1002358_615578568472866_135164300_nFrancisco Secundo da Silva Neto*

A “molecagem do povo cearense” ou o “Ceará moleque” constituem-se em expressões que designam uma interpretação sobre o que faz ser cearense. Toda interpretação repousa sobre posicionamentos de valores e carrega uma classificação – “bom ou ruim”, “superior ou inferior” – sobre o que se interpreta (BARTHES, 1990). A dita interpretação indica que ser cearense é ser “moleque”, “irreverente”, “gaiato”, “fuleiragem”, enfim, “fazedor de pouco” e “achador de  graça” como algo “bom”, mesmo “positivo”. É esta interpretação que iremos ver no filme Cine Holliúdy do cineasta cearense Halder Gomes que estreia nas salas de cinema de Fortaleza e de algumas outras cidades no Ceará nesta sexta, dia 09 de agosto de 2013.

Coloco as aspas em “o cearense” pois é razoável afirmar que nem todo “cearense” se acha engraçado ou fazedor de graça. Coloco as “aspas” em “o cearense” pois como sociólogo e estudioso da cultura compreendo que uma “identidade regional” é fruto de um imaginário e memória coletivos que estão irremediavelmente ligados a um contexto histórico e social.

Como recado para os amigos e colegas intelectuais de plantão aviso que descarto
aqui a ideia de “invenção das tradições” (HOBSBAWM e RANGER, 2012) uma vez que
a expressão por mais que esclareça que instituições políticas, movimentos
ideológicos e grupos sem antecessores tornam necessária “a invenção de uma
continuidade histórica através da criação de um passado antigo”, a ideia de “invenção”
pode dar (e, por vezes, dá) a entender que houve, em algum tempo histórico
passado, uma “tradição pura”, anterior, que não tenha sido “inventada”. Nada
mais ilógico sociologicamente falando. O passado é sempre construído no presente, é sempre fruto de uma construção, de “convenções”.

Cine Holliúdy demonstra, então, pensando sociologicamente, uma intepretação sobre o que faz ser cearense que muito cearense gosta de ver, ao menos, atualmente. Uma interpretação que orienta práticas e que reforça a ideia de uma “irreverência inata” do “povo do Ceará”, a qual assenta raízes em escritos literários, pasquins e crônicas[1] que desde os fins do século XIX apontam um “Ceará moleque” como emblema ou marca que identifica os que nascem ou vivem na “terrinha”. Contudo, tal emblema quando apareceu pela primeira vez (até onde pude apreender por pesquisa) em escritos literários nos fins do século XIX era, na verdade, um estigma (GOFFMAN, 1988). Nos seus inícios, a expressão “Ceará moleque” não tinha nada de emblematicamente positiva. Explico.

A palavra “moleque” se origina de mu’ leke, “menino pequeno”, palavra do idioma Quimbundo, língua banta falada por alguns dos grupos africanos trazidos ao Brasil colonial para o trabalho escravo. Dentre os significados de “moleque”, de acordo com o Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1986, p.937), encontram-se os seguintes: “S.m. 1. Negrinho. 2. Indivíduo sem palavra, ou sem gravidade. 3. Canalha, patife, velhaco. 4. Bras., Menino de pouca idade. […]. 6. Bras., CE Pop. v. diabo (2). Adj. 7. Engraçado, pilhérico, trocista, jocoso: dito moleque. 8. Canalha, velhaco”. Como se pode notar o campo semântico da dita palavra indica que ela não é apenas uma