Francisco Secundo da Silva Neto*

A vivência em sociedades capitalistas e democráticas de direitos nos concede o aval de pensar livremente, de se expressar livremente e comerciar livremente, desde que, neste último caso, se paguem os devidos tributos estatais e se possua a concessão pública. No geral, tal ambiente democrático e de livre comércio nos torna livres para falar e fazer o que se quer desde que não se cause mal ou se inflija sofrimento ao outro conforme as leis. Assim, “ser livre” em sociedades como a brasileira significa “fazer o que queremos” tendo apenas que observar os aparatos legais que regem e determinam as nossas liberdades.

Segundo o filósofo Clóvis de Barros Filho (2011), se pensada como ação livre determinada pelo querer, a liberdade está submetida ao desejo e, neste sentido, não teria nada de livre. A liberdade estaria, desde logo, subjugada pelas vontades humanas, por vezes, caprichosas e inconsequentes. O certo é que, sugere o filósofo, ninguém pode fazer, a todo o momento, tudo o que quer porque vivemos com outros e nossas ações afetam a trajetória alheia. É preciso saber conviver para se viver com a liberdade que nos é possível.

O caso do polêmico filme americano que causou uma onda de protestos violentos e morte, primeiro no Egito e depois no resto do mundo árabe e mulçumano, é um exemplo de uma expressão de liberdade que não se coaduna com a definição aqui exposta. A vontade de se fazer um filme ou uma charge que deboche dos sentimentos e crenças dos outros, que escarneça Maomé ou Jesus e seus seguidores, não é apenas possível como permissível nas nossas sociedades capitalistas e democráticas de direitos. Há muitos que defendem esse direito de se expressar livremente, doa a quem doer, morra quem morrer. Não importa! A livre expressão e o livre comércio são forças do progresso das democracias capitalistas e devem ser mantidas custe o que custar – mesmo que o custo seja a vida alheia.

Em outro post de minha autoria (Humor Ousado) – https://secundo.wordpress.com/2011/10/12/humor-ousado/ – indaguei se é possível rir de tudo e respondi negativamente. Refaço a pergunta: é possível fazer piada de tudo? Sim, é evidente que sim. Contudo, tal piada pode provocar alegria ou, mesmo, ódio. Isto é, se a piada foi devidamente entendida ou que tenha feito sentido no meio em que fora contada. Somos livres para rir de tudo, mas não somos livres da nossa vontade de rir de tudo. Posso fazer piada de qualquer evento ou rir em qualquer situação, porém preciso estar cônscio de que minha piada e meu riso, depois de expressos, irão afetar positiva ou negativamente o(s) outro(s). Principalmente se vivo em mundo de liberdade assistida ou regida legalmente, como é caso das nossas democracias capitalistas.

O filme americano que escarnece Maomé fora feito num país de ampla defesa das liberdades, o qual tem a uma estátua que é um símbolo da nação em homenagem ao tal conceito. A reação de protestos violentos contra o filme ocorreu em países que as liberdades são estreitamente assistidas pelo poder religioso e que não aceitam que seus símbolos de fé sejam escarnecidos. A vontade de debochar do outro, “atrasado”, “fanático” e, assim, não “civilizado” e sem “livre consciência” acarretou consequências trágicas. A liberdade de expressar a piada contra Maomé teve como consequência violência e morte oriundos daqueles que sentiram o direito de expressar livremente suas revoltas.

Quero deixar claro que a defesa de um cerceamento à liberdade de expressão não é a tônica aqui. Nem muito menos penso que tal direito deva ser suprimido. O que é um absurdo. Mas, defendo, sim, o dever ou a obrigação de sabermos conviver livremente. A vida social sempre vai depender de nossas vontades e intervenções e, às vezes, depende de cada um que algumas tristezas, protestos e mortes sejam evitadas por causa de quereres inconsequentes que condicionam as nossas liberdades de fazer o que se quer.

Referência bibliográfica

BARROS FILHO, Clóvis de. “O Aprendizado da escolha” in BARROS FILHO, Clóvis de. (org.). Trabalho e educação. São Paulo: Duetto Editorial, 2011 (Coleção Ética: pensar a vida e viver o pensamento)

*Sociólogo de formação e em formação (UECE, UFC) e estudioso da cultura humorística no Ceará, coisa própria do ser humano cearense.

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