Clóvis de Barros Filho**

Mas, e a morte? A morte vem de fora. A morte decorre de uma particular existência no mundo. De encontros que nos superam. De combinações de forças que nos vencem. E o que seria preciso para sermos eternos? Ora, só não morreríamos se não perdêssemos potência. Se não entristecêssemos. Se todos os encontros fossem alegres. Quando, ante qualquer mundo, compuséssemos bem.

Outra saída para não morrer seria não encontrar. Não se relacionar. Não se deixar afetar. Mas para isso seria preciso ou que o mundo não existisse, ou que nós não existíssemos nele. Mas o mundo tem de existir, porque nossa existência de parte depende da existência do todo. Quanto a nós, bem, podemos deixar de existir. Mas, nesse caso, perde um pouco o sentido a discussão sobre não morrer.

Esse esforço é do corpo, que luta pela alegria o mais que pode. Mas é também da alma. Esforços sem paralelo. Do corpo e da alma. Formas diferentes de manifestação da mesma substância. Sem oposição possível entre eles. Sem juízos e condenações morais dos apetites. Porque se você, caro leitor, costuma se alegrar com alguma coisa, quando o seu corpo efetivamente a encontra, se alegrará também em nela pensar.

Vale para uma estagiária nova, que acaba de ser admitida no escritório. Quando o seu corpo a encontra, sua potencia de agir aumenta. E, na solidão da alcova, também a alma que nela pensa se alegra. Aumenta sua potência de pensar. Na defesa de sua potência, companheiro leitor, corpo e alma jogam em equipe. Solidários.

No entanto, nossa alma tem limites. Não consegue perceber nada no mundo senão por intermédio de um afeto sofrido pelo próprio corpo. Não percebe outro corpo em ato, na sua própria potência. Por isso, todo contato com o mundo é sempre mediado pelo nosso corpo. Pela maneira como é afetado. E assim imaginamos o mundo. Sempre a partir dos afetos.

Um exemplo. Quando você contempla um bolo em uma doceira. O que é o bolo com o qual você já está em relação? Nossa alma não tem o que fazer, a não ser a partir de como o bolo vai afetar nosso corpo. Visual, olfativamente e palatarmente. Porque o bolo, nele mesmo, sempre nos será inacessível.

Apesar de todas essas limitações, continuaremos nos esforçando ao máximo para pensar em coisas que aumentem a potência de agir do nosso corpo. Mas você sabe que esse esforço nem sempre é bem-sucedido. Porque, da mesma forma que não controlamos completamente o que acontece nos encontros do nosso corpo com outros, também não controlamos completamente a produção intelectiva de nossa alma.

Controlamos um pouco. Mas não tudo. Assim, podemos nos dispor a resolver uma equação de segundo grau. E resolvê-la. Ou a elaborar um planejamento corporativo para o ano vindouro. Ou redigir uma sentença. E nossa mente agirá com esse fim. Mas, tão logo começamos a tarefa, outras ideias podem sobrevir. Na melhor das hipóteses, a estagiária, a aluna sorridente ou um filme engraçado a que assistimos. Mas isso, na melhor das hipóteses.

Porque o que passa pela nossa cabeça pode nos entristecer mesmo. Apequenar nossa potência com os dois pés. Você sabe disso. Às vezes estamos bem, nada aconteceu diante de nós, e por conta de algum pensamento, nossa potência míngua. E muitos de nós, quando entristecemos assim, denunciamos o apequenamento em cada gesto. Em cada músculo da face.

O que nos ensina Spinoza é que toda vez que algum pensamento desse tipo nos acontece, nossa alma se esforça ao máximo para pensar em outra coisa. Porque, pensado em outra coisa, obviamente deixamos de pensar, nem que seja por alguns instantes, naquilo que nos entristecia.

Seu time perdeu. O campeonato. Para o maior rival. As cenas do jogo não saem da sua cabeça. Acredite, há um esforço para retirar o futebol de onde está. Claro que esse esforço tem de ser positivo. Ou seja, não pode haver esforço simplesmente para deixar de pensar. Haveria uma lacuna absurda. Por isso, o esforço é sempre por pensar em outra coisa. Dessa forma, indiretamente, exclui-se o que entristece.

E minha tia, 96 anos na época de minha adolescência, espinosista de carteirinha e fundadora do comando de caça aos idealistas de Bagé, tentava me consolar:

            – Para esquecer um amor de chifre, nada melhor do que outro. De preferência sem chifre, dessa vez.

Porque para tirar da mente – ou da alma – o que entristece, vale tudo. Vale recordar coisas que excluam a existência das entristecedoras. Porque somos afetados pela imagem de um corpo flagrado no passado do mesmo afeto de alegria ou de tristeza de que somos afetados pela imagem de um corpo flagrado no tempo presente.

E assim vamos: lutando pelos encontros alegres de nosso corpo com o mundo; para evitar os tristes; para imaginar coisas que aumentam a potência de agir do corpo e a potência de pensar de alma; bem como para evitar as imaginações que enfraquecem, que refreiam a ambos. A vida que vale a pena ser vivida aqui é aquela em que tudo isso dá certo. Quando ganhamos potência. Quando nos aperfeiçoamos. E você continuará lutando por ela. Luta que você sempre travou. Desde o nascimento. E continuará travando. Até a morte.

Não é o suficiente? Engano seu. É o que é. O que pode ser. Talvez não baste para conseguir uma vida feliz. De alegria em alegria. Mas isso não é mesmo possível. Porque a tristeza, essa faz parte. E lutar contra ela, também. Quanto à morte, também é o que é. O placar da luta. O triunfo inexorável dos afetos tristes contra nossa insistência na existência.

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* Texto originalmente publicado na coleção Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 2 – Afetos e Consumos (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

 

http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html

** Professor livre-docente de ética da ECA/USP. Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

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