Ubiracy de Souza Braga*

Gérad Xavier Marcel Depardieu nasceu em Chateauxroux Berr, França em 1948. De origens humildes, fugiu de casa aos 13 anos e teve a juventude marcada pela delinquência juvenil. Durante a adolescência uma assistente social convenceu-o a seguir a carreira de ator. Estudou arte dramática no Theatre National Populaire e, em 1965, começou a atuar em peças de teatro e filmes. Nos anos 1980, consolidou-se como uma das estrelas mais brilhantes do cinema gaulês. No ano 50 a. C. a Gália é ocupada pelos romanos.

Mas, a pequena vila de Asterix e seus amigos ainda resiste, com a ajuda de uma poção mágica, que lhes dá uma força sobre-humana. Desesperado para descobrir a poção secreta dos gauleses, um centenário romano passa a espionar a vila. O objetivo é se tornar invencível e acabar com qualquer obstáculo entre ele e o trono de César. Mas, Panoramix, o druida da vila prepara uma poção especial a ele. Nosso herói Asterix dá a ele a mistura: um tônico poderoso que faz seu cabelo crescer, crescer…”.

Depardieu especializou-se como artista em personagens que, por trás de uma fachada de dureza, como um diamante, escondem um “coração terno”, daí a singela analogia com os diamantes. Sua fisionomia peculiar permitiu-lhe interpretar o personagem título no filme “Cyrano” (1990). Outros trabalhos respectivamente são: “1900” (1976), onde o filme representa uma retrospectiva histórica da Itália desde o início do século 20 até o fim da Segunda Guerra Mundial, focando as vidas de duas pessoas: Olmo (Gérard Depardieu), filho bastardo de camponeses, e Alfredo (Robert De Niro), herdeiro de uma rica família de latifundiários. Apesar da amizade desde a infância, a origem social fala mais alto e os coloca em polos política e ideologicamente antagônicos. O pano de fundo é o intenso cenário político da época, com o fortalecimento do fascismo e, em oposição, as lutas trabalhistas ligadas ao socialismo.

“Danton” (1983) tem como bacground retratar os últimos meses de Georges Danton, um dos líderes da Revolução classe Francesa. É uma adaptação do polonês The Case Danton por Stanislawa Przybyszewska. Já em “Jean de Florette”(1986), temos a primeira parte de uma história que se passa na zona rural francesa nos anos 1920, onde os Soubeyran propõem a Pique-Bouffige, dono de uma nascente abandonada, vender-lhes a terra, mas este se recusa e sofre um acidente mortal durante a briga que se sucede. Desnecessário dizer que em “1492, Christophe Colombs” ou “1942 Conquest of Paradise” (1992), é um filme que retrata o explorador colonizador, e navegador, nascido na República de Gênova, no noroeste da Itália que sob os auspícios dos reis católicos de Espanha, completou quatro viagens por todo o Oceano Atlântico, que levou a consciência europeia geral do continente americano no hemisfério ocidental.

“Green Card” é uma comédia romântica escrita em 1990, mas produzido e dirigido por Peter Weir e estrelado por Gérard Depardieu e Andie MacDowell. Vistos são permissões temporárias enquanto o green card é o único tipo de visto que é permanente (de residência) nos EUA. O roteiro se concentra no estereótipo da mulher norte-americana que entra em um casamento de conveniência com um francês para que ele possa obter um green card e permanecer no Estados Unidos. Em 1992 vive uma história de amor com a top-model Karine Sylla com a qual tem uma filha, Roxane Depardieu. Em 1996 divorcia-se oficialmente da sua esposa Elisabeth e começa uma relação íntima com a atriz Carole Bouquet com quem casa dois anos depois. A sua história com Carole Bouquet dura sete anos. A partir de 2005 ele vive com Clémentine Igou, antiga estudante de literatura da universidade de Harvard, romancista franco-americana de 28 anos e responsável pelo marketing de uma propriedade vinícola do ator na Toscana.

