Clóvis de Barros Filho**

Se ética se materializa em pensamento individual e compartilhado sobre a melhor a maneira de viver e de conviver, as nossas sensações têm de ser levadas em conta. Seja como correspondência positiva, quando a ética tem necessariamente a ver com a alegria de alguém, seja como referência invertida, no caso de representar uma vitória sobre as pulsões.

Sentimos, na relação ininterrupta com outros corpos, as transformações em nosso próprio corpo. E, em meio a essas transformações, a que mais importa é a oscilação do nosso tesão pela vida, da nossa potência de agir. Porque a vida tem a ver com a potência. Com a energia que, a cada instante, podemos disponibilizar para viver.

Nada nos é mais essencial. Se nos amputarem uma perna, continuaremos sendo o que somos. Da mesma forma, um braço. Ou outras partes de nós. E que parte de nós não podemos amputar? Sob pena de deixarmos de ser quem somos, qualquer uma que, se amputada, aniquilasse nossa potência. Porque, sem potência para agir, deixamos de ser.

Se você pode não estar legal, é porque essa sua potência oscila, segundo a segundo. Combustível sempre incerto. Afinal, as coisas que nos acontecem, os fragmentos de mundo que desfilam diante de nós, acabam interagindo conosco e nos transformando. O tempo todo. Por isso, essa potência – tão fundamental para a vida – é só uma questão de instante. Como tudo, talvez.

A potência – que é nossa nesse determinado instante – permite que sejamos o que somos. É só nossa. Não é a potência de mais ninguém. Por isso, é ela que nos discrimina e nos identifica em relação a tudo que não somos. É também incomunicável. Incompartilhável. Daí nossa solidão. Condição de nossa existência.

Porque somos ilhas afetivas. Em cada instante, não dispomos da potência de mais ninguém. E ninguém dispõe da nossa. Muitas vezes, a falta de solidariedade na potência nos irrita. Parece-nos inaceitável que outros, com quem contamos, não disponibilizem, num certo instante de vida, a mesma potência que nós.

Haja singularidade. Haja isolamento. Cada um na sua. Porque nossas sensações são nossas. Estritamente. Porque ninguém sente o que sentimos. (O que, aliás, torna o ofício do dentista possível). Nossas tristezas são nossas. As fraturas de tíbia e orgasmos também. Porque, mesmo quando damos causa à fratura ou ao orgasmo do outro, permanecem estes dramaticamente exteriores. Sensações inacessíveis. Mas que, ao mesmo tempo, estão a mercê do resto do mundo onde nos encontramos.

O real é todo. Podemos chamá-lo de mundo ou universo. Esse mundo, por ser todo, não tem lado de fora (se tivesse, não seria todo). Por isso, dessa perspectiva em que nos encontramos, não pode ser interpretado como obra de um criador. Como um projeto, ou como a realização de um plano. Ou mesmo como um relógio. Por que nesses casos, o tal criador, projetista ou relojoeiro, estaria do lado de fora. Transcenderia o todo. E o todo teria de ser rebaixado.

Quais as consequências de encarar o mundo material como o todo? Antes de mais nada, não há como atribuir a ele nem beleza, nem feiura; nem ordem, nem confusão. Por falta de referência externa. Por ausência de gabarito. Porque o real é o que é. Tão somente. Aceitá-lo e amá-lo são passos obrigatórios para uma plena reconciliação com o real.

E podemos ir mais longe. Qualquer ordem – caos, beleza, feiura, justiça, maldade e crueldade que venhamos a atribuir ao mundo – só poderá advir do próprio mundo, isto é, de nós mesmos, dos afetos do nosso corpo. Ou de nossas expectativas. De como gostaríamos que fosse. Por isso, se aceitar o mundo como ele é já não é fácil, mais difícil é amá-lo, com seus tiranos, massacres, tsunamis, ladrões do dinheiro público, mães que atiram crias na lixeira.

Esse mundo é constituído por partes, que, por sua vez, são constituídas por outras partes, e assim por diante. O vento é parte, a maré é parte, o rabanete da sua salada é parte e você, caro leitor, tanto quanto eu, somos parte do tal todo, ou do mundo. Não é possível que você não se dê conta das consequências éticas. Somos partes distintas, é verdade. Mas compomos o mesmo todo. Por isso, se olhamos da perspectiva do todo, somos um só. Unidade na diversidade. Na complementaridade.

