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Hillary Rodham: Dama de Ferro & Cia. no Mundo Globalizado

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Ubiracy de Souza Braga*

“Os Estados Unidos não podem resolver seus problemas sozinhos, e o mundo não pode resolver os seus sem os Estados Unidos”.

Hillary Diane Rodham Clinton

A expressão “dama de ferro” é proposital, e não se refere ao caso do imperialismo inglês com o seu prócer Margareth Hilda Thatcher, baronesa de Kesteven, título nobiliárquico, que em 1992 foi-lhe concedido pela Rainha Elizabeth II dando-lhe um lugar na câmara dos Lordes, ou mesmo pelo cargo de primeira-ministra que ocupou de 1979 a 1990. Falo sim, sobre a 67ª Secretária de Estado norte-americano, servindo na administração do presidente negro Barack Obama. Foi uma Senadora ianque de Nova Iorque de 2001 a 2009.

O Secretário de Estado dos Estados Unidos é o título concedido ao chefe do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que lida com os assuntos externos. O Secretário é um membro do Gabinete Presidencial e a mais alta classificação de um secretário do gabinete tanto na linha de sucessão quanto na ordem de precedência. O atual secretário de Estado, selecionado pelo presidente Barack Obama é Hillary Rodham Clinton. O cargo de Secretário de Estado é uma das mais altas posições no governo norte-americano. Três dos últimos quatro Secretários de Estado foram mulheres. Dois dos últimos três Secretários de Estado foram afro-americanos.

Historicamente falando, em 10 de janeiro de 1781, o Segundo Congresso Continental criou o Departamento de Assuntos Externos. Em 27 de julho de 1789, George Washington assinou um pojeto de lei congressional reautorizando um Departamento de Assuntos Externos executivo, chefiado pelo Secretário de Assuntos Externos. O Congresso então passou outra lei, dando certas responsabilidades domésticas adicionais ao novo Departamento e mudando seu nome para Departamento do Estado e o nome do chefe do departamento de Secretário de Estado, e Washington aprovou esse ato em 15 de setembro de 1789. Os novos deveres domésticos atribuídos ao recentemente renomeado departamento foram recebidos, publicação, distribuíção, e preservação das leis dos Estados Unidos, sob vigilância do Grande Selo dos Estados Unidos, autenticação de cópias e preparação de comissões de nomeações do poder executivo, e finalmente custódia dos livros, papéis e recordes do Congresso Continental, incluindo a Constituição e a Declaração de Independência.

Nos dias de hoje, como esposa do ex-presidente norte-americano Bill Clinton, controverso, amante da música e de mulheres, foi também a 44ª primeira-dama dos Estados Unidos, de 1993 a 2001. Como nativa de Illinois, Hillary Daiane Rodham atraiu, primeiramente, a atenção nacional em 1969 por seus comentários como a primeira aluna a remeter o discurso de formatura no Wellesley College. Ela embarcou na carreira de Direito após sua graduação de Faculdade de Yale em 1973. Seguindo uma tarefa como advogada legal Congressional, mudou-se para o Arkansas em 1974 e casou-se com William Jefferson Clinton em 1975. Em 1977, Rodham co-fundou o Arkansas Advocates for Children and Families. Em 1978, ela tornou-se a primeira presidente mulher do Legal Services Corporation.

Conservadora, partidária da idéia às avessas de Simone de Beauvoir no clássico “Le Deuxième Sexe” (1946), e, afetiva e historicamente falando, não fez o que Cleópatra Filopatos Nea Thea (69-30 a. C.) em seus romances com Júlio Cesar e Marco Antonio; menos ainda como a combatente francesa Joana d`Arc (1412-1431) que assumiu o comando do exército em diversa batalhas durante o reinado de Carlos VII; menos ainda o que levou às atrocidades do hobbesiano Enrique VII, torpe e defenestrado, que mandou acusar a mulher de adultério para que ela morresse decapitada; e muitos menos ainda, como Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon (1775-180), menos pelo fato de não ter nobreza em seu sangue, mas porque não pode ser considerada como A Megera de Queluz, pela sua personalidade forte e porque escolheu viver num palácio de Queluz.

Mal comparando ainda, está longe de ser uma Maria Quiteria de Jesus (1792-1853), militar brasileira, heroina da Guerra de Independência e menos ainda, a revolucionária Anita Garibaldi, Ana Maria de Jesus (1821-1849), a companheira do revolucionário Giuseppe Garibaldi, sendo conhecida como a “heroína de dois mundos”. Ou mesmo uma Olga Benario Prestes, companheira do líder comunista Luiz Carlos Prestes, de façanha ímpar no contato com o gentio mais diverso um movimento político-militar de origem tenentista, que entre 1925 e 1927 se deslocou pelo interior do país pregando reformas políticas e sociais e combatendo o governo do então presidente Arthur Bernardes e, posteriormente, de Washington Luís.

Mutatis mutandis pelo talento de Hilary Rodham como estadista, se fosse contra-revolucionária, certamente poderia ser igualada a Marie Curie, em verdade Maria Sklodowiska (1867-1934), pioneira no estudo da radioatividade  que obteve o prêmio Nobel, ou, como Margaretha Geertruda Zelle (1876-1917) quando servindo-se de sua capacidade de sedução para trabalhar como “espiã dos franceses para o governo alemão”. Um tribunal francês ordenou que fosse fuzilada, por “alta traição”, ou ainda como no caso da escritora Virginia Woolf (1882-1941), pela moradia londrina de Bloomsbury onde passaram autores como J. M. Keynes e C. M. Foster, que suicidou-se afogado por medo de distúrbios mentais – Michel Foucault chegara tarde para acudi-la com sua genealogia sobre o saber-poder.

Ou, como aquela mulher que deve constar de seu inconsciente, a brasileira, cantora e atriz que fez fama em seu país, chamada Maria do Carmo Miranda da Cunha (1909-1955), luso-brasileira  e precurssora do tropicalismo, talvez, mal comparando nos dias de hoje a uma Britney; a missionária Gonxha Agnes (1910-1997), conhecida como Tereza de Calcutá; a cantora Edith Piaf (1915-1963), que fora criada pela avó que dirigia uma casa de prostitutas; a política Evita Perón, casada com o líder populista argentino Perón, pois como mulher lutou pelos direitos civis dos trabalhadores e da mulher, tal qual La Negra, Mercedes Sosa neste país, entoando “gracias a la vida que me ha dado tanto”; ou mormente a atriz estadunidense Grace Kelly (1929-1982), cuja sina foi ter abandonado a sua carreira de cinema como estrela para casar-se em 1956, com o príncipe Rainer de Mônaco, quando posteriormente morre num acidente de trânsito quando viajava com a sua filha Estephanie de Mônaco, como na homenagem entoada na voz de Paulo Ricardo em “Olhar 43”:

“Seu corpo é fruto proibido /É a chave de todo pecado /E da libido, é prum garoto introvertido/Como eu é pura perdição/É um lago negro o seu olhar/É água turva de beber, se envenenar/Nas tuas curvas derrapar, sair da estrada,/E morrer no mar… no mar/É perigoso o seu sorriso, é um sorriso assim jocoso,/Impreciso, diria misterioso, indecifrável, riso de mulher/Não sei se é caça, ou caçadora, se é Diana ou Afrodite/Ou se é Brigitte,/Stephanie de Mônaco,/Aqui estou inteiro ao seu dispor…/Princesinha/Pobre de mim, invento rimas assim prá você/E um outro vem em cima, e você nem prá me escutar/Pois acabou, não vou rimar porra nenhuma/Agora vais sair como eu já nem quero nem saber/Se vai caber ou vão me censurar…/Será?/E prá você eu deixo apenas meu olhar 43/Aquele assim meio de lado, já saindo/Indo embora, louco por você/Que pena/Que desperdício!”.

Ou ainda, para insistirmos nesta direção, para louvar a Deusa Leila Roque Diniz (1945-1972), conhecida como “a mulher de Ipanema”, defensora do amor livre e do prazer sexual, tal como o fôra Simone de Beauvoir, são sempre lembradas como símbolo da revolução sexual feminina, que rompeu os conceitos e tabus em moda, esclarecidos in partibus infidelium pelos estudos do antropólogo francês Claude Lévi-Straus, “que não gostou da baía de Guanabara, pois achou que ela tinha uma boca banguela”… mas neste caso, por meios das idéias e atitudes de uma mulher; como também ocorrera, mal comparando, no plano obscuro da política para a mulher islâmica, Benazir Bhutto, líder do partido popular do Paquistão (1953-2007), primeira mulher que ocupou o cargo de premiê de um país muçulmano, ipso facto assassinada em plena campanha política. Mas a perda também se dá, como ocorrera com a Realeza inglesa quando a jovem e bela Diana de Gales, conhecida como a “Princesa do povo” (1961-1997), morre ao lado do namorado em um controvertido puzzle, ainda inexplicado acidente de trânsito “à la James Bond”, quando fugia supostamente da perseguição vampiresca dos chamados “paparazzi”, uma nova farsa da “notícia avant première”, enquanto indiscretos fotógrafos de celebridades.

“A Sua Excelência a Senhora Hillary Clinton
Secretária de Estado dos Estados Unidos da América

Tenho a satisfação de cumprimentá-la por sua posse como Secretária de Estado e oferecer-lhe meus calorosos votos de êxito, num momento em que as profundas transformações do sistema internacional tornam a diplomacia e o diálogo ainda mais indispensáveis. Compartilho a reiterada confiança que Vossa Excelência tem demonstrado no fortalecimento do multilateralismo e na construção de consensos, instrumentos essenciais para alcançarmos o objetivo de estabelecer uma ordem internacional mais equilibrada, inclusiva e justa.
Sua posse ocorre em momento particularmente auspicioso do relacionamento entre o Brasil e os Estados Unidos. Estou certo de que trabalharemos para desenvolver novas oportunidades de parceria bilateral e para reforçar a amizade que une nossos dois povos.
Reitero o desejo de, em breve, felicitá-la pessoalmente e de iniciar nosso trabalho conjunto em data conveniente para ambos.
Cordialmente,

Celso Amorim
Ministro das Relações Exteriores”

* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).

