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Potência para a vida* (Parte 4)

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Clóvis de Barros Filho**

Mas, e a morte? A morte vem de fora. A morte decorre de uma particular existência no mundo. De encontros que nos superam. De combinações de forças que nos vencem. E o que seria preciso para sermos eternos? Ora, só não morreríamos se não perdêssemos potência. Se não entristecêssemos. Se todos os encontros fossem alegres. Quando, ante qualquer mundo, compuséssemos bem.

Outra saída para não morrer seria não encontrar. Não se relacionar. Não se deixar afetar. Mas para isso seria preciso ou que o mundo não existisse, ou que nós não existíssemos nele. Mas o mundo tem de existir, porque nossa existência de parte depende da existência do todo. Quanto a nós, bem, podemos deixar de existir. Mas, nesse caso, perde um pouco o sentido a discussão sobre não morrer.

Esse esforço é do corpo, que luta pela alegria o mais que pode. Mas é também da alma. Esforços sem paralelo. Do corpo e da alma. Formas diferentes de manifestação da mesma substância. Sem oposição possível entre eles. Sem juízos e condenações morais dos apetites. Porque se você, caro leitor, costuma se alegrar com alguma coisa, quando o seu corpo efetivamente a encontra, se alegrará também em nela pensar.

Vale para uma estagiária nova, que acaba de ser admitida no escritório. Quando o seu corpo a encontra, sua potencia de agir aumenta. E, na solidão da alcova, também a alma que nela pensa se alegra. Aumenta sua potência de pensar. Na defesa de sua potência, companheiro leitor, corpo e alma jogam em equipe. Solidários.

No entanto, nossa alma tem limites. Não consegue perceber nada no mundo senão por intermédio de um afeto sofrido pelo próprio corpo. Não percebe outro corpo em ato, na sua própria potência. Por isso, todo contato com o mundo é sempre mediado pelo nosso corpo. Pela maneira como é afetado. E assim imaginamos o mundo. Sempre a partir dos afetos.

Um exemplo. Quando você contempla um bolo em uma doceira. O que é o bolo com o qual você já está em relação? Nossa alma não tem o que fazer, a não ser a partir de como o bolo vai afetar nosso corpo. Visual, olfativamente e palatarmente. Porque o bolo, nele mesmo, sempre nos será inacessível.

Apesar de todas essas limitações, continuaremos nos esforçando ao máximo para pensar em coisas que aumentem a potência de agir do nosso corpo. Mas você sabe que esse esforço nem sempre é bem-sucedido. Porque, da mesma forma que não controlamos completamente o que acontece nos encontros do nosso corpo com outros, também não controlamos completamente a produção intelectiva de nossa alma.

Controlamos um pouco. Mas não tudo. Assim, podemos nos dispor a resolver uma equação de segundo grau. E resolvê-la. Ou a elaborar um planejamento corporativo para o ano vindouro. Ou redigir uma sentença. E nossa mente agirá com esse fim. Mas, tão logo começamos a tarefa, outras ideias podem sobrevir. Na melhor das hipóteses, a estagiária, a aluna sorridente ou um filme engraçado a que assistimos. Mas isso, na melhor das hipóteses.

Porque o que passa pela nossa cabeça pode nos entristecer mesmo. Apequenar nossa potência com os dois pés. Você sabe disso. Às vezes estamos bem, nada aconteceu diante de nós, e por conta de algum pensamento, nossa potência míngua. E muitos de nós, quando entristecemos assim, denunciamos o apequenamento em cada gesto. Em cada músculo da face.

O que nos ensina Spinoza é que toda vez que algum pensamento desse tipo nos acontece, nossa alma se esforça ao máximo para pensar em outra coisa. Porque, pensado em outra coisa, obviamente deixamos de pensar, nem que seja por alguns instantes, naquilo que nos entristecia.

Seu time perdeu. O campeonato. Para o maior rival. As cenas do jogo não saem da sua cabeça. Acredite, há um esforço para retirar o futebol de onde está. Claro que esse esforço tem de ser positivo. Ou seja, não pode haver esforço simplesmente para deixar de pensar. Haveria uma lacuna absurda. Por isso, o esforço é sempre por pensar em outra coisa. Dessa forma, indiretamente, exclui-se o que entristece.

E minha tia, 96 anos na época de minha adolescência, espinosista de carteirinha e fundadora do comando de caça aos idealistas de Bagé, tentava me consolar:

            – Para esquecer um amor de chifre, nada melhor do que outro. De preferência sem chifre, dessa vez.

