Frei Betto**

A utopia que a dominação neocolonialista disseminou no continente (latino americano) é a do american way of life, fabricada nos estúdios de Hollywood. Mas como sonhar com tão estreita porta? Como subir tantos degraus se nos faltam pernas e mãos? Seria proibitivo sonhar com um mundo onde não houvesse opressores e oprimidos e na qual as diferenças sexuais, raciais, étnicas e religiosas não instituíssem desigualdades entre pessoas?

Platão, Tomás Morus e Campanella, cada um a seu modo, sonharam com esse mundo utópico. Mas sua visibilidade histórica surgiu no século XIX com o socialismo, cujas propostas chegaram à América Latina no início do século XX. Aqui, as idéias socialistas foram difundidas pela militância de anarquistas e comunistas. Porém, não eram as doutrinas políticas e os receituários ideológicos que ressoavam no coração sequioso desse povo que busca alento em Nossa Senhora, seja ela de Guadalupe, de Aparecida, de los Angeles ou do Cobre; chamem-na de Patrona, Puríssima, Imaculada ou Mãe de Deus. Só as forças políticas que souberam incorporar os sentimentos religiosos do povo às suas propostas libertárias lograram fazer revoluções na América Latina: México (1912), Cuba (1959) e Nicarágua (1979).

Porém, dizem que agora chegamos ao “fim da história”. A única opção que resta é entre capitalismo e capitalismo. Não matam os nossos sonhos, apenas ensinam que não são abstratos nem se situam na ponta do tempo. São concretos e palpáveis, situam-se em nosso espaço e custam dinheiro. Só eles devem ser objeto de nosso desejo: um par de tênis, uma bicicleta, um carro novo, uma casa de campo, férias no exterior e conta no banco. O fim da história coincide com o advento das prateleiras. As catedrais góticas ficam agora à sombra dos shopping centers. Hoje, o sonho já não precisa ser conquistado nem exige heroísmo. Talvez um pouco de sacrifício para ser comprado. E a ascética econômica, sob promessas de glórias futuras, é especialidade do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O sonho não depende de princípios, mas de interesses. Não nos exige dignificar a função que ocupamos; ao contrário, somos considerados pela grife que portamos. Saem os ideais, entra o mercado. Em meio a tanta competitividade, fica bem falar em solidariedade, como convém tecer loas à democracia para que a maioria não desconfie que se encontra excluída das decisões e das realizações do poder.

Vitorioso o neoliberalismo no panorama mundial, o “fim da história” mostra-se, de fato, como o fim das utopias. Já não há no que crer, o que crer, como crer, exceto para consumo privado e individual. Estamos em plena crise da racionalidade moderna. O muro de Berlim ruiu, o determinismo histórico cedeu lugar ao princípio da indeterminação, a física geométrica de Newton foi suplantada pelo alucinado baile das partículas subatômicas de Planck e Heisenberg. As utopias volatilizaram-se, os paradigmas entraram em parafuso e a esperança exige, hoje, a lanterna de Diógenes[1]. Neva em nossos corações e mentes.

(…)

Na falta de horizontes, o céu é o limite. No bazar das crendices, vale tudo, do tarô ao Santo Daime, do pentecostalismo à astrologia, do I Ching aos gurus indianos. Mais do que fazer a cabeça, abalada por tantas incertezas, agora as pessoas querem fazer a alma. A matemática de Descartes cede lugar às energias cósmicas.

Há um duplo aspecto nessa onda de misticismo. De um lado, a idolatria do capital e do mercado. Já que não se pode mudar o mundo, o negócio é ganhar dinheiro e, se possível, mudar a si mesmo. Limitada a transa do corpo pelo risco da Aids, o jeito é soltar o espírito. Nessa, o divã dança. Muitos não querem nem saber as causas de seus bloqueios psíquicos. Chega de razão! Terapia é mergulhar no mistério, seja pela via dos aditivos químicos, como as drogas, seja pela via dos modismos religiosos e esotéricos que cauterizam o buraco que trazemos no centro do peito e antecipam hoje o destino de amanhã.

O outro aspecto é altamente positivo, pois todo esse fenômeno revela a insuficiência da racionalidade moderna, confirmando a tese de meu confrade São Tomás de Aquino, de que “a razão é a imperfeição da inteligência”. E recoloca, na ordem do dia, a questão da subjetividade. Deus, agora, é in. Pena que as igrejas históricas estejam tão estruturadas em seus modelos seculares, sem muitas condições de acompanhar os que mergulham rumo ao transcendente.

Ao contrário das tendências esotéricas, em geral voltadas para o próprio umbigo, o cristianismo faz do outro uma referência divina. E proclama o amor como experiência de Deus. Nessa linha, a esperança ressurge, não em torno de teorias messiânicas ou positivistas, mas centrada no concreto: como celebrar a vitória do neoliberalismo se o Leste europeu entra em processo acelerado de latino-americanização? Deus, sim, mas servido e contemplado lá onde Jesus se identifica ao reconhecer “tive fome e me destes de comer” (Mateus 25, 35-41): nos meninos e meninas de rua, nos desempregados, nos aposentados, nos enfermos, nos oprimidos. O amor como desafio místico e político. E a oração como estímulo da ação.

Se lograrmos, na arqueologia das palavras, descer do patamar das abstrações e implodir as catedrais academicistas, talvez cheguemos ao pobre como referência fundamental, mesmo porque ele é grande maioria nesse continente cujo principal produto de exportação é capital líquido para os credores do Primeiro Mundo. Então, descobriremos que as utopias devem ter raízes espirituais, base ética e ressonância política. Homens e mulheres novos como filhos do casamento de Santa Teresa de Ávila com Ernesto Che Guevara.

A porta da razão é o coração e a chave do coração, a religião como expressão litúrgica da ousadia de amar, de amar o próximo e de amar tudo o que concorre para a soberania da vida, como plenitude de fé e de festa.

* Este texto de Frei Betto, reproduzido aqui, é parte do artigo intitulado “Sabor de Utopias”, o qual foi publicado originalmente na revista Caros Amigos, ano V, nº56, novembro de 2001, p. 38-39.

**Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, é da ordem católica dos Dominicanos, escritor e assessor de movimentos sociais; é autor de livros como Batismo de Sangue, Hotel Brasil, Típicos Tipos, entre outros; e foi assessor especial da Presidência da República no governo Lula (2003-2004).


[1] Diógenes de Sínope (412 – 323 a.C.) foi um filósofo grego que andava por Atenas com uma lanterna acesa, em plena luz do dia, dizendo que procurava um homem honesto. A alusão à lanterna de Diógenes se justifica em um mundo no qual, cada vez mais, se carece de valores coletivos (Nota do editor deste blog).

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