Falas sobre o Ceará

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Francisco Secundo da Silva Neto*

Talvez você desconheça/ que eu nasci no Ceará,/ Terra de homem valente/ etcetera e coisa e tal

Trecho da canção Caubói do Ceará de Falcão, cantor e humorista

 

O Ceará faz parte de um país continental, multiétnico, social e economicamente desigual, com uma grande parte da população mantida fora das decisões que deveriam importar a todos, culturalmente diverso, em suma, eivado de contrastes e contradições e ao mesmo tempo único e singular, uma sociedade bem diferente das outras que compõem a nuestra América Latina. Um país que se pensa a partir de um grau zero da história (Menezes, 1992), que teria nascido com a descoberta oficial portuguesa – a festa dos 500 anos comemorada em 2000 foi significativa de tal percepção.

Proponho apontar aqui algumas falas sobre um pedaço de terra que foi social e historicamente forjado no calor das contradições e diferenças entre culturas e povos que se confrontaram no processo de formação do Brasil. Um estado que para além de suas fronteiras político-administrativas é também uma abstração reificada, um espaço social e simbólico construído por crenças, narrativas, imagens e discursos ideológicos. Um lugar[1] vivido, morrido, pensado, esquecido e lembrado de diversas e, por vezes, de divergentes maneiras.

O estado do Ceará integra oficialmente a região Nordeste a partir dos anos 1940[2]. Antes, no período monárquico, o Ceará compunha as Províncias do Norte e, até o início do século XX, um discurso regionalista empreendido por frações da classe dominante daquelas antigas Províncias chamava de região Norte “a zona agroexportadora dependente do mercado de Recife, especificamente da cana – e por vezes do Algodão –, e portanto limitada ao espaço do Ceará até Sergipe” (Penna, 1992, p. 23).

Conforme Francisco de Oliveira (1985), o conceito de região pode ser compreendido sob diversos ângulos nos âmbitos econômico, social, político, cultural, antropológico, geográfico e histórico. No entanto, ele fundamenta a sua definição “na especificidade da reprodução do capital”. Para este autor, a região é delimitada ou definida através das formas assumidas pelo processo de acumulação capitalista em uma “estrutura de classes peculiar a essas formas e (…) nas formas da luta de classes e do conflito social em escala mais geral” (Oliveira, 1985, p.27). Ainda, de acordo com ele, a região inserida em um determinado espaço nacional organizado pelo sistema capitalista tende a desaparecer devido à homogeneização do território levada a cabo pelo “processo de concentração e centralização do capital”, mas esta é uma tendência que não chega a se realizar de forma completa pelo fato do processo de reprodução do capital ser por definição “desigual e combinado”.

Segundo Pierre Bourdieu (1998), etimologicamente a palavra região vem do latim regio que conduz ao princípio da di-visão, “ato mágico, propriamente social, de diacrisis que introduz por decreto uma descontinuidade decisória na continuidade natural”. A regio e as suas fronteiras (do latim fines) são o produto de uma luta pelo poder de fazer ver e crer, de conhecer e reconhecer, de impor a definição legítima do espaço regional, ou seja, do princípio de di-visão legítima do mundo social postulado por agentes sociais e seus interesses.

Durval Muniz Albuquerque Jr. (2001) compreende a região Nordeste como uma invenção, a qual se traduziu em discursos e imagens que lhe deram dizibilidade e visibilidade. Invenção, para ele, feita através de obras artísticas (literárias, cinematográficas, pictóricas, etc) e dos meios de comunicação e publicidade – “máquinas de produção de sentido e de significados”. Para o referido autor, essa “construção imagético-discursiva” sobre o Nordeste não apenas tentou representar a realidade do espaço regional, mas instituí-lo[3], instaurando assim “uma dada forma de ver e dizer a realidade”.

Penso que práticas imagético-discursivas (da literatura, do cinema, da imprensa), as quais podem instaurar uma forma legítima de ver e dizer um espaço regional, circulam e se difundem socialmente e, destarte, integram sistemas simbólicos compartilhados coletivamente, ou seja, passam a integrar o imaginário e a memória coletivos (Augé, 1998) de grupos sociais e sociedades. O Ceará, assim como o Nordeste, seja inserido no contexto sócio-histórico da reprodução do capital (Oliveira, 1985), seja produto de uma luta do mundo social (Bourdieu, 1998) ou, seja inventado e instituído por diversos discursos e imagens (Albuquerque Jr., 2001) oriundos da literatura, dos meios de comunicação e, mesmo, da política, foi e é simbolicamente coletivizado. O certo é que não se pode falar, assim, apenas de um Ceará, mas de vários.

Falar do Ceará das secas é evocar as imagens da tragédia social, da fome, das doenças, da calamidade pública, dos flagelados migrantes e do sertanejo pobre e sofrido. Obras como A Fome – Cenas da seca no Ceará (1890) de Rodolfo Teófilo (1853-1932) e O Quinze (1930) de Rachel de Queiroz (1910-2003) retratam este Ceará das secas. Segundo Frederico de Castro Neves (2000), “um fenômeno climático de irregularidade de chuvas transforma-se, por um conjunto de razões, em um fenômeno social complexo – que inclui uma série de relações sociais, políticas, econômicas e culturais”. Ainda conforme esse autor, a seca passou a fazer “parte efetiva da ordem social e da história do Ceará”. Porém, faz-se mister enfatizar, a tragédia sendo social é muito mais conseqüência de uma estrutura desigual de sociedade do que de um fenômeno climático periódico.

Falar do Ceará do sertão semi-árido e da vegetação de caatinga é evocar as imagens da terra ressequida e rachada pelo sol, do xique-xique, do mandacaru e dos vaqueiros que com seus gibões de couro enfrentam a mata espinhenta na busca dos bois fujões. O homem que lida com o gado, o vaqueiro, este trabalhador das fazendas de criação que existem no Ceará desde o século XVIII – “Em 1780 já eram 972 as fazendas” (Girão, 1953) –, passou para a história, segundo Ismael Pordeus Jr. (2003), como um dos ícones de uma cearensidade. Na exposição “Vaqueiros”, a qual se encontra por tempo indeterminado no Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza, são apresentadas imagens fotográficas de vaqueiros, as suas vestes – o gibão de couro, por exemplo –, seus utensílios, a réplica de uma típica casa sertaneja, enfim, tudo que fez parte do cotidiano do vaqueiro desde o início do povoamento do Ceará no período colonial aos dias atuais.

Falar do Ceará do mar e do litoral é evocar as imagens dos jangadeiros e de suas embarcações rústicas feitas de madeiras e velas em forma triangular, das mulheres com suas rendas de bilros, dos mares bravios e verdes, das dunas de areia e dos coqueirais. Mar, litoral, jangadas, pescadores e rendeiras que ganharam o mundo das artes nas pinturas de Raimundo Cela (1890-1954). Jangadeiros e rendeiras que, para Custódio Almeida (2003), são “lendas paradigmáticas” no masculino e no feminino que “marcam o povo cearense” e que “delas podemos traduzir muito da identidade dessa gente e compreender a imagem e a auto-imagem desse povo”. Mar e litoral que são, já há alguns anos, alvos da especulação imobiliária na construção de resorts, hotéis e parques aquáticos para o crescente comércio turístico.

Há outros Cearás para se falar? Sim, muitos: o Ceará do clima frio e agradável das serras onde se fazem festivais de teatro e de música; o Ceará do catolicismo popular, das levas de romeiros que professam a fé no Padre Cícero de Juazeiro do Norte e no São Francisco das Chagas de Canindé; o Ceará do clientelismo e do nepotismo das prefeituras municipais por todo o estado e da corrupção política que roupa até o dinheiro destinado a merenda escolar; o Ceará dos crimes de pistolagem e da violência urbana que há muito é realidade presente no cotidiano; o Ceará dos escritos poéticos de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), o Patativa do Assaré: Eu sou brasileiro, fio do Nordeste/ Sou cabra da peste, sou do Ceará; o Ceará dos Tapebas, dos Tremembés, dos Pitaguarys e de outros grupos indígenas que lutam pela demarcação e posse de suas terras e, mesmo, pelo direito de ser reconhecidos como índios; o Ceará dos shows de humor realizados todas as noites da semana em bares, pizzarias e barracas de praia de Fortaleza, os quais, junto aos meios de comunicação locais e ao governo estadual, vendem hoje a imagem/marca de um “Ceará moleque”; e tantos outros, cantados e contados por repentistas e cordelistas, artistas anônimos das feiras e das ruas.

Ainda, é oportuno indagar: haverá outras falas sobre o Ceará agora que as eleições federais e estaduais se avizinham? O certo é que será o período de discursos inflamados e cheios de promessas que irão ser ouvidos no rádio, televisão, internet, carros de som e comícios. A caça de votos já teve início. Por aqui, como no resto do país, o jogo de interesses pelo poder já vem se articulando em coligações partidárias, acordos, ajustes e desajustes: antigos aliados se tornaram adversários, velhos políticos se apresentam como novas opções, problemas da atual gestão serão realçados e soluções apresentadas. Ao eleitor resta ficar atento e cobrar, afinal, democracia não se resume a votar.