Porque para tirar da mente – ou da alma – o que entristece, vale tudo. Vale recordar coisas que excluam a existência das entristecedoras. Porque somos afetados pela imagem de um corpo flagrado no passado do mesmo afeto de alegria ou de tristeza de que somos afetados pela imagem de um corpo flagrado no tempo presente.

E assim vamos: lutando pelos encontros alegres de nosso corpo com o mundo; para evitar os tristes; para imaginar coisas que aumentam a potência de agir do corpo e a potência de pensar de alma; bem como para evitar as imaginações que enfraquecem, que refreiam a ambos. A vida que vale a pena ser vivida aqui é aquela em que tudo isso dá certo. Quando ganhamos potência. Quando nos aperfeiçoamos. E você continuará lutando por ela. Luta que você sempre travou. Desde o nascimento. E continuará travando. Até a morte.

Não é o suficiente? Engano seu. É o que é. O que pode ser. Talvez não baste para conseguir uma vida feliz. De alegria em alegria. Mas isso não é mesmo possível. Porque a tristeza, essa faz parte. E lutar contra ela, também. Quanto à morte, também é o que é. O placar da luta. O triunfo inexorável dos afetos tristes contra nossa insistência na existência.

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* Texto originalmente publicado na coleção Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 2 – Afetos e Consumos (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

 

http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html

** Professor livre-docente de ética da ECA/USP. Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

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Potência para a vida* (Parte 3)

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Clóvis de Barros Filho**

Até aqui, o mundo não parou de nos afetar. Mas você, leitor, tanto quanto tudo o que existe, também age sobre o mundo. Afeta o mundo. Faz com que ele seja como é. Por que o mundo não seria como é se você não fosse, e o transformasse ininterruptamente.

Impossível seria não afetá-lo. Não impactá-lo. Isso implicaria não entrar em relação. O que, por sua vez, só seria possível na inexistência de um dos dois: ou a nossa ou a do mundo. Mas enquanto estivermos por aqui e o mundo também, acabamos por nos determinar reciprocamente.

Como não impactar? Mesmo que você fique parado num descampado, o vento que normalmente passaria por onde você está tem de desviar. Por sua causa. E o mundo, por isso, foi diferente do que teria sido se você não fosse, se lá não estivesse. O ar, que por sua vez, encontrou você, fez de você outro. Erodido pelo atrito. Resfriado pelo contraste de temperatura. Refrescado pelo calor que sentia.

Assim, nossa vida pressupõe um conjunto complexo de relações entre distintas unidades de real. Relações entre as partes que nos constituem e relações entre nós, que somos também parte, com outros corpos. Assim, quando alguém nos pergunta pela vida, se vamos bem, o que pretendem saber é o que estamos sentido diante de todas essas relações que nos constituem.

Quando somos afetados pelo mundo, com consciência ou não desse afeto, o que exatamente o mundo transforma em nós? Tudo, evidentemente. Seria estranho se, nas relações que mantemos com o mundo, nos fosse poupada alguma parte. Uma perna, por exemplo. Que, sem ser afetada, não se transformaria. Não envelheceria. Uma perna eterna. Imortal.

Ora, se tudo muda em nós o tempo todo, o que sobraria de nós em nós mesmos? Pois bem. Nada. Era a resposta que você temia. Por isso, talvez, tenhamos de admitir, de uma vez por todas, que, se quisermos continuar defendendo a existência de algum eu, que seja em trânsito. Fugaz. Um deixar de ser.

Mas, em toda essa fugacidade, o que mais importa para a vida é que, pelo fato de sermos afetados no todo, também não permanece a nossa própria essência. Aquilo sem o que não viveríamos. Nossa potência de agir.

Não vamos propor complicadas definições. O leitor sabe do que estou falando.

Acordo sem despertador. Em torno das 5 horas da manhã. Quase sempre por necessidades urinárias. Por desgraça, isso acontece também nos fins de semana. Sento-me na cama. Minha potência de agir nesse momento é muito baixa. Levanto-me, assim mesmo. A higiene pessoal e uma ducha melhoram a situação. A potência aumenta um pouco.

Como tenho tempo, aproveito para ler o jornal e tomar o café com calma. E, pouco a pouco, a potência de agir sobe mais. Em torno das 7 horas, entro no carro e me dirijo à Cidade  Universitária. Seus jardins, a distância entre os edifícios, o fluxo dos alunos a caminho de suas atividades acadêmicas, tudo isso aumenta a minha potência.

Chego à faculdade onde leciono. Meus alunos me esperam. Eles são ótimos. Atenciosos. Dedicados. Cordiais. Por isso, não raro, no meio da manhã, encontro-me esbravejando na teatralização de um exemplo. Tentando todas as fórmulas didáticas que minha intuição sugere. Nesse instante, minha potência alcança o seu pico. Potência máxima.

