Antônio Ozaí da Silva**

Há os que escrevem livros que os imortalizam; outros escrevem diários que são esquecidos, como as memórias olvidadas no recôndito da consciência. Alguns escrevem por prazer, outros pela obrigação curricular – a pressão do Curriculum Lattes! Uns se dirigem aos leitores imaginários, outros querem apenas aumentar a folha corrida. Não faço julgamento moral, pois somos pressionados pela competição e a ideologia produtivista. Mas não é preciso agir à maneira faustiana dos que vendem a alma pelas conquistas materiais e títulos que não os acompanharão ao fim inexorável.

Há os escritores elitistas que se imaginam gênios em suas torres de marfim; pensam encarnar a verdade e o mundo se reduz ao próprio umbigo. Escrevem como se a realidade, o mundo material, não existisse, mas apenas os conceitos, as categorias universais, o mundo do intelecto. Outros evitam escrever artigos, pois os consideram efêmeros e supõem que os livros eternizam.

Há, ainda, os maquiavéis modernos que escrevem como conselheiros do príncipe de plantão, na ilusão de que este, ou quem sabe os seus assessores mais próximos, o leiam. Alguns escrevem palavras que anunciam utopias; discursos, muitas vezes, encharcados de um dogmatismo intolerante, próprio dos que querem salvar o mundo e as almas, não importa qual o meio. Almejam transformar o mundo, mas são prisioneiros dos dogmas.

Para mim, escrever é um estímulo à leitura e à dúvida permanente; é um momento para organizar o pensamento e dialogar com os autores que leio. Ler e escrever são recompensadores pela descoberta incessante de que as certezas não são eternas e que as incertezas alimentam a mente, na medida em que nos inspira a percorrer outros caminhos, a perguntar-se e buscar respostas que geram outras dúvidas e assim por diante… Escrever é também se expor, arriscar-se.

Como afirmei em outro momento[1], escrever é conversar consigo mesmo e com os outros; é organizar idéias e abrir a mente ao diálogo com o “feito”, o “falado” e o que os olhos e os ouvidos nos transmitem. Devemos estar abertos a aprender com a própria experiência. Escrever sobre o que lemos, ouvimos e vivemos, é também uma forma de aprofundar este aprendizado. Esta disposição ao diálogo, a aprender com o mundo e os que vivem no mundo, é fundamental a quem se propõe a ensinar. O educador precisa ser educado e este processo é permanente.

Confesso, porém, que me alegra saber que há leitores interessados no que escrevo. E sempre vale a pena, ainda que sejam poucos. Não espero a imortalidade através da escrita, mas me sinto bem ao saber que o meu esforço para ler e escrever pode contribuir para despertar o interesse deste ou daquele jovem estudante, das minhas filhas e de muitos que conheço apenas por email. E, no final das contas, a imortalidade é uma ilusão, já que, de qualquer forma, estarei morto.

Não escrevo com a pretensão de transformar o mundo através das palavras; estas só são eficazes quando materializadas em força política – e não milito em partidos nem me sinto na obrigação de reverenciar grupos políticos. Não pretendo fazer a cabeça de ninguém. É suficiente que a leitura e a escrita me transforme. Então, poderei aprender a ser melhor enquanto indivíduo que atua na sociedade, como pai, professor, etc. Se me aperfeiçôo ao ler e escrever, isto também influencia o cotidiano e o meu modo de ser e viver. Assim posso contribuir mais e melhor com os que convivo. E isso também me ensina que sempre há algo a aprender com eles…

Assumo, por fim, que sou apaixonado pelas palavras. E estas não são neutras, estão carregados de sentidos políticos. Talvez este seja o mistério que envolve escritor e leitor. Só me resta agradecer a você por dedicar o seu precioso tempo a ler este blog.

*Este texto foi originalmente postado no Blog do Ozaí em 31/07/2010. Conferir:

http://antoniozai.wordpress.com/2010/07/31/por-que-escrevo/

**Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).