Gilberto Felisberto Vasconcellos**

Não foi por acaso que (Câmara Cascudo) colocou em seu notável Dicionário do Folclore Brasileiro uma epígrafe extraída da bela prosa do padre Antônio Vieira: “É uma história nova sem nenhuma novidade, e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo”.

Neste mundo globalizado e mentalmente padronizado, onde dissipam individualidade e estilo, o que fascina no ensaio de Luís da Câmara Cascudo é o que ele mesmo fixou em seu livro Civilização e Cultura: “provinciano com os exageros do autodidatismo e a independência na conceituação específica”. É um provinciano, ou melhor, escreve na província com espantosa originalidade para revelar, em todos os aspectos da cultura brasileira, o que nela existe de outras paragens, buscando as ilhas polinésias, Tasmânia, Austrália, Ásia, além de África e Europa. Eis a distinção entre cultura e civilização: “A cultura emigra e a civilização é sedentária, estática quanto à permanência no âmbito sociogeográfico”.

Imagino-o na rua Junqueira Aires, em Natal, sentado em sua cadeira de balanço, depois de viajar mentalmente pelo mundo inteiro, sendo no estilo e pensamento um intelectual tipicamente brasileiro.

A que escola na antropologia (ele não gostava da expressão “antropologia cultural”) pertencerá nosso mestre? Ele se divertia com isso. “Um crítico uruguaiano, comentando Anubis e Outros Ensaios (1951), disse-me hiperdifusionista. Um confrade na França recordado com saudade, fazia-me exaltado paralelista. Mendes Correia estava convencido do meu funcionismo. A verdade é que não posso explicar ou compreender todos os elementos culturais pelo mesmo processo formador e comunicante”.

Dos elementos que existem em determinada cultura, assinala com seu estilo inconfundível: “Uns foram recebidos e outros autônomos, naturais, instintivos, como tossir e falar da vida alheia”.

Deveria ajoelhar no milho, por culpa e ignorância, quem disse que na obra de Luís da Câmara Cascudo não existe teoria. Basta consultar as alentadas 740 páginas de Civilização e Cultura. O leitor saboreie esta definição de folclore: “Desde que o laboratório químico, o transatlântico, o avião atômico, o parque industrial determinem projeção cultural no plano popular, acima do seu programa específico de produção e destino normais, estão incluídos no folclore”.

Encastelados nas cátedras acadêmicas, os antropólogos são useiros e vezeiros em estigmatizar o folclore como sectarismo anedótico, ou caçada ao pitoresco. Enquanto isso, lá pelo início da década de 1940, Cascudo fazia uma das mais belas dedicatórias, sendo fiel e coerente à sua investigação sobre o homo qualunque. “Aos cantadores e violeiros analfabetos e geniais, às velhas amas contadeiras de estória, maravilhosas fontes perpétuas da literatura oral, ofereço, dedico e consagro este livro que jamais hão de ler…”.

*Este texto aqui reproduzido foi originalmente publicado na revista Caros Amigos, Ano VIII, nº86, maio de 2004, p.21.

**O autor é sociólogo, escritor e jornalista.

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