Ubiracy de Souza Braga*

Francisco Everardo Oliveira Silva foi candidato a deputado federal pelo PR nas eleições deste ano com seu nome de trabalho: Tiririca. O humorista cearense, de Itapipoca, foi um dos maiores fenômenos da primeira semana de propaganda eleitoral no rádio e na televisão, tendo sido eleito com 1.300 milhões de votos. Tiririca, que ficou consagrado no Brasil com a música “Florentina” e com participações em programas de grandes emissoras de TV, reflete mais uma vez a tendência da migração de artistas para cargos eletivos, aproveitando a popularidade adquirida na carreira. Um exemplo disso deu-se, entre outros, com o estilista e apresentador de TV, Clodovil, eleito deputado federal em 2006 com aproximadamente 500 mil votos, à época, a terceira maior votação entre os postulantes à vaga.

Nas eleições de 2010, o humorista cearense teve como adversários os ex-jogadores de futebol Romário e Marcelinho Carioca, o que não é pouco em termos de popularidade. Mas, até agora, o fenômeno da propaganda eleitoral tem sido mesmo Tiririca, que apoiou Aloísio Mercadante, candidato pelo PT ao Governo do São Paulo. Este apoio, inclusive, “tem gerado uma pequena crise entre petistas e republicanos”. Faz parte da linha assumida pelo cearense um tom de sarcasmo e deboche sobre o Congresso nacional e o cargo de deputado federal, como por exemplo: “Vote no Tiririca, pior do que tá não fica!”; “Você está cansado de quem trambica? Vote no Tiririca”; “Para deputado federal. Tiririca. Vote no abestado”, entre outros. A denúncia para tornar o candidato Tiririca inelegível partiu da revista Época, associada da rede Globo de Televisão, que divulgou que “o humorista não saberia ler nem escrever”, o que configuraria caso de inelegibilidade dos analfabetos expressa na Constituição de 1988 que dispõe que o alistamento eleitoral e o voto são facultativos para os analfabetos, mas estabelece o analfabetismo como um dos critérios prevalentes para a inelegibilidade. Dois pesos e duas medidas: o analfabeto é obrigado a votar, mas não pode ser votado.

Não estamos longe de admitir, mal comparando, a analogia feita pelo esteta Bertold Brecht, que fora um destacado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX. Seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram profundamente o teatro contemporâneo, tornando-o mundialmente conhecido a partir das apresentações de sua companhia o Berliner Ensemble realizadas em Paris durante os anos 1954 e 1955. Ao final dos anos 1920 Brecht torna-se marxista, vivendo o intenso período das mobilizações da República de Weimar, desenvolvendo o seu teatro épico. Sua praxis é uma síntese dos experimentos teatrais de Erwin Piscator e Vsevolod Emilevitch Meyerhold, do conceito de “estranhamento” do formalista russo Viktor Chklovski, do teatro chinês e do teatro experimental da Rússia soviética, entre os anos 1917-1926. Seu trabalho como artista concentrou-se na crítica artística ao desenvolvimento das relações humanas no sistema capitalista.

Em seus versos sobre o analfabeto político, este sim, em sua incompletude no fazer política, ele afirma: “O pior analfabeto é o analfabeto político/ Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos/ Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,/ do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas./ O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política./ Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,/o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo./ Nada é impossível de Mudar/Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo/ E examinai, sobretudo, o que parece habitual./ Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta,/ de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,/ de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar./ Privatizado/Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar./É da empresa privada o seu passo em frente,/seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento,/ a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence”.

O humorista Ciro Botelho, redator do programa Pânico da rádio Jovem Pan, diz que escreveu sozinho o livro As piadas fantárdigas do Tiririca em 2006. A publicação é assinada só por Tiririca. Botelho diz que escreveu com base em histórias contadas por ele. “O Tiririca não sabe ler nem escrever”, afirma. Dois funcionários da TV Record também disseram a Época que nos bastidores do programa humorístico Show do Tom, do qual Tiririca participa, é sabido “que ele não lê nem escreve”. De acordo com Ciro Botelho, o palhaço conta com a ajuda da mulher para decorar suas falas: “A mulher fica no camarim com ele e vai falando o texto. Ele vai decorando e conta do jeito dele”.