Essas partes só constituem o mundo quando se encontram em relação. O mundo não é mera reunião de partes. É constituído pelas relações entre elas. Assim, só faz sentido entender uma mitocôndria como parte do mundo – responsável pela respiração da célula – se a colocarmos em relação com o complexo de Golgi da mesma célula, responsável pela digestão. Da mesma forma, o estômago só constitui o nosso todo na relação com o intestino.

Quando dois corpos, A e B, se relacionam, isso quer dizer, antes de tudo, que A age sobre B e B age sobre A. Ora, se um age sobre o outro, significa que produz sobre ele efeitos. Transformando-o. Determinando-o. Fazendo-o ser diferente do que era. E vice-versa. Em outras palavras, quando dois corpos se relacionam, ambos são transformados, de maneira que o corpo A deixa de sê-lo – modificado por B – e B também deixa de ser B, modificado por A.

O homem, que é todo constituído por partes, também é parte. Somos, todos, partes do mesmo todo. Imanentes ao mundo ou à natureza como tudo mais. Sem com ela rivalizar ou a ela transcender. Quando dizem que o homem impacta a natureza quando age, a rigor estão dizendo que partes diferentes da natureza se relacionam entre si. Interagem. Transformando-se.

Dessa forma, ninguém – nem nós, nem qualquer outra entidade – olha e julga o mundo de fora. Por falta de poderes divinos. Assim, quando qualquer corpo se manifesta, está agindo enquanto parte. Porque a ninguém, nem a nada, é possível ir além dessa condição. E todo o discurso com pretensão universal ou imparcial é pura ingenuidade, ilusão, falácia. Ignorância da própria condição.

Tudo que é participa de uma única natureza, para todos os corpos. Homens, girafas e amebas. Como também, uma única natureza para todas as almas. Uma única substância para todos os atributos. Um plano comum de imanência. Na fórmula consagrada, o homem não é um império num império.

E isso não é jargão acadêmico. Pelo menos, não só. É um convite para a vida em ato. Um convite para a vida reconciliada com o seu tempo. Uma maneira de viver sem superstições, sem temores, sem esperanças. Filosofar, aqui, como para muitos gregos, não é só enunciar discursos conceituais. É viver de certa forma.

A vida do homem enquanto parte também se materializa em relações. Viver é relacionar-se. É estar em relação. Por isso a vida de qualquer um de nós não pode ser analisada só pelo que supostamente somos, por uma natureza ou essência que corresponderia ao nosso ser, mas pelo o que acontece conosco no mundo. Na medida em que vamos nos constituindo como efeito do mundo com qual nos relacionamos.

Dessa forma a vida pode ser comparada com uma trajetória de encontros com o mundo. Isso porque, enquanto houver algum vivente, haverá mundo para se relacionar com ele. Inferimos daí duas coisas: a primeira é que o mundo não para de nos afetar. A segunda é que não paramos de afetar o mundo.

Comecemos pela primeira: o mundo não para de nos afetar.

Nas relações que mantemos com o mundo, nosso corpo pode ser afetado de muitas maneiras. Nelas, nossa potência de agir poderá ser aumentada ou diminuída. E há ainda casos em que essa oscilação é insignificante. Porque um rebolado cadenciado pode nos enlouquecer.

Quando alguém bate a canela na quina da cama sente com clareza o encontro. Sente o efeito que o mundo produz sobre seu corpo. O afeto é a maneira como seu corpo interpreta esse efeito. Dor. Já no caso de um ósculo bucal, o efeito é outro. Porque agora a parte do corpo afetada é a sua boca. E o mundo que afeta é outra boca.

Mas os encontros quase nunca são tão simples. Como lábios que encontram lábios. Porque, ao mesmo tempo, língua toca língua, mão aperta glúteo, mão afaga cabelos, pernas se entrecruzam, nariz roça nariz e muito mais. E nosso corpo vai sendo afetado por todos os lados. E, muitas vezes, percebemos, instante a instante, o que vai acontecendo com o nosso corpo. Os corpos que vão se relacionando com ele. O tipo de efeito que ensejam. As sensações que nos impõem.

FIM DA PARTE 1 ____________

* Texto originalmente publicado na coleção Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 2 – Afetos e Consumos (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html

O texto aqui reproduzido foi dividido em 4 partes. Na próxima semana, na 2ª parte, o autor continua com sua explanação sobre as sensações que nos rodeiam e questiona o livre-arbítrio apontando-o como uma ilusão que pressupõe o controle sobre os afetos.

** Professor livre-docente de ética da ECA/USP. Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

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