Francisco Secundo da Silva Neto*

Talvez você desconheça/ que eu nasci no Ceará,/ Terra de homem valente/ etcetera e coisa e tal

Trecho da canção Caubói do Ceará de Falcão, cantor e humorista

 

O Ceará faz parte de um país continental, multiétnico, social e economicamente desigual, com uma grande parte da população mantida fora das decisões que deveriam importar a todos, culturalmente diverso, em suma, eivado de contrastes e contradições e ao mesmo tempo único e singular, uma sociedade bem diferente das outras que compõem a nuestra América Latina. Um país que se pensa a partir de um grau zero da história (Menezes, 1992), que teria nascido com a descoberta oficial portuguesa – a festa dos 500 anos comemorada em 2000 foi significativa de tal percepção.

Proponho apontar aqui algumas falas sobre um pedaço de terra que foi social e historicamente forjado no calor das contradições e diferenças entre culturas e povos que se confrontaram no processo de formação do Brasil. Um estado que para além de suas fronteiras político-administrativas é também uma abstração reificada, um espaço social e simbólico construído por crenças, narrativas, imagens e discursos ideológicos. Um lugar[1] vivido, morrido, pensado, esquecido e lembrado de diversas e, por vezes, de divergentes maneiras.

O estado do Ceará integra oficialmente a região Nordeste a partir dos anos 1940[2]. Antes, no período monárquico, o Ceará compunha as Províncias do Norte e, até o início do século XX, um discurso regionalista empreendido por frações da classe dominante daquelas antigas Províncias chamava de região Norte “a zona agroexportadora dependente do mercado de Recife, especificamente da cana – e por vezes do Algodão –, e portanto limitada ao espaço do Ceará até Sergipe” (Penna, 1992, p. 23).

Conforme Francisco de Oliveira (1985), o conceito de região pode ser compreendido sob diversos ângulos nos âmbitos econômico, social, político, cultural, antropológico, geográfico e histórico. No entanto, ele fundamenta a sua definição “na especificidade da reprodução do capital”. Para este autor, a região é delimitada ou definida através das formas assumidas pelo processo de acumulação capitalista em uma “estrutura de classes peculiar a essas formas e (…) nas formas da luta de classes e do conflito social em escala mais geral” (Oliveira, 1985, p.27). Ainda, de acordo com ele, a região inserida em um determinado espaço nacional organizado pelo sistema capitalista tende a desaparecer devido à homogeneização do território levada a cabo pelo “processo de concentração e centralização do capital”, mas esta é uma tendência que não chega a se realizar de forma completa pelo fato do processo de reprodução do capital ser por definição “desigual e combinado”.

Segundo Pierre Bourdieu (1998), etimologicamente a palavra região vem do latim regio que conduz ao princípio da di-visão, “ato mágico, propriamente social, de diacrisis que introduz por decreto uma descontinuidade decisória na continuidade natural”. A regio e as suas fronteiras (do latim fines) são o produto de uma luta pelo poder de fazer ver e crer, de conhecer e reconhecer, de impor a definição legítima do espaço regional, ou seja, do princípio de di-visão legítima do mundo social postulado por agentes sociais e seus interesses.

Durval Muniz Albuquerque Jr. (2001) compreende a região Nordeste como uma invenção, a qual se traduziu em discursos e imagens que lhe deram dizibilidade e visibilidade. Invenção, para ele, feita através de obras artísticas (literárias, cinematográficas, pictóricas, etc) e dos meios de comunicação e publicidade – “máquinas de produção de sentido e de significados”. Para o referido autor, essa “construção imagético-discursiva” sobre o Nordeste não apenas tentou representar a realidade do espaço regional, mas instituí-lo[3], instaurando assim “uma dada forma de ver e dizer a realidade”.

Penso que práticas imagético-discursivas (da literatura, do cinema, da imprensa), as quais podem instaurar uma forma legítima de ver e dizer um espaço regional, circulam e se difundem socialmente e, destarte, integram sistemas simbólicos compartilhados coletivamente, ou seja, passam a integrar o imaginário e a memória coletivos (Augé, 1998) de grupos sociais e sociedades. O Ceará, assim como o Nordeste, seja inserido no contexto sócio-histórico da reprodução do capital (Oliveira, 1985), seja produto de uma luta do mundo social (Bourdieu, 1998) ou, seja inventado e instituído por diversos discursos e imagens (Albuquerque Jr., 2001) oriundos da literatura, dos meios de comunicação e, mesmo, da política, foi e é simbolicamente coletivizado. O certo é que não se pode falar, assim, apenas de um Ceará, mas de vários.