Mas nem sempre é assim. Muitos e diversificados são os encontros apequenadores de potência. O real é criativo para agredir. A miséria humana que flagramos por todos os meios constitui bom exemplo. Não vou me alongar. Se me dispusesse a exemplificar mundos que nos roubam potência, o artigo não chegaria ao fim.

Mas por que alguns mundos, quando encontrados pelo nosso corpo, produzem o efeito de alavancar nossa potência e outros mundos, o efeito contrário?

Nosso corpo, num instante de existência no mundo, é radicalmente singular. Nada será absolutamente igual. Portanto, toda relação que mantemos é com o diferente, com o resto do mundo. Como já dissemos, o mundo com o qual nos relacionamos nos transforma. Por isso, podemos inferir que, na relação, esse mundo determinou em nosso corpo uma passagem, do que éramos para o que nos tornamos. Como estamos sempre em relação, nosso corpo está ininterruptamente passando de um estado a outro.

Ora, essas passagens, que nos constituem, instante a instante, não se equivalem. Podem ser valoradas. A partir de um critério: nossa essência, nossa potência de agir. Algumas passagens são boas, outras más. São boas quando passamos de um corpo menos potente para um mais potente. Será má, ou ruim, a passagem no sentido contrário. Quando o resultado final da relação determinar perda de potência em nosso corpo.

E essas passagens têm nome. Quando são boas, e com elas ganhamos potência, denominam-se alegria. Quando são ruins e implicam perda de potência, denominam-se tristeza. Assim, o mundo é bom quando alegra. E ruim, quando entristece. E mais: como a potência é nossa essência, a alegria nos aproxima de nossa essência, portanto de nossa perfeição. Enquanto a tristeza nos rouba potência. E, portanto, o que nos é essencial. Distanciando-nos de nós. De nossa perfeição.

Assim, o leitor vai a um bar, solitário. Encontra uma mulher de exuberante topografia. Que o acolhe com um lindo sorriso. Aproxima-se e sentencia:

            – Encontrá-la alegrou-me.

Ela, surpresa, pergunta o que você quis dizer com isso. E você, com leveza, explica:

            – Contemplá-la determinou em mim a passagem para um estado mais potente e perfeito do meu ser.

Mas por que certos mundos nos alegram e outros nos entristecem? Um corpo é afetado por outro de alegria quando compõe bem com ele. Quando se integram. Inversamente, haverá tristeza quando o mundo encontrado descompuser. Desintegrar.

Assim o encontro com uma rabada, no almoço, pode alegrar. Isso acontece quando a rabada degustada compõe com quem a degustou um todo de maior potência. Nesse caso, você afirma que a rabada está deliciosa. Que aquilo é que é rabada. Mas o contrário pode acontecer. Uma rabada pode entristecer. Decompor. Desintegrar. Manter relação lesiva. Danosa. Nesse caso, diremos que a rabada que comemos em tal lugar estava estragada e por isso fomos parar no hospital.

Alegria tem a ver com vida boa. Tristeza, com o seu contrário. E nós? Somos natureza. Parte dela. E, na matemática geométrica dos afetos, não passamos de esforço pela potência. Uma resistência contra tudo o que apequena, que entristece. Porque tudo o que é reafirma sua essência. E a nossa, lembramos, é a nossa potência. Podemos dizer que somos orientados por um movimento natural de insistência na própria existência.

Por isso, existir é insistir. Nada fazemos sem afirmar-nos no mundo. Tudo o que é, todo o ser, esforça-se, na medida em que pode, para continuar a ser. Esforço que Spinoza vai nomear conatus. Todos os seres são dotados necessariamente dessa força interna de autopreservação. Eis a sua essência.

FIM DA PARTE 3 ____________

* Texto originalmente publicado na coleção Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 2 – Afetos e Consumos (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

O texto aqui reproduzido foi dividido em 4 partes. Na próxima semana, na 4ª e última parte, o autor fala sobre a morte como uma combinação de forças que nos vencem e o esforço do corpo e da alma por encontros alegres com mundo, ou melhor, encontros que aumentem a nossa potência para a vida.

** Professor livre-docente de ética da ECA/USP. Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

Potência para a vida* (Parte 2)

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Clóvis de Barros Filho**

Nem sempre, porém, nos damos conta do mundo que nos afeta. Tampouco do afeto. Do efeito que o mundo determina em nós. Por isso, muitas vezes não percebemos a oscilação de potência de agir que o mundo determina sobre o nosso corpo ao se relacionar com ele. Assim, não raro, um encontro nos apequena, e passa batido. E também acontece de algo que se apresenta inesperadamente diante de nós alavancar nossa potência; e também não atinarmos.

