos pitagóricos se encontra, sem dúvida com conteúdos diferentes, nos estóicos; Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio, fazem referência a esses momentos que se deve consagrar a voltar-se <strong>para si</strong> mesmo.</p>
<p>Pode-se também interromper de tempos em tempos as próprias atividades ordinárias e fazer um desses retiros que Musonius, dentre outros, recomendava vivamente: eles permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida transcorrida, familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional. É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos ficam aparentemente apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, no trabalho filosófico ou, como Spurrima, na calma de uma existência agradável, “à posse de si próprio”.</p>
<p>Esse tempo não é vazio: ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, as necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a <strong>rememoração das verdades </strong>que já se sabe, mas de que convém apropriar-se ainda melhor. Marco Aurélio fornece, assim, um exemplo de “anacorese em si próprio”: trata-se de um “longo trabalho de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas”.</p>
<p>Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo. Ela não constitui um exercício da solidão; mas sim uma verdadeira <strong>prática social</strong>. E isso, em vários sentidos. Mas toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino e dos profissionais da direção da alma; ela encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do cuidado de si, faz-se apelo a outro, o qual se advinha que possui aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito; e é um dever que se realiza quando se proporciona ajuda a outro ou quando se recebe com gratidão as lições que ele pode dar. Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações preexistentes às quais ele dá uma nova coloração e um calor maior. O cuidado de si – ou <strong>os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos</strong> – aparece então como uma intensificação das relações sociais. Sêneca dedica um consolo à sua mãe, no momento em que ele próprio está no exílio, para ajudá-la a suportar essa infelicidade atual e, talvez, mais tarde, infortúnios maiores. O “cuidado de si” aparece, portanto, intrinsecamente ligado a uma espécie de “serviço da alma” que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas.</p>
<p>Enfim, para sermos breves, é esse tema do cuidado de si, consagrados por Sócrates, que a filosofia ulterior retomou, e que ela acabou situando no cerne dessa “arte da existência”, no sentido da espécie, do “sentido da verdade”, que extravasando de seu quadro de pensamento em sua origem e se desligando de suas significações filosóficas primeiras, adquiriu progressivamente as dimensões e as formas de uma verdadeira “cultura de si”. Por essa expressão é preciso entender que o princípio do “cuidado de si” adquiriu um alcance bastante geral: o preceito segundo o qual convém ocupar-se consigo mesmo é em todo caso um imperativo que circula entre numerosas doutrinas diferentes; ele mesmo tomou a forma de uma atitude, de uma maneira de se comportar, impregnou formas de viver; desenvolveu-se em procedimentos, em práticas e em receitas que eram refletidas, desenvolvidas, aperfeiçoadas e ensinadas; ele constituiu assim uma prática social, dando lugar a relações interindividuais, a trocas e comunicações e até mesmo a instituições, enfim, um certo modo de conhecimento e a elaboração de um saber.</p>
<p>Bibliografia Geral Consultada</p>
<p>ALBERONI, Francesco, <em>O Erotismo, Fantasias e Realidades do Amor e da Sedução</em>. São Paulo: Circulo do Livro, 1986.</p>
<p>BRAGA, Ubiracy de Souza, “Prolegômenos sobre o “cuidado de si”, de Michel Foucault”. In: Jornal <em>O Povo.</em> Fortaleza, 23 de dezembro de 2006.</p>
<p>_____________, Republicado e disponível em: <a href="http://www.secundoneto.blogspot.com/">http://www.secundoneto.blogspot.com</a>.</p>
<p>Francisco Secundo da Silva Neto, Editor, 16 de março de 2008.</p>
<p>FOUCAULT, Michel, <em>Arqueologia do Saber</em>. Petrópolis (RJ): Vozes, 1971.</p>
<p>_____________, <em>A Arqueologia do Saber</em>. 2a edição. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1986.</p>
<p>_____________, <em>El Orden del Discurso</em>. Barcelona: Ediciones Tusquets, 1973.</p>
<p>_____________, <em>História da Sexualidade</em>. Rio de Janeiro: Graal, 1977. Volumes 1 e 3.</p>
<p>_____________, <em>A Verdade e as Formas Jurídicas</em>. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro &#8211; PUC-Rio, 1979.</p>
<p>_____________, “Genealogia e Poder”. In: <em>Microfísica do Poder</em>. 4a edição. Rio de Janeiro: Graal, 1984a.</p>
<p>_____________, “Deux essais sur le sujet et le pouvoir”. In: DREYFUS, Hubert e RABINOW, Paul. Michel Foucault, <em>Un parcous philosophique</em>. Paris: Gallimard, 1984b.</p>
<p>_____________, <em>Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão</em>. Petrópolis (RJ): Vozes, 1987a.</p>
<p>_____________, <em>Hermeneutica del Sujeto.</em> Madrid: Ediciones de la Piqueta, 1987b.</p>
<p>_____________, <em>Nietzsche, Freud e Marx. <strong>Theatrum Phifosoficum</strong></em>. 4a edição. São Paulo: Editora Princípio, 1987c.</p>
<p>_____________, <em>Em defesa da sociedade: curso do Collège de France (1975-1976)</em>. São Paulo: Martins Fontes, 1999.</p>
<p>_____________, <em>Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas</em> (Org. e seleção de textos: Manoel Barros da Motta). Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2000a.</p>
<p>_____________, <em>Estratégia, Poder-Saber</em> (Org. e seleção de textos: Manoel Barros da Motta). Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2000b.</p>
<p>*Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).</p>
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		<title>Gerárd Depardieu: bruto, como um diamante</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Jul 2011 17:15:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Ubiracy de Souza Braga* Gérad Xavier Marcel Depardieu nasceu em Chateauxroux Berr, França em 1948. De origens humildes, fugiu de casa aos 13 anos e teve a juventude marcada pela delinquência juvenil. Durante a adolescência uma assistente social convenceu-o a &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2011/07/10/gerard-depardieu-bruto-como-um-diamante/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=124&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;">Ubiracy de Souza Braga*</p>
<p style="text-align:left;">Gérad Xavier Marcel Depardieu nasceu em Chateauxroux Berr, França em 1948. De origens humildes, fugiu de casa aos 13 anos e teve a juventude marcada pela delinquência juvenil. Durante a adolescência uma assistente social convenceu-o a seguir a carreira de ator. Estudou arte dramática no <em>Theatre National Populaire</em> e, em 1965, começou a atuar em peças de teatro e filmes. Nos anos 1980, consolidou-se como uma das estrelas mais brilhantes do cinema <em>gaulês</em>. No ano 50 a. C. a Gália é ocupada pelos romanos.</p>
<p style="text-align:left;">“<em>Mas, a pequena vila de <strong>Asterix</strong> e seus amigos ainda resiste, com a ajuda de uma poção mágica, que lhes dá uma força sobre-humana. Desesperado para descobrir a poção secreta dos gauleses, um centenário romano passa a espionar a vila. O objetivo é se tornar invencível e acabar com qualquer obstáculo entre ele e o trono de César. Mas, <strong>Panoramix</strong>, o druida da vila prepara uma poção especial a ele. Nosso herói Asterix dá a ele a mistura: um tônico poderoso que faz seu cabelo crescer, crescer&#8230;”.</em></p>
<p style="text-align:left;">Depardieu especializou-se como artista em personagens que, por trás de uma fachada de dureza, como um diamante, escondem um “coração terno”, daí a singela analogia com os diamantes. Sua fisionomia peculiar permitiu-lhe interpretar o personagem título no filme “Cyrano” (1990). Outros trabalhos respectivamente são: “1900” (1976), onde o filme representa uma retrospectiva histórica da Itália desde o início do século 20 até o fim da Segunda Guerra Mundial, focando as vidas de duas pessoas: Olmo (Gérard Depardieu), filho bastardo de camponeses, e Alfredo (Robert De Niro), herdeiro de uma rica família de latifundiários. Apesar da amizade desde a infância, a origem social fala mais alto e os coloca em polos política e ideologicamente antagônicos. O pano de fundo é o intenso cenário político da época, com o fortalecimento do fascismo e, em oposição, as lutas trabalhistas ligadas ao socialismo.</p>
<p style="text-align:left;">“Danton” (1983) tem como bacground retratar os últimos meses de Georges Danton, um dos líderes da Revolução classe Francesa. É uma adaptação do polonês The Case Danton por Stanislawa Przybyszewska. Já em “Jean de Florette”(1986), temos a primeira parte de uma história que se passa na zona rural francesa nos anos 1920, onde os Soubeyran propõem a Pique-Bouffige, dono de uma nascente abandonada, vender-lhes a terra, mas este se recusa e sofre um acidente mortal durante a briga que se sucede. Desnecessário dizer que em “1492, Christophe Colombs” ou “1942 Conquest of Paradise” (1992), é um filme que retrata o explorador colonizador, e navegador, nascido na República de Gênova, no noroeste da Itália que sob os auspícios dos reis católicos de Espanha, completou quatro viagens por todo o Oceano Atlântico, que levou a consciência europeia geral do continente americano no hemisfério ocidental.</p>
<p style="text-align:left;">“Green Card” é uma comédia romântica escrita em 1990, mas produzido e dirigido por Peter Weir e estrelado por Gérard Depardieu e Andie MacDowell. Vistos são permissões temporárias enquanto o green card é o único tipo de visto que é permanente (de residência) nos EUA. O roteiro se concentra no estereótipo da mulher norte-americana que entra em um casamento de conveniência com um francês para que ele possa obter um green card e permanecer no Estados Unidos. Em 1992 vive uma história de amor com a top-model Karine Sylla com a qual tem uma filha, Roxane Depardieu. Em 1996 divorcia-se oficialmente da sua esposa Elisabeth e começa uma relação íntima com a atriz Carole Bouquet com quem casa dois anos depois. A sua história com Carole Bouquet dura sete anos. A partir de 2005 ele vive com Clémentine Igou, antiga estudante de literatura da universidade de Harvard, romancista franco-americana de 28 anos e responsável pelo marketing de uma propriedade vinícola do ator na Toscana.</p>
<p style="text-align:left;">Com origens humildes, demograficamente falando, é filho de um operário metalúrgico e fugira de casa aos treze anos de idade.  Após uma juventude delinquente, acaba sendo é encaminhado por uma assistente social para trabalhar no teatro, iniciando-se no grupo <em>Café de la Gare</em>,  36 Avenue de La Gare, 33220 <em>Sainte-Foy-la-Grande</em>, onde conhece Patrick Dewaere e Miou-Miou. Estreia no cinema, ainda adolescente, com a curta-metragem <em>Le beatnik et le minet, </em> que “est un court-métrage de Roger Leenhardt, sorti en 1967”. Depois de atuar em “pequenos” papéis, populariza-se em <em>Os Corações Loucos</em> (1974), uma espécie de “easy rider” em que sem se importar com qualquer convenção estabelecida pela sociedade, dois jovens passam o tempo perambulando pela cidade, molestando mulheres e praticando assaltos, entre outros crimes. Na década de 1980 consolida-se como um dos mais importantes atores franceses. Foram-lhe atribuídas duas vezes o prémio <em>César</em>, que representa o prémio anual do cinema francês e privilegia as produções europeias, apesar de muitos filmes de Hollywood já terem sido premiados. Mas as gerações mais novas associam-no a <em>Obelix</em>, personagem supracitado que desempenhou em dois filmes: <em>Astérix et Obélix Contre César</em> (1999) e <em>Astérix &amp; Obélix: Mission Cléopâtre </em>( 2002).</p>