Por fim, todas as falas apontadas até aqui evocam discursos ideológicos, imagens, símbolos e representações coletivas sobre um espaço social e histórico construído no embate de grupos e classes sociais. É preciso atentar que houve e há diferenças e contradições que processaram (e ainda o fazem) essas falas sobre o Ceará. Qualquer concepção que se queira única ou legítima torna-se perigosa uma vez que solapa do raciocínio a idéia do processo conflituoso, não consensual e ideológico que marcou o processo de formação de todo o Brasil.

Logo, este Ceará, situado no espaço-tempo de uma dada realidade sócio-histórica mais ampla, foi também pensado e gestado simbolicamente, de variadas maneiras, por grupos e agentes sociais que lhe concederam forma e conteúdo. Assim, pode-se afirmar: essas falas sobre o Ceará indicam que este não é apenas é um, e sim muitos, mais precisamente, é multifacetado, complexo e contraditório.
 

Notas


[1] Compreendendo o termo lugar no seu viés antropológico como aquele “dispositivo espacial” que funda, congrega e une uma origem comum para os grupos sociais ou, de outro modo, que exprime sua “identidade”. Cf. Marc Augé, Não-Lugares – introdução a uma antropologia da supermodernidade, Campinas-SP: Papirus, 1994.

[2] A partir de estudos do IBGE foi aprovada, em 31/01/1942, através da Circular nº1 da Presidência da República, a primeira Divisão do Brasil em regiões, a saber: Norte, Nordeste, Leste, Sul e Centro-Oeste. Fonte: http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/geografia/default_div_int.shtm.

[3] Cf. Durval M. Albuquerque Jr., A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN, Editora Massangana/Cortez, 2001. Este autor baseia-se em uma análise arqueo-genealógica foulcaultiana para descrever e explicar os discursos instituintes da “idéia” de Nordeste.

Referências Bibliográficas

ALBUQUERQUE JR., Durval M. A Invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN, Editora Massangana/Cortez, 2001.

ALMEIDA, Custódio. “Ceará – Idéias” In: CARVALHO, Gilmar de (org.). Bonito pra Chover – ensaios sobre a cultura cearense. Fortaleza: Edição Demócrito Rocha, 2003.

AUGÉ, Marc. Não-Lugares – introdução a uma antropologia da supermodernidade, Campinas-SP: Papirus, 1994.

______. A Guerra dos Sonhos: exercícios de etnoficção. Campinas, SP: Papirus, 1998.

 

 BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

 

GIRÃO, Raimundo. Pequena história do Ceará. Fortaleza: Editora A. Batista Fontele, 1953.

MENEZES, E. Diatahy Bezerra de. «A Cultura Brasileira “descobre” o Brasil, ou ‘Que País é este?!’, uma pergunta à cata de resposta», Revista USP, São Paulo, n.º 12, dez.1991-fev.1992: 76-93.

NEVES, Frederico de Castro. “A seca na história do Ceará” In: SOUSA, Simone de (org.). Uma nova História do Ceará. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.

OLIVEIRA, Francisco de. Elegia para uma re(li)gião: SUDENE, Nordeste, Planejamento e conflito de classes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

PENNA, Maura. O que faz ser nordestino: identidades sociais, interesses e o “escândalo” Erundina. São Paulo: Cortez, 1992.

PORDEUS JR., Ismael de Andrade. “Cearensidade” In: CARVALHO, Gilmar de (org.). Bonito pra Chover – ensaios sobre a cultura cearense. Fortaleza: Edição Demócrito Rocha, 2003.

 

* Bacharel em Ciências Sociais pela UECE (2006) e Mestre em Sociologia pela UFC (2009).


Espanha: História, Política & Futebol

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Ubiracy de Souza Braga*

                                                      “La claridad es la cortesia del sabio”.

                                                                                           Dito popular

E porque não repetir: na linguagem teórica, as palavras e expressões funcionam como conceitos teóricos, mas em sua periodização histórica as palavras e expressões funcionam sempre de forma distinta, porque se referem à concepção de uma teoria da história. A dificuldade própria da terminologia teórica consiste, pois, em que, por detrás do significado usual da palavra, é preciso sempre discernir o seu significado conceptual, que é sempre diferente do significado usual, do senso comum, como ocorre em políticos como Dilma Rousself, Lula, ou Serra, ipso facto recorrente nas fontes, nas atas, nos documentos oficiais etc. Na sua significação mais geral deve nos permitir a compreensão que tem por efeito o conhecimento de um objeto, a saber: a narrativa da história. É assim que a história abstrata ou a história em geral não existem, no sentido exato do termo, mas apenas a história real, ou “como efetivamente ocorreu”, desses objetos concretos e singulares que enformam a experiência acumulada da humanidade.

Neste sentido, os povos “extra-europeus” do mundo moderno e contemporâneo, desede Van Gogh, Basquiat ou Almodóvar, são constituídos pelos Povos-Emergentes. Darcy Ribeiro, nosso maior antropólogo, estudou esses arquétipos com sabedoria, melhor do que Durand (1993; 1997) em seus estudos etnológicos. Contudo, são integrados pelas populações africanas que ascendem da condição tribal à nacional. Na Ásia encontram-se também alguns casos de Povos-Emergentes que transitam da condição tribal à nacional. Esta categoria não surgiu na América, apesar do avultado número de populações tribais que, ao tempo da conquista, dominação, saque, roubo, extirpação étnica, contavam com centenas de milhares e com mais de um milhão de habitantes. Este fator, mais do que qualquer outro, exprime a violência da dominação, primeiro européia que se prolongou por quase quatro séculos, depois nacional, a que estiveram submetidos os povos tribais americanos.

Dizimados prontamente alguns deles, outros mais lentamente, somente sobreviveram uns poucos que foram anulados como etnias e como base de novas nacionalidades, enquanto seus equivalentes africanos e asiáticos, apesar da violência do impacto que sofreram, ascendem hoje para a vida nacional. A consciência étnica percorre todo o mundo. Nunca as chamadas “minorias nacionais”, na falta de melhor expressão, foram tão combativas como agora. Isto se pode constatar pela luta dos Bascos, Catalães, Galegos, Bretões, Flamengos e de outras nacionalidades fanaticamente apegadas a tudo que afirme seu caráter de “etnias autônomas imersas em entidades multiétnicas”.

A Espanha no futebol demonstrou, talvez, sua personalidade como povo-nação. Para termos uma boa idéia a respeito vejamos o significado d` “O Hino do País Basco”, respectivamente em  basco e na versão em castelhano: Eusko Ablendaren Ersirkia: Gora ta gora Euskai/aintza ta aintza/ bere goiko Juan Onari/Areitz bat Bizkaian da/Zar sendo sindo/bera ta bere lagia lakira/Areitz gainean dogn/gurutza deuna/beti geure goi buru/Abestu gora Euskadi/aintza ta aintza/ bere goiko Juan Onari”. Em castellano: El himno del País Vasco: Arriba y Arriba del País Vasco/Gloria y gloria/a su bueno Dios/Hay un árbol del roble en Viscaya/viejo, fuerte, saño/ él como su ley/En el árbol encontramos/ la cruz santa/siempre nuestro lema/Canta  ´Arriba el País Vasco`/gloria y gloria/ a su Bueno Dios”.

De acordo com Paula Monteiro no conhecido artigo “O V Centenário entre o Mito e a História” (1996: 240 e ss) ou ainda em “A Universalidade da Missão e a Particularidade das Culturas”(1996: 34 e ss), na história recente da Espanha, o conflito entre um projeto de Estado “castelhano-andaluz” e os chamados “nacionalismos periféricos” ganhou inúmeras vezes conotações de tragédia: a perseguição às línguas vernáculas é lembrada como um dos elementos centrais da repressão política franquista. Nas cidades bascas e catalãs os nomes das ruas foram trocados por nomes castelhanos, batizar um filho com um nome não-castelhano era rigorosamente proibido, e os nomes originais foram apagados das tumbas; o basco e catalão foram banidos das escolas e dos meios de comunicação. Melhor dizendo, nos anos anteriores à guerra civil, aquele que se expressava em vernáculo se expunha à repressão e à violência. Uma das frases mais lembradas pelos mais velhos é hablad cristiano (…) Também na Catalunha a língua nacional foi lembrada muitas vezes de forma trágica: muitos escritores catalães, como Salvador Espriu, fizeram de suas obras verdadeiras odes a um idioma que corria o risco de desaparecer” (cf. Monteiro, 1996:240-241).

Se nas publicações da Comisión Nacional, vemos o Estado espanhol se credenciando como interlocutor privilegiado entre os países ibero-americanos e o restante do mundo europeu – a partir da idéia de existência de uma pretensa “comunidade”, enquanto retórica política pelos organismos ligados aos aparelhos de Estado, no sentido althusseriano do termo (cf. Althusser, 1970b; 1980), na qual a Espanha ocuparia um lugar sui generis, porque entre a América Latina e a Espanha a comunicação é possível devido a uma história, uma cultura e uma língua aparentemente comuns, que criaria por suposto uma verdadeira “comunidade”. Em sentido estrito refere-se à participação coletiva e partilha nas interações democráticas que suportam e dão sentidas (Weber) as atividades de aprendizagem e organização da compreensão, culminando decisivamente com a distribuição de conhecimento entre os membros do grupo (Coulon, 1995a; 1995b).

