Clóvis de Barros Filho**

Nem sempre, porém, nos damos conta do mundo que nos afeta. Tampouco do afeto. Do efeito que o mundo determina em nós. Por isso, muitas vezes não percebemos a oscilação de potência de agir que o mundo determina sobre o nosso corpo ao se relacionar com ele. Assim, não raro, um encontro nos apequena, e passa batido. E também acontece de algo que se apresenta inesperadamente diante de nós alavancar nossa potência; e também não atinarmos.

Vou insistir neste ponto, que é mesmo complexo. Seu corpo mantém com o mundo uma infinidade de relações, com grande número de efeitos simultâneos sobre você. Esses efeitos não são lógicos, compreensíveis e organizados como você gostaria. Pelo contrário. O mundo faz do seu corpo uma arena de efeitos contraditórios. Uma zona afetiva. Da qual, você não tem como se dar conta. Pelo menos, não completamente.

Portanto, muita coisa que acontece com você vai passar despercebida. E isso explica o fato de você ir se convertendo no que é sem entender muito bem por quê. Talvez, se você aumentasse a capacidade de se dar conta de como o mundo o afeta, poderia entender melhor suas relações, suas reações, sua vida, em suma. E dar menos importância para explicações fundadas em outros mundos.

Comecemos com um exemplo simples. Neste momento, estou sentado num sofá. O mundo que me afeta são os ruídos mais salientes que vêm da rua e me desconcentram; o teclado sob meus dedos; a claridade da tela do computador etc. De tudo isso tenho plena consciência. Mas, além disso, o sofá que estou sentado pressiona meus glúteos há mais de quatro horas. E só me dei conta porque pensei neste exemplo. Sem falar nas costas, que só agora começam a doer. E o chão, que pressiona a sola do sapato, que pressiona a sola de meus pés. E o ar que circula na sala, entrando pela janela e saindo. E assim por diante.

E eu disse que o exemplo era simples. Não incluí nenhuma relação entre as partes que constituem meu corpo. Porque, enquanto estou escrevendo, todas as suas células estão interagindo. Pergunto: quando foi a última vez que se deu conta de seu joelho? Posso apostar que, tanto quanto eu, você só tem consciência dessa articulação em momentos particularmente dramáticos, como em encontros dolorosos com o mundo ou, eventualmente, em dias muito frios. Mas, sem você dar muito bola, o joelho continua dobrando. Centenas de vezes ao dia. Fazendo relacionar suas partes, que se afetam e se transformam o tempo todo.

Esses efeitos, percebidos ou não, podem ser contraditórios. Isto é, podem ensejar sensações que se enfrentam. Que se anulam. Assim, você pegou um ônibus intermunicipal, na rodoviária do Jabaquara, na zona sul de São Paulo. Feito o trajeto, você já circula pela rodovia dos Imigrantes, em direção a Peruíbe, cidade do litoral sul. O dia está lindo. O trânsito, livre. Ao seu lado, alguém agradável. Você ainda teve tempo de comprar duas coxinhas na lanchonete da rodoviária. E uma garrafa plástica de groselha. Tudo de bom, você comenta com você mesmo.

No entanto, nesse mesmo instante, toca no rádio um antigo sucesso de cantor pop. Você não gosta da música. Julga-a brega. Sempre preferiu pagode. Num mesmo instante, você é afetado contraditoriamente. O sol, o trânsito livre, a companhia, as coxinhas e a groselha o agradam, mas a música…

Porque estou insistindo tanto nos afetos percebidos? Ora, para que você se dê conta da complexidade afetiva de cada instante. Para que tenha mais humildade diante da vida. Para que não espere tanto dela. E não acabe se frustrando tanto.

Todos aqueles que sugerem soluções existenciais já prontas – cartilhas do bem viver, procedimentos garantidores de vida boa a qualquer um – presumem um alinhamento indiscriminado entre mundo, conduta e afeto. Mas, para que funcionasse, seria necessário que tivéssemos plena consciência de tudo. Que pudéssemos estar no controle soberano de nossos afetos. Que, na nossa vida, mandássemos nós. Spinoza nos ensina que não é tão simples. Daí nossa insistência.

Mas, apesar de muita coisa na relação com o mundo nos escapar, é legítimo que lutemos para nos defender. Por isso, tentamos, em função de experiências anteriores, prever encontros desagradáveis. Para evitá-los. E, por outro lado, procuramos patrocinar outros, mais agradáveis. Com pessoas que já nos alegraram.

Mas, como sabemos, caro leitor, nem sempre dá certo. Afinal, o que nos ensina o já vivido tem limites evidentes. Data de validade. Limitada a um corpo que não é mais. Porque nosso corpo é sempre outro. E o mundo que o encontra, também. O resultado do encontro entre ambos é, portanto, rigorosamente imprevisível.