<p style="text-align:left;">Portanto, a cerimônia de premiação acontece no Teatro do <em>Châtelet</em>, em Paris, e também é conhecida como <em>La Nuit de Césars</em>. Duas categorias são as mais importantes: a de <em>Meilleur Film Français de l&#8217;année</em> e a de <em>Meilleur Film Étranger</em>, pelas suas extraordinárias interpretações em <em>Le dernier métro</em> (1980) e <em>Cyrano</em> (1990). O último valeu-lhe igualmente a nomeação ao Oscar de <em>Melhor Ator Estrangeiro</em>. O seu porte físico favorece igualmente, como no caso do paraibano Jô Soares, seja na interpretação humorística em “Viva o Gordo”, ou em seu programa noturno de entrevistas,  com a sua interpretação do herói dos quadrinhos <em>Obélix em Astérix e Obélix Contra César,</em> adaptação para o cinema da obra de René Goscinny e Albert Uderzo.</p>
<p style="text-align:left;">O filme teve um enorme sucesso de bilheteria na França e de resto no mundo ocidental, tendo sua continuidade em 2002 por <em>Astérix &amp; Obélix: Missão Cleópatra.</em> Uderzo conhece Goscinny em 1951.<em> </em>Assim, Goscinny e Uderzo tornam-se grandes amigos, e decidem trabalhar juntos em 1952, na delegação de Paris da empresa belga <em>World Press</em>. Os seus primeiros trabalhos foram <em>Oumpah-pah</em>, <em>Jehan Pistolet</em> e <em>Luc Junior</em>. <em>Humpá-Pá</em>, no original <em>Oumpah-pah le Peau-Rouge</em> é uma série de banda desenhada criada por Uderzo &amp; Goscinny, mais conhecidos como os criadores de Asterix. A série apareceu pela primeira vez no <em>Le Journal de Tintin</em> a 2 de Abril de 1958. As histórias foram publicadas em forma de livro pela Lombard e pela Dargaud a partir de 1961. Em 1995, a série foi reeditada pela editora de Albert Uderzo, <em>Les Éditions Albert-René</em>.</p>
<p style="text-align:left;">Melhor dizendo, em 1958, as aventuras de <em>Oumpah-pah</em> são adaptadas, e publicadas na revista <em>Tintim</em>, até 1962, já que em 1959, Goscinny torna-se Editor, e Uderzo diretor artístico, da revista de banda desenhada para crianças, <em>Pilote</em>, criada em 29 de outubro. A edição inicial da revista publica, pela primeira vez, <em>Asterix</em>, e é um sucesso em França. Paralelamente, Uderzo também trabalhou com Jean-Michel Charlier, na série <em>Michel Tanguy</em>, mais tarde chamada de <em>As Aventuras de Tanguy e Laverdure</em>, onde as histórias revolvem em torno de dois pilotos, inicialmente da Força Aérea Francesa, mas que são expulsos, e passam a voar missões pouco ortodoxas, muitas vezes para ser questionáveis mesmo.</p>
<p style="text-align:left;">O cinema francês anda mudando muito nestas décadas posteriores ao “Flower Power” que foi um slogan usado pelos hippies dos anos 1960 até o começo dos anos 1970 como um símbolo “da ideologia da não violência e de repúdio à Guerra do Vietnã”. O termo foi utilizado pela primeira vez pelo poeta Allen Ginsberg em 1965. Desde então ele é frequentemente utilizado para se referir aos anos 1960, inclusive em filmes, programas de TV e documentários, etc. E para melhor. Parece que os franceses entenderam que não precisam ser tão profundos o tempo todo, como em <em>Le Dernier Tango à Paris</em> (1972) que é um drama erótico franco-italiano, dirigido por Bernardo Bertolucci e estrelado por Marlon Brando e a então desconhecida, mas maravilhosa, Maria Schneider. Considerado uma obra-prima cinematográfica e um sucesso de bilheteria mundial, a violência sexual e o caos emocional do filme levaram a uma grande polêmica internacional sobre ele, que provocou vários níveis de censura governamental, obviamente conservadora e avessa às mudanças culturais que ao redor do mundo se tinha como sobrevivência.</p>
<p style="text-align:left;">No caso da <em>démarche</em> de Gerad Depardieu, gradualmente tornou-se numa das primeiras figuras do cinema francês, algo inusitado para um ator que “fugia aos cânones definidos para o típico galã”, devido ao seu porte físico. Assim, após ter protagonizado juntamente com Robert de Niro o épico <em>1900</em> (1976), de Bernardo Bertolucci, em que os críticos de cinema Luiz Zanin Oricchio e Antonio Gonçalves Filho de <em>O Estado de S. Paulo</em> admitem que a história da recepção brasileira de <em>1900</em> (cf. <em>Novecento</em>, 1976), é no mínimo curiosa. O filme, concebido com oito horas de duração, chegou mutilado pelos produtores. Além disso, veio em duas partes, que estrearam em épocas diferentes. Havia outro fator contra. Como o Brasil vivia sob a ditadura militar golpista iniciada em 1964 e finda em 1984, a censura incumbiu-se de “picotar ainda mais a obra”. Alguns críticos falam também da baixa qualidade das cópias que os laboratórios entregaram. O baixo nível da maior parte das salas de exibição da época fez o resto do serviço.</p>
<p style="text-align:left;">Mesmo assim, para sermos breves, uma boa parte dos críticos de cinema apontou falhas graves no épico do diretor. Cinema é assim: acusaram-no de “simplismo político e maniqueísmo”. Ou, uma visão superficial, que fazia de camponeses heróis sem mácula e de proprietários, perversos dignos de “Belzebu”. Certo, admitiam a fotografia superlativa de Vittorio Storaro. Viam também qualidades num elenco que incluía Gérard Depardieu, Robert De Niro, Donald Sutherland, Burt Lancaster, Sterling Hayden, Dominique Sanda, Stefania Sandrelli entre outros. Mas nem toda essa galáxia podia salvar a epopeia do desastre. Ou, pelo menos, da relativa decepção que provocou em sua estreia. Portanto, como vemos, Gérard Depardieu liderou alguns dos títulos mais bem sucedidos do cinema francês dos anos 1970 e 1980, como: <em>Barocco</em> (1976), <em>Mon Oncle d` Amérique</em>, 1980), <em>Loulou</em> (1980), <em>Le Dernier Métro</em> (1980), <em>Le Choix des Armes</em> (1981), <em>Danton</em> (1983), <em>Les Compères</em> (1983), <em>Jean de Florette</em> (1986), <em>Sous le Soleil de Satan</em> e <em>Camille Claudel</em>, entre outros, tendo neste caso, surpreendido os cinéfilos com a sua vigorosa recriação de Auguste Rodin.</p>
<p style="text-align:left;">Em 1990, a via da carreira internacional abrira-se finalmente a Depardieu por aquela que unanimemente é reconhecida como “a maior interpretação da sua carreira”, a do poeta espadachim de nariz grande e palavras fluentes em <em>Cyrano de Bergerac</em> (1990). Vale lembrar que <em>Cyrano de Bergerac</em> é uma peça de teatro escrita em 1897, por Edmond Rostand, baseada na vida de Hector Savinien de Cyrano de Bergerac, escritor francês. Portanto, considerado como o grande favorito na <em>Noite dos Oscars</em>, teria vencido o galardão, caso nos dias anteriores não tivessem surgidos nos tabloides americanos sensacionalistas notícias de que Depardieu “teria sido preso por violação na sua juventude”. Ou seja, a revista americana “Star” em sua capa, por exemplo, adora noticiar um suposto escândalo sobre a vida sexual do casal mais famoso de Hollywood: “A verdade sobre o triângulo amoroso de Brad, Angelina e uma modelo da <em>Victoria’s Secret</em>”, por exemplo.</p>
<p style="text-align:left;">A publicação afirma que a modelo tcheca Karolina Kurkova, 23 anos, era o “recheio no bolinho Brad Pitt/Angelina Jolie”, ou “sanduíche de gente” como dizia a cantora Rita Lee. De acordo com a “Star”, uma revista que se tornou popular “como tabloide de supermercado com histórias sensacionalistas”, Kurkova é “volúvel e se comporta como uma garota de colégio” na hora de falar sobre o “<em>ménage à trois</em>” com Pitt e Jolie. Um membro do mundo <em>fashion </em>ligada à modelo desmente essa fofoca. Kurkova teria confidenciado a essa “fonte” que nunca fez sexo a três com o casal e que nem mesmo os conhece. Os boatos sobre o triângulo entre Angelina, Brad e Kurkova não vêm de hoje. Começaram no jornal <em>New York Daily News</em> no começo de abril próximo passado e depois se espalharam pelos tabloides americanos. Até agora, ninguém conseguiu comprovar nada. Este não é o primeiro escândalo sexual que envolve Angelina. A atriz virou notícia quando “a modelo oriental Jenny Shimizu se apresentou como a amante lésbica de Jolie”.</p>
<p style="text-align:left;">Assim sendo, o <em>Oscar para Melhor Ator Principal</em> foi atribuído a Jeremy Irons. A carreira de Depardieu em Hollywood não foi das mais frutíferas, talvez devido às dificuldades do ator em falar fluentemente a língua inglesa, melhor dizendo, na “nação <em>fast food</em>” do cinema, pois é de lá que vem um sanduíche que se tornou um grande sucesso de vendas. Ainda assim, participou em <em>Green Card</em> (<em>Casamento por Conveniência</em>, 1990), recriou Cristóvão Colombo, em <em>1492: Conquest of Paradise</em> (1992), foi Reynaldo, em <em>Hamlet</em> (1996), e quem não quer, lendo Shakespeare, interpretar a existência insuportável desde que o espectro do seu pai recentemente morto apareceu-lhe numa noite assombrada no alto da torre do castelo? E para o que nos interessa é “um envelhecido <strong>Porthos</strong>”, em <em>The Man in the Iron Mask</em> (<em>O Homem da Máscara de Ferro</em>, 1998) onde a ironia da chamada “indústria cultural” faz-nos crer ainda que considerado um fracasso de crítica, o “filme é notável por encerrar um período de seis meses em que Titanic esteve no topo da bilheteria dos Estados Unidos”.</p>
<p style="text-align:left;">Sob sua direção, produziu e interpretou algumas “séries televisivas de luxo” como <em>Le Comte de Monte Cristo</em> (<em>O Conde de 1998</em>), onde fez par romântico com Ornella Muti; <em>Les Misérables</em> (2000), com John Malkovich no papel de Javert, e <em>Napoléon</em> (<em>Napoleão</em>, 2002), com Christian Clavier no papel principal. Protagonizou um dos êxitos comerciais mais recentes do cinema francês: <em>Vidocq </em>(2001). Paris, 1830. Às vésperas de uma segunda revolução, a capital está em rebuliço e o barulho da revolta só cresce. Carlos X acaba de abdicar. Vidocq interpretado por Gérard Depardieu, o chefe da segurança nacional, persegue uma estranha criatura conhecida como <em>O Alquimista</em> ­ a qual se supõe, “é responsável por uma série de crimes e raptos”. Quando finalmente encontra o inimigo Vidocq é vencido e, horrorizado ao descobrir o verdadeiro rosto do Alquimista, joga-se num poço em chamas. Etienne (Guillaume Canet), um jornalista que pretendia escrever um livro sobre Vidocq, passa então a seguir os últimos passos de seu personagem e acaba tendo surpreendentes revelações em sua viagem ao submundo de Paris, ao invés da Paris benjaminiana como “século das Luzes”.</p>
<p style="text-align:left;">Desgraçadamente, <em>mutatis mutandis</em>, o filho do ator Gerard Depardieu morreu em 13 de outubro de 2008, vítima de uma pneumonia fulminante, informou a agência artística <em>Artmedia</em>, que tratam dos assuntos do pai &amp; filho, ambos os atores. Guillaume Depardieu, comediante de 37 anos, foi internado há alguns dias, nos arredores de Paris, em um hospital de Garches. Filho de Gérard e Elisabeth Depardieu e irmão de Julie, que também é atriz, Guillaume acompanhou o pai nos <em>sets </em>de filmagem desde pequeno. Sua carreira no cinema começou com o filme “Todas as Manhãs do Mundo”, de 1991. A produtora Josée Dayan, que trabalhou com o ator e é amiga da família, declarou-se “absolutamente triste” e relembrou a memória do “ator mais talentoso de sua geração”:</p>
<p style="text-align:left;"> <em>“Era um amigo e eu o amava infinitamente. Era um tipo formidável, um imenso ator. Falei com ele por telefone há três dias, ele chegava de uma filmagem na Romênia, falamos de projetos, de filmes por fazer, ele preparava um disco”, disse ela à RTL. “Também penso em sua família. É terrível. Guillaume era como meu irmão mais novo”, acrescentou. “Em 1995, Guillaume foi premiado com um César por sua interpretação no filme Os Aprendizes, de Pierre Salvadori</em>”.</p>