Vou insistir neste ponto, que é mesmo complexo. Seu corpo mantém com o mundo uma infinidade de relações, com grande número de efeitos simultâneos sobre você. Esses efeitos não são lógicos, compreensíveis e organizados como você gostaria. Pelo contrário. O mundo faz do seu corpo uma arena de efeitos contraditórios. Uma zona afetiva. Da qual, você não tem como se dar conta. Pelo menos, não completamente.

Portanto, muita coisa que acontece com você vai passar despercebida. E isso explica o fato de você ir se convertendo no que é sem entender muito bem por quê. Talvez, se você aumentasse a capacidade de se dar conta de como o mundo o afeta, poderia entender melhor suas relações, suas reações, sua vida, em suma. E dar menos importância para explicações fundadas em outros mundos.

Comecemos com um exemplo simples. Neste momento, estou sentado num sofá. O mundo que me afeta são os ruídos mais salientes que vêm da rua e me desconcentram; o teclado sob meus dedos; a claridade da tela do computador etc. De tudo isso tenho plena consciência. Mas, além disso, o sofá que estou sentado pressiona meus glúteos há mais de quatro horas. E só me dei conta porque pensei neste exemplo. Sem falar nas costas, que só agora começam a doer. E o chão, que pressiona a sola do sapato, que pressiona a sola de meus pés. E o ar que circula na sala, entrando pela janela e saindo. E assim por diante.

E eu disse que o exemplo era simples. Não incluí nenhuma relação entre as partes que constituem meu corpo. Porque, enquanto estou escrevendo, todas as suas células estão interagindo. Pergunto: quando foi a última vez que se deu conta de seu joelho? Posso apostar que, tanto quanto eu, você só tem consciência dessa articulação em momentos particularmente dramáticos, como em encontros dolorosos com o mundo ou, eventualmente, em dias muito frios. Mas, sem você dar muito bola, o joelho continua dobrando. Centenas de vezes ao dia. Fazendo relacionar suas partes, que se afetam e se transformam o tempo todo.

Esses efeitos, percebidos ou não, podem ser contraditórios. Isto é, podem ensejar sensações que se enfrentam. Que se anulam. Assim, você pegou um ônibus intermunicipal, na rodoviária do Jabaquara, na zona sul de São Paulo. Feito o trajeto, você já circula pela rodovia dos Imigrantes, em direção a Peruíbe, cidade do litoral sul. O dia está lindo. O trânsito, livre. Ao seu lado, alguém agradável. Você ainda teve tempo de comprar duas coxinhas na lanchonete da rodoviária. E uma garrafa plástica de groselha. Tudo de bom, você comenta com você mesmo.

No entanto, nesse mesmo instante, toca no rádio um antigo sucesso de cantor pop. Você não gosta da música. Julga-a brega. Sempre preferiu pagode. Num mesmo instante, você é afetado contraditoriamente. O sol, o trânsito livre, a companhia, as coxinhas e a groselha o agradam, mas a música…

Porque estou insistindo tanto nos afetos percebidos? Ora, para que você se dê conta da complexidade afetiva de cada instante. Para que tenha mais humildade diante da vida. Para que não espere tanto dela. E não acabe se frustrando tanto.

Todos aqueles que sugerem soluções existenciais já prontas – cartilhas do bem viver, procedimentos garantidores de vida boa a qualquer um – presumem um alinhamento indiscriminado entre mundo, conduta e afeto. Mas, para que funcionasse, seria necessário que tivéssemos plena consciência de tudo. Que pudéssemos estar no controle soberano de nossos afetos. Que, na nossa vida, mandássemos nós. Spinoza nos ensina que não é tão simples. Daí nossa insistência.

Mas, apesar de muita coisa na relação com o mundo nos escapar, é legítimo que lutemos para nos defender. Por isso, tentamos, em função de experiências anteriores, prever encontros desagradáveis. Para evitá-los. E, por outro lado, procuramos patrocinar outros, mais agradáveis. Com pessoas que já nos alegraram.

Mas, como sabemos, caro leitor, nem sempre dá certo. Afinal, o que nos ensina o já vivido tem limites evidentes. Data de validade. Limitada a um corpo que não é mais. Porque nosso corpo é sempre outro. E o mundo que o encontra, também. O resultado do encontro entre ambos é, portanto, rigorosamente imprevisível.

