Ubiracy de Souza Braga*

“Os Estados Unidos não podem resolver seus problemas sozinhos, e o mundo não pode resolver os seus sem os Estados Unidos”.

Hillary Diane Rodham Clinton

A expressão “dama de ferro” é proposital, e não se refere ao caso do imperialismo inglês com o seu prócer Margareth Hilda Thatcher, baronesa de Kesteven, título nobiliárquico, que em 1992 foi-lhe concedido pela Rainha Elizabeth II dando-lhe um lugar na câmara dos Lordes, ou mesmo pelo cargo de primeira-ministra que ocupou de 1979 a 1990. Falo sim, sobre a 67ª Secretária de Estado norte-americano, servindo na administração do presidente negro Barack Obama. Foi uma Senadora ianque de Nova Iorque de 2001 a 2009.

O Secretário de Estado dos Estados Unidos é o título concedido ao chefe do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que lida com os assuntos externos. O Secretário é um membro do Gabinete Presidencial e a mais alta classificação de um secretário do gabinete tanto na linha de sucessão quanto na ordem de precedência. O atual secretário de Estado, selecionado pelo presidente Barack Obama é Hillary Rodham Clinton. O cargo de Secretário de Estado é uma das mais altas posições no governo norte-americano. Três dos últimos quatro Secretários de Estado foram mulheres. Dois dos últimos três Secretários de Estado foram afro-americanos.

Historicamente falando, em 10 de janeiro de 1781, o Segundo Congresso Continental criou o Departamento de Assuntos Externos. Em 27 de julho de 1789, George Washington assinou um pojeto de lei congressional reautorizando um Departamento de Assuntos Externos executivo, chefiado pelo Secretário de Assuntos Externos. O Congresso então passou outra lei, dando certas responsabilidades domésticas adicionais ao novo Departamento e mudando seu nome para Departamento do Estado e o nome do chefe do departamento de Secretário de Estado, e Washington aprovou esse ato em 15 de setembro de 1789. Os novos deveres domésticos atribuídos ao recentemente renomeado departamento foram recebidos, publicação, distribuíção, e preservação das leis dos Estados Unidos, sob vigilância do Grande Selo dos Estados Unidos, autenticação de cópias e preparação de comissões de nomeações do poder executivo, e finalmente custódia dos livros, papéis e recordes do Congresso Continental, incluindo a Constituição e a Declaração de Independência.

Nos dias de hoje, como esposa do ex-presidente norte-americano Bill Clinton, controverso, amante da música e de mulheres, foi também a 44ª primeira-dama dos Estados Unidos, de 1993 a 2001. Como nativa de Illinois, Hillary Daiane Rodham atraiu, primeiramente, a atenção nacional em 1969 por seus comentários como a primeira aluna a remeter o discurso de formatura no Wellesley College. Ela embarcou na carreira de Direito após sua graduação de Faculdade de Yale em 1973. Seguindo uma tarefa como advogada legal Congressional, mudou-se para o Arkansas em 1974 e casou-se com William Jefferson Clinton em 1975. Em 1977, Rodham co-fundou o Arkansas Advocates for Children and Families. Em 1978, ela tornou-se a primeira presidente mulher do Legal Services Corporation.

Conservadora, partidária da idéia às avessas de Simone de Beauvoir no clássico “Le Deuxième Sexe” (1946), e, afetiva e historicamente falando, não fez o que Cleópatra Filopatos Nea Thea (69-30 a. C.) em seus romances com Júlio Cesar e Marco Antonio; menos ainda como a combatente francesa Joana d`Arc (1412-1431) que assumiu o comando do exército em diversa batalhas durante o reinado de Carlos VII; menos ainda o que levou às atrocidades do hobbesiano Enrique VII, torpe e defenestrado, que mandou acusar a mulher de adultério para que ela morresse decapitada; e muitos menos ainda, como Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon (1775-180), menos pelo fato de não ter nobreza em seu sangue, mas porque não pode ser considerada como A Megera de Queluz, pela sua personalidade forte e porque escolheu viver num palácio de Queluz.

Mal comparando ainda, está longe de ser uma Maria Quiteria de Jesus (1792-1853), militar brasileira, heroina da Guerra de Independência e menos ainda, a revolucionária Anita Garibaldi, Ana Maria de Jesus (1821-1849), a companheira do revolucionário Giuseppe Garibaldi, sendo conhecida como a “heroína de dois mundos”. Ou mesmo uma Olga Benario Prestes, companheira do líder comunista Luiz Carlos Prestes, de façanha ímpar no contato com o gentio mais diverso um movimento político-militar de origem tenentista, que entre 1925 e 1927 se deslocou pelo interior do país pregando reformas políticas e sociais e combatendo o governo do então presidente Arthur Bernardes e, posteriormente, de Washington Luís.