Com origens humildes, demograficamente falando, é filho de um operário metalúrgico e fugira de casa aos treze anos de idade.  Após uma juventude delinquente, acaba sendo é encaminhado por uma assistente social para trabalhar no teatro, iniciando-se no grupo Café de la Gare,  36 Avenue de La Gare, 33220 Sainte-Foy-la-Grande, onde conhece Patrick Dewaere e Miou-Miou. Estreia no cinema, ainda adolescente, com a curta-metragem Le beatnik et le minet,  que “est un court-métrage de Roger Leenhardt, sorti en 1967”. Depois de atuar em “pequenos” papéis, populariza-se em Os Corações Loucos (1974), uma espécie de “easy rider” em que sem se importar com qualquer convenção estabelecida pela sociedade, dois jovens passam o tempo perambulando pela cidade, molestando mulheres e praticando assaltos, entre outros crimes. Na década de 1980 consolida-se como um dos mais importantes atores franceses. Foram-lhe atribuídas duas vezes o prémio César, que representa o prémio anual do cinema francês e privilegia as produções europeias, apesar de muitos filmes de Hollywood já terem sido premiados. Mas as gerações mais novas associam-no a Obelix, personagem supracitado que desempenhou em dois filmes: Astérix et Obélix Contre César (1999) e Astérix & Obélix: Mission Cléopâtre ( 2002).

Portanto, a cerimônia de premiação acontece no Teatro do Châtelet, em Paris, e também é conhecida como La Nuit de Césars. Duas categorias são as mais importantes: a de Meilleur Film Français de l’année e a de Meilleur Film Étranger, pelas suas extraordinárias interpretações em Le dernier métro (1980) e Cyrano (1990). O último valeu-lhe igualmente a nomeação ao Oscar de Melhor Ator Estrangeiro. O seu porte físico favorece igualmente, como no caso do paraibano Jô Soares, seja na interpretação humorística em “Viva o Gordo”, ou em seu programa noturno de entrevistas,  com a sua interpretação do herói dos quadrinhos Obélix em Astérix e Obélix Contra César, adaptação para o cinema da obra de René Goscinny e Albert Uderzo.

O filme teve um enorme sucesso de bilheteria na França e de resto no mundo ocidental, tendo sua continuidade em 2002 por Astérix & Obélix: Missão Cleópatra. Uderzo conhece Goscinny em 1951. Assim, Goscinny e Uderzo tornam-se grandes amigos, e decidem trabalhar juntos em 1952, na delegação de Paris da empresa belga World Press. Os seus primeiros trabalhos foram Oumpah-pah, Jehan Pistolet e Luc Junior. Humpá-Pá, no original Oumpah-pah le Peau-Rouge é uma série de banda desenhada criada por Uderzo & Goscinny, mais conhecidos como os criadores de Asterix. A série apareceu pela primeira vez no Le Journal de Tintin a 2 de Abril de 1958. As histórias foram publicadas em forma de livro pela Lombard e pela Dargaud a partir de 1961. Em 1995, a série foi reeditada pela editora de Albert Uderzo, Les Éditions Albert-René.

Melhor dizendo, em 1958, as aventuras de Oumpah-pah são adaptadas, e publicadas na revista Tintim, até 1962, já que em 1959, Goscinny torna-se Editor, e Uderzo diretor artístico, da revista de banda desenhada para crianças, Pilote, criada em 29 de outubro. A edição inicial da revista publica, pela primeira vez, Asterix, e é um sucesso em França. Paralelamente, Uderzo também trabalhou com Jean-Michel Charlier, na série Michel Tanguy, mais tarde chamada de As Aventuras de Tanguy e Laverdure, onde as histórias revolvem em torno de dois pilotos, inicialmente da Força Aérea Francesa, mas que são expulsos, e passam a voar missões pouco ortodoxas, muitas vezes para ser questionáveis mesmo.

O cinema francês anda mudando muito nestas décadas posteriores ao “Flower Power” que foi um slogan usado pelos hippies dos anos 1960 até o começo dos anos 1970 como um símbolo “da ideologia da não violência e de repúdio à Guerra do Vietnã”. O termo foi utilizado pela primeira vez pelo poeta Allen Ginsberg em 1965. Desde então ele é frequentemente utilizado para se referir aos anos 1960, inclusive em filmes, programas de TV e documentários, etc. E para melhor. Parece que os franceses entenderam que não precisam ser tão profundos o tempo todo, como em Le Dernier Tango à Paris (1972) que é um drama erótico franco-italiano, dirigido por Bernardo Bertolucci e estrelado por Marlon Brando e a então desconhecida, mas maravilhosa, Maria Schneider. Considerado uma obra-prima cinematográfica e um sucesso de bilheteria mundial, a violência sexual e o caos emocional do filme levaram a uma grande polêmica internacional sobre ele, que provocou vários níveis de censura governamental, obviamente conservadora e avessa às mudanças culturais que ao redor do mundo se tinha como sobrevivência.