Enquanto outros, que impressionam tão positivamente na hora de escolher o vinho, que dançaram com tanta graça, ritmo e desenvoltura, que levaram ao delírio logo na primeira vez, que enterneceram perdidamente com palavras românticas, que povoaram nossos pensamentos 24 horas por dia, mostraram-se criaturas insuportáveis e entristecedoras.

Dessa forma, essa ignorância das causas daquilo que nos acontece de mau nos leva a interpretar as ocorrências do mundo como sinais indicativos da vontade de uma entidade transcendente. Daí surgiram, na perspectiva de Spinoza, superstições, religiões e a teologia. Deus está descontente conosco. Por isso, nossa miséria.

Dentre as crenças judaico-cristãs, a mais consagrada no discurso moral, já nos tempos de Spinoza, é a do livre-arbítrio. A liberdade da vontade de escolher entre várias opções. É o que permitiria ao homem ser o responsável por sua própria salvação ou perdição. Não fôssemos livres, não poderíamos pecar. Não poderíamos ser julgados e condenados.

O livre-arbítrio pressupõe o poder da razão para controlar os afetos. Para Spinoza, isso é apenas uma ilusão. Que decorre da ignorância das causas verdadeiras, eficientes, materiais que determinam certa ação. Uma construção que coloca o homem acima da necessidade dos fluxos causais da natureza. Um equívoco da imaginação. Para que o homem não fique sem resposta, mesmo quando não sabe – ou não pode saber – por que decidiu viver desta ou daquela maneira.

Para que o livre-arbítrio fosse possível, seria necessário que o mundo, todo ele, fosse indeterminado. Contigente. Acidental. Que as ocorrências não tivessem nada ver umas com as outras. Que tudo pudesse ser, a cada instante, absolutamente diferente do que é. Seria preciso que o vento pudesse não erodir. Que a pera pudesse não cair, mesmo madura. Que a chuva pudesse chover em qualquer direção. E que Cecília, a cobra-cega, pudesse recobrar a visão. Mesmo sem as axilas.

Outra possibilidade seria estabelecer – de difícil fundamentação – entre toda a natureza e o homem. Assim, de um lado, tudo na natureza seria necessário. Determinado. Como só poderia ser. Vítima de suas causas materiais. Sem liberdade e sem arbítrio. E, de outro lado, só o homem, apenas ele – talvez por ser filho de Deus, parecer-se com ele e, por isso, estar meio fora, ou acima dos nexos de causalidade –, ser indeterminado. Flutuante. E, por isso tudo, de arbítrio livre. Indeterminado. Autodeterminado. Criador de si mesmo.

Um exemplo. Desde que me lembro, há na televisão reportagens sobre o mundo animal. Nelas, o que vemos é um matando o outro. E o que se diz é que na natureza os bichos matam por necessidade. Ninguém de bom senso julgaria um leopardo por atacar e matar um veadinho. Mas o homem, filho de Deus e, portanto, livre, pode matar ou não. Desaparece a necessidade. O homem é livre para não fazer.

“Ora, faz sentido”, diria o leitor. “A vida do leopardo é movida por seu instinto. Enquanto a vida do homem, não. Por que Spinoza veria aí apenas ilusão.?”

Porque, de sua perspectiva, a ação do homem é tão determinada pela natureza quanto a do leopardo. E se por ventura ele não mata, não é porque livremente deliberou assim. Mas porque no enfrentamento entre a satisfação e a insatisfação trazidas pela cogitação da morte do outro, triunfou a segunda. Como numa soma de vetores de sentidos opostos. E, tão inexorável quanto o resultado do enfrentamento, é a decisão de poupar a vida alheia. Placar da disputa.

Mas quem decidiu não tem como saber o que aconteceu. O que o levou a decidir. As causas afetivas da decisão. As variáveis emocionais que participaram daquele momento decisório. Conclui, então, por uma causa fictícia: a liberdade de ter escolhido o melhor, pela própria vontade. Como se o mundo tivesse começado ali, com a sua decisão, e nada existisse antes que fosse determinante. Para não ficar com a sensação desagradável de ignorar porque age como age. Como se fosse autor original da própria vida. Marco zero de sua existência. Criador de si mesmo. Um Deus em miniatura.

FIM DA PARTE 2 ____________

* Texto originalmente publicado na coleção Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 2 – Afetos e Consumos (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

O texto aqui reproduzido foi dividido em 4 partes. Na próxima semana, na 3ª parte, o autor expõe como a impossibilidade de não afetarmos e sermos afetados pelo mundo vai aumentando ou diminuindo a nossa potência para a vida.

** Professor livre-docente de ética da ECA/USP. Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

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