Mutatis mutandis pelo talento de Hilary Rodham como estadista, se fosse contra-revolucionária, certamente poderia ser igualada a Marie Curie, em verdade Maria Sklodowiska (1867-1934), pioneira no estudo da radioatividade  que obteve o prêmio Nobel, ou, como Margaretha Geertruda Zelle (1876-1917) quando servindo-se de sua capacidade de sedução para trabalhar como “espiã dos franceses para o governo alemão”. Um tribunal francês ordenou que fosse fuzilada, por “alta traição”, ou ainda como no caso da escritora Virginia Woolf (1882-1941), pela moradia londrina de Bloomsbury onde passaram autores como J. M. Keynes e C. M. Foster, que suicidou-se afogado por medo de distúrbios mentais – Michel Foucault chegara tarde para acudi-la com sua genealogia sobre o saber-poder.

Ou, como aquela mulher que deve constar de seu inconsciente, a brasileira, cantora e atriz que fez fama em seu país, chamada Maria do Carmo Miranda da Cunha (1909-1955), luso-brasileira  e precurssora do tropicalismo, talvez, mal comparando nos dias de hoje a uma Britney; a missionária Gonxha Agnes (1910-1997), conhecida como Tereza de Calcutá; a cantora Edith Piaf (1915-1963), que fora criada pela avó que dirigia uma casa de prostitutas; a política Evita Perón, casada com o líder populista argentino Perón, pois como mulher lutou pelos direitos civis dos trabalhadores e da mulher, tal qual La Negra, Mercedes Sosa neste país, entoando “gracias a la vida que me ha dado tanto”; ou mormente a atriz estadunidense Grace Kelly (1929-1982), cuja sina foi ter abandonado a sua carreira de cinema como estrela para casar-se em 1956, com o príncipe Rainer de Mônaco, quando posteriormente morre num acidente de trânsito quando viajava com a sua filha Estephanie de Mônaco, como na homenagem entoada na voz de Paulo Ricardo em “Olhar 43”:

“Seu corpo é fruto proibido /É a chave de todo pecado /E da libido, é prum garoto introvertido/Como eu é pura perdição/É um lago negro o seu olhar/É água turva de beber, se envenenar/Nas tuas curvas derrapar, sair da estrada,/E morrer no mar… no mar/É perigoso o seu sorriso, é um sorriso assim jocoso,/Impreciso, diria misterioso, indecifrável, riso de mulher/Não sei se é caça, ou caçadora, se é Diana ou Afrodite/Ou se é Brigitte,/Stephanie de Mônaco,/Aqui estou inteiro ao seu dispor…/Princesinha/Pobre de mim, invento rimas assim prá você/E um outro vem em cima, e você nem prá me escutar/Pois acabou, não vou rimar porra nenhuma/Agora vais sair como eu já nem quero nem saber/Se vai caber ou vão me censurar…/Será?/E prá você eu deixo apenas meu olhar 43/Aquele assim meio de lado, já saindo/Indo embora, louco por você/Que pena/Que desperdício!”.

Ou ainda, para insistirmos nesta direção, para louvar a Deusa Leila Roque Diniz (1945-1972), conhecida como “a mulher de Ipanema”, defensora do amor livre e do prazer sexual, tal como o fôra Simone de Beauvoir, são sempre lembradas como símbolo da revolução sexual feminina, que rompeu os conceitos e tabus em moda, esclarecidos in partibus infidelium pelos estudos do antropólogo francês Claude Lévi-Straus, “que não gostou da baía de Guanabara, pois achou que ela tinha uma boca banguela”… mas neste caso, por meios das idéias e atitudes de uma mulher; como também ocorrera, mal comparando, no plano obscuro da política para a mulher islâmica, Benazir Bhutto, líder do partido popular do Paquistão (1953-2007), primeira mulher que ocupou o cargo de premiê de um país muçulmano, ipso facto assassinada em plena campanha política. Mas a perda também se dá, como ocorrera com a Realeza inglesa quando a jovem e bela Diana de Gales, conhecida como a “Princesa do povo” (1961-1997), morre ao lado do namorado em um controvertido puzzle, ainda inexplicado acidente de trânsito “à la James Bond”, quando fugia supostamente da perseguição vampiresca dos chamados “paparazzi”, uma nova farsa da “notícia avant première”, enquanto indiscretos fotógrafos de celebridades.

“A Sua Excelência a Senhora Hillary Clinton
Secretária de Estado dos Estados Unidos da América

Tenho a satisfação de cumprimentá-la por sua posse como Secretária de Estado e oferecer-lhe meus calorosos votos de êxito, num momento em que as profundas transformações do sistema internacional tornam a diplomacia e o diálogo ainda mais indispensáveis. Compartilho a reiterada confiança que Vossa Excelência tem demonstrado no fortalecimento do multilateralismo e na construção de consensos, instrumentos essenciais para alcançarmos o objetivo de estabelecer uma ordem internacional mais equilibrada, inclusiva e justa.
Sua posse ocorre em momento particularmente auspicioso do relacionamento entre o Brasil e os Estados Unidos. Estou certo de que trabalharemos para desenvolver novas oportunidades de parceria bilateral e para reforçar a amizade que une nossos dois povos.
Reitero o desejo de, em breve, felicitá-la pessoalmente e de iniciar nosso trabalho conjunto em data conveniente para ambos.
Cordialmente,

Celso Amorim
Ministro das Relações Exteriores”

* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).

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