No caso da démarche de Gerad Depardieu, gradualmente tornou-se numa das primeiras figuras do cinema francês, algo inusitado para um ator que “fugia aos cânones definidos para o típico galã”, devido ao seu porte físico. Assim, após ter protagonizado juntamente com Robert de Niro o épico 1900 (1976), de Bernardo Bertolucci, em que os críticos de cinema Luiz Zanin Oricchio e Antonio Gonçalves Filho de O Estado de S. Paulo admitem que a história da recepção brasileira de 1900 (cf. Novecento, 1976), é no mínimo curiosa. O filme, concebido com oito horas de duração, chegou mutilado pelos produtores. Além disso, veio em duas partes, que estrearam em épocas diferentes. Havia outro fator contra. Como o Brasil vivia sob a ditadura militar golpista iniciada em 1964 e finda em 1984, a censura incumbiu-se de “picotar ainda mais a obra”. Alguns críticos falam também da baixa qualidade das cópias que os laboratórios entregaram. O baixo nível da maior parte das salas de exibição da época fez o resto do serviço.

Mesmo assim, para sermos breves, uma boa parte dos críticos de cinema apontou falhas graves no épico do diretor. Cinema é assim: acusaram-no de “simplismo político e maniqueísmo”. Ou, uma visão superficial, que fazia de camponeses heróis sem mácula e de proprietários, perversos dignos de “Belzebu”. Certo, admitiam a fotografia superlativa de Vittorio Storaro. Viam também qualidades num elenco que incluía Gérard Depardieu, Robert De Niro, Donald Sutherland, Burt Lancaster, Sterling Hayden, Dominique Sanda, Stefania Sandrelli entre outros. Mas nem toda essa galáxia podia salvar a epopeia do desastre. Ou, pelo menos, da relativa decepção que provocou em sua estreia. Portanto, como vemos, Gérard Depardieu liderou alguns dos títulos mais bem sucedidos do cinema francês dos anos 1970 e 1980, como: Barocco (1976), Mon Oncle d` Amérique, 1980), Loulou (1980), Le Dernier Métro (1980), Le Choix des Armes (1981), Danton (1983), Les Compères (1983), Jean de Florette (1986), Sous le Soleil de Satan e Camille Claudel, entre outros, tendo neste caso, surpreendido os cinéfilos com a sua vigorosa recriação de Auguste Rodin.

Em 1990, a via da carreira internacional abrira-se finalmente a Depardieu por aquela que unanimemente é reconhecida como “a maior interpretação da sua carreira”, a do poeta espadachim de nariz grande e palavras fluentes em Cyrano de Bergerac (1990). Vale lembrar que Cyrano de Bergerac é uma peça de teatro escrita em 1897, por Edmond Rostand, baseada na vida de Hector Savinien de Cyrano de Bergerac, escritor francês. Portanto, considerado como o grande favorito na Noite dos Oscars, teria vencido o galardão, caso nos dias anteriores não tivessem surgidos nos tabloides americanos sensacionalistas notícias de que Depardieu “teria sido preso por violação na sua juventude”. Ou seja, a revista americana “Star” em sua capa, por exemplo, adora noticiar um suposto escândalo sobre a vida sexual do casal mais famoso de Hollywood: “A verdade sobre o triângulo amoroso de Brad, Angelina e uma modelo da Victoria’s Secret”, por exemplo.

A publicação afirma que a modelo tcheca Karolina Kurkova, 23 anos, era o “recheio no bolinho Brad Pitt/Angelina Jolie”, ou “sanduíche de gente” como dizia a cantora Rita Lee. De acordo com a “Star”, uma revista que se tornou popular “como tabloide de supermercado com histórias sensacionalistas”, Kurkova é “volúvel e se comporta como uma garota de colégio” na hora de falar sobre o “ménage à trois” com Pitt e Jolie. Um membro do mundo fashion ligada à modelo desmente essa fofoca. Kurkova teria confidenciado a essa “fonte” que nunca fez sexo a três com o casal e que nem mesmo os conhece. Os boatos sobre o triângulo entre Angelina, Brad e Kurkova não vêm de hoje. Começaram no jornal New York Daily News no começo de abril próximo passado e depois se espalharam pelos tabloides americanos. Até agora, ninguém conseguiu comprovar nada. Este não é o primeiro escândalo sexual que envolve Angelina. A atriz virou notícia quando “a modelo oriental Jenny Shimizu se apresentou como a amante lésbica de Jolie”.