<p style="text-align:left;">No entanto, sua vida também teve momentos difíceis. Ele sofreu um grave acidente de carro que gerou uma infecção hospitalar e fez com que tivesse de amputar a perna do joelho para baixo, em 2003. O artista criou a fundação “Guillaume Depardieu” para ajudar as vítimas de infecções contraídas dentro de hospitais. Depardieu, conhecido por seu talento e pelas disputas judiciais, publicou em 2003 um livro intitulado “Todo dado”, no qual conta sua vida em entrevistas a Marc-Olivier Fogiel.</p>
<p style="text-align:left;"><em>Last but not least</em> o filme <em>O Germinal</em> (1993), é um “soco no estômago”, expressão que é utilizada quando alguma obra de arte nos causa “choque e horror”, mas aqui fora do sentido de um Alfred Hitchcock ou Ingmar Bergman. Produzido em 1993, o filme é baseado no romance francês Germinal, de Émile Édouard Charles Antoine Zola, de 1881. Num cenário de extrema miséria econômica e degradação humana, ou a chamada “<em>the degradation of work</em>” (cf. Braverman, 1976; 1977) a obra relata a realidade dos operários franceses nas minas de carvão, no final do século XIX. Com 550 metros de profundidade a mina <em>Voreux</em> era formada por diferentes andares. Lá, a exploração do trabalho era continua.</p>
<p style="text-align:left;">A chegada de <em>monsieur</em> Etienne, interpretado magistralmente por Gerard Depardieu, um “novo operário”, promove importantes mudanças no cenário nas minas de carvão. O mineiro recém-chegado se espanta com a precariedade, ou, <em>precarização</em>, para utilizarmos expressão recente sobre as condições de trabalho e incentiva os operários a prepararem uma greve. Juntos eles percorrem as minas da região, chamando outros trabalhadores a juntarem-se ao movimento. A greve se alastra por toda a região. Porém, a Companhia ameaça fazer demissões e a fome dos trabalhadores aperta. Alguns querem voltar ao trabalho, e outros decidem continuar a greve nem que para isso tenham que dar a vida.</p>
<p style="text-align:left;">Tudo em vão, Etienne é expulso da vila, por ser o culpado de inculcar nos trabalhadores ideias de revoluções e esperanças. Os mineiros retornam quietos ao trabalho. O <em>Germinal </em>nos demonstra as relações de exploração entre capitalistas e operários e a maturação do movimento sindical. Na França, na época da Revolução Industrial, em respostas as inúmeras formas de explorações, os operários buscaram se reunir politicamente para manifestar sua revolta e buscar seus interesses. Para tanto, era necessário juntar forças tanto no sentido social como de organização política.</p>
<p style="text-align:left;">Enfim, quando Chabrol despontou com “Nas Garras do Vício” a revista <em>Cahiers du Cinéma</em> comparou o estreante ao grande mestre Alfred Hitchcock: “que importa se não conseguimos abrir todas as portas? O importante é nos deixarmos conduzir por ele pelos caminhos do sonho”. Se em diversos filmes de Claude Chabrol o mistério residia em algum movimento da <em>mise en scène</em>, hoje entendido como “um plano sequência”, geralmente, que elucida mais do que vemos: um interesse oculto, em <em>Nas Garras do Vício</em> o mistério é o de corpo presente. Enfim, desde o início, Chabrol estrutura o retorno à pergunta e ao desejo de se saber o que houve com Serge. Logo, temos este mistério à carne dos olhos e que, por isso mesmo, ao ser descoberto, deixa de ser um mistério maior para dar lugar à verdadeira <em>jornada do filme</em>: aquela que diz respeito ao personagem de Jean-Claude Brialy, François, que retorna à cidade como um estranho, como alguém que, de certo modo, jamais poderá fazer parte de todos os movimentos que não pôde captar em sua ausência. É um mundo que se fecha e que, nem com o nascimento de um filho, ao final, se resolve e se conserta. O rosto de Serge, sendo desfocado por Chabrol, é a prova desse (des) <em>ajuste</em>, ou, um milagre ao contrário.</p>
<p>Bibliografia e <em>filmografia</em> geral consultada:</p>
<p>BRAGA, Ubiracy de Souza, “Fabulas de Solidariedade: Neruda, Kurosawa e Hitchcok”. In: <a href="http://www.dapraianet.blogspot.com/">www.dapraianet.blogspot.com</a>. Max Krichanã Editor, 4 de fevereiro de 2008; Idem, “O Maravilhoso (e misterioso) em Krzystof Kieślowski”. Disponível em: <a href="http://cienciasocialceará.blogspot.com/2011/06">http://cienciasocialceará.blogspot.com/2011/06</a>; Idem, “Marx e a Análise Política da Formação da <em>classe média</em> na Europa”. In: <a href="http://www.oreconcavo.com.br/2011/07/03">http://www.oreconcavo.com.br/2011/07/03</a>; ABEL, T., “La operación llamada <em>Verstehen</em>”. In: HOROWITZ, I. L, <em>Historia y elementos de la sociologia del conocimiento. </em>Buenos Aires: Eudeba, 1964. Sobre “Gérard Depardieu” consulte: <em>Infopédia</em>. Porto: Porto Editora, 2003-2011. Disponível em: <a href="http://www.infopedia.pt/gerard-depardieu">http://www.infopedia.pt/gerard-depardieu</a>; BRAUDEL, Fernand, “Histoire et sciences sociales: la longue durée”. In: <em>Annales </em>(Économies, Societés, Civilisations), vol. 13, n° 4, 1958; BRAVERMAN, Harry, <em>Travail et capitalisme monopoliste. </em><em>La dégradation du travail au XXe siècle.</em> Paris: François Maspero, 1976; Idem, <em>Trabalho e Capital Monopolista. A Degradação do Trabalho no Século XX.</em> Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977; Filmes: Andrej Wadja, <em>Danton – O Processo da Revolução</em> (<em>Danton</em>, FRA, 1982); Krzystof Kieslovski, <em>A Liberdade é Azul</em> (<em>Trois Couleurs: Bleu</em>, FRA/POL, 1993); Idem, <em>A Igualdade é Branca</em> (<em>Trois Couleurs: Blanc</em>, FRA/POL, 1994); Idem, <em>A Fraternidade é Vermelha </em>(<em>Trois Couleurs: Rouge</em>, FRA/POL/SUI, 1994); Idem, <em>A Dupla Vida de Veronique </em>(<em>La Double Vie de Véronique</em>, POL/FRAN/NOR, 1991); BARILE, G., “Le due anime del concettualle”. In: <em>Tra presenza e assenza – due ipotesi per l`età postmoderna</em>. Milão: Studi Bompiani, 1981; AUGÉ, Marc, <em>Pour une anthropologie des mondes contemporains.</em> Paris: Aubier, 1994, entre outros.</p>
<p style="text-align:left;">*Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor <em>Associado</em> da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).</p>
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		<title>Por Que Escrevo?*</title>
		<link>http://secundo.wordpress.com/2011/04/29/por-que-escrevo/</link>
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		<pubDate>Fri, 29 Apr 2011 13:34:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ Antônio Ozaí da Silva** Há os que escrevem livros que os imortalizam; outros escrevem diários que são esquecidos, como as memórias olvidadas no recôndito da consciência. Alguns escrevem por prazer, outros pela obrigação curricular – a pressão do Curriculum Lattes! &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2011/04/29/por-que-escrevo/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=120&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"> Antônio Ozaí da Silva**</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Há os que escrevem livros que os imortalizam; outros escrevem diários que são esquecidos, como as memórias olvidadas no recôndito da consciência. Alguns escrevem por prazer, outros pela obrigação curricular – a pressão do <em>Curriculum Lattes</em>! Uns se dirigem aos leitores imaginários, outros querem apenas aumentar a <em>folha corrida</em>. Não faço julgamento moral, pois somos pressionados pela competição e a ideologia produtivista. Mas não é preciso agir à maneira <em>faustiana </em>dos que vendem a alma pelas conquistas materiais e títulos que não os acompanharão ao fim inexorável.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Há os escritores elitistas que se imaginam gênios em suas torres de marfim; pensam encarnar a verdade e o mundo se reduz ao próprio umbigo. Escrevem como se a realidade, o mundo material, não existisse, mas apenas os conceitos, as categorias universais, o mundo do intelecto. Outros evitam escrever artigos, pois os consideram efêmeros e supõem que os livros eternizam.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Há, ainda, os <em>maquiavéis</em> modernos que escrevem como conselheiros do <em>príncipe</em> de plantão, na ilusão de que este, ou quem sabe os seus assessores mais próximos, o leiam. Alguns escrevem palavras que anunciam utopias; discursos, muitas vezes, encharcados de um dogmatismo intolerante, próprio dos que querem salvar o mundo e as almas, não importa qual o meio. Almejam transformar o mundo, mas são prisioneiros dos dogmas.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Para mim, escrever é um estímulo à leitura e à dúvida permanente; é um momento para organizar o pensamento e dialogar com os autores que leio. Ler e escrever são recompensadores pela descoberta incessante de que as certezas não são eternas e que as incertezas alimentam a mente, na medida em que nos inspira a percorrer outros caminhos, a perguntar-se e buscar respostas que geram outras dúvidas e assim por diante… Escrever é também se expor, arriscar-se.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Como afirmei em outro momento<a title="" href="http://secundo.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftn1">[1]</a>, escrever é conversar consigo mesmo e com os outros; é organizar idéias e abrir a mente ao diálogo com o “feito”, o “falado” e o que os olhos e os ouvidos nos transmitem. Devemos estar abertos a aprender com a própria experiência. Escrever sobre o que lemos, ouvimos e vivemos, é também uma forma de aprofundar este aprendizado. Esta disposição ao diálogo, a aprender com o mundo e os que vivem no mundo, é fundamental a quem se propõe a ensinar. O educador precisa ser educado e este processo é permanente.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Confesso, porém, que me alegra saber que há leitores interessados no que escrevo. E sempre vale a pena, ainda que sejam poucos. Não espero a imortalidade através da escrita, mas me sinto bem ao saber que o meu esforço para ler e escrever pode contribuir para despertar o interesse deste ou daquele jovem estudante, das minhas filhas e de muitos que conheço apenas por email. E, no final das contas, a imortalidade é uma ilusão, já que, de qualquer forma, estarei morto.</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Não escrevo com a pretensão de transformar o mundo através das palavras; estas só são eficazes quando materializadas em força política – e não milito em partidos nem me sinto na obrigação de reverenciar grupos políticos. Não pretendo <em>fazer a cabeça</em> de ninguém. É suficiente que a leitura e a escrita me transforme. Então, poderei aprender a ser melhor enquanto indivíduo que atua na sociedade, como pai, professor, etc. Se me aperfeiçôo ao ler e escrever, isto também influencia o cotidiano e o meu modo de ser e viver. Assim posso contribuir mais e melhor com os que convivo. E isso também me ensina que sempre há algo a aprender com eles…</p>
<p style="text-align:left;" align="right">Assumo, por fim, que sou apaixonado pelas palavras. E estas não são neutras, estão carregados de sentidos políticos. Talvez este seja o mistério que envolve escritor e leitor. Só me resta agradecer a você por dedicar o seu precioso tempo a ler este blog.</p>
<p>*Este texto foi originalmente postado no <em>Blog do Ozaí</em> em 31/07/2010. Conferir:</p>
<p style="text-align:left;" align="right"><a href="http://antoniozai.wordpress.com/2010/07/31/por-que-escrevo/">http://antoniozai.wordpress.com/2010/07/31/por-que-escrevo/</a></p>
