Frei Betto**

Feminismo no Brasil

Muitas mulheres brasileiras participaram ativamente da resistência à ditadura militar. Mas o primeiro grupo organizado de feministas pós-Simone de Beauvoir surgiu em São Paulo, em 1972, com Célia Sampaio, Walnice Nogueira Galvão, Betty Mindlin, Maria Malta Campos, Maria Odila Silva Dias e, mais tarde, Marta Suplicy.

Aos poucos, o tema do feminino e do feminismo passou a ocupar fóruns nacionais de debate, como ocorreu na reunião anual da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC), em Belo Horizonte, em 1975. No mesmo ano, um encontro na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio, deu origem ao Centro da Mulher Brasileira. Também no mesmo ano, em São Paulo, realizou-se o Encontro para o Diagnóstico da Mulher Paulista; surgiu o Movimento Feminino pela Anistia, liderado por Terezinha Zerbine; e foi lançado o jornal Brasil Mulher, que circulou de 1975 a março de 1980.

A imprensa feminista ganhou fôlego. Nós Mulheres circulou entre 1976 e 1978, e o jornal Mulherio, lançado em março de 1981, tornou-se leitura obrigatória das feministas por mais de cinco anos.

Entre 1970 e 1980, o movimento de mulheres centrou-se na luta pela redemocratização do país. Nas classes populares surgiram, incentivados pela Igreja Católica, clubes de mães e associações das donas de casa. Outros movimentos, sem vínculos confessionais ou partidários, brotaram pelo país afora, como a Rede Mulher, em defesa dos direitos da mulher e da ampliação da cidadania feminina. Aos poucos, delinearam-se agendas específicas, como negras, prostitutas, lésbicas, trabalhadoras rurais e urbanas, empresárias etc.

Mais de 3000 mulheres reuniram-se nos Congressos da Mulher Paulista, entre 1979 e 1981. No Rio, o 8 de março foi comemorado por encontros estaduais, de 1977 a meados da década de 1980. Em Fortaleza, em 1979, houve o I Encontro Nacional Feminista.

Feminismo sindical

Na área sindical, desde 1963 as trabalhadoras brasileiras lutam por seus direitos, pois naquele ano 415 delegadas participaram do encontro organizado pelo Pacto de Unidade Intersindical. O golpe militar de 1964 abortou esse movimento, que só veio a ressurgir em meados dos anos 1970.

Em 1979 ocorreram dois Encontros da Mulher Metalúrgica, um em São Bernardo do Campo-SP e outro na capital paulista. Elas participaram ativamente das greves de 1980, promovendo piquetes, angariando recursos ara o fundo de greve e ocupando as ruas de São Bernardo do Campo, ostentando flores contras os fuzis da ditadura.

Suas reivindicações específicas foram incorporadas às pautas de negociação. Bem como denunciados seus salários mais baixos e falta de creches. As trabalhadoras queriam também jornada de quarenta horas semanais e abono de faltas ou atrasos causados pela necessidade de levar os filhos ao médico.

No I Conclat (Congresso das Classes Trabalhadoras), em 1981, a voz feminina se fez ouvir, sobretudo com as demandas das empregadas domésticas pelo reconhecimento da profissão e a extensão dos direitos trabalhistas à sua categoria.

As trabalhadoras rurais despontaram a partir de 1979, após a greve dos 100 000 trabalhadores rurais na Zona da Mata de Pernambuco. Elas começaram a se organizar em movimentos de mulheres, sindicatos e associações, lutando contra a exploração da mão-de-obra no campo. O Movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra (MST) ajudou a impulsionar essa luta, combatendo, em sua organização e campanhas, todas as formas de discriminação à mulher.

Em 1990, realizaram-se o Seminário Nacional das Trabalhadoras Rurais e o 1º Congresso do Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Entre 1985 e 1990, as mulheres negras começam a dar visibilidade nacional às suas lutas. Em 1987, no VIII Encontro Nacional Feminista, em Garanhuns-PE, decidiu-se organizar, no ano seguinte, o 1º Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em Valença-RJ, onde se reuniram 440 mulheres de 19 Estados.

As mulheres lésbicas também começaram a se organizar para reagir ao preconceito e à violência. Formaram grupos de auto-estima, denúncias e ação política. Em 1979, surgiu em São Paulo a associação SOMOS Grupo de Afirmação Homossexual, da qual brotaram o Grupo Lésbico Feminista e o Grupo da Ação Lésbico-Feminista. Em 1999, o Rio abrigou o 5º Encontro de Lésbicas Feministas da América Latina e do Caribe.

Cada vez mais, ganhou espaço na mídia a violência contra as mulheres, sobretudo assassinatos cometidos por seus companheiros. Repercutiram nacionalmente as mortes de Ângela Diniz (RJ), Maria Regina Rocha e Eloísa Balesteros (MG) e Eliane de Gramont (SP). “Quem ama não mata”, o refrão ressoou pelo Brasil inteiro, a ponto de inspirar uma minissérie da TV Globo.