Como se não bastasse ao nível ideológico da propaganda política, o que não é um truísmo em termos de instância (instare) de análise, em artigos e entrevistas, esta mesma “comunidade” que, do ponto de vista da sociologia, refere-se ainda a um conjunto de pessoas com interesses mútuos que vivem no mesmo local e se organizam dentro de um conjunto de normas, práticas e saberes sociais, é rejeitada pelos nacionalistas que procuram demonstrar, de outra parte, que nem a América Latina possui evidentemente uma única história, língua e cultura, como tampouco o Estado espanhol representa uma unidade histórica, cultural e linguística homogênea, pelo fato de que é membro do mundo ibero-europeu e, ao mesmo tempo, país europeu -, na Catalunha e no País Basco os grupos nacionalistas e contrários à celebração interpretam esta postura como um revival do sentimento de hispanidad, o tão perigoso nacionalismo espanhol.

Os grupos nacionalistas da Catalunha e do País Basco se opõem à visão celebrativa e triunfalista do quinto centenário, porque estas duas comunidades autônomas estabelecem uma relação imediata entre a hispanidad do quinto centenário e o nacionalismo opressivo do Estado espanhol franquista. Na diada de l`onze de setembre (dia solene do 11 de setembro), dia nacional catalão, ou dia do Eusko Gudari, “dia do soldado basco”, não são raras as faixas contrárias à celebração dos 500 anos. Ipso facto Luis Maria Mugica, professor universitário de filosofia basca, expressa preocupação com relação ao tom triunfalista que se queria dar à celebração, e afirma que, em função da experiência específica das “pequenas nacionalidades”, estas estariam preparadas para realizar uma reflexão crítica em torno do quinto centenário.

Ou seja, afirma, como basco, que sofro no meu próprio entorna cultural os efeitos de uma asfixia social sobre o meu próprio idioma (sobretudo, devido a fatos históricos como a imigração castelhana de finais do século XIX e de épocas posteriores, cujo resultado é o enfraquecimento social do euskera), vejo de forma altamente problemática que tal celebração se realize sem uma reflexão crítica em torno do espólio econômico dos séculos XVI e XVII. O fato de que desde a conquista espanhola tenham desaparecido línguas (…). “A língua espanhola falada hoje por 300 milhões – a maior parte de tal contingente na América Latina – é algo que exige uma reflexão. (…). Os povos da periferia da Península (Catalunha, Galícia e Vascônia), que durante séculos sofreram a mesma colonização idiomática, psicologicamente estamos mais preparados para tal crítica” (apud Thomaz, 1996:243).

Enfim, existe uma “geografia imaginária” do império e nela considerada como ponto de chegada no Estado espanhol o dia 12 de outubro, onde comemora-se anualmente a presença de Colombo no chamado Novo Mundo e o inconseqüente início de uma tragédia etnogenocida (Clastres, 2004) da chamada era moderna. É nesse dia que se celebra, como vimos, o dia da hispanidad, ou el dia de la raza, como queriam os franquistas eludindo já ao que inequivocamente desembocaria em idéias protofascistas ou fascistas propriamente ditas, como analiso em meu ensaio “A Ideologia Fascista” (cf.  Jornal O Povo. Fortaleza, 4 de dezembro de 2004b). Não devemos perder de vista que a partir do começo da década de 1970, milhares de latino-americanos procuraram na Espanha asilo político, fugindo das ditaduras militares que se espalharam por quase todo o continente (Comblin, 1976; Comblin, 1980), com exceção do México e da Venezuela e outros.

Grande parte dos exilados era de classe média com curso universitário, intelectuais, escritores e artistas, e foi fundamental no processo de dinamização da vida intelectual espanhola nos anos que se seguiram ao fim do franquismo. Instituições políticas ligadas ao aparelho de Estado se encarregam de organizar grandes celebrações pelas ruas de Madrid. Políticos da Comunidad Autônoma de Madrid e ao Ayuntamiento (Prefeitura) se somam às personalidades do mundo das culturas e das artes. Bandeiras espanholas ao lado das bandeiras dos demais países ibero-americanos enfeitam as ruas de Madrid: la madre pátria está em festa. Esta “geografia imaginária”, o sonho do conquistador, encontra forte apelo em uma memória, no sentido em que emprega Monsieur Le Goff, (1990) e outros, mais recentes que articulam os antigos territórios do império.

A emigração que marcou a sociedade espanhola no final do século XIX e no começo do século XX e o exílio, posto que, na Galícia, parentes e amigos que na América foram buscar fortuna é referência obrigatória; nas Ilhas Canárias, não há quem não tenha um parente em Cuba, Venezuela ou Porto Rico: os velhos teimam em lembrar os anos de fome, quando mais de um se lançou ao mar em pequenos barcos na esperança de chegar à América e enriquecer. Catalães e bascos preferem a lembrança dos que se foram depois da Guera Civil (1936-1939) e que formaram importantes colônias, sobretudo no México, em Caracas, Buenos Aires e Montevidéu. Na memória catalã está, por outro lado, “bastante arraigada a figura do ´Indià`, que em Cuba fez fortuna no comércio e no tráfico de escravos, ou morreu na guerra de independência. Também em Cuba têm origem as habaneres, belas músicas populares cantadas em catalão que relembram aqueles que se foram às ilhas caribenhas. No Pais Basco, todo o povoado basco vive a lembrança do Amerikanuak, aquele que partiu para a América em busca de fortuna ou para participar da conquista; muitos voltaram realmente ricos, outros não deram notícias” (Thomaz, 1996:218-219).

De acordo com Ianni (1974, 1978, 1986, 1988, 1996, 1997a, 1997b, 2004), em todas as nações e nacionalidades envolvidas em emblemas tais como Oriente Médio, África do Sul, Índia, Rússia, Estados Unidos, Europa, América Latina, Caribe, ou, Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo; ou ainda Centro e Periferia; para não repetir Ocidente e Oriente em todas as nações e nacionalidades há problemas raciais, pouco evidentes ou agudos, antigos ou recentes, que se desenvolvem, mas não se resolvem. Uma pesquisa global demonstra que a consciência étnica está realmente em ascensão, como uma força política; e que as fronteiras dos estados nacionais, conforme se acham presentemente desenhadas, estão sendo crescentemente desafiadas por essa tendência. Aí se mesclam diversidades e desigualdades de todos os tipos, compreendendo manifestações religiosas e lingüísticas, mas sempre envolvendo alguma forma de racialização das relações sociais. Produzidas ao longo de migrações, escravismos e outras formas de trabalho forçado, convívios pacíficos, conflitos inesperados, progrons, genocídios, revoluções, guerras. Assim, não é difícil admitir que o tribalismo, adormecido por séculos, reacende para destruir nações. Sempre que há um contexto de crise social, há o risco de que as intolerâncias se acentuem. Aliás, queria colocar o que está acontecendo: uma incrível “racialização do mundo”, embora seja algo que existe desde as grandes navegações.

Verdadeiramente, os acontecimentos nos últimos anos do século XX estão acentuando a intolerância racial em escala mundial. Agravou-se a intolerância na Europa; cresceu muito a vigilância dos indivíduos nos EUA, além de em outros países. O pretexto pode ser o terrorismo ou o narcotráfico, mas aquela intolerância forte que os europeus há algumas décadas imaginavam que acontecia só na África, na América Latina, nos EUA, também está sucedendo na Europa. Há barcos de negros e árabes que no Mediterrâneo são afundados porque servem de transporte a imigrantes que querem entrar de qualquer modo nos países europeus. A potencialidade de democratização das relações sociais existe em qualquer lugar do mundo, mas é anulada ou bloqueada devido ao jogo das forças sociais, à disputa pelo poder e pelas posições de mando. Ou seja, estão em causa pois, as condições de construção e realização da hegemonia, seja das classes e grupos sociais subalternos, seja de outros e novos arranjos compreendendo subalternos que desafiem as diretrizes dos “blocos de poder” organizados e atraentes nos moldes do neoliberalismo, para sermos breves. Assim, forças sociais importantes da sociedade civil defrontam-se com obstáculos às vezes intransponíveis para traduzir-se em governos, governabilidade (Foucault), diligência ou hegemonia (Gramsci). Melhor dizendo, “a construção de hegemonias conflitantes, alternativas ou sucessivas, pode ser um requisito essencial da dialética sociedade civil e Estado. E sem hegemonia fica difícil pensar não só em soberania nacional, mas também em democracia, mesmo que apenas política” (Ianni, 1997a:19).

Esse potencial de modo evidente existe em “nossa cultura mundial” (Ianni, 1997b; 1997c) seja via budismo, cristianismo, islamismo etc. E ele foi criado pelas lutas sociais. Contudo, esse potencial tem condições limitadas porque prevalecem os princípios do mercado, da dinâmica do capital. Em estatísticas de desemprego nos EUA, crescem os contingentes negros e porto-riquenhos, seguidos pelas mulheres e, de maneira mais relativa, pelos jovens. Nas guerras, como a do Vietnã, mostra-se essa hierarquização já que os negros vão à guerra por estarem desempregados. O primeiro homem que morreu no Iraque não foi um norte-americano tradicional, mas um guatemalteco. Daí que a história do mundo moderno é uma história da “racialização do mundo”. Melhor dizendo, são diferentes ciclos da história do mundo moderno, do capitalismo e da racialização do mundo.