<p style="text-align:left;" align="right">**Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da <a href="http://www.espacoacademico.com.br/">Revista Espaço Acadêmico</a>, <a href="http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Urutagua">Revista Urutágua</a> e <a href="http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci">Acta Scientiarum. Human and Social Sciences</a> e autor de <em>Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária</em> (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).</p>
<div></p>
<hr align="left" size="1" width="33%" />
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<p><a title="" href="http://secundo.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref1">[1]</a> Ver <a href="http://antoniozai.wordpress.com/2007/05/27/por-que-um-blog/"><em>Por que um Blog?</em></a>, disponível em <a href="http://antoniozai.wordpress.com/2007/05/27/por-que-um-blog/">http://antoniozai.wordpress.com/2007/05/27/por-que-um-blog/</a></p>
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		<item>
		<title>Educar contra a barbárie*</title>
		<link>http://secundo.wordpress.com/2011/02/26/educar-contra-a-barbarie/</link>
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		<pubDate>Sat, 26 Feb 2011 18:05:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Antonio Ozaí da Silva** Você que nasceu nos anos 1960 sabe onde fica Auschwitz? Sabe o que aconteceu? E a geração dos anos 1980, será que aprendeu o significado de Auschwitz? Sabemos cultivar nas mentes e corações dos jovens a &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2011/02/26/educar-contra-a-barbarie/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=116&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;">Antonio Ozaí da Silva**</p>
<p style="text-align:left;">Você que nasceu nos anos 1960 sabe onde fica Auschwitz? Sabe o que aconteceu? E a geração dos anos 1980, será que aprendeu o significado de Auschwitz? Sabemos cultivar nas mentes e corações dos jovens a indignação diante da barbárie em Auschwitz e outros campos de concentração nazistas?</p>
<p style="text-align:left;">Nossa responsabilidade como educadores é enorme. A realidade que nos cerca expressa a barbárie e está prenhe de fatores que apontam para o risco da regressão. O mundo globalizado impele as pessoas em direção ao xenofobismo, à intolerância diante do outro, à idéia de que há uma inevitabilidade histórica, ao consumismo e ao individualismo desenfreado. Naturalizam-se as mazelas e misérias da condição humana, em nome de um determinismo amparado num viés tecnicista e nas necessidades da concorrência internacional, isto é, da predominância do mercado.</p>
<p style="text-align:left;">Prevalece a mesmice entediante e anestesiante. Espaços onde deveria frutificar a reflexão crítica mais parecem “cemitérios de vivos”. A crítica deu lugar ao comodismo e ao servilismo. Os poderosos de plantão decretaram que não existe alternativa e muitos acataram. Os problemas sociais que afligem enormes parcelas da humanidade, excluídas da mais elementar cidadania, parecem inevitáveis ou castigo. A condição humana continua a ser aviltada em situações que antes horrorizavam os bem-pensantes membros da classe média intelectualizada.</p>
<p style="text-align:left;">Enquanto isso nos voltamos para o nosso mundinho, para o nosso umbigo; para as veleidades da ambição acadêmica. Vaidosos, ostentamos nossos títulos acadêmicos como prova de pretensa superioridade intelectual. Títulos que nada provam. Mesquinhos, alimentamos nosso ego com o quinhão do poder burocrático. Em nossa arrogância, fetichizamos a técnica e o conhecimento sem atentarmos para o fato de que seu domínio pelo nazismo significou a supressão da humanidade. Como compreender que foram precisamente os cientistas, isto é, pessoas tituladas e diplomadas, que projetaram o sistema de morte que vitimizou milhões com rapidez e eficiência?</p>
<p style="text-align:left;">Donos da verdade, damos ouvidos às conversas de corredores, formalizamos a informalidade das relações em memorandos, protocolandos, etc. Transformamos o trivial e o ridículo em batalhas políticas – ainda que coloquemos em risco a sobrevivência econômica dos nossos colegas de trabalho. Substituímos a mais elementar solidariedade pela autofagia e pelo individualismo exacerbado.</p>
<p style="text-align:left;">Em nome da eficiência quantificamos tudo. Assim, repetimos outro procedimento presente em Auschwitz: a coisificação das relações humanas. A partir do momento em que não nos indignamos diante da realidade social, que aceitamos como naturais determinados fenômenos sociais, acabamos por admitir que parcelas de seres humanos são descartáveis. Longe de pura abstração filosófica, este fenômeno está presente em nosso cotidiano nas questões que nos parecem mais banais. Numa realidade onde a vida humana pouco vale, a tendência é a crescente banalização do mal.</p>
<p style="text-align:left;">Como educadores, temos responsabilidade social. Ao invés de nos perdemos em discussões intermináveis e estéreis; de nos afogarmos em nossa própria vaidade; de gastarmos nosso precioso tempo na mesquinhez do emaranhado burocrático e na luta pelo poder de controlar os meios de prejudicar o outro; de nos desgastarmos em picuinhas e academicismos; eduquemos no sentido da auto-reflexão crítica e nos dediquemos à tarefa de esclarecer, para que se produza um clima intelectual, cultural e social que não permita a repetição de Auschwitz. O primeiro passo é repensarmos nossas práticas como educadores e nos indignarmos com tudo que nos lembre Auschwitz …</p>
<p style="text-align:left;">*Este texto foi originalmente postado no <em>Blog do Ozaí</em> em 15/01/2011. Conferir: <a href="http://antoniozai.wordpress.com/2011/01/15/educar-contra-a-barbarie/">http://antoniozai.wordpress.com/2011/01/15/educar-contra-a-barbarie/</a></p>
<p style="text-align:left;">**Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da <a href="http://www.espacoacademico.com.br/">Revista Espaço Acadêmico</a>, <a href="http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Urutagua">Revista Urutágua</a> e <a href="http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci">Acta Scientiarum. Human and Social Sciences</a> e autor de <em>Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária</em> (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).</p>
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		<title>Corpolatria: patologia da modernidade?</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Jan 2011 00:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Ubiracy de Souza Braga*                                                  Dedico este artigo a Veridiana Amaral Em primeiro lugar, a palavra corpo (köper), de origem latina, designava originalmente o mesmo que “coisa” e é empregada para designar os objetos distinguíveis, demonstráveis e por isso perceptível pelos &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2011/01/30/corpolatria-patologia-da-modernidade/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=112&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;">Ubiracy de Souza Braga<a href="http://secundo.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftn1">*</a></p>
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<p>                                                 Dedico este artigo a Veridiana Amaral</p>
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<div>Em primeiro lugar, a palavra <em>corpo</em> (<em>köper</em>), de origem latina, designava originalmente o mesmo que “coisa” e é empregada para designar os objetos distinguíveis, demonstráveis e por isso perceptível pelos sentidos em nosso mundo da vida. Historicamente falando, por extensão, “corpolatria” é o culto exagerado do corpo, desconfiança face aos prazeres, insistência sobre os efeitos de seu abuso para o corpo e para a alma, valorização do casamento e das obrigações conjugais, desafeição em relação às significações espirituais atribuídas ao amor pelos rapazes.</div>
<div>Existe no pensamento dos filósofos e dos médicos, no decorrer dos dois primeiros séculos, de acordo com Foucault (1985: 45 e ss), toda uma severidade da qual testemunham os textos de Soranus e de Rufo de Éfeso, de Musonius ou de Sêneca, de Plutarco assim como de Epicteto ou de Marco Aurélio. Aliás, constitui um fato os autores cristãos tomarem, dessa moral, empréstimos maciços – explícitos ou não; e a maior parte dos historiadores atuais concorda em reconhecer a existência, o vigor e o reforço desses temas de austeridade corporal numa sociedade na qual os contemporâneos descreviam, frequentemente para reprova-los, a imoralidade e os costumes dissolutos.</div>
<div>Sustentamos a tese segundo a qual a corpolatria é uma espécie de “patologia da modernidade”. Ela é caracterizada pela preocupação e cuidado extremos com o próprio corpo, não exatamente no sentido da saúde ou presumida falta dela, como no caso da hipocondria, mas particularmente no sentido narcisístico de sua aparência ou embelezamento físico. Para o corpólatra, a própria imagem refletida no espelho se torna obsedante, incapaz de satisfazer-se com ela, sempre achando que pode e deve aperfeiçoá-la. Sendo assim, a corpolatria se manifesta como exagero no recurso às cirurgias plásticas, gastos excessivos com roupas e tratamentos estéticos, abuso do fisiculturismo, entendido como musculação, uso de anabolizantes, etc.</div>
<div>
Do ponto de vista materialista a corpolatria, como fenômeno psico-social, aparentemente está relacionada com as mudanças no campo do trabalho produtivo ocorridas no final do século XX, a saber, desde que a distinção entre produção e reprodução social perdeu nitidez, confundindo-se o tempo vital com o tempo de trabalho. Desde então, em muitas profissões e ocupações a aparência corporal e o vigor físico passaram a ser uma espécie de segunda força produtiva ao lado da força de trabalho propriamente dita, com o “tempo livre” (cf. Lafargue, 1911; Lafargue, 1983) tendendo a se tornar um segundo turno do trabalho produtivo. Como fenômeno patológico de saúde coletiva, a corpolatria tende a se agravar tanto mais encontre não só um amplo mercado de produtos e serviços voltados para o culto ao corpo como também seja propalada como uma espécie de emancipação ou de libertação pessoal dos “determinantes repressivos da produção capitalista” (cf. Dejours, 1988).</div>
<div>Do ponto de vista estético o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) já dizia, há mais de um século, que somente as pessoas superficiais não julgam pela aparência. Criado numa família protestante estudou na <em>Port Royal School</em> de Enniskillen e no <em>Trinity College</em> de Dublin, sobressaiu-se como latinista e helenista. Ganhou depois uma bolsa de estudos para o <em>Magdalen College </em>de Oxford. Célebre por suas tiradas sarcásticas e irônicas – muitas, porém, dotadas de uma boa dose de verdade incômoda. Melhor dizendo, para Oscar Wilde, quem tem um mínimo de cultura, alma e inteligência, sabe que o belo chama mais a atenção do que o feio e, portanto, em princípio, é mais importante. Contudo, a segunda tese diz respeito ao fato de que <em>a beleza nunca foi tão importante quanto agora</em>. Basta dar uma “espiadinha”, como convida todas as noites o jornalista Pedro Bial, “na casa mais falada do Brasil” (sic): tirando um ou outro menos abençoado, a maioria dos participantes do “Big Brother Brasil 1-11” e, podemos combinar, todas as edições anteriores têm músculos ou curvas de tirar o fôlego, cabelos cuidados, pele bem tratada.</div>