A 10 de outubro de 1980, foi criado em São Paulo o primeiro grupo de combate à violência contra a mulher, o SOS Mulher. Daí surgiram as delegacias de polícia especializadas. Inaugurou-se a primeira em São Paulo, 1985. Em 1990, já eram mais de duzentas em todo país.

Participação política

As eleições diretas para governadores, em 1982, mobilizaram as feministas em defesa da cidadania e pela implementação de políticas públicas para as mulheres. A vitória do PMDB, em 1983, em Minas e São Paulo levou à criação dos primeiros Conselhos Estaduais da Condição Feminina. Pressionado pelos movimentos de mulheres, o presidente Sarney propôs ao Congresso a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), aprovado em 1985. Vinculado ao Ministério da Justiça, exerceu positiva atuação na Constituinte de 1988. Mas em 1989 o presidente Collor acabou com a autonomia financeira e administrativa do órgão, que passou a depender da boa vontade do Ministério da Justiça.

Na ECO 1992, no Rio, as mulheres participaram do Fórum das ONGs com o planeta fêmea, do qual saiu a Agenda 21 das Mulheres. Seguiram-se as conferências sobre Direitos Humanos (Viena, 1993) e sobre População e Desenvolvimento (Cairo, 1994), que trataram de temas específicos da agenda feminista. Esse processo resultou na realização da IV Conferência Mundial da Mulher, em Pequim, em 1995.

Vários países já foram e são governados por mulheres. Helen Clark foi chefe de governo (primeira-ministra) da Nova Zelândia de 1999 a 2008. Gloria Arroyo presidiu as Filipinas de 2001 a junho de 2010. Chandrika Kumaratunga presidiu o Sri-Lanka de 1994 a 2005. Tarja Halonen é presidente da Finlândia desde 2000. Mary McAleese é presidente da Irlanda desde 1997. Vaira Vike-Freiberga foi primeira-ministra da Letônia entre 1999 e 2007. Mireya Moscoso foi presidente do Panamá de 1999 a 2004. Hasina Wazed é chefe de governo de Bangladesh desde 1996. Megawati Sukarnoputri foi presidente da Indonésia entre 2001 e 2004. No Chile, Michelle Bachelet presidiu o país de 2006 até março deste ano de 2010. Hoje, na Alemanha, Angela Merkel é a chanceler do governo desde 2005; na Argentina, Cristina Kirchner governa o país desde 2007; e no Brasil, Dilma Roussef do PT é a presidente eleita para os próximos 4 anos de governo.***

Desafios

A partir de 1977, o movimento feminista fragmentou-se em diversas tendências, algumas mais voltadas para a discriminalização do aborto, outras centradas na isonomia profissional com os homens. Muitas mulheres, após conquistar postos de trabalho antes ocupados exclusivamente pelos homens, lograram também assumir funções políticas de mando.

A crise da família faz com que muitas exerçam o papel de chefe de família, como ocorre, hoje, com 30 por cento das mulheres latino-americanas, sobretudo as mais pobres.

Há, contudo, um terreno diante do qual o feminismo parece calar-se: o uso da mulher na publicidade e, em especial, no mundo da moda. A mulher é flagrantemente utilizada como isca de consumo, realçando-se seus atributos físicos de modo a reificá-la, ou seja, estabelecer uma relação direta entre o produto e a mulher, alvos do desejo libidinoso. Na esfera da moda, ela é condenada à anorexia, favorecendo uma nova exclusão sociocultural: a das gordas e feias, idosas e maltratadas pela carência.

Essa mulher-objeto, fruto da manipulação estética de academias de ginástica, produtos dietéticos e medicina especializada, é desprovida de sentimentos, ideias, valores e projetos. Vale unicamente pelo aspecto físico.  Saber requebrar na dança é mais importante do que saber pensar, e a ausência de gorduras e celulites importa mais que as qualidades morais e intelectuais.

Nos programas de televisão, sobretudo humorísticos, o papel da mulher é quase sempre o de notória imbecil, reforçando o machismo e favorecendo a violência contra ela, seja a física, seja a moral, mais comum, do homem que se recusa ao diálogo, não admite críticas e sente-se no direito de ditar normas de comportamento.

O que é espantoso é a cumplicidade de tantas mulheres com essa imagem que as deprecia e alarga a distância entre ética e estética, amor e sexualidade, subjetividade e glamourização dos atributos físicos.

A marca do batom é vermelha, cor das bandeiras libertárias e, também, do sangue injustamente derramado pela opressão.

* Este texto de Frei Betto, reproduzido aqui, é a segunda parte de um artigo intitulado “Marcas de Batom”, o qual foi publicado originalmente na revista Caros Amigos, ano V, nº54, setembro de 2001, p. 16-17.

**Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, é da ordem católica dos Dominicanos, escritor e assessor de movimentos sociais; é autor de livros como Batismo de Sangue, Hotel Brasil, Típicos Tipos, entre outros; e foi assessor especial da Presidência da República no governo Lula (2003-2004).

***O referido parágrafo foi atualizado pelo editor.

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