Assim sendo, o Oscar para Melhor Ator Principal foi atribuído a Jeremy Irons. A carreira de Depardieu em Hollywood não foi das mais frutíferas, talvez devido às dificuldades do ator em falar fluentemente a língua inglesa, melhor dizendo, na “nação fast food” do cinema, pois é de lá que vem um sanduíche que se tornou um grande sucesso de vendas. Ainda assim, participou em Green Card (Casamento por Conveniência, 1990), recriou Cristóvão Colombo, em 1492: Conquest of Paradise (1992), foi Reynaldo, em Hamlet (1996), e quem não quer, lendo Shakespeare, interpretar a existência insuportável desde que o espectro do seu pai recentemente morto apareceu-lhe numa noite assombrada no alto da torre do castelo? E para o que nos interessa é “um envelhecido Porthos”, em The Man in the Iron Mask (O Homem da Máscara de Ferro, 1998) onde a ironia da chamada “indústria cultural” faz-nos crer ainda que considerado um fracasso de crítica, o “filme é notável por encerrar um período de seis meses em que Titanic esteve no topo da bilheteria dos Estados Unidos”.

Sob sua direção, produziu e interpretou algumas “séries televisivas de luxo” como Le Comte de Monte Cristo (O Conde de 1998), onde fez par romântico com Ornella Muti; Les Misérables (2000), com John Malkovich no papel de Javert, e Napoléon (Napoleão, 2002), com Christian Clavier no papel principal. Protagonizou um dos êxitos comerciais mais recentes do cinema francês: Vidocq (2001). Paris, 1830. Às vésperas de uma segunda revolução, a capital está em rebuliço e o barulho da revolta só cresce. Carlos X acaba de abdicar. Vidocq interpretado por Gérard Depardieu, o chefe da segurança nacional, persegue uma estranha criatura conhecida como O Alquimista ­ a qual se supõe, “é responsável por uma série de crimes e raptos”. Quando finalmente encontra o inimigo Vidocq é vencido e, horrorizado ao descobrir o verdadeiro rosto do Alquimista, joga-se num poço em chamas. Etienne (Guillaume Canet), um jornalista que pretendia escrever um livro sobre Vidocq, passa então a seguir os últimos passos de seu personagem e acaba tendo surpreendentes revelações em sua viagem ao submundo de Paris, ao invés da Paris benjaminiana como “século das Luzes”.

Desgraçadamente, mutatis mutandis, o filho do ator Gerard Depardieu morreu em 13 de outubro de 2008, vítima de uma pneumonia fulminante, informou a agência artística Artmedia, que tratam dos assuntos do pai & filho, ambos os atores. Guillaume Depardieu, comediante de 37 anos, foi internado há alguns dias, nos arredores de Paris, em um hospital de Garches. Filho de Gérard e Elisabeth Depardieu e irmão de Julie, que também é atriz, Guillaume acompanhou o pai nos sets de filmagem desde pequeno. Sua carreira no cinema começou com o filme “Todas as Manhãs do Mundo”, de 1991. A produtora Josée Dayan, que trabalhou com o ator e é amiga da família, declarou-se “absolutamente triste” e relembrou a memória do “ator mais talentoso de sua geração”:

 “Era um amigo e eu o amava infinitamente. Era um tipo formidável, um imenso ator. Falei com ele por telefone há três dias, ele chegava de uma filmagem na Romênia, falamos de projetos, de filmes por fazer, ele preparava um disco”, disse ela à RTL. “Também penso em sua família. É terrível. Guillaume era como meu irmão mais novo”, acrescentou. “Em 1995, Guillaume foi premiado com um César por sua interpretação no filme Os Aprendizes, de Pierre Salvadori”.

No entanto, sua vida também teve momentos difíceis. Ele sofreu um grave acidente de carro que gerou uma infecção hospitalar e fez com que tivesse de amputar a perna do joelho para baixo, em 2003. O artista criou a fundação “Guillaume Depardieu” para ajudar as vítimas de infecções contraídas dentro de hospitais. Depardieu, conhecido por seu talento e pelas disputas judiciais, publicou em 2003 um livro intitulado “Todo dado”, no qual conta sua vida em entrevistas a Marc-Olivier Fogiel.

Last but not least o filme O Germinal (1993), é um “soco no estômago”, expressão que é utilizada quando alguma obra de arte nos causa “choque e horror”, mas aqui fora do sentido de um Alfred Hitchcock ou Ingmar Bergman. Produzido em 1993, o filme é baseado no romance francês Germinal, de Émile Édouard Charles Antoine Zola, de 1881. Num cenário de extrema miséria econômica e degradação humana, ou a chamada “the degradation of work” (cf. Braverman, 1976; 1977) a obra relata a realidade dos operários franceses nas minas de carvão, no final do século XIX. Com 550 metros de profundidade a mina Voreux era formada por diferentes andares. Lá, a exploração do trabalho era continua.