A reportagem de Época acompanhou Tiririca por dois dias na semana passada. Viu o candidato dar autógrafos com uma grafia bem diferente da que aparece na declaração apresentada ao TRE, com letras redondas. Aos fãs, ele assina um rabisco circular ininteligível e desenha o que seriam as letras do nome de seu personagem. Em duas ocasiões, a reportagem deparou também com situações que demonstram que Tiririca tem, no mínimo, enorme dificuldade de leitura. No dia 21, a reportagem pediu para Tiririca ler uma mensagem de celular. Ele ficou visivelmente assustado diante do aparelho. O constrangimento do candidato só foi desfeito quando uma assessora leu o torpedo em voz alta. Minutos antes, referindo-se às críticas feitas a sua candidatura nos jornais, Tiririca dissera: “Eu não leio nada, mas minha mulher lê para mim”.

Tendo em vista matéria da Época sobre eventual falta de condição de elegibilidade (analfabetismo) do candidato a deputado federal por São Paulo, Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca, “a Procuradoria Regional Eleitoral em São Paulo esclarece que o procedimento de registro do candidato transitou em julgado em 19 de agosto e, por isso, não há possibilidade de impugnação ou desconstituição de sua candidatura neste momento”, diz a nota. Contudo, a Procuradoria Regional Eleitoral está investigando o caso e vai pedir o registro de candidatura ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo – TRE-SP, para examinar o que foi apresentado pelo candidato em relação à escolaridade. De acordo com a nota, se eleito e comprovado eventual irregularidade na documentação apresentada, há a possibilidade de recurso por inelegibilidade constitucional.

No dia 1º do mês passado, o promotor apresentou à Justiça o pedido de cassação do registro de Tiririca sob a acusação de “falsidade documental ideológica”. Também embasam a defesa de Tiririca laudos e pareceres de fonoaudiólogos e psicólogos. As opiniões dos especialistas contratados pela defesa analisam suposta dificuldade de dicção dele – e seus reflexos -, além de tratar sobre as consequências que a origem familiar teve em sua formação educacional. Além disso, o objeto do ofício da Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo à Justiça Eleitoral não é este, mas “a possível ocultação proposital de seus bens pessoais à Justiça”. O Ministério Público Eleitoral se baseou em nota publicada na coluna “Radar”, da revista “Veja”, que informou que o humorista declarou ao TSE não possuir nenhum bem, pois teria colocado todo o seu patrimônio em nome de terceiros, depois de responder a processos trabalhistas e de sua ex-mulher.

Não devemos perder de vista que o Estado – aqui representado pela Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo –, é visto menos como uma prática política que “produz efeitos de poder político”, no sentido foucaultiano do termo, e mais como um lugar que possui autonomia relativa diante da sociedade civil. Temos convicção que o Estado é, sobretudo, um conjunto de modos de impor certas decisões a certas coletividades, e é também um conjunto de práticas de pensamento. Em verdade, estamos frisando nossa discordância da ênfase atribuída ao Estado, e mesmo da particularidade das análises que propõe autonomia ao Estado, enquanto “sujeito histórico” na luta de classes, que é uma decorrência mais de instrumentação teórica. Assim, é imprescindível ao analista social considerar a análise histórica sobre a questão social desenvolvida no livro de Gisálio Cerqueira Filho, A Questão Social no Brasil – Crítica do Discurso Político, porque trata da crítica do discurso político sobre a questão social no interior de um pensamento e uma prática política essencialmente autoritária (cf. Cerqueira Filho, 1982).

Curiosamente na pesquisa empírica em jornais notei a ênfase que foi dada ao humorista como palhaço, ora o artista que o interpreta, ora o homem que sem ser palhaço, torna-se para os mass mídia que incrivelmente satanizam quaisquer pessoa como “capital da notícia”. Será que esses jornalistas se masturbam e gozam quando satanizam ou detêm determinadas pessoas em sua “alça de mira”?  É algo que, para o jovem sociólogo que deseja ir ao âmago da vida social, ao lugar das relações e dos conflitos deveria verificar, pois são e continuam sendo os que trazem ao conhecimento o que lhe é mais indispensável. Sem a sua presença, como jovens pesquisadores, acreditamos, há sempre o perigo de cedermos às tentações de grupos de intelectuais no poder, em suas formas aparentemente investigativas como Laboratórios, onde simplificadamente estudam os efeitos de poder político prestando contas públicas através dos aparelhos de Estado que os financiam. Que loucura!

Bibliografia Geral Consultada

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BRECHT, Bertold, Escritos sobre Teatro. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 1970 (volumen 1).

Idem, Über Politik und Kunst. Suhrkamp Verlag: Frankfurt am Main, 1971.

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DANTAS, Benedito Medrado, O Masculino na Mídia. Repertórios sobre Masculinidade na Propaganda Televisiva Brasileira. Dissertação de Mestrado em Psicologia Social. São Paulo: PUC – Pontifícia Universidade Católica, 1997.

*Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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