<div>Embora o ano de 2010 tenha sido marcado, como é sabido, por um movimento “pró-beleza natural”, com revistas estampando atrizes sem <em>photoshop </em>e modelos “plus size”, as mulheres ainda desejam ser magras e continuam a buscar a uma aparência perfeita. Para a psicanalista carioca Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do <em>Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social </em>(LIPIS) da PUC-Rio, antes de fazer qualquer crítica ao culto extremado ao corpo e à vaidade, é preciso contextualizar a “corpolatria”, pois para ela, “vivemos um momento histórico sem utopias ou ideais. A sociedade não luta por causas sociais, por um bem comum, daí o narcisismo”.</div>
<div>Homens e mulheres enxergam o próprio corpo como seu maior bem, como um projeto a ser sempre aperfeiçoado. Além disso, Joana é pós-doutoranda em Clínica Médica (UERJ), pós-doutora em Psicologia Social (UERJ), doutora em Psicologia Clínica (PUC-Rio). Pesquisadora correspondente do <em>Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine</em> -Université Denis-Diderot Paris 7 CRPM-Pandora, autora dos livros <em>O intolerável peso da feiúra. Sobre as mulheres e seus corpos</em>. Ed. PUC/Garamond (2006) e <em>Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares</em>. Ed. PUC/Pallas (2010). Especialista em Transtornos Alimentares, é consultora de campanhas publicitárias ligadas à estética e à saúde feminina.</div>
<div>Para Joana Vilhena Novaes, é impossível desprezar, ainda, a importância econômica deste setor, o da beleza, que movimenta bilhões de reais – leia-se: <strong>spas</strong>, academias de ginásticas, clínicas de estética, cirurgias plásticas, cosméticos, salões etc. Há quem analise a “corpolatria” como uma forma de repressão, mas houve outros períodos históricos que também “satanizaram” o corpo, como na época vitoriana, quando a sexualidade era reprimida ao extremo. Mas convém colocar uma questão mais geral a propósito desse “individualismo” ou “individuação” que se invoca tão frequentemente para explicar, em épocas diferentes, fenômenos bem diversos.</div>
<div>Sob tal categoria misturam-se, frequentemente realidades completamente diferentes. De fato, convém distinguir três aspectos: a) a <em>atitude individualista</em>, caracterizada pelo valor absoluto que se atribui ao indivíduo em sua singularidade e pelo grau de independência que lhe é atribuído em relação ao grupo ao qual ele pertence ou às instituições das quais ele depende; b) a <em>valorização da vida privada</em>, ou seja, a importância reconhecida às relações familiares, às formas de atividade doméstica e ao campo de interesses patrimoniais; e, c) finalmente, <em>a intensidade das relações consigo</em>, isto é, das formas nas quais se é “chamado a tomar a si próprio como objeto de conhecimento e campo de ação para transformar-se, corrigir-se, purificar-se e promover a própria salvação”.</div>
<div>É claro que estas atitudes podem estar ligadas entre si; assim, pode ocorrer de o individualismo exigir a intensificação dos valores da vida privada; ou ainda, que a importância atribuída às relações <em>consigo</em> seja associada à exaltação da singularidade individual. Mas esses vínculos não são constantes nem necessários. Encontrar-se-ão sociedades ou grupos sociais – nos quais o indivíduo é chamado a se afirmar em seu próprio valor, através das ações que o singularizam e que lhe permite prevalecer sobre os outros sem que se tenha que atribuir uma grande importância à sua vida privada ou às relações de si para consigo. Há também sociedades nas quais a <em>vida privada</em> é dotada de grande valor, onde é cuidadosamente protegida e organizada, onde constitui o centro de referência das condutas e um dos princípios de sua valorização – é, ao que parece, o caso das classes burguesas nos países ocidentais no século XIX; mas por isso mesmo, nelas o individualismo é fraco e as relações de si para consigo não são desenvolvidas.</div>
<div>Finalmente, há sociedades ou grupos nos quais a <em>relação consigo</em> é intensificada e desenvolvida sem que por isso, e de modo necessário, os valores do individualismo ou da vida privada encontrem-se reforçados; o movimento ascético cristão dos primeiros séculos apresentou-se como uma acentuação extremamente forte de relações para consigo, mas sob a forma de uma desqualificação dos valores da vida privada; e, ao tomar a forma do cenobitismo, manifestou uma recusa explícita daquilo que podia haver de individualismo na prática da anacorese. As exigências de austeridade sexual que foram expressas na época imperial não parecem ter sido a manifestação de um individualismo crescente. Seu contexto é antes de tudo caracterizado por um fenômeno de um bem longo alcance histórico mas que conheceu nesse momento seu apogeu, segundo Foucault, o desenvolvimento daquilo que se poderia chamar uma “cultura de si”, na qual foram intensificadas e valorizadas as relações “de si para consigo”.</div>
<div>Pode-se caracterizar brevemente essa “cultura de si” pelo fato de que a arte da existência – a <em>techne tou biou</em> sob as suas diferentes formas – nela se encontra dominada pelo princípio segundo o qual é preciso “ter cuidados consigo”; é esse princípio do cuidado de si que fundamenta a sua necessidade, comanda o seu desenvolvimento e organiza a sua prática. Mas é necessário precisar; a ideia segundo a qual deve-se aplicar a si próprio, ocupar-se consigo mesmo (<em>heautou epimeleisthai</em>), é, de fato, um tema bem antigo na cultura grega. Ele apareceu bem cedo como um imperativo amplamente difundido. Ora, trata-se de <em>epimelia</em> quando se fala para designar as atividades do dono-de-casa, as tarefas do príncipe que vela por seus súditos, os cuidados que se deve ter para com um doente ou para com um ferido, ou ainda as obrigações que se prestam aos deuses ou aos mortos. Igualmente, em relação a si mesmo, a <em>epimelia</em> implica um labor.</div>
<div>Enfim, o filósofo Michel Foucault deixou inscrito uma das mais belas profecias sobre o “cuidado de si”. Uma ética política sobre a história da sexualidade, incluída a morte. A problemática da <em>governamentalidade</em> fora retomada no “resumo dos cursos do College de France” (1970-1984): “gostaria de me insinuar sub-repticiamente no discurso que devo pronunciar hoje, e nos que deverei pronunciar aqui, talvez durante dez anos” e, para o que nos interessa, curso do Collège de France, <em>1 de fevereiro de 1978</em>, onde afirma: “governar um Estado significará portanto estabelecer a economia ao nível geral do Estado, isto é, ter em relação aos habitantes, às riquezas, aos comportamentos individuais e coletivos, uma forma de vigilância, de controle tão atenta quanto a do pai de família” (Foucault, 1984a: 281).</div>
<div>Veio a falecer em 25 de junho de 1984, “quando seu estado de saúde não mais lhe permitia prepará-los”. Salvo engano, nenhum sistema de pensamento em tão pouco tempo, obteve repercussão tão ampla e evidente, do ponto de vista da mudança de simbólica, a partir de temas como: a crítica da razão governamental, a analítica do poder, sobre as relações “espaço-tempo” e “poder-saber”, “estética da existência” e “experimento moral”, e mesmo entre o “império do olhar” e a “arte de ver”. É impossível esquecer a tese segundo a qual “a visibilidade é uma armadilha” numa sociedade que “canceriza” a vista a través do poder disciplinar. O estudo dedicado ao “cuidado de si” teve como referência Alcibíades, retratado pelo pintor Pedro Américo em 1865. Nele, as questões dizem respeito ao “cuidado de si” com a política, com a pedagogia e com o conhecimento de si. Sócrates recomendava a Alcibíades que aproveitasse a sua juventude para ocupar-se de si mesmo, pois, “com 50 anos, seria tarde demais”.</div>
<div>Mas sem temor a erro é totalmente num outro sentido que a expressão é utilizada no <em>Alcebíades,</em> onde constitui um tema essencial do diálogo: Sócrates mostra ao jovem ambicioso que é muito presunçoso de sua parte querer tomar a seu encargo a cidade, dar-lhe conselhos e entrar em rivalidade com os reis de Esparta ou com os soberanos da Pérsia se não aprendeu anteriormente aquilo que é necessário saber para governar: deve, “primeiro, ocupar-se de si próprio – e logo, enquanto é ainda jovem, pois com “cinquenta anos será demasiado tarde”. E na <em>Apologia </em>é enquanto mestre do cuidado de si que Sócrates se apresenta a seus juízes: o deus mandatou-o para lembrar aos homens que eles devem cuidar, não de suas riquezas, nem de sua honra, mas deles próprios e de sua própria alma” (Foucault, 1985: 50).</div>
<div>Mas que os filósofos recomendem cuidar-se de si não quer dizer que esse zelo esteja reservado para aqueles que escolhem uma vida semelhante à deles; ou que tal atitude só seja indispensável durante o tempo que se passe junto a eles. É um princípio válido para todos, ou seja, todo o tempo e durante toda a vida. <em>Ipso facto</em>, não há idade para se ocupar consigo, pois como afirma Epicuro, nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para ocupar-se com a própria alma. De sorte que devem filosofar o jovem e o velho, este para que, ao envelhecer, seja jovem em bens pela gratidão ao que foi, e o outro para que, jovem, seja ao mesmo tempo ancião pela ausência de temor pelo futuro. Aprender a <em>viver a vida inteira</em> era um aforismo citado por Sêneca e que convida a transformar a existência numa espécie de <em>exercício permanente</em>; e mesmo que seja bom começar cedo, é importante jamais relaxar.</div>
<div>Isto porque este tempo não é vazio: ele é povoado por exercícios, por tarefas práticas, atividades diversas. Ocupar-se de si não é uma sinecura. Existem os cuidados, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, das necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a rememoração das verdades que já se sabe, mas de que convém apropriar-se ainda melhor. Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo: ela não constitui um exercício de solidão, mas sim uma verdadeira prática social no sentido sociológico do termo. E isso em vários sentidos. Na verdade, ela frequentemente tomou forma em estruturas mais ou menos institucionalizadas. Mas toda essa aplicação a si não possuía como único suporte social a existência das escolas, do ensino e dos profissionais da direção da alma; ela encontrava, facilmente, seu apoio em todo o feixe de relações habituais de parentesco, de amizade ou de obrigação. Quando, no exercício do cuidado de si, faz-se apelo a um outro, o qual adivinha-se que possui a aptidão para dirigir e para aconselhar, faz-se uso de um direito; e é um dever que se realiza quando se proporciona ajuda a um outro ou quando se recebe com gratidão as lições que ele pode dar.</div>
<div>Acontece também do jogo entre os cuidados de si e a ajuda do outro inserir-se em relações preexistentes às quais ele dá uma nova coloração e um calor maior. O cuidado de si – ou os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos – aparece como a intensificação das relações sociais. O cuidado de si aparece, portanto, intrinsecamente ligado a um “serviço da alma” que comporta a possibilidade de um jogo de trocas com o outro e de um sistema de obrigações recíprocas. Historicamente, repetimos, advém da tradição que remonta a muito longe na cultura grega, onde o cuidado de si está em correlação estreita com o pensamento e a prática médica. Essa correlação antiga ampliou-se cada vez mais ao ponto de filosofia e medicina lidam com “um único e mesmo campo” (<em>mia chora</em>). Daí que toda uma série de metáforas médicas é utilizada regularmente, como é sabido, para designar as operações necessárias para os cuidados da alma: usar o escalpelo na ferida, abrir um abcesso, amputar, evacuar as superfluidades, dar medicações, prescrever porções amargas, calmantes ou tonificantes.</div>
