Ubiracy de Souza Braga*

Vale lembrar que nenhum dos povos das Américas constitui uma nacionalidade multiétnica. Em todos os casos, seu processo de formação foi suficientemente violento para compelir a fusão das matrizes originais em novas unidades homogêneas. Somente o Chile, por sua formação peculiar, guarda no contingente Araucano, uma micro etnia diferenciada da nacional, historicamente reivindicante do direito de ser ela própria, ao menos como modo diferenciado de participação na sociedade nacional. Os chilenos e os paraguaios contrastam também com os outros Povos-Novos, na descrição etnográfica de Darcy Ribeiro (1968; 1983), “pela ascendência principalmente indígena de sua população e pela ausência do contingente negro escravo, bem como do sistema de plantation”, que tiveram papel tão saliente na formação dos brasileiros, dos antilhanos, dos colombianos e dos venezuelanos. Ambos conformam, por isto, juntamente com a matriz étnica original dos rio-platenses, uma variante dos Povos-Novos.

Como tem sido noticiada na chamada grande imprensa, em claro sinal de abalo emocional, os 33 mineiros isolados há mais de três semanas no interior da mina de San José, em Copiapó, no Chile, gravam um novo vídeo agradecendo às famílias pelo apoio afirmando que: “vamos lutar até o fim”. Lembra-nos peremptoriamente o filme O Germinal (1993), que é considerado “um soco no estômago”, expressão que é utilizada quando alguma obra de arte nos causa “choque e horror”, mas aqui fora do sentido de um Ingmar Bergman, como vemos no artigo “Bergman e o espelho da angústia contemporânea” (cf. Braga, 2007) ou um Alfred Hitchcock, descrito no artigo “Fábulas de Solidariedade: Neruda, Kurosawa e Hitchcok” (cf. Braga, 2008). Produzido em 1993, o filme é baseado no romance francês Germinal de Émile Édouard Charles Antoine Zola, de 1881. Num cenário de extrema miséria econômica e degradação humana, ou a chamada “degradation of work” (cf. Braverman, 1976) a obra relata a realidade concreta dos operários franceses nas minas de carvão, no final do século XIX. Com 550 metros de profundidade a mina Voreux era formada por diferentes andares. Lá, a exploração do trabalho era contínua, tal como vemos nos dias de hoje no caso chileno.

A chegada de Etienne, interpretado magistralmente por Gérard Depardieu, que em sua démarche consegue interpretar ainda com a mesma leveza e ousadia, desde um Danton – O Processo da Revolução; 1. 900; Memórias do Mal; 1 492 – A Conquista do Paraíso; Todas as Manhãs do Mundo, e neste caso, para o que nos interessa um “novo operário”, que promove importantes mudanças no cenário nas minas de carvão. O mineiro recém-chegado se espanta com a precariedade, ou, precarização, para utilizarmos expressão recente sobre as condições de trabalho e incentiva os operários a prepararem uma greve. Juntos eles percorrem as minas da região, chamando outros trabalhadores a juntarem-se ao movimento. A greve se alastra por toda a região. Porém, a Companhia ameaça fazer demissões e a fome dos trabalhadores aperta. Alguns querem voltar ao trabalho, outros decidem continuar a greve nem que para isso tenham que dar a vida.

Tudo em vão, Etienne é expulso da vila, “por ser o culpado de inculcar nos trabalhadores ideias de revoluções e esperanças”. Os mineiros retornam quietos ao trabalho. O Germinal nos demonstra as relações de exploração entre capitalistas e operários e a maturação do movimento sindical. Na França, na época da Revolução Industrial, em respostas às inúmeras formas de explorações, os operários buscaram se reunir politicamente para manifestar sua revolta e buscar seus interesses. Para tanto, era necessário juntar forças tanto no sentido social como de organização política, o que não está longe da utopia do cantor e compositor anarquista bahiano, Raul Seixas; é utopia, pois a palavra etimologicamente foi cunhada a partir dos radicais gregos ο, e τόπος, portanto, o “não-lugar” ou “lugar que não existe”, como compreendemos com a música de autoria de Raul Seixas e Claudio Roberto, O Dia em que a Terra Parou, mas que não trataremos agora.

No caso francês, do ponto de vista da análise comparada, o movimento operário se desenvolveu a partir da organização do sindicato e do partido político, tendo como objetivo defender não apenas os interesses dos associados, mas abrigar interesses de todo o operariado. Em 1868, durante o governo de Napoleão III, os operários franceses obtiveram o reconhecimento parcial de seus direitos de se organizarem legalmente, porém este aspecto de fato só veio a ocorrer em 1884 em associações e sindicatos. Em 1898, quando os socialistas e representantes progressistas da democracia burguesa, entre eles Emile Zola, Jean Jaurés, Anatole France, lançaram uma campanha a favor da revisão do caso Dreyfus (Alfred Dreyfus, 1859-1935), oficial judeu do Estado-Maior. General francês condenado à prisão perpétua em 1894. Este adquiriu um caráter político evidente, quando da campanha conduzida em sua defesa pela classe operária e pela intelectualidade progressista, que dividiu o país em dois campos: o dos republicanos e democratas, por um lado, e o bloco dos monárquicos, clericais, antissemitas e nacionalistas, por outro lado. Sob a pressão da opinião pública, em 1899, Dreyfus foi indultado e libertado; em 1906, por sentença do supremo tribunal, foi declarado inocente e reintegrado no exército. Neste sentido o livro Se Me Deixam Falar faz jus ao nome ao retratar a vida de Domitila, mulher, pobre, descendente de indígenas e esposa de um minerador, durante a ditadura militar no interior da Bolívia (Cf. Moema Viezzer, Se Me Deixam Falar. São Paulo: Símbolo, 1978).

Bibliografia geral consultada:

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Bergman e o espelho da angústia contemporânea”. Disponível em: http://dapraianet.blogspot.com/2007;

Idem,“Fabulas de Solidariedade: Neruda, Kurosawa e Hitchcok”. In: http://dapraianet.blogspot.com/2008. Max Krichanã Editor, 4.02.2008;

BRAVERMAN, Harry, Travail et capitalisme monopoliste. La dégradation du travail au XXe siècle. Paris: François Maspero, 1976;

Moema Viezzer, Se Me Deixam Falar. São Paulo: Símbolo, 1978; Berri, Claude, Germinal (idem, BEL, ITA, FRA, 170 min);

Darcy Ribeiro, O Processo Civilizatório. Etapas da Evolução Sociocultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968;

Idem, O Dilema da América Latina: estruturas de poder e forças insurgentes. Petrópolis (RJ): Vozes, 1983.

* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências da Comunicação junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).

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