Francisco Secundo Neto*

“E que você descubra que rir é bom,

Mas que rir de tudo é desespero”

Trecho da canção Amor Pra Recomeçar de Frejat

O ator escocês Sean Conery, numa entrevista à revista americana Playboy, nos anos 1960, declarou que a mulher, em certas ocasiões, merece apanhar. Naquela época o ator fazia sucesso mundial interpretando o personagem James Bond e teve depois que se explicar melhor e, mesmo, pedir desculpas, alegando que não teria sido bem isso o que queria ter dito. À época, os anos 1960, na Europa e em boa parte do mundo, a “revolução sexual feminina” questionava o machismo próprio das sociedades formadas sob a influência das religiões patriarcais, como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Tal declaração não fora, com certeza, adequada à sua época, e continua não sendo hoje.

O humorista Rafinha Bastos, ex-integrante do programa humorístico CQC da TV Bandeirantes de São Paulo, recentemente, fez piadas no seu show de humor do tipo “toda mulher feia, violentada sexualmente, devia agradecer ao agressor” e, no referido programa televisivo, ao se referir à gravidez da cantora Wanessa Camargo declarou que “comia ela e o bebê”. O humorista ainda está envolvido em outras polêmicas devido ao humor que pratica. Numa sociedade e em uma época nas quais o combate aos preconceitos e à violência à mulher como, também, o repúdio à pedofilia estão em voga, tais piadas não são, de modo algum, aceitas ou bem vistas. As consequências imediatas de tais polêmicas piadas foram a demissão do humorista da TV Bandeirantes, processos judiciais e uma espécie de campanha contra o Rafinha Bastos, propalada na internet e noutros meios de comunicação.

É possível rir de tudo? Não. Não rimos de tudo, não achamos engraçado todo e qualquer acontecimento ou pessoa. Não caiamos num relativismo ingênuo, o qual diria “depende do ponto de vista”. Na verdade, o que é aceito ou não como risível numa sociedade, ou melhor, numa configuração social de indivíduos inter-relacionados, estará sempre sujeito à mudança. O que antes era engraçado em uma sociedade historicamente situada, em outro tempo pode não ser mais, porém, o crivo ou as sanções são sempre sociais.

É necessário sublinhar, contudo, que o humor e o riso são fenômenos humanos diferentes. O riso pode ser um efeito esperado do humor, e este pode ser entendido como uma espécie do cômico, mas não são definitivamente termos sinônimos. Na perspectiva psicanalítica, o humor se situa como um fenômeno especificamente humano e dependente do discurso; o riso, por seu turno, pode ser uma “descarga catártica gerada por contágio social” (PEREDA, 2005).

Na perspectiva freudiana, O humor é um meio de obter prazer apesar dos “afetos dolorosos” que interferem com ele, atuando como um substitutivo para a geração destes, colocando-se no lugar deles. O prazer do humor revela-se ao custo de uma liberação de afeto que teve a expectativa de ocorrer. Freud (1987) exemplifica a geração do prazer humorístico na economia de despesa de um afeto como a compaixão pelo criminoso sentenciado a forca, o qual sendo levado para execução numa segunda-feira, comenta: “É, a semana está começando otimamente”. Aqui, a despesa psíquica com o sentimento de compaixão pelo sentenciado é descarregada com essa “tirada” humorística e, em vez de compadecimento, ri-se francamente.

Em um curto texto intitulado Humor, publicado em 1928, Sigmund Freud afirma que há duas maneiras de realizar a “atitude humorística”: ela pode dar-se em relação ao próprio eu do indivíduo ou para outras pessoas. Freud defende a ideia de uma “economia psíquica” e indica que o humor proporciona uma poupança no “gasto de sentimento”; para ele, “a essência do humor é poupar afetos” (FREUD, s/d, p. 190). De outro modo, o humor tem algo de liberador, assim como os chistes, mas possui, o que falta nestes, “qualquer coisa de grandeza e elevação”. Freud (perdoem o chiste) explica:

“Essa grandeza reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do ego (eu). O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões para obter prazer. Esse último aspecto constitui um elemento inteiramente essencial do humor. […] O humor não é resignado, mas rebelde. Significa não apenas o triunfo do ego, mas também do principio do prazer, que pode aqui afirmar-se contra a crueldade das circunstâncias reais” (FREUD, s/d, p. 190).

Em outras palavras, a atitude humorística rejeita as reivindicações da realidade e procura efetivar o princípio do prazer, ela configura-se como uma atitude, portanto, de recusa do sofrimento. O humor ousa desafiar a civilização, ele enfatiza a invencibilidade do eu pelo mundo real e sustenta a busca por prazer, é o triunfo do eu contra o social que, eventualmente, o reprime. O humor é, afirma Freud (s/d), a contribuição feita ao cômico pela intervenção consoladora e protetora do supereu, que nem por isso contradiz sua origem repressora no agente paterno.

Para a psicanálise, no geral, a vida em sociedade é construída sobre a renúncia instintual, ela pressupõe justamente a não satisfação (supressão, recalque) de instintos poderosos. A dita sentença, grosso modo, retrata o entendimento freudiano do trabalho da civilização sobre os seres humanos. Nesta concepção, somente sob a civilização é que podem existir seres humanos; é esta a condição na qual o homo sapiens humaniza-se. Sigmund Freud (2010, p. 48-49) toma a palavra “civilização” como o termo que designa a inteira soma das realizações e instituições que afastam a vida humana daquela dos seus antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos homens entre si.

Assim, para o “pai da psicanálise”, o humor é ousado, tenta enfrentar no âmbito psíquico as pressões da realidade circundante dizendo “não temo, prefiro rir”. Poderíamos sugerir com essa explanação que as polêmicas piadas de Rafinha Bastos são como que um investimento emocional contra as pressões sociais em voga hoje. Pressões que impõem ao indivíduo se ajustar às demandas sociais atuais como, por exemplo, o combate aos preconceitos, à violência contra a mulher e à pedofilia. Entretanto, é preciso lembrar que Freud é incisivo ao afirmar que a civilização humana apenas se realiza sobrepujando nossos impulsos agressivos e sexuais. Logo, combater tais impulsos, inclusive em formas de piadas, é de extrema necessidade para a eterna aventura humana de conviver.

Referências Bibliográficas Básicas

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987.

FREUD, Sigmund. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Os chistes e sua relação com o inconsciente. 2ª ed. Volume VIII. Rio de Janeiro: Imago Editora LDTA, 1987.

______. “O Humor”. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: O Futuro de uma Civilização, O Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos. Volume XXI. Rio de Janeiro: Imago Editora LTDA, s/d.

______. O Mal-Estar na civilização, Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

KHAN, Michael. Freud básico: pensamentos psicanalíticos para o século XXI. Guanabara, RJ: Civilização Brasileira, 2003.

KUPERMANN, Daniel. Ousar Rir: humor, criação e psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

MINOIS, Georges. História do Riso e do Escárnio. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

PEREDA, Luis Campalans. “Humor e Psicanálise” In: SLAVUTZKY, Abrão e KUPERMANN, Daniel. Seria Trágico… Se Não Fosse Cômico – Humor e Psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

WOUTERS, Cars. “Mudanças nos Regimes de Costumes e Emoções: da disciplinarização à informalização”. In: GEBARA, Ademir e WOUTERS, Cas. O controle das emoções. João Pessoa: Editora Universitária UFPB, 2009

ZILLES, Urbano. O significado do humor. Revista FAMECOS, Porto Alegre-RS, nº 22, dec. 2009.

*Mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Estudante e pesquisador das teorias e dos tratamentos sociais do humor.