A chegada de monsieur Etienne, interpretado magistralmente por Gerard Depardieu, um “novo operário”, promove importantes mudanças no cenário nas minas de carvão. O mineiro recém-chegado se espanta com a precariedade, ou, precarização, para utilizarmos expressão recente sobre as condições de trabalho e incentiva os operários a prepararem uma greve. Juntos eles percorrem as minas da região, chamando outros trabalhadores a juntarem-se ao movimento. A greve se alastra por toda a região. Porém, a Companhia ameaça fazer demissões e a fome dos trabalhadores aperta. Alguns querem voltar ao trabalho, e outros decidem continuar a greve nem que para isso tenham que dar a vida.

Tudo em vão, Etienne é expulso da vila, por ser o culpado de inculcar nos trabalhadores ideias de revoluções e esperanças. Os mineiros retornam quietos ao trabalho. O Germinal nos demonstra as relações de exploração entre capitalistas e operários e a maturação do movimento sindical. Na França, na época da Revolução Industrial, em respostas as inúmeras formas de explorações, os operários buscaram se reunir politicamente para manifestar sua revolta e buscar seus interesses. Para tanto, era necessário juntar forças tanto no sentido social como de organização política.

Enfim, quando Chabrol despontou com “Nas Garras do Vício” a revista Cahiers du Cinéma comparou o estreante ao grande mestre Alfred Hitchcock: “que importa se não conseguimos abrir todas as portas? O importante é nos deixarmos conduzir por ele pelos caminhos do sonho”. Se em diversos filmes de Claude Chabrol o mistério residia em algum movimento da mise en scène, hoje entendido como “um plano sequência”, geralmente, que elucida mais do que vemos: um interesse oculto, em Nas Garras do Vício o mistério é o de corpo presente. Enfim, desde o início, Chabrol estrutura o retorno à pergunta e ao desejo de se saber o que houve com Serge. Logo, temos este mistério à carne dos olhos e que, por isso mesmo, ao ser descoberto, deixa de ser um mistério maior para dar lugar à verdadeira jornada do filme: aquela que diz respeito ao personagem de Jean-Claude Brialy, François, que retorna à cidade como um estranho, como alguém que, de certo modo, jamais poderá fazer parte de todos os movimentos que não pôde captar em sua ausência. É um mundo que se fecha e que, nem com o nascimento de um filho, ao final, se resolve e se conserta. O rosto de Serge, sendo desfocado por Chabrol, é a prova desse (des) ajuste, ou, um milagre ao contrário.

Bibliografia e filmografia geral consultada:

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Fabulas de Solidariedade: Neruda, Kurosawa e Hitchcok”. In: www.dapraianet.blogspot.com. Max Krichanã Editor, 4 de fevereiro de 2008; Idem, “O Maravilhoso (e misterioso) em Krzystof Kieślowski”. Disponível em: http://cienciasocialceará.blogspot.com/2011/06; Idem, “Marx e a Análise Política da Formação da classe média na Europa”. In: http://www.oreconcavo.com.br/2011/07/03; ABEL, T., “La operación llamada Verstehen”. In: HOROWITZ, I. L, Historia y elementos de la sociologia del conocimiento. Buenos Aires: Eudeba, 1964. Sobre “Gérard Depardieu” consulte: Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2011. Disponível em: http://www.infopedia.pt/gerard-depardieu; BRAUDEL, Fernand, “Histoire et sciences sociales: la longue durée”. In: Annales (Économies, Societés, Civilisations), vol. 13, n° 4, 1958; BRAVERMAN, Harry, Travail et capitalisme monopoliste. La dégradation du travail au XXe siècle. Paris: François Maspero, 1976; Idem, Trabalho e Capital Monopolista. A Degradação do Trabalho no Século XX. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977; Filmes: Andrej Wadja, Danton – O Processo da Revolução (Danton, FRA, 1982); Krzystof Kieslovski, A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, FRA/POL, 1993); Idem, A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc, FRA/POL, 1994); Idem, A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge, FRA/POL/SUI, 1994); Idem, A Dupla Vida de Veronique (La Double Vie de Véronique, POL/FRAN/NOR, 1991); BARILE, G., “Le due anime del concettualle”. In: Tra presenza e assenza – due ipotesi per l`età postmoderna. Milão: Studi Bompiani, 1981; AUGÉ, Marc, Pour une anthropologie des mondes contemporains. Paris: Aubier, 1994, entre outros.

*Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).