Clóvis de Barros Filho**

Até aqui, o mundo não parou de nos afetar. Mas você, leitor, tanto quanto tudo o que existe, também age sobre o mundo. Afeta o mundo. Faz com que ele seja como é. Por que o mundo não seria como é se você não fosse, e o transformasse ininterruptamente.

Impossível seria não afetá-lo. Não impactá-lo. Isso implicaria não entrar em relação. O que, por sua vez, só seria possível na inexistência de um dos dois: ou a nossa ou a do mundo. Mas enquanto estivermos por aqui e o mundo também, acabamos por nos determinar reciprocamente.

Como não impactar? Mesmo que você fique parado num descampado, o vento que normalmente passaria por onde você está tem de desviar. Por sua causa. E o mundo, por isso, foi diferente do que teria sido se você não fosse, se lá não estivesse. O ar, que por sua vez, encontrou você, fez de você outro. Erodido pelo atrito. Resfriado pelo contraste de temperatura. Refrescado pelo calor que sentia.

Assim, nossa vida pressupõe um conjunto complexo de relações entre distintas unidades de real. Relações entre as partes que nos constituem e relações entre nós, que somos também parte, com outros corpos. Assim, quando alguém nos pergunta pela vida, se vamos bem, o que pretendem saber é o que estamos sentido diante de todas essas relações que nos constituem.

Quando somos afetados pelo mundo, com consciência ou não desse afeto, o que exatamente o mundo transforma em nós? Tudo, evidentemente. Seria estranho se, nas relações que mantemos com o mundo, nos fosse poupada alguma parte. Uma perna, por exemplo. Que, sem ser afetada, não se transformaria. Não envelheceria. Uma perna eterna. Imortal.

Ora, se tudo muda em nós o tempo todo, o que sobraria de nós em nós mesmos? Pois bem. Nada. Era a resposta que você temia. Por isso, talvez, tenhamos de admitir, de uma vez por todas, que, se quisermos continuar defendendo a existência de algum eu, que seja em trânsito. Fugaz. Um deixar de ser.

Mas, em toda essa fugacidade, o que mais importa para a vida é que, pelo fato de sermos afetados no todo, também não permanece a nossa própria essência. Aquilo sem o que não viveríamos. Nossa potência de agir.

Não vamos propor complicadas definições. O leitor sabe do que estou falando.

Acordo sem despertador. Em torno das 5 horas da manhã. Quase sempre por necessidades urinárias. Por desgraça, isso acontece também nos fins de semana. Sento-me na cama. Minha potência de agir nesse momento é muito baixa. Levanto-me, assim mesmo. A higiene pessoal e uma ducha melhoram a situação. A potência aumenta um pouco.

Como tenho tempo, aproveito para ler o jornal e tomar o café com calma. E, pouco a pouco, a potência de agir sobe mais. Em torno das 7 horas, entro no carro e me dirijo à Cidade  Universitária. Seus jardins, a distância entre os edifícios, o fluxo dos alunos a caminho de suas atividades acadêmicas, tudo isso aumenta a minha potência.

Chego à faculdade onde leciono. Meus alunos me esperam. Eles são ótimos. Atenciosos. Dedicados. Cordiais. Por isso, não raro, no meio da manhã, encontro-me esbravejando na teatralização de um exemplo. Tentando todas as fórmulas didáticas que minha intuição sugere. Nesse instante, minha potência alcança o seu pico. Potência máxima.

Mas nem sempre é assim. Muitos e diversificados são os encontros apequenadores de potência. O real é criativo para agredir. A miséria humana que flagramos por todos os meios constitui bom exemplo. Não vou me alongar. Se me dispusesse a exemplificar mundos que nos roubam potência, o artigo não chegaria ao fim.

Mas por que alguns mundos, quando encontrados pelo nosso corpo, produzem o efeito de alavancar nossa potência e outros mundos, o efeito contrário?

Nosso corpo, num instante de existência no mundo, é radicalmente singular. Nada será absolutamente igual. Portanto, toda relação que mantemos é com o diferente, com o resto do mundo. Como já dissemos, o mundo com o qual nos relacionamos nos transforma. Por isso, podemos inferir que, na relação, esse mundo determinou em nosso corpo uma passagem, do que éramos para o que nos tornamos. Como estamos sempre em relação, nosso corpo está ininterruptamente passando de um estado a outro.

Ora, essas passagens, que nos constituem, instante a instante, não se equivalem. Podem ser valoradas. A partir de um critério: nossa essência, nossa potência de agir. Algumas passagens são boas, outras más. São boas quando passamos de um corpo menos potente para um mais potente. Será má, ou ruim, a passagem no sentido contrário. Quando o resultado final da relação determinar perda de potência em nosso corpo.

E essas passagens têm nome. Quando são boas, e com elas ganhamos potência, denominam-se alegria. Quando são ruins e implicam perda de potência, denominam-se tristeza. Assim, o mundo é bom quando alegra. E ruim, quando entristece. E mais: como a potência é nossa essência, a alegria nos aproxima de nossa essência, portanto de nossa perfeição. Enquanto a tristeza nos rouba potência. E, portanto, o que nos é essencial. Distanciando-nos de nós. De nossa perfeição.

Assim, o leitor vai a um bar, solitário. Encontra uma mulher de exuberante topografia. Que o acolhe com um lindo sorriso. Aproxima-se e sentencia:

            – Encontrá-la alegrou-me.

Ela, surpresa, pergunta o que você quis dizer com isso. E você, com leveza, explica:

            – Contemplá-la determinou em mim a passagem para um estado mais potente e perfeito do meu ser.

Mas por que certos mundos nos alegram e outros nos entristecem? Um corpo é afetado por outro de alegria quando compõe bem com ele. Quando se integram. Inversamente, haverá tristeza quando o mundo encontrado descompuser. Desintegrar.

Assim o encontro com uma rabada, no almoço, pode alegrar. Isso acontece quando a rabada degustada compõe com quem a degustou um todo de maior potência. Nesse caso, você afirma que a rabada está deliciosa. Que aquilo é que é rabada. Mas o contrário pode acontecer. Uma rabada pode entristecer. Decompor. Desintegrar. Manter relação lesiva. Danosa. Nesse caso, diremos que a rabada que comemos em tal lugar estava estragada e por isso fomos parar no hospital.

Alegria tem a ver com vida boa. Tristeza, com o seu contrário. E nós? Somos natureza. Parte dela. E, na matemática geométrica dos afetos, não passamos de esforço pela potência. Uma resistência contra tudo o que apequena, que entristece. Porque tudo o que é reafirma sua essência. E a nossa, lembramos, é a nossa potência. Podemos dizer que somos orientados por um movimento natural de insistência na própria existência.

Por isso, existir é insistir. Nada fazemos sem afirmar-nos no mundo. Tudo o que é, todo o ser, esforça-se, na medida em que pode, para continuar a ser. Esforço que Spinoza vai nomear conatus. Todos os seres são dotados necessariamente dessa força interna de autopreservação. Eis a sua essência.

FIM DA PARTE 3 ____________

* Texto originalmente publicado na coleção Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 2 – Afetos e Consumos (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

O texto aqui reproduzido foi dividido em 4 partes. Na próxima semana, na 4ª e última parte, o autor fala sobre a morte como uma combinação de forças que nos vencem e o esforço do corpo e da alma por encontros alegres com mundo, ou melhor, encontros que aumentem a nossa potência para a vida.

** Professor livre-docente de ética da ECA/USP. Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

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