<div>Enfim, a melhoria, o aperfeiçoamento da alma que se busca na filosofia, a <em>paideia</em> que esta deve assegurar, é tingida cada vez mais com as cores médicas. Formar-se e cuidar-se são atividades solidárias. O corpo com o qual o adulto tem que se ocupar quando cuida dele mesmo, não é mais o corpo jovem que se tratava de formar pela ginástica; é um corpo frágil, ameaçado, minado de pequenas misérias e que, em troca, ameaça a alma menos por suas exigências demasiado vigorosas do que por suas próprias fraquezas. A <em>conversio ad se</em> é também uma trajetória, uma trajetória graças à qual, escapando de todas as dependências e de todas as sujeições, acaba-se por voltar-se a si mesmo, como um porto abrigado das tempestades ou como uma cidadela protegida por suas muralhas.</div>
<div>Quanto à definição do trabalho que é preciso realizar sobre si mesmo, ela também sofre, através da cultura de si, certa modificação: através dos exercícios de abstinência e de domínio que constituem a <em>askesis</em> necessária, o lugar atribuído ao conhecimento de si torna-se mais importante: a tarefa de se por à prova, de se examinar, de controlar-se numa série de exercícios bem definidos, coloca a questão da verdade – <em>da verdade do que se é, do que se faz e do que se é capaz de fazer</em> – no cerne da constituição do sujeito moral. E finalmente, para sermos breves, o ponto de chegada dessa elaboração é ainda e sempre definido pela soberania do indivíduo sobre si mesmo; mas essa soberania amplia-se numa experiência onde “a relação consigo” assume a forma, não somente de uma dominação, mas de um gozo sem desejo e sem perturbação. Convém, entretanto, compreender em que contexto e por quais razões a cultura de si desenvolveu-se desse modo e precisamente sob essa forma que, situando a questão do poder e não sendo o mais velho desafio formulado pelas análises de Foucault, simplificadamente, acabamos de ver.</div>
<div>Bibliografia Geral Consultada</div>
<div>LAFARGUE, Paul, “Testamento Político de Lafargue”. In: <strong>Le Socialiste</strong>, 3.10.1911; Idem, <em>O Direito à Preguiça</em>. São Paulo: Kairós, 1983; Dejours, Christophe, <em>A Loucura do Trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho</em>. São Paulo: Cortez, 1988; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Prolegômenos sobre o “cuidado de si”, de Michel Foucault”. In: Jornal <em>O Povo</em>. Fortaleza, 23 de dezembro de 2006; Idem, “Prolegomenos sobre o ´cuidado de si`, de Michel Foucault”. Disponível em: http://secundo netoblogspot.com/2008/03; NIETZSCHE, Friedrich, <em>Crepúsculo dos ídolos, ou, Como se filosofa com o martelo</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2006; Idem, <em>A Vontade de Poder</em>. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008; FOUCAULT, Michel, <em>Arqueologia do Saber</em>. Petrópolis (RJ): Vozes, 1971; Idem, <em>El Orden del Discurso</em>. Barcelona: Tusquets, 1973; Idem, <em>História da Sexualidade</em>. Rio de Janeiro: Graal, 1977, 3 volumes; Idem, <em>A verdade e as formas jurídicas</em>. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 1979; Idem, “Genealogia e Poder”, pp. 167 e ss; “A Governamentalidade”, pp. 277 e ss). In: <em>Microfísica do Poder</em>. 4a edição. Rio de Janeiro: Graal, 1984a; Idem, “Deux essais sur le sujet et le pouvoir”. In: DREYFUS, Hubert e RABINOW, Paul. <em>Michel Foucault, Un parcous philosophique</em>. Paris: Gallimard, 1984b; Idem, <em>A Arqueologia do Saber</em>. 2a edição. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1986; Idem, <em>Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão</em>. Petrópolis (RJ): Vozes, 1987a; Idem, <em>Hermeneutica del Sujeto</em>. Madrid: Ediciones de la Piqueta, 1987b; Idem, <em>Nietzsche, Freud e Marx. Theatrum Phifosoficum</em>. 4a edição. São Paulo: Editora Princípio, 1987c; Idem, <em>Em defesa da sociedade</em>: curso do Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999; Idem, <em>Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas</em> (Org. e seleção de textos: Manoel Barros da Motta). Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2000a; Idem, <em>Estratégia, Poder-Saber</em> (Org. e seleção de textos: Manoel Barros da Motta). Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2000b; RICKEN, Friedo (org.), <em>Dicionário de Teoria do conhecimento e Metafísica</em>. São Leopoldo: Editora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2002; NOVAES, Joana de Vilhena, <em>O intolerável peso da feiúra. Sobre as mulheres e seus corpos.</em> Ed. PUC/Garamond, 2006; Idem, <em>Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares</em>. Ed. PUC/Pallas, 2010 entre outros.</div>
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<p><a href="http://secundo.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref1">*</a> Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).</p>
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		<title>A dolorosa busca pela verdade*</title>
		<link>http://secundo.wordpress.com/2010/12/12/a-dolorosa-busca-pela-verdade/</link>
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		<pubDate>Sun, 12 Dec 2010 21:37:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Marcelo Gleiser** Verdade, mesmo nas ciências exatas, é um conceito que exige muito cuidado. Em princípio, não há uma verdade final, uma teoria “perfeita” do mundo. O que existe são aproximações, algumas mais precisas do que outras, modelos matemáticos que &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2010/12/12/a-dolorosa-busca-pela-verdade/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=107&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;">Marcelo Gleiser**</p>
<p>Verdade, mesmo nas ciências exatas, é um conceito que exige muito cuidado. Em princípio, não há uma verdade final, uma teoria “perfeita” do mundo. O que existe são aproximações, algumas mais precisas do que outras, modelos matemáticos que descrevem os fenômenos que observamos na natureza.</p>
<p>Em raras ocasiões, teorias podem até prever a existência de novos fenômenos ou objetos ainda não observados ou descobertos, como se nossa imaginação se antecipasse aos nossos “olhos”, criando realidades que depois comprovamos existir.</p>
<p>O ceticismo que marca o trabalho do cientista é ao mesmo tempo fundamental e brutal para preservar a credibilidade da ciência. No seu trabalho, o cientista tem poucas certezas. Uma delas é a do ceticismo com que uma ideia nova será acatada. Isso se ela não for completamente desprezada, claro.</p>
<p>A grande vantagem desse sistema é que se uma ideia for mesmo correta, ela será aceita pela comunidade científica. Anos, ou mesmo décadas, podem se passar antes que isso aconteça, o que muitas vezes pode trazer grande sofrimento e desespero ao seu proponente. Se por um lado temos de acreditar em nossas ideias e saber como defendê-las das críticas de colegas, por outro devemos também saber aceitar quando estamos errados, evitando frustrações ainda mais prolongadas. Essa lição oferecida pela ciência pode ser muito útil também fora dela.</p>
<p>Um dos episódios mais dramáticos na história da física ocorreu com o austríaco Ludwig Boltzmann, um dos arquitetos da mecânica estática. Trabalhando no final do século XIX, Boltzmann defendia a existência de átomos contra críticos como o filósofo Ernst Mach e o químico Friedrich Ostwald, que diziam que átomos não eram reais: eles não acreditavam que a física pudesse descrever o comportamento de objetos que não eram observáveis. O debate atingiu seu clímax durante uma conferência em Lubeck em 1895, conforme relatou Arnold Sommerfeld: “&#8230; era uma luta entre um touro (Boltzmann) e seu matador (Ostwald). Mas desta vez o touro conquistou o matador, apesar de toda sua elegância e técnica. Os argumentos de Boltzmann foram bem mais aceitos, com todos os jovens cientistas tomando seu lado”.</p>
<p>Mas Boltzmann continuou isolado em sua batalha, o que lhe custou um altíssimo preço emocional. Deprimido e doente, em 1906, um ano antes da comprovação experimental da existência dos átomos, ele se suicidou.</p>
<p>Durante os primeiros dias do rádio, muitos achavam que a freqüência modulada (FM), proposta por Edwin H. Armstrong, da Universidade de Columbia nos EUA, seria a solução contra a alternativa, a amplitude modulada (AM), que era muito suscetível à estática causada por distúrbios atmosféricos. Mas em 1922, o matemático John H. Carlson, do Bell Laboratories, publicou um artigo demonstrando que a banda requerida pela FM era maior do que pela AM, e que a distorção do sinal era maior. A maioria dos investigadores abandonaram seus projetos da transmissão em FM.</p>
<p>Isolado, Armstrong continuou a insistir nas vantagens da FM, e, em 1930, provou suas vantagens na luta contra a estática. As estações de rádio, que haviam investido pesadamente nas transmissões em AM, se recusaram a aceitar sua descoberta. Quando finalmente elas aceitaram, o fizeram sem pagar direitos a Armstrong, que gastou anos em lutas judiciais que lhe custaram todo seu dinheiro. Em 1954, exausto e empobrecido, Armstrong tirou sua própria vida.</p>
<p>Raramente as grandes descobertas ou invenções são rapidamente reconhecidas. O cientista, como qualquer outro profissional, comete às vezes erros de julgamento devido a preconceitos ou à aceitação cega de “verdades” ditadas por grandes nomes. Não há um sistema perfeito, pois não somos perfeitos. O que vale é nos enamoramos de uma ideia, mas nunca cegamente.</p>
<p>*Este texto foi originalmente publicado no jornal <em>Folha de São Paul</em>o, na seção micro/macro, em 15 de agosto de 1999.</p>
<p>**<strong>Marcelo Gleiser</strong> é professor e pesquisador de Física e Astronomia da Universidade Dartmouth College, em Hanover, nos EUA, desde 1991. É articulista do jornal Folha de São Paulo desde 1997 e autor de livros como <em>A Dança do Universo</em> (1997) e <em>O Fim da Terra e do Céu</em> (2002).</p>
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	</item>
		<item>
		<title>&#8220;Violência Enquadrada&#8221;: Lei Maria da Penha?</title>
		<link>http://secundo.wordpress.com/2010/12/05/violencia-enquadrada-lei-maria-da-penha/</link>
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		<pubDate>Sun, 05 Dec 2010 17:14:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Secundo Neto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[                                                                                                            Ubiracy de Souza Braga* Talvez a expressão utilizada por Slavoj Žižek: “violência enquadrada”, seja precisamente porque, “talvez, hoje, Jô seja o herói apropriado: aquele que se recusa a buscar um significado mais profundo” (2008: 452). Em verdade ele quer &#8230; <a href="http://secundo.wordpress.com/2010/12/05/violencia-enquadrada-lei-maria-da-penha/">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=secundo.wordpress.com&amp;blog=14514954&amp;post=101&amp;subd=secundo&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;">                                                                                                            Ubiracy de Souza Braga<a href="http://secundo.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftn1">*</a></p>
<div>Talvez a expressão utilizada por Slavoj Žižek: “violência enquadrada”, seja precisamente porque, “talvez, hoje, Jô seja o herói apropriado: aquele que se recusa a buscar um significado mais profundo” (2008: 452). Em verdade ele quer retratar a “visão em paralaxe”: medida da mudança de posição aparente de um objeto em relação a um segundo plano mais distante, quando esse objeto é visto a partir de ângulos diferentes. Esse fenômeno óptico, relativamente simples, torna-se método e guia para seu livro, <em>The Paralaxe View</em> (2008), uma das mais ousadas aventuras filosófico-psicanalíticas de nosso tempo. E não devemos esquecer que a metáfora do fenômeno óptico surge também como instrumento crítico contra “as falsas formas do universal”, como é o caso do conservadorismo, no campo da política, com a exclusão do espaço político propriamente dito e a redução do potencial subversivo da noção de liberdade, seja individual, seja no plano coletivo das massas rurais e urbanas.</div>
<div>Note bem: o <em>conservadorismo </em>é um fenômeno universal para toda a espécie humana, mas é também um novo produto das condições históricas e sociais desta época, no que podemos dizer que há dois tipos de conservadorismo. Há o tipo que é mais ou menos universal, e outro definitivamente moderno que é produto de circunstâncias históricas e sociais particulares e que tem suas tradições, forma e estrutura próprias e particulares. Poderíamos chamar o primeiro tipo de “conservadorismo natural” e o segundo de “conservadorismo moderno”, se a palavra “natural” não estivesse já carregada de diversos significados e matizes desde o debate eurocêntrico a respeito no âmbito da filosofia como de resto nas ciências sociais em geral.</div>
<div>O conservadorismo, em certo sentido, surgiu do <em>tradicionalismo</em>: de fato, ele é primordialmente nada mais do que o “tradicionalismo tornado <em>consciente</em>”. Apesar disso, os dois não são sinônimos, na medida em que o tradicionalismo só assume seus traços especificamente conservadores, enquanto expressão de um modo de vida e pensamento, como um movimento relativamente autônomo no processo social. Uma das características mais essenciais desse <em>modo de vida</em> e desse pensamento conservador parece ser a forma como ele se apega ao <em>imediato</em>, o <em>real</em>, o <em>concreto</em>. O conservador somente pensa em termos dos “sistemas como reação”, quando é forçado a desenvolver um sistema próprio para contrapor ao dos progressistas ou quando a marcha dos acontecimentos, o priva de qualquer influência sobre o presente imediato, de tal forma que ele seria obrigado a “girar a roda da história para trás” a fim de reconquistar a sua influência ao nível ideológico ou político propriamente dito do poder.</div>
<div>Sua natureza peculiar pode ser mais claramente percebida no seu conceito de propriedade de forma anteriormente diversa da propriedade de hoje. Aquele sentido genuíno trazia consigo certos privilégios para seu dono – por exemplo; “dava-lhe vez nas questões de Estado, o direito de caçar, de se tornar membro de júri. Dessa forma (a propriedade) estava estreitamente ligada à honra pessoal e, portanto, era em certo sentido inalienável”. Assim, existia uma relação completamente intransferível e recíproca entre uma propriedade em particular e um dono em particular. O conceito abstrato de propriedade da burguesia suprimiu a antiga concretização do conhecimento. Portanto, a <em>abstração</em> das relações humanas sob o capitalismo, que é constantemente enfatizada por Marx, e é claro depois dele, foi originalmente uma descoberta dos observadores do campo conservador por que <em>são</em><strong> </strong>conservadores.</div>
<div>O fundamental é que essa insistência sobre o “concreto”, ou antiga concretização do conhecimento, é um sintoma do fato de que o conservadorismo <em>conhece</em> os processos históricos em termos de relações e situações que existem apenas como restos do passado, e do fato de que os impulsos em direção à ação, que brotam dessa maneira de se conhecer a história, são também centradas sobre relações passadas que ainda sobrevivem no presente. O pensamento conservador <em>autêntico</em> tem sua relevância e dignidade baseada em algo mais do que mera especulação baseada no fato de que as atitudes vistas desse tipo ainda sobrevivem em vários <em>setores</em> da sociedade.</div>
<div>Mas também temos a outra face da moeda com os chamados “crimes do dia-a-dia”, neste caso na cidade de Fortaleza, onde o <strong>social </strong>pode ser visto pela própria culatra. A notícia “Ladrão assalta e acaba morto” encobre a equação: <strong>justiçamento privado=assalto + morte</strong>. Vejamos como o discurso jornalístico reitera este “complexo integrado de fatos sociais”: “<em>A <strong>onda de insegurança</strong> que vem dominando o Estado do Ceará e, em maior escala, a Capital e sua região metropolitana, começa a provocar <strong>a reação da população</strong>, que, perigosamente, tenta fazer <strong>justiça com as próprias mãos</strong> diante das autoridades. Foi o que aconteceu, ontem, em dois episódios na cidade</em>” (cf. <em>Diário do Nordeste</em>. Fortaleza, 2. 4. 2010, grifos meus).</div>
<div>E mais uma vez a imprensa reitera tais fatos em poucos dias: “Mais um caso serve para deixar em alerta as autoridades policiais. Um cidadão teve sua bicicleta roubada, reagiu e matou bandido”. NB: na primeira página do <em>Diário do Nordeste</em> (6.04.2010): “<em>Em menos de uma semana, Fortaleza viveu uma nova morte causada pelo temor causado pela insegurança. Na madrugada de ontem, no bairro Luciano Cavalcante, o ajudante de pedreiro José Cleilson de Sousa Martins, 21, não suportou ter sua bicicleta roubada, após ser violentamente atacado ao lado da namorada. Ele arriscou a vida de ambos ao tentar dominar um dos bandidos. O desfecho foi que acabou matando o criminoso com uma pedra</em>” (<em>Diário do Nordeste</em>. Fortaleza, 6. 04. 2010).</div>
<div>Enfim, para Mannheim, somente quando a natureza peculiar da objetividade de uma configuração estrutural dinâmica for <em>apreendida</em> pode-se distinguir um <em>comportamento</em> autoritário/conservador de um tradicionalista. É o caso ainda específicamente falando de averiguar do ponto de vista da pesquisa científica, “<em>o crescente número de assassinatos de <strong>mulheres</strong> e a omissão do poder público no estado do Ceará, onde os criminosos se utilizaram de outros meios violentos, tais como espancamento, pauladas, pedradas, sufocamento e maus-tratos. Houve, inclusive, o caso de uma jovem que foi decapitada (&#8230;). A maioria absoluta dos crimes de assassinato de mulheres tem motivo passional</em>” (cf. <em>Diário do Nordeste</em>, 12 de março; 30 de abril; 27 de maio; 28 de maio de 2006; 7 de janeiro de 2007; 28 de julho de 2008 etc.).</div>
<div>A <em>biofarmacêutica</em> Maria da Penha Maia lutou durante 20 anos para ver seu agressor condenado na cidade de Fortaleza, Ce. Desde a criação da Lei <em>Maria da Penha</em>, segundo dados da Delegacia da Mulher, foram feitos 19.528 atendimentos; 1.576 inquéritos foram enviados à Justiça; 800 agressores foram presos; e 4.600 medidas protetivas foram expedidas. Houve ainda a redução das mortes. Ela virou <em>símbolo</em> contra a violência doméstica como representante da lei que leva seu <em>nome</em>:<em> Maria da Penha</em>!</div>
<div>Um balanço divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a aplicabilidade da Lei Maria da Penha mostra que existem, atualmente, 150.532 processos tramitando nas varas especializadas de violência doméstica e familiar contra a mulher, cuja criação está prevista na Lei. Segundo o que foi divulgado pela mídia, dois anos e sete meses depois de sancionada a legislação, o Relatório aponta que foram decretadas 11.175 prisões em flagrante e 915 preventivas. Dos 75.826 processos que já tiveram sentença, 1.808 levaram o réu para trás das grades &#8211; 2% do total. Em relação às medidas protetivas, como retirar o agressor de casa ou impedi-lo de aproximar-se da vítima, foram 88.972 pedidos desde a criação da lei, mas apenas 19,4 mil (ou 22%) deferidos, segundo o balanço (Cf. Soares, CLAM, 15.04.2009).</div>
<div>No caso brasileiro, a presença do pensamento <em>autoritário</em> tendo como prócer Oliveira Vianna (cf. Vianna, 1933: 373 e ss; Vianna, 1930; 89 e ss) na vida intelectual deste século foi freqüentemente subestimada, especialmente entre os que passaram a viver os problemas políticos e sociais de forma plenamente consciente a partir da década de 1960, época que culminaria em sucessivos golpes político-militares de Estado, não só no Brasil, mas de resto em boa parte da América Latina (cf. Comblin, 1976; 1980). Isto porque para Vianna, “o sentimento da unidade social, o patriotismo local, não se havia podido ali formar, não só porque os elementos originários, com que se constituiu aquela população, eram, em regra, tipos de homens de aventura, com o temperamento e a psicologia específica de homens de aventura; como mesmo porque estávamos diante de uma sociedade dispersíssima, cuja densidade demográfica era por aquela época muito inferior a 0,2 habitantes por km² &#8211; a densidade média do centro amazônico, segundo os melhores cálculos estatísticos” (Vianna, 1930:93).</div>
<div>Esta presença se faz notar, por um lado, quando vemos o interesse na <em>publicação</em> de suas “obras completas” num país naquele período avesso “à leitura”, onde “o desprezo pela leitura assume dimensões de doença crônica” (cf. Rizzo, 1998), e por outro, quando essa “redescoberta” vem sendo difundida pelos <em>integralistas</em>, ou, por obscuros profissionais liberais transformados em administradores no interior de um vasto país. Mais do que isso: é possível seguir o rastro da sua presença em alguns produtos intelectuais do extinto <em>Instituto Superior de Estudos Brasileiros</em> (ISEB). Menos contraditória, mas sem dúvida inesperada, é a sua influência sobre o curso de história da educação da antiga Faculdade Nacional de Filosofia, posteriormente Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro leiam-se a introdução às <em>Instituições Políticas Brasileiras</em>, de Oliveira Vianna e saber-se-á imediatamente de onde foi tirada grande parte do conteúdo do curso introdutório à <em>História da Educação</em> e como “mitos reacionários” podem chegar a atuar sobre “ingênuas adolescentes recém-saídas da escola normal”, como também no então Departamento de Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-RJ.</div>
<div>Na <em>Apresentação &#8211; Uma Vida sem Violência</em>, Maria da Penha afirma o seguinte: “a Lei Federal nº. 11.340, representa um marco na história de luta dos movimentos de mulheres. Ela veio para corrigir a desigualdade de poder que existe entre homens e mulheres em nossa sociedade e que se expressa de forma oculta, protegida pelas paredes ´do lar` e naturalizada pela cultura machista (&#8230;). Em 2001 o Brasil foi condenado pela CIDH – Comissão Interamericana de Direitos Humanos ´ante a impunidade e o padrão de ineficácia da ação judicial e tolerância estatal frente aos casos de violência doméstica contra as mulheres no Brasil`(&#8230;) ´a violação contra Maria da Penha faz parte de um padrão geral de negligência e falta de efetividade do Estado para processar e condenar aos agressores, e prevenir essas práticas degradantes<em>” </em>(cf.<em> </em>Lei Maria da Penha, p. 7).</div>
<div>Para Marilena Chauí no texto <em>Apontamentos para uma Crítica da Ação Integralista Brasileira</em> (1978: 32 e ss), um intérprete que freqüente os textos dos historiadores e cientistas sociais, o <em>autoritarismo</em> brasileiro torna-se compreensível na medida em que são esclarecidas tanto a <em>gênese</em> histórica de sua eficácia quanto a <em>natureza</em> de suas manifestações conjunturais mais flagrantes como vemos nos exemplos acima no que se refere às vítimas da violência doméstica. No entanto, em outro registro, o enigma do autoritarismo brasileiro permanece, isto é, fica a pergunta: como se entrelaçam debilidade teórica e eficácia prática?  O que pode suscitar no intérprete um impulso à desqualificação imediata do discurso autoritário, como ocorre, por exemplo, a Sergio Buarque de Hollanda, em <em>Raízes do Brasil</em>, ao considerar o Integralismo um produto das elocubrações de “intelectuais neurastênicos”, ávidos de “obter a chancela, o <em>nihil obstat</em> da autoridade civil”. Ou, em Dante Moreira Leite quando começa a escrever acerca de Oliveira Vianna. Apesar das críticas – e felizmente já havia no Brasil, quem percebesse os absurdos de suas afirmações, a ausência de documentos – esses livros tiveram várias edições e foram citados a sério, ou, como afirma Chauí, “como se representassem algo mais do que a imaginação doentia de um homem que deve ter sido profundamente infeliz”.</div>