Falar do Ceará das secas é evocar as imagens da tragédia social, da fome, das doenças, da calamidade pública, dos flagelados migrantes e do sertanejo pobre e sofrido. Obras como A Fome – Cenas da seca no Ceará (1890) de Rodolfo Teófilo (1853-1932) e O Quinze (1930) de Rachel de Queiroz (1910-2003) retratam este Ceará das secas. Segundo Frederico de Castro Neves (2000), “um fenômeno climático de irregularidade de chuvas transforma-se, por um conjunto de razões, em um fenômeno social complexo – que inclui uma série de relações sociais, políticas, econômicas e culturais”. Ainda conforme esse autor, a seca passou a fazer “parte efetiva da ordem social e da história do Ceará”. Porém, faz-se mister enfatizar, a tragédia sendo social é muito mais conseqüência de uma estrutura desigual de sociedade do que de um fenômeno climático periódico.

Falar do Ceará do sertão semi-árido e da vegetação de caatinga é evocar as imagens da terra ressequida e rachada pelo sol, do xique-xique, do mandacaru e dos vaqueiros que com seus gibões de couro enfrentam a mata espinhenta na busca dos bois fujões. O homem que lida com o gado, o vaqueiro, este trabalhador das fazendas de criação que existem no Ceará desde o século XVIII – “Em 1780 já eram 972 as fazendas” (Girão, 1953) –, passou para a história, segundo Ismael Pordeus Jr. (2003), como um dos ícones de uma cearensidade. Na exposição “Vaqueiros”, a qual se encontra por tempo indeterminado no Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza, são apresentadas imagens fotográficas de vaqueiros, as suas vestes – o gibão de couro, por exemplo –, seus utensílios, a réplica de uma típica casa sertaneja, enfim, tudo que fez parte do cotidiano do vaqueiro desde o início do povoamento do Ceará no período colonial aos dias atuais.

Falar do Ceará do mar e do litoral é evocar as imagens dos jangadeiros e de suas embarcações rústicas feitas de madeiras e velas em forma triangular, das mulheres com suas rendas de bilros, dos mares bravios e verdes, das dunas de areia e dos coqueirais. Mar, litoral, jangadas, pescadores e rendeiras que ganharam o mundo das artes nas pinturas de Raimundo Cela (1890-1954). Jangadeiros e rendeiras que, para Custódio Almeida (2003), são “lendas paradigmáticas” no masculino e no feminino que “marcam o povo cearense” e que “delas podemos traduzir muito da identidade dessa gente e compreender a imagem e a auto-imagem desse povo”. Mar e litoral que são, já há alguns anos, alvos da especulação imobiliária na construção de resorts, hotéis e parques aquáticos para o crescente comércio turístico.

Há outros Cearás para se falar? Sim, muitos: o Ceará do clima frio e agradável das serras onde se fazem festivais de teatro e de música; o Ceará do catolicismo popular, das levas de romeiros que professam a fé no Padre Cícero de Juazeiro do Norte e no São Francisco das Chagas de Canindé; o Ceará do clientelismo e do nepotismo das prefeituras municipais por todo o estado e da corrupção política que roupa até o dinheiro destinado a merenda escolar; o Ceará dos crimes de pistolagem e da violência urbana que há muito é realidade presente no cotidiano; o Ceará dos escritos poéticos de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), o Patativa do Assaré: Eu sou brasileiro, fio do Nordeste/ Sou cabra da peste, sou do Ceará; o Ceará dos Tapebas, dos Tremembés, dos Pitaguarys e de outros grupos indígenas que lutam pela demarcação e posse de suas terras e, mesmo, pelo direito de ser reconhecidos como índios; o Ceará dos shows de humor realizados todas as noites da semana em bares, pizzarias e barracas de praia de Fortaleza, os quais, junto aos meios de comunicação locais e ao governo estadual, vendem hoje a imagem/marca de um “Ceará moleque”; e tantos outros, cantados e contados por repentistas e cordelistas, artistas anônimos das feiras e das ruas.