Enquanto outros, que impressionam tão positivamente na hora de escolher o vinho, que dançaram com tanta graça, ritmo e desenvoltura, que levaram ao delírio logo na primeira vez, que enterneceram perdidamente com palavras românticas, que povoaram nossos pensamentos 24 horas por dia, mostraram-se criaturas insuportáveis e entristecedoras.

Dessa forma, essa ignorância das causas daquilo que nos acontece de mau nos leva a interpretar as ocorrências do mundo como sinais indicativos da vontade de uma entidade transcendente. Daí surgiram, na perspectiva de Spinoza, superstições, religiões e a teologia. Deus está descontente conosco. Por isso, nossa miséria.

Dentre as crenças judaico-cristãs, a mais consagrada no discurso moral, já nos tempos de Spinoza, é a do livre-arbítrio. A liberdade da vontade de escolher entre várias opções. É o que permitiria ao homem ser o responsável por sua própria salvação ou perdição. Não fôssemos livres, não poderíamos pecar. Não poderíamos ser julgados e condenados.

O livre-arbítrio pressupõe o poder da razão para controlar os afetos. Para Spinoza, isso é apenas uma ilusão. Que decorre da ignorância das causas verdadeiras, eficientes, materiais que determinam certa ação. Uma construção que coloca o homem acima da necessidade dos fluxos causais da natureza. Um equívoco da imaginação. Para que o homem não fique sem resposta, mesmo quando não sabe – ou não pode saber – por que decidiu viver desta ou daquela maneira.

Para que o livre-arbítrio fosse possível, seria necessário que o mundo, todo ele, fosse indeterminado. Contigente. Acidental. Que as ocorrências não tivessem nada ver umas com as outras. Que tudo pudesse ser, a cada instante, absolutamente diferente do que é. Seria preciso que o vento pudesse não erodir. Que a pera pudesse não cair, mesmo madura. Que a chuva pudesse chover em qualquer direção. E que Cecília, a cobra-cega, pudesse recobrar a visão. Mesmo sem as axilas.

Outra possibilidade seria estabelecer – de difícil fundamentação – entre toda a natureza e o homem. Assim, de um lado, tudo na natureza seria necessário. Determinado. Como só poderia ser. Vítima de suas causas materiais. Sem liberdade e sem arbítrio. E, de outro lado, só o homem, apenas ele – talvez por ser filho de Deus, parecer-se com ele e, por isso, estar meio fora, ou acima dos nexos de causalidade –, ser indeterminado. Flutuante. E, por isso tudo, de arbítrio livre. Indeterminado. Autodeterminado. Criador de si mesmo.

Um exemplo. Desde que me lembro, há na televisão reportagens sobre o mundo animal. Nelas, o que vemos é um matando o outro. E o que se diz é que na natureza os bichos matam por necessidade. Ninguém de bom senso julgaria um leopardo por atacar e matar um veadinho. Mas o homem, filho de Deus e, portanto, livre, pode matar ou não. Desaparece a necessidade. O homem é livre para não fazer.

“Ora, faz sentido”, diria o leitor. “A vida do leopardo é movida por seu instinto. Enquanto a vida do homem, não. Por que Spinoza veria aí apenas ilusão.?”

Porque, de sua perspectiva, a ação do homem é tão determinada pela natureza quanto a do leopardo. E se por ventura ele não mata, não é porque livremente deliberou assim. Mas porque no enfrentamento entre a satisfação e a insatisfação trazidas pela cogitação da morte do outro, triunfou a segunda. Como numa soma de vetores de sentidos opostos. E, tão inexorável quanto o resultado do enfrentamento, é a decisão de poupar a vida alheia. Placar da disputa.

Mas quem decidiu não tem como saber o que aconteceu. O que o levou a decidir. As causas afetivas da decisão. As variáveis emocionais que participaram daquele momento decisório. Conclui, então, por uma causa fictícia: a liberdade de ter escolhido o melhor, pela própria vontade. Como se o mundo tivesse começado ali, com a sua decisão, e nada existisse antes que fosse determinante. Para não ficar com a sensação desagradável de ignorar porque age como age. Como se fosse autor original da própria vida. Marco zero de sua existência. Criador de si mesmo. Um Deus em miniatura.

FIM DA PARTE 2 ____________

* Texto originalmente publicado na coleção Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 2 – Afetos e Consumos (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

O texto aqui reproduzido foi dividido em 4 partes. Na próxima semana, na 3ª parte, o autor expõe como a impossibilidade de não afetarmos e sermos afetados pelo mundo vai aumentando ou diminuindo a nossa potência para a vida.

** Professor livre-docente de ética da ECA/USP. Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.