Bibliografia geral consultada

ALTHUSSER, Louis, “Freud et Lacan”. In: La Nouvelle Critique, n° 161-162, Paris, 1965; Idem,  “Idéologie et Appareils Idéologiques d` Etat”. In: Pensée. Paris, jun. 1970; COMBLIN, Pe. Joseph, “The National Security Doctrine”. In: The Repressive State: the Brazilian national security doctrine and Latin America. Toronto: LARU, 1976; Idem, A Ideologia de Segurança Nacional – O Poder Militar na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980; COULON, Alain, Etnometodologia. Petrópolis (RJ): Vozes, 1995; DURAND, Gilbert, De la mitocritica al mitoanálisis: figuras míticas y aspectos de la obra. Barcelona: Anthropos, 1993; Idem, As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Introdução à Arquetipologia Geral. São Paulo: Martins Fontes, 1997; IANNI, Octávio, “Racialização do Mundo”. In: Tempo Social. Revista de Sociologia da USP. Volume 8, n˚ 1, maio de 1996; Idem, “A Política Mudou de Lugar”. In: Desafios da Globalização/orgs. Ladislau Dowbor e outros. Petrópolis (RJ): Vozes, 1997a: Idem, “O Socialismo na Era do Globalismo”. Texto escrito e falado no XXI Congresso da ALAS – Associación Latinoamericana de Sociología. São Paulo: USP, 31 de agosto a 5 de setembro de 1997b; Idem, A sociedade global. 5a edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997c; Idem,  “Variações sobre arte e ciência”. Aula Magna proferida em 3 de março de 2004. In: Tempo Soc. Vol. 16 nº 1. São Paulo, junho de 2004; MONTALBÁN, Manoel Vásquez, História y Comunicación Social. Madrid: Editorial Alianza, 1985; MONTEIRO, Paula, “Dilemas da Modernidade no Mundo Contemporâneo”. In: Cadernos de Campo. São Paulo: F. F. L. C. H/USP, 1992; Idem, (Coord.), Entre o Mito e a História. O V Centenário do descobrimento da América. Petrópolis (RJ): Vozes, 1996; THOMAZ, Omar Ribeiro, “A Reinvenção de Comunidades: o V Centenário e os nacionalismos na Espanha”. In: Paula Monteiro, Entre o mito e a história: o V centenário do descobrimento da América. Petrópolis (RJ): Vozes, 1996 entre outros. 


* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ). Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).

Holanda: História, Política & Futebol

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                                                                                                         Ubiracy de Souza Braga*

 “Nossa autoestima como nação se apóia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol”.

                                                                                                    Frei Betto

 1 – História e Política: “capital legal do mudo”.

A gênese do capitalista industrial não se processou de um modo gradual como a do agricultor. É indiscutível para Marx e Engels, que muitos pequenos mestres de corporações e até pequenos artesãos mais independentes, ou mesmo trabalhadores assalariados, se transformaram em pequenos capitalistas e (através da extensão do trabalho assalariado e da correspondente acumulação) em capitalista. Na infância da produção capitalista, as coisas passaram em grande parte como na infância das cidades, onde a questão do saber qual dos servos evadidos devia ser o senhor e qual devia ser o servo foi muitas vezes decidida pela mais recente ou mais tardia de sua fuga. Para ambos, o passo de caracol deste método não correspondia de modo algum às exigências comerciais do novo mercado mundial que as grandes descobertas do fim do século XV tinham criado. Mas a Idade Média tinha deixado por herança duas formas distintas de capital, amadurecidas no interior das mais diversas formações econômicas, e que, antes do modo de produção capitalista, são consideradas de qualquer forma o capital usuário e o capital mercantil.

A descoberta do ouro e da prata na América, a extirpação, escravização e enterramento das populações autóctones nas minas, o começo da conquista e pilhagem nas Índias Orientais, a transformação da África numa espécie de coutada para a caçada comercial à peles-negras assinalavam o despontar da era capitalista. Estes processos idílicos são e representam, pois o ponto mais importante da acumulação primitiva. No seu seguimento, vem a guerra comercial das nações européias, que “tiene como teatro todo el globo terráqueo” (Marx, 1973: 731). Daí ser possível admitir Marx como o precursor da crítica analítica da idéia em sua progênie, hoje comum, da globalização. Ela começa com a revolta da Holanda contra a Espanha, assume dimensões gigantescas com a guerra anti-jacobina da Inglaterra e continua ainda com as guerras do ópio contra a China etc. Marx refere-se noutro lugar que a “razão desta erupção foi indiscutivelmente proporcionada pelo canhão inglês que lançou à força sobre a China essa droga soporífera chamada ópio” (Marx, 1973; 1978). Sobre este aspecto vejamos o que nos diz Burns (1967):

  “Entrementes, as potências européias começavam a demarcar novas concessões para si mesmas no continente asiático. Muito antes de 1870 algumas nações européias se haviam empenhado em aventuras de conquistas territorial no Oriente. Já em 1582 os russos tinham atravessado os Urais e, em menos de um século, alcançaram o Pacífico. Em 1763, após eliminar os seus rivais franceses na posse da Índia, os ingleses começaram a subjugar e desenvolver esse país, cuja maior parte foi convertida, em 1858, em possessão da coroa britânica. Em conseqüência da chamada Guerra do Ópio (1842), a Inglaterra forçou os chineses a ceder Hong Kong, e poucos anos depois os franceses estabeleceram um protetorado na Indochina. Em 1858 a Rússia tomou posse de todo o território ao norte do rio Amur e pouco depois fundou a cidade de Vladivostok (Senhora do Ocidente), também em território extorquido à China” (Burns, 1967: 753).

Destarte as diferentes formas de acumulação primitiva distribuem-se pelas formas sociais pioneiras que sustentam com a força bruta o sistema colonial. Pode-se dizer que todas elas empregam o poder de Estado, a força concentrada e organizada da sociedade, para precipitar, como numa estufa, o processo de transformação do modo de produção feudal em modo capitalista e para abreviar a transição. Como diz Marx, “a força é a parteira de qualquer velha sociedade dentro da qual existe uma nova. É ela própria um poder econômico”. Marx faz referência a W. Howitt em seu texto Colonization and Christianity (Londres, 1838) para melhor compreender o sistema colonial cristão: “As barbaridades e atrocidades desesperadas da chamada raça cristã, em todas as regiões do mundo e contra todos os povos que conseguiu submeter, não encontraram paralelo nas de nenhuma raça, por mais grosseira, selvagem, impiedosa e sem vergonha que ela seja, em nenhuma época da história”.

A própria história da administração colonial holandesa, para Marx, “é a história da mais extraordinária lista de traições, subornos, massacres e baixezas”. Nada há de mais característico do que seu sistema de roubar homens para arranjar escravos em Java. Os ladrões de homens eram considerados especialmente treinados. O ladrão, o intérprete e o vendedor como é retratado no filme Mediterrâneo de Gabriele Salvatores (cf. Mediterrâneo, Itália, 1991, 92 minutos, Vídeo Arte) eram os principais agentes deste comércio, os príncipes nativos os principais vendedores. Os jovens apanhados eram encerrados nos calabouços secretos dos Celebes até poderem ser embarcados nos navios escravos.

Diz um relatório oficial: “só a cidade de Macassar está cheia de prisões secretas, cada uma delas mais horrível do que a outra, cheia de desgraçados vítimas da cupidez e da tirania, cheios de grilhetas e correntes, arrancados à força às suas famílias”. Para se apoderarem de Malaca, os holandeses subornaram o governador português. Este os deixou entrar na cidade em 1641. Os holandeses foram imediatamente diretos à sua residência e assassinaram-no, para se “absterem” de pagar 21.875 libras, o preço da traição. Onde quer que cheguem, seguia-se a devastação e o despovoamento, Banjuwangi, uma província de Java, tinha em 1750 mais de 80 mil habitantes; em 1811 tinha apenas 18 mil.

Mesmo nas colônias propriamente ditas, o caráter cristão da acumulação primitiva nunca se contradisse a si próprio. Os sábios virtuosos do protestantismo, partidários da Reforma que entre luteranos, calvinistas, anglicanos, etc., representaram um movimento religioso dos começos do séc. XVI que com a ruptura com a Igreja Católica do séc. XVI originaram numerosas igrejas cristãs dissidentes. A teologia, “é paradigmática desta última conceitualização filosófica e científica do cosmo”. Embora a teologia possa estar mais próxima da mitologia no conteúdo religioso de suas definições da realidade, está mais próxima das mais recentes conceitualizações secularizadas em sua relação social, posto que, “ao contrário da mitologia, as outras três formas historicamente dominantes de mecanismos conceituais passam a ser propriedade de elites de especialistas, cujos corpos de conhecimento foram crescentemente afastados do conhecimento comum da sociedade em conjunto” (Berger & Luckmann 1985:152).

Politicamente falando propuseram um conjunto de mudanças efetuadas na Igreja como fim de torná-las mais fiel à forma de suas origens. Isto fez os puritanos da Nova Inglaterra, imbuídos pelas idéias colonialistas e instituíram em 1673 por intermédio de sua Assembléia, um prêmio de 40 libras por cada “escalpo índio” e por cada “pele vermelha” capturado; em 1720, um prêmio de 100 libras por cada escalpo; em 1744, depois de Massachusets-Bay ter proclamado como rebelde uma “determinada tribo”, ofereciam-se os seguintes preços: por um escalpo masculino de 12 anos ou mais idade, 100 libras (novo câmbio); por prisioneiro masculino, 105 libras; por cada mulher ou criança prisioneiras, 50 libras; por escalpo de mulher ou criança, 50 libras.

Algumas décadas mais tarde, o sistema colonial vingou-se nos descendentes destes piedosos colonos, que, entretanto se tinham tornado rebeldes. Por instigação dos ingleses e a seu soldo, estes eram mortos pelas lanças de guerra dos peles-vermelhas. O parlamento britânico proclamou o suborno dos nativos e o escalpamento literalmente como “meios que Deus e a natureza tinham à sua disposição”. O “sistema colonial”, funcionando como se fosse uma estufa, fez crescer o comércio e a navegação. As Gesellschaften Monopolia de Lutero eram poderosas alavancas para a concentração de capitais. As colônias garantiam um mercado para as novas manufaturas e, através do monopólio de mercado, uma acumulação crescente. Os tesouros roubados fora da Europa, pela pilhagem descarada, pela escravização e pelo assassínio, eram reenviadas ao país de origem, onde se transformavam em capital.