Ainda, é oportuno indagar: haverá outras falas sobre o Ceará agora que as eleições federais e estaduais se avizinham? O certo é que será o período de discursos inflamados e cheios de promessas que irão ser ouvidos no rádio, televisão, internet, carros de som e comícios. A caça de votos já teve início. Por aqui, como no resto do país, o jogo de interesses pelo poder já vem se articulando em coligações partidárias, acordos, ajustes e desajustes: antigos aliados se tornaram adversários, velhos políticos se apresentam como novas opções, problemas da atual gestão serão realçados e soluções apresentadas. Ao eleitor resta ficar atento e cobrar, afinal, democracia não se resume a votar.

Por fim, todas as falas apontadas até aqui evocam discursos ideológicos, imagens, símbolos e representações coletivas sobre um espaço social e histórico construído no embate de grupos e classes sociais. É preciso atentar que houve e há diferenças e contradições que processaram (e ainda o fazem) essas falas sobre o Ceará. Qualquer concepção que se queira única ou legítima torna-se perigosa uma vez que solapa do raciocínio a idéia do processo conflituoso, não consensual e ideológico que marcou o processo de formação de todo o Brasil.

Logo, este Ceará, situado no espaço-tempo de uma dada realidade sócio-histórica mais ampla, foi também pensado e gestado simbolicamente, de variadas maneiras, por grupos e agentes sociais que lhe concederam forma e conteúdo. Assim, pode-se afirmar: essas falas sobre o Ceará indicam que este não é apenas é um, e sim muitos, mais precisamente, é multifacetado, complexo e contraditório.
 

Notas


[1] Compreendendo o termo lugar no seu viés antropológico como aquele “dispositivo espacial” que funda, congrega e une uma origem comum para os grupos sociais ou, de outro modo, que exprime sua “identidade”. Cf. Marc Augé, Não-Lugares – introdução a uma antropologia da supermodernidade, Campinas-SP: Papirus, 1994.

[2] A partir de estudos do IBGE foi aprovada, em 31/01/1942, através da Circular nº1 da Presidência da República, a primeira Divisão do Brasil em regiões, a saber: Norte, Nordeste, Leste, Sul e Centro-Oeste. Fonte: http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/geografia/default_div_int.shtm.

[3] Cf. Durval M. Albuquerque Jr., A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN, Editora Massangana/Cortez, 2001. Este autor baseia-se em uma análise arqueo-genealógica foulcaultiana para descrever e explicar os discursos instituintes da “idéia” de Nordeste.

Referências Bibliográficas

ALBUQUERQUE JR., Durval M. A Invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN, Editora Massangana/Cortez, 2001.

ALMEIDA, Custódio. “Ceará – Idéias” In: CARVALHO, Gilmar de (org.). Bonito pra Chover – ensaios sobre a cultura cearense. Fortaleza: Edição Demócrito Rocha, 2003.

AUGÉ, Marc. Não-Lugares – introdução a uma antropologia da supermodernidade, Campinas-SP: Papirus, 1994.

______. A Guerra dos Sonhos: exercícios de etnoficção. Campinas, SP: Papirus, 1998.

 

 BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

 

GIRÃO, Raimundo. Pequena história do Ceará. Fortaleza: Editora A. Batista Fontele, 1953.

MENEZES, E. Diatahy Bezerra de. «A Cultura Brasileira “descobre” o Brasil, ou ‘Que País é este?!’, uma pergunta à cata de resposta», Revista USP, São Paulo, n.º 12, dez.1991-fev.1992: 76-93.

NEVES, Frederico de Castro. “A seca na história do Ceará” In: SOUSA, Simone de (org.). Uma nova História do Ceará. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.

OLIVEIRA, Francisco de. Elegia para uma re(li)gião: SUDENE, Nordeste, Planejamento e conflito de classes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

PENNA, Maura. O que faz ser nordestino: identidades sociais, interesses e o “escândalo” Erundina. São Paulo: Cortez, 1992.

PORDEUS JR., Ismael de Andrade. “Cearensidade” In: CARVALHO, Gilmar de (org.). Bonito pra Chover – ensaios sobre a cultura cearense. Fortaleza: Edição Demócrito Rocha, 2003.

 

* Bacharel em Ciências Sociais pela UECE (2006) e Mestre em Sociologia pela UFC (2009).


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