<div>Desnecessário dizer que, sobre Oliveira Vianna, são amplamente conhecidos os ensaios críticos de Astrojildo Pereira (1929), Nelson Werneck Sodré (1961), Breschiani (1973), Vanilda Paiva (1978), Cerqueira Filho (1982), Iglésias (2000) antevistos por Antonio Gramsci (1974, 1975, 1990) como aparece em <em>Problèmes de Culture. Le racisme, Gobineau et les origines de la philosophie de la práxis</em>, onde afirma o seguinte: <em>“</em>Il faut lire la Vita di Gobineau écrire par Lorenzo Gigli, pour voir si Gli a réussi à reconstituir exactement l`histoire des idées racistes e à les insérer dans la cadre historique de la culture moderne. Il faut pour cela reprendre les choses à partir des tendances historiographiques de la France de la Restauratión e de Louis-Philippe (Thierry, Mignet, Guizot) et de la problématique qui voir l`histoire française comme une lute séculaire entre l`aristicratie germanique (franque) et le peuple d`origine gauloise ou gallo-romaine<em>” </em>(Gramsci, 1990: 290).</div>
<div>Para o que nos interessa os autores se concentraram sobre o caráter <em>racista</em> e de apologia das frações das classes dominantes que permeia a obra <em>Raça e Assimilação</em> (1934), <em>Instituições Políticas Brasileiras</em> (1949, 2 vols.), mormente <em>Populações Meridionais do Brasil</em> (1952) e sobre o período da legislação trabalhista contida na Carta de 1937 de inspiração fascista. As influências menores sofridas por Oliveira Vianna, são numerosas, como indica-nos Chauí (1978), mas no caso de Paiva (1978) pretende-se apenas acompanhar a influência dos teóricos da geração seguinte: Vacher de Lapouge (1854-1936) e Gustave le Bon (1841-1931).</div>
<div>Para Chauí, “<em>o pensar autoritário tem a peculiaridade de precisar recorrer a certezas decretadas antes do pensamento e fora dele para que possa entrar em atividade. Seria ilusório supor que o pensamento autoritário desemboque numa exigência de obediência, pois esta é seu próprio ponto de partida: precisa de certezas prévias para poder efetuar-se e vai buscá-las tanto em fatos quanto em ´teorias`. Mais do que isto: é a própria maneira de manipular os fatos ou de assegurar-se com uma teoria que assinala a necessidade de submeter-se para melhor submeter a seguir. Os fatos reduzem-se a exemplos e provas enquanto a teoria se reduz a um esquema formal ou, como se costuma dizer, a um modelo. Dando ao real o estatuto de mero exemplo empírico e à teoria o papel de arcabouço vazio para conteúdos variáveis, o pensamento autoritário livra-se da exigência perturbadora de defrontar-se com o que ainda não foi pensado (o real posto aqui e agora) e de compreender o trabalho de uma teoria onde forma e conteúdo não se separam, pois trata-se nela de tornar inteligível a opacidade de uma experiência nova e ainda não conceituada</em>” (Chauí, 1978: 37-38).</div>
<div>Compreende-se bem que Oliveira Vianna tenha exercido certa atração sobre os elementos que hoje se dedicam à mesma tarefa. O seu “pseudonacionalismo” e o seu “pseudopopulismo”, apresentados sob uma aparência científica, têm, no entanto conduzido a muitos equívocos, como o de, por exemplo, operar: “como arsenal de argumentos e armas ideológicas das forças reacionárias, autoritárias e anti-nacionais; ela está dedicada à apologia das classes dominantes e ao combate à democracia, à justificação do racismo e da exploração imperialista. Uma ‘redescoberta’ de O. Vianna pelas esquerdas só pode ocorrer, portanto, pelo absurdo, ou seja, pelo pinçamento de algumas idéias que, retiradas do seu contexto e isoladas de suas conexões, deixam de ter algo a ver com o referido autor. A aparência nacionalista e populista de seus escritos precisa, por isso, ser analisada dentro do conjunto da obra” (Paiva, 1978:128-129).</div>
<div>De fato, um traço negativo, obscuro, na obra de Oliveira Vianna é o <em>preconceito racial</em>. A força e o perigo dos <em>preconceitos</em> se explicam, entre outros, pelo fato de terem sempre oculto dentro de si algo do passado. Examinando com atenção, percebemos que um preconceito genuíno sempre esconde algum juízo anteriormente formado que em sua origem teve uma base apropriada e legítima na experiência e evoluiu como preconceito por ter sido arrastado ao longo do tempo sem ter sido reexaminado ou revisto. Nesse aspecto, expressar um preconceito é coisa bem diferente de um palpite. Este não vai além do âmbito da conversa, como vemos na perspectiva de hermenêutica de Gadamer, “onde as opiniões e juízos mais heterogêneos são jogados de um lado para outro como fragmentos de vidro em um caleidoscópio”. O perigo do preconceito é o fato de sempre estar ancorado no <em>passado</em> como memória – tão notavelmente bem ancorado, muitas vezes, que não só antecipa e bloqueia o juízo, mas também torna impossíveis tanto o próprio quanto a autêntica experiência do presente. Para dissipar os preconceitos, devemos primeiramente descobrir dentro deles os <strong>juízos passados</strong>, ou seja, “desvelar a verdade que possam conter”. Do contrário, batalhões de oradores ilustrados e bibliotecas inteiras não servem para nada, como deixam cristalinamente claro os esforços infindáveis e infindavelmente infrutíferos para resolver questões carregadas de antigos preconceitos, como os problemas dos judeus ou dos negros nos Estados Unidos, ou das mulheres espancadas ou assassinadas no estado do Ceará, para ficarmos nestes exemplos.</div>
<div>Em assim sendo, dado que o <em>preconceito</em> se antecipa ao <em>juízo</em> recorrendo ao passado, sua justificação temporal se limita aos períodos da história – em termos quantitativos a maior parte dela – em que o novo é relativamente raro e o velho predomina no tecido político e social. Em nossa utilização geral, afirma Hannah Arendt, <em>a palavra “juízo” </em>tem dois significados que se devem distinguir com clareza, mas que se confundem sempre que falamos. Juízo significa, primeiramente, “organização e subsunção do individual e particular  ao geral e universal, procedendo-se então a uma avaliação ordenada com a aplicação de parâmetros pelos quais se identifica o concreto e de acordo com decisões”. Esse juízo que não conhece parâmetro só pode recorrer à evidência do que está sendo julgado, e seu único pré-requisito é a faculdade de julgar, o que tem muito mais a ver com a capacidade de discernir do que com a capacidade de organizar e subordinar. Tais juízos sem parâmetros nos são bastante familiares quando se trata de questões de estética e gosto, que, como observou Immanuel Kant, não se podem “discutir”, mas de que se pode, seguramente, discordar e concordar. Na nossa vida cotidiana isso se verifica sempre que dizemos, em face de uma situação desconhecida, que fulano ou beltrano “fez um juízo correto ou equivocado” (Arendt, 2009: 154-155).</div>
<div>No sentido histórico, “a raça brasileira e, de um modo geral, a sul-americana, tem um sentido cósmico originado das fontes étnicas. Essa origem próxima da Terra apresenta-nos como uma transposição de planos históricos, transladando as eras primitivas para o século da Máquina. A idade da pedra convive com a idade do rádio. O luxo moderníssimo de Copacabana é contemporâneo das malocas e tabas selvagens” (Chauí, 1978: 40-41).  E, no sentido ideológico, Oliveira Vianna desprezando as teses desenvolvidas pela antropologia social contemporânea como entendemos no ensaio <em>Uma História da Antropologia </em>(cf. Leaf, 1981), não teve clara compreensão da formação do processo histórico-social brasileiro e a relação entre classes sociais no Brasil. Nega a existência da luta de classes (inconsciente), enquanto a leitura de seus textos a confirma (consciente). Seu racismo é um racismo de colonização; é um racismo de desprezo pelo povo, de apologia às elites políticas. Acaba jogando água para o moinho do autoritarismo/totalitarismo de corte fascista em voga em época marcada pela sedução da direita ultra-conservadora.</div>
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<p>Bibliografia geral consultada:</p>
<p>ZIZEK, Slavoj, <em>A Visão em Paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008; VIANNA, F. J. de Oliveira, Pequenos Estudos de Psicologia Social</em>. São Paulo: Ed. Revista do Brasil, 1921; Idem, <em>Problemas de Política Objectiva</em>. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1930; Idem, <em>Raça e Assimilação</em>. 2<sup>a</sup> edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1934; Idem, <em>Evolução do Povo Brasileiro</em>. 3<sup>a</sup> edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938; Idem, <em>Instituições Políticas Brasileiras</em>. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1949, 2 volumes; Idem, <em>Populações Meridionais do Brasil</em>. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1952; COMBLIN, Pe. Joseph, “The National Security Doctrine”. In: <em>The Repressive State: the Brazilian national security doctrine and Latin America.</em> Toronto: LARU, 1976; RIZZO, Sérgio, “O país que não lê: o desprezo pela leitura assume dimensões de doença crônica nacional”. In: <em>Educação</em>. São Paulo, v. 25, n° 207, jul., 1998; CHAUÍ, Marilena de Souza, “Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira”. In: Marilena Chauí e Maria Sylvia Carvalho Franco<em>, Ideologia e Mobilização Popular</em>.  Rio de Janeiro: Paz e Terra; Centro de Estudos e Cultura Contemporânea, 1978; Astrojildo Pereira, <em>Crítica Impura</em>. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1963; Nelson Werneck Sodré, <em>A ideologia do colonialismo</em>. Rio de Janeiro: ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros, 1961; BRESCIANI, M. S. Martins, “A Concepção de Estado em Oliveira Vianna”. In: <em>Revista de História</em>, n° 94. São Paulo, abril/junho de 1973; PAIVA, Vanilda, “Oliveira Vianna: Nacionalismo ou Racismo?”. In: <em>Encontros com a Civilização Brasileira</em>. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, n˚ 3, setembro de 1978; CERQUEIRA FILHO, Gisálio, <em>A ‘Questão Social’ no Brasil: Crítica do Discurso Político</em>. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982 (Tese de Doutorado); IGLÉSIAS, Francisco, <em>Trajetória política do Brasil – 1500-1964</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2000; GRAMSCI, Antonio, <em>Conceito de nacional-popular</em>. Teoria. Obras Escolhidas. Vol. II. Lisboa: Editorial Estampa, 1974; Idem, <em>Gli intellettuali e l`organizazione della cultura</em>. Torino: Ed. Einaudi, 1975; GOLDENBERG, Mirian, <em>Infiel – Notas de uma Antropóloga</em>. Rio de Janeiro: Record, 2006;  Idem, <em>Ser Homem, Ser Mulher: Dentro e Fora do Casamento</em>. Rio de Janeiro: Revan, 1991; Idem, “O macho em crise: um tema em debate dentro e fora da academia”. In: <em>Os Novos Desejos.</em> Rio de Janeiro: Record, 2000; GADAMER, Hans-Georg, <em>Wahrheit und Methode: Grundzüge einer philosophischen Hermeneutik</em>.Tübingen, Mohr, 1960; ARENDT, Hannah, <em>A Dignidade da Política</em>. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.</p>
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<hr size="1" />
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<p><a href="http://secundo.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref1">*</a> Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).</p>
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