A Holanda, o primeiro país a desenvolver plenamente o sistema colonial, em 1648 tinha atingido o apogeu da sua grandeza comercial. Estava na posse, segundo G. Gülich no ensaio Geschichtliche Darstelung, (Jena, 1830, vol. 1) citado por Marx, “quase exclusiva do comércio da Índia Oriental e do comércio entre o Sudeste e Nordeste da Europa. O seu direito de pesca, a sua marinha e as suas manufaturas ultrapassavam as de qualquer país. O capital total da República devia ser superior ao do conjunto de todo o resto da Europa”. Todavia como adverte Marx, “Gülich esquece-se de acrescentar que pelas alturas de 1648 o povo da Holanda era mais sobre-explorado no seu trabalho, mais pobre e mais brutalmente oprimido do que todos os povos da Europa”.

Contudo, pode-se afirmar que não muito tempo após o começo do século XIX, o tipo de imperialismo alimentado pela Revolução Comercial entrou em vias de extinção. Poucos homens públicos havia ainda que se propusessem defendê-lo; alguns até o condenavam categoricamente, sustentando que as colônias não valiam o que custava adquiri-las e mantê-las. As causas dessa mudança de atitude podem ser encontradas em fatores tais como a decadência do mercantilismo e o interesse absorvente pelo desenvolvimento interno que acompanhou as primeiras fases da Revolução Industrial. À decadência desse primeiro imperialismo segui-se uma pronunciada calmaria na luta pela conquista de possessões externas até por volta de 1870, quando essa atividade se renovou com maior vigor e em escala ainda mais ampla.

Além das diferenças quantitativas, o novo imperialismo apresentava outros notáveis contrastes com o antigo. Enquanto a luta pelo império durante a Revolução Comercial se limitava mormente ao Hemisfério Ocidental e às ilhas tropicais, os teatros principais do imperialismo a partir de 1870, foram a África e a Ásia. Este imperialismo mercantilista orientava-se principalmente no sentido de engrandecer o poder e a riqueza do Estado – acumular ouro nos cofres públicos, para que o governo pudesse manter os exércitos e equipar as armadas; o novo imperialismo agia em benefício dos cidadãos ricos da metrópole, proporcionando saída às suas mercadorias e oportunidades de emprego para o seu capital excedente. As matérias-primas mais ardentemente desejadas pelos imperialistas dos primeiros tempos eram o ouro, a prata, os produtos tropicais e os abastecimentos navais; os novos imperialistas interessavam-se pouco por tais coisas, mas buscavam àvidamente territórios ricos em ferro, cobre, petróleo, manganês e trigo. Como última diferença podemos assinalar o fato de que o antigo imperialismo em geral desencorajava a emigração em larga escala para as colônias, ao passo que um dos objetivos principais do novo é a aquisição de colônias para abrigar o excesso de população das metrópoles.

Enfim, os maiores fatores do revivescimento do imperialismo após 1870 podem, indubitavelmente, ser encontrados na Segunda Revolução Industrial. A industrialização, ao alastrar-se por outros países além da Inglaterra, determinou extensa competição por mercados e por fontes de matérias-primas. A despeito do problema de encontrar saída para o excesso de produtos manufaturados, o governo da maioria dos países acabou cedendo à pressão dos capitalistas que reclamavam tarifas protetoras. Resultou daí uma produção ainda mais elevada e a conseqüente procura de novas colônias como mercados de escoamento para os produtos que a metrópole não podia consumir. Eram tais condições tornou-se virtualmente impossível a prossecução do regime de livre-câmbio internacional, que parecia tão promissor para a paz e a prosperidade do mundo. Queremos dizer com isso que, o novo imperialismo foi em grande parte um produto do nacionalismo e do desenvolvimento de um amplo programa de atividades apostólicas por parte das igrejas da Europa e da América do Norte.

2 – História e Futebol: Cidade do Cabo vira Amsterdã.

Os Países Baixos, em neerlandês: Nederland, literalmente “país baixo”, são um país da Europa Ocidental que constitui a maior parte do Reino dos Países Baixos. É uma monarquia constitucional democrática parlamentar. As fronteiras dos Países Baixos são com o Mar do Norte a norte e a oeste, com a Bélgica ao sul e com a Alemanha a leste. A capital é Amsterdã e a sede do governo é Haia. Os Países Baixos são freqüentemente chamados de Holanda, o que é formalmente incorreto, já que as Holandas do Norte e do Sul são duas de suas doze províncias. O gentílico holandês é o normalmente utilizado para se referir ao povo, à língua e a qualquer coisa que pertença aos Países Baixos, embora mantenha a ambiguidade. Neerlandês é o gentílico não-ambíguo, alternativo.

Sendo uma das primeiras democracias parlamentares, os Países Baixos são um país moderno desde o seu início. Entre outras afiliações, o país é membro fundador da União Europeia (UE), da OTAN, da OCDE, da OMC e assinou o Protocolo de Quioto. Junto com a Bélgica e com Luxemburgo, o país constitui a União Econômica do Benelux. O país é palco de cinco tribunais internacionais: o Tribunal Permanente de Arbitragem, o Tribunal Internacional de Justiça, o Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia, o Tribunal Penal Internacional e o Tribunal Especial para o Líbano. Os quatro primeiros estão situados em Haia assim como a sede da agência da UE de informação criminal, a Europol. Isto levou a cidade a ser apelidada de “capital legal do mudo”.

A equipe laranja, algoz do Brasil nas quartas-de-final, já disputou outras duas decisões, em 1974 e 1978. Nas duas, perdeu para os anfitriões daqueles Mundiais. Na primeira, caiu para a Alemanha e, na segunda para a Argentina. Mas não foi só a Holanda que reviveu uma bela história. A chegada até a semifinal do Mundial de 2010 é a melhor campanha do Uruguai desde 1970, quando os bicampeões mundiais perderam nas semifinais para o Brasil. Até então, todas as Copas do Mundo que foram sediadas fora da Europa tiveram como campeão Brasil, Argentina ou Uruguai. O Brasil conquistou fora do velho continente quatro de seus títulos – apenas o primeiro, em 1958, foi obtido na Suécia. A segunda taça foi levantada no Chile (1962), a terceira veio no México (1970), o tetra saiu nos Estados Unidos (1994), e penta no Japão (2002). O aproveitamento europeu dentro do continente é extremamente alto: das dez Copas disputadas no continente, a única que não foi vencida por um time local foi justamente a de 1958, com o Brasil triunfando na Suécia. Nas quartas-de-final, o cenário da supremacia sul-americana fora da Europa parecia que iria se confirmar novamente. No entanto, todos os europeus venceram seus confrontos e conseguiram garantir o título para o continente.

A torcida holandesa invadiu a Cidade do Cabo para incentivar sua seleção contra o Uruguai na semifinal da Copa do Mundo. Em todas as partes da cidade foi possível notar o grande número de torcedores, que desde cedo já pareciam ter consumido boa quantidade de bebida alcoólica. A confiança da vitória estava estampada no rosto dos aficcionados na equipe do técnico Bert Van Marwijik. Cantos típicos do país foram entoados a todo instante pelas avenidas que davam acesso ao estádio. O grande número de holandesas, quase todas loiras, chamava atenção dos demais turistas e sul-africanos pela belza e simpatia. Vestidos com paletós, camisas, gravatas, calças e meias e até sapatos cor de laranja, os fãs de Sneijder, Robben e Cia desfilaram pelo centro e por pontos turísticos como Table Mountain e Waterfront. Um deles se destacou pelo fato de estar todo de laranja, mas com a camiseta da Seleção Brasileira, adversário que a “Laranja Mecânica” eliminou nas quartas-de-final.

Bibliografia Geral Consultada

Cf. Karl Marx e Friedrich Engels, Sobre o Colonialismo. Lisboa: Editorial Estampa 1978, vol. I, p. 22 e ss; Karl Marx, Sobre o Colonialismo. Ob. cit., vol. II, p. 157 e ss; Carlos Marx, El Capital. Crítica de la Economía Política. Libro Primero. Buenos Aires: Editorial Cartago, 1973, vol. 1, cap. XXXI, “Genesis del Capitalista Industrial”; pp. 730-740; Carlos Marx, Teorias de la Plusvalia. Madrid: Alberto Corazón Editor, 1974, vol. 1 e 2, “onde Marx debía comenzar a demonstrar algo de ´sentido comercial` en sus relaciones con los editores”; Karl Marx, Elementos fundamentales para la crítica de la economia politica (borrador) 1857-1858. 4a edición corregida. Siglo Veintiuno Argentina Editores, 1973. Vols. 1-2; Jacques Arnaut, História del Colonialismo. Ob. cit; Jean Baechler, Les Origenes du Capitalisme. Paris: Éditions Gallimard, 1971, “La genèse du capitalisme”, pp. 105-180; Leo Huberman, História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974, onde especifica as mudanças territoriais do mapa da África que nos últimos 100 anos pertencia aos que nela habitavam etc.; pp. 259-270; T. B. Bottomore e Maximilien Rubel, Sociologia e Filosofia Social de Karl Marx. Textos Escolhidos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964, parte 3 – “Sociologia do Capitalismo”, pp. 129-207; Homi K. Bhabha, “A questão do ‘Outro’: diferença, discriminação e o discurso do colonialismo”. In: Heloisa Buarque de Holanda (org.), Pós-Modernismo e Política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, pp. 177-203. Sobre a questão da exploração da manufatura “como um centro potencial de rebelião política”. Cf. E. P. Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa – II – A maldição de Adão – v. 3. A força dos trabalhadores. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, pp. 11 e ss. E. P. Thompson, “Algumas Observaciones sobre Clase y ´Falsa Consciencia`”. In: História Social. Valencia: Instituto de Historia Social – UNED, primavera-verano, n° 10, 1991. Do ponto de vista político Marx pode ser visto na análise biográfica de Franz Mehring, Carlos Marx y los Primeros Tiempos de la Internacional. Barcelona: Ediciones Grijalbo, 1975; Peter L. Berger, A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 21ª edição. [Por] Peter L. Berger e Thomas Luckmann. Petrópolis (RJ): Vozes, 1985; Idem, P. Huntington Samuel, Muitas Globalizações. Rio de Janeiro: Record, 2004 entre outros.

* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).

Os Intelectuais e a Razão na História

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Ubiracy de Souza Braga*

                              Ao amigo Clodoaldo Almeida Paixão

Em 1975, sete anos após a morte de Jean Hyppolite, Michel Foucault enviara à viúva um exemplar de Surveiller et Punir com a seguinte dedicatória: “À Madame Hyppolite, como lembrança daquele a quem devo tudo”. De todo modo Hyppolite não foi o único responsável por essa reviravolta. Desde 1929 Jean Wahl chamara a atenção sobre o filósofo alemão ao publicar Le Malheur de la Conscience dans la Philosophie de Hegel em que apresentava um Hegel místico, segundo a expressão de Roland Cailois. Em 1938 Henri Lefebvre editou os Cadernos de Lenin sobre a dialética de Hegel. A vida e o pensamento de Alexandre Kojève confundem-se com os acontecimentos mais marcantes do século XX.

Etnobiograficamente falando, nascido no seio de uma família aristocrata na Rússia, ainda muito jovem A. Kojève foi preso com seus pais no calor dos acontecimentos políticos de outubro de 1917. Na prisão, começou a simpatizar com os revolucionários bolcheviques. Passada a tormenta, a família foi libertada e buscou exílio da Alemanha, onde o inquieto Kojève mergulhou profundamente no estudo da filosofia clássica. Deixou a Alemanha durante a ascensão do nazismo e aceitou suceder Alexandre Koyré em uma cátedra na École Pratique des Hautes Études, em Paris. Ali, de janeiro de 1933 a maio de 1939, tornou-se um dos mais importantes introdutores do pensamento de Hegel na França. Seu curso adquiriu fama insuperável. Por ele passaram Jean-Paul Sartre e Jacques Lacan, entre muitos outros intelectuais que nunca esconderam sua dívida de gratidão com o mestre. No segundo após-guerra, Kojève tornou-se conselheiro da Presidência da França e um dos mais influentes articuladores do projeto de uma Europa unificada, que hoje se concretiza. Morreu em 1968. Russo por nascimento, alemão por formação, francês por opção política, Kojève foi um intelectual brilhante, dotado de vastíssima erudição. Sempre envolvido em projetos ambiciosos, quase inacabáveis, publicou relativamente pouco. Vários de seus textos principais, geralmente muitos extensos como em todo grande homem, permaneceram incompletos e tiveram edições póstumas.

Essa Introdução à Leitura de Hegel (1939) recupera seus cursos da década de 1930 sobre a Fenomenologia do Espírito, revistas e aprovadas pelo professor. Doze conferências de Kojève e dois outros textos seus sobre Hegel completam o livro. O curso seguiu passo a passo a obra comentada, mas destacou especialmente o capítulo IV da segunda seção, consagrado à consciência de si, obra que foi considerada por Jürgen Habermas “o grande acontecimento da filosofia alemã”. Contém textos do próprio Kojève – inclusive a famosa Introdução, redigida de forma independente e que se tornou um “pequeno clássico” – e anotações tomadas por Raymond Queneau, que em 1924 se junta aos surrealistas, mas não adota seus métodos de escrita automática ou suas posições políticas. Como muitos surrealistas, ele fez psicanálise, mas não para estimular sua criatividade. Queneau questionou o apoio que os surrealistas deram ao Estado soviético em 1926. Em 11 de março de 1929 foi secretário de um Encontro dos surrealistas onde se discutiu Léon Trotsky e, em 1930, junto com René Crevel, Paul Éluard, Louis Aragon e André Breton tornou-se membro do partido comunista francês, como parte da oposição de esquerda internacional. Queneau também participou de Un cadavre em 1930, um veemente panfleto anti-Bretoniano escrito junto com George Bataille, Michel Leiris, Jacques Prévert, Alejo Carpentier, Jacques Baron, J.-A. Boiffard, Robert Desnos, Georges Limbour, Max Morise, Georges Ribemont-Dessaignes e Roger Vitrac.

O ponto de partida para a constituição do sujeito – diz kojève, lendo Hegel – é o desejo, “mas não um desejo dirigido a uma coisa qualquer no mundo”. O homem se torna humano “quando deseja outro desejo”. Abre-se assim, ao homem, um novo espaço de liberdade, que se manifesta antes de tudo como um desejo de reconhecimento e produz uma luta de morte por puro prestígio – o ato fundante da história, o ato antropogênico por excelência. Mas para que haja história, é preciso que haja relação social entre homens vivos. A luta não pode terminar com a aniquilação de um dos lados. Um deles deve abdicar do combate, ou seja, colocar a sua liberdade acima de sua vida. Estabelece-se uma relação de tipo senhor-escravo. Porém, nela se desenvolve concentrada neste segundo pólo, uma outra atividade essencial ao projeto do homem: o trabalho. A descrição da dialética que assim se estabelece é um dos pontos culminantes do pensamento humano em todas as épocas, e sua conclusão é surpreendente: o homem integral, livre, satisfeito com o que é, o homem que se aperfeiçoa, não é o senhor nem o escravo, mas sim o escravo que consegue suprimir sua sujeição.

A história humana aponta, pois, nessa direção. Desnecessário dizer que Karl Marx será o principal herdeiro intelectual dessa construção. A Fenomenologia do Espírito – ou “ciência da experiência da consciência”, primeiro título escolhido por Hegel – é a descrição do caminho das experiências humanas da constituição do Espírito, e o fio que as une, nas palavras de Henrique Vaz, “é o próprio discurso dialético que mostra a necessidade de se passar de uma estação a outra, até que o fim se alcance no desvelamento total do sentido do caminho”. Por isso a Fenomenologia integra um sistema. Encadeia-se com a Lógica para produzir o saber Absoluto, que ajusta plenamente a certeza do sujeito e a verdade do objeto. Para Hegel, só a era iniciada com Kant na filosofia e com a Revolução Francesa na política criou as condições para a construção desse saber. É este o pensamento detalhadamente analisado no Séminaire de Alexandre Kojève na École Pratique des Hautes Études, assim como já foram muito citados os nomes que se tornariam prestigiados entre aqueles que compõem seu auditório de 1933 a 1939: Alexandre Koiré, Georges Bataille, Pierre Klossowski, Jacques Lacan, Raymond Aron, Maurice Merleau-Ponty, Eric Weil e, com menor assiduidade, André Breton. Em 1947, ano em que Hyppolite defende sua tese de doutorado, Raymond Queneau, que também fazia parte deste seleto público, edita as notas que tomara ouvindo Kojève e as intitula Introduction à la lecture de Hegel. Leçons sur la phénoménologie de l` esprit professées de 1933 à 1939 à l`École des Hautes Études reúnes et publiées par Raymond Queneau (cf. Éditions Gallimard, janvier 1939).

Sem temor a erro, poderemos encontrar as muitas influências da filosofia de Hegel indicadas na constelação histórica no ano de seu nascimento, 1770. Naquele ano, Maria Antonieta, a radiante arquiduquesa da Áustria, casava-se com o apático delfim da França. Em Ajácio, Napoleão, o segundo filho de Letícia Bonaparte, acabava de aprender a andar. O capitão Cook completava sua primeira viagem em torno do mundo. Em Boston, Massachusetts, nos Estados Unidos, alguns soldados ingleses atiraram em uma multidão de colonos. Em Königsberg, na Alemanha, um idoso Privatdozent, chamado Immanuel Kant, lia uma dissertação a respeito da forma e dos princípios dos mundos da inteligência e da sensibilidade e da situação do homem entre ambos. No outro lado da Alemanha, em Estrasburgo, um jovem estudante, Goethe, escreveu alguns poemas que varreram toda a Alemanha para dentro de seu amor sensual por Friederike de Sesenheim. Um pouco mais tarde o romance de seu segundo amor, Os sofrimentos do jovem Werther, varria o mundo inteiro, até a China, “em uma onda de suicídios românticos”. Na França, naquele mesmo ano, o barão de Holbach publicou um tratado mostrando que o mundo, longe de ser um lugar romântico, nada era senão um grande mecanismo automático.

Quando Hegel morreu em 1831, o corpo decapitado de Maria Antonieta jazia numa vala comum em Paris. Napoleão e a Revolução haviam percorrido seus caminhos. Os ingleses e a revolução de Metternich haviam se encarregado do grande homem. A república norte-americana tomara seu lugar entre as potências e seus navios velozes percorriam os Sete Mares. Goethe serenamente observava uma vida de mil conflitos fundida em forma clássica e selava seu épico de Fausto, o homem universal que transcende o mundo da sensualidade. Holbach estava fora de moda, “mas um garoto de treze anos em Trier, Karl Marx, nascido no ano em que Hegel se tornara professor de filosofia da Universidade de Berlim, já começava a descobrir a filosofia – que significava Hegel – e logo iria ressuscitar Holbach em uma forma mais dinâmica do que todo o romantismo e que varreria o mundo, até a China, com uma paixão do intelecto mais poderosa do que qualquer coisa que Werther tenha conhecido” (cf. Hartman, 1976: 10-11).

O fato é que em ambos, no triunfo do romantismo – na filosofia e na política – e no intelectualismo, Hegel desempenhou um papel decisivo. A influência de sua filosofia confirma a tese de que, através dos homens, a Razão universal molda a história. O destino desta filosofia presta testemunho à sua forma dialética. Sendo o filósofo mais racional e mais religioso, Hegel desencadeou os movimentos mais irracionais e mais irreligiosos – o fascismo e o comunismo. Em geral, visto como o mais autoritário, ele inspirou os mais democráticos: Walt Whitman e John Dewey. Sendo o filósofo que equiparava o que é ao que devia ser, ele liberava ao maior desagrado com o que está, e assim, como o maior conservador, desencadeou a maior revolução. A forma de sua filosofia lutava com seu conteúdo, e o conteúdo, com a sua forma. Separaram-se. Alguns pensadores aceitaram o conteúdo de sua filosofia e opunham-se a sua forma. Tornaram-se conservadores e eram chamados de “hegelianos de direita”. Outros pensadores aceitavam a forma de sua filosofia e opunham-se a seu conteúdo. Tornaram-se revolucionários e “hegelianos de esquerda”. As duas facções opositoras finalmente se encontraram no abraço mortal de Stalingrado.

Para concordarmos com o escritor comunista norte-americano John Reed, autor de Ten Days That Shook World, editado nos Estados Unidos em 1919 e pela primeira vez em russo, na U. R. S. S., em 1923, a Revolução de Outubro foi uma revolução sem exemplo na história da humanidade. Nascido no Oregon, nos Estados Unidos, em 1887, John Reed interessou-se pelo jornalismo político ainda nos seus tempos de estudante na Universidade de Harvard. Depois de formado, continuou “militando” na carreira jornalística e obteve seu primeiro triunfo de reportagem quando da revolução de Madero, Pancho Villa, Zapatta e outros, que acompanhou de perto e retratou brilhantemente no seu livro México Rebelde. Em seguida, logo depois da abertura das hostilidades entre os impérios Centrais e os Aliados, em 1914, seguiu para a Europa, como correspondente de guerra, visitando a França, a Itália, a Alemanha e a Turquia. Em 1916, a débâcle dos exércitos tzaristas e a contínua efervescência política que campeava pela Rússia atraíram o seu “faro jornalístico”, na falta de melhor expressão, numa antecipação dos graves acontecimentos políticos que tiveram lugar em 1917.

Embarca então para a Rússia, chegando a tempo de presenciar os fatos políticos principais que antecederam a queda do Governo Provisório e a tomada do poder pelos bolcheviques, tão bem retratados em Doutor Jivago (Doctor Zhivago. Direção: David Lean, EUA, 1965, Vídeo Arte, 150 min), em que um médico e poeta de família burguesa procura manter seus ideais liberais durante a Revolução (1905) e a Guerra Civil (1917) soviéticas. Baseado no best seller de Boris Pasternak, ganhou no total cinco Oscar, inclusive o de melhor roteiro. Logo depois da consolidação do poder soviético, vitimado pelo tifo, morre John Reed. Suas cinzas repousaram na base das muralhas do Kremlin, no lado da Praça Vermelha, logo atrás do túmulo de V. I. Lenine.

Seu inspirador, seu chefe e seu organizador foi o partido dos bolcheviques, seu comitê central, dirigido por Lenine. Eles previram com clarividência toda a marcha da Revolução, todas as suas prováveis flutuações, o comportamento das massas revolucionárias e o comportamento das classes e dos partidos que lhes eram hostis. As idéias de Lenine impregnaram toda a atividade dos órgãos de direção da insurreição: O Politiburo e o Comitê Central do Partido Bolchevique, o Soviete de Petrogrado e seu estado-maior incubido da direção da insurreição, o Comitê Militar-Revolucionário (cf. Reed, 1978).

Sobre o livro de J. Reed, afirma Lenin: “Com imenso interesse e igual atenção li, até o fim, o livro 10 Dias que Abalaram o Mundo, de John Reed. Recomendo-o, sem reservas, aos trabalhadores de todos os países. É uma obra que eu gostaria de ver publicada aos milhões de exemplares e traduzida para todas as línguas, pois traça um quadro exato e extraordinariamente vivo dos acontecimentos que tão grande importância tiveram para a compreensão da Revolução Proletária e da Ditadura do Proletariado. Em nossos dias, essas questões são objeto de discussões generalizadas, mas, antes de se aceitarem ou de se repelirem as idéias que representam, torna-se necessário que se saiba a real significação do partido que se vai tornar” (cf. Prefácio de Lenine para a edição Norte-Americana, 1919).

No Prefácio de N. Crupscaia para a 1ª edição Russa, “´Dez dias que abalaram o mundo”, esse o título que John Reed deu à sua obra admirável. É um livro que recorda, com uma intensidade e um vigor extraordinários, os primeiros dias da Revolução de Outubro. Não se trata de uma simples enumeração de fatos, de uma coleção de documentos, mas de cenas vivas, tão típicas que não podem deixar de evocar, no espírito de todas as testemunhas da Revolução, aquelas cenas idênticas, a que todos assistiram. “Todos esses quadros tomados ao vivo traduzem da melhor forma possível, o modo de sentir das massas, e permitem apanhar o verdadeiro sentido dos diferentes atos da grande revolução”.

Daí que, guardadas as proporções, o realismo mágico converteu-se num veio capaz de afirmar a realidade latino-americana entre os dentes das “Cassandras científicas”. Gabriel Garcia Márquez inspirou-se inicialmente em Faulkner. Mas basta comparar o coronel Thomas Sutphen com o coronel Aureliano Buendia, ou o condado de Yoknapatawpha com Macondo, para reconhecer um “desencantamento do mundo”, no sentido pós-weberiano, e outro ainda encantado. Uma cisão entre as sensibilidades estética e científica, artística e literária, deslocou para os romancistas, poetas e artistas latino-americanos “o peso da responsabilidade de expressar seu mundo como centro e não como periferia”. Isto é importante. Ele é, ao lado de Manuel Scorza, o autor sulamericano mais traduzido no mundo inteiro. Scorza nasceu em Lima, Peru, em 9 de setembro de 1929. Estudou em colégio militar e cursou Literatura na Universidade de San Marcos, em Lima, e na Universidade do México. Participante ativo das lutas sociais de seu país, foi preso e expulso do Peru na ditadura do General Odría. Em 1948, experimentou o exílio pela primeira vez, e durante sete anos percorreu quase toda a América Latina. Voltou ao Peru em 1956.

A partir de 1960, participou de grande rebelião camponesa dos Andes Centrais, militante ativo das lutas do movimento indígena, denunciou publicamente a matança e, por isso, foi acusado de “ataque às Forças Armadas”. Seu livro de maior impacto Bom Dia para os Defuntos (Civilização Brasileira, 1975) – Redoble por Rancas (Editorial Planeta, 1970), no original peruano – é livro que vem empolgando os leitores de todos os países onde já foi publicado: Espanha, Itália, França, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, para citar alguns. Trata-se de um romance-testemunho. Ou, como diz o próprio autor: é a crônica exasperadamente real de uma luta solitária: “a que, entre 1950 e 1962, travaram nos Andes Centrais os homens de alguns povoados que apenas figuram nos mapas militares dos destacamentos que os arrasaram”.

Ipso facto, “os protagonistas, os crimes, a traição e a grandeza, quase todos têm aqui os seus nomes verdadeiros”. Alguns nomes, no entanto, foram modificados: “para proteger os justos contra a justiça” – adverte o romancista. É o relato dos conflitos entre campônios e latifundiários e, ainda, a Cero de Pasco Corporation, empresa norte-americana que explora as jazidas minerais da região e reserva um milhão de hectares de terra para a engorda do gado de sua Secção Agrícola – firma que, em seu último balanço, apresentou um lucro líquido de cinco milhões de dólares. A luta travada foi epopéica, mas terminou com o massacre dos rebeldes ante as forças repressivas peruanas e os capangas dos grandes proprietários de terras. Nesse romance realista, marcado pelo patético e o trágico, o burlesco e o fantástico, o absurdo e o cruel, há que se ressaltar o admirável domínio da fatura literária que Manuel Scorza exibe. Há que se ressaltar, também, – como já o fizeram os seus críticos latino-americanos e europeus – “a potência devastadora da ironia e do humor”, típicos do real maravilhoso. Isto leva-o pela segunda vez a deixar seu país, buscando então refúgio na França onde viveu por 10 anos. E é precisamente neste período que conclui sua trilogia, narradas entre Paris e Lima originalmente com o nome La Danza Imóvil (1983). Retornou ao Peru em 1978. Faleceu em 27 de novembro de 1983, aos 54 anos, num acidente aéreo ocorrido na Espanha.

Bibliografia Geral Consultada

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SCORZA, Manuel, Bom dia para os defuntos. 3a edição. Balada 1. O que aconteceu dez anos antes de o Coronel Marruecos fundar o segundo cemitério de Chinche. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1975a.

_____________, História de Garabombo, o invisível: balada 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975b.

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VAZ, Henrique C. de Lima, S.J., “Categorias do espírito”. In: Antropologia Filosófica. 8ª edição. Volume I. São Paulo: Edições Loyola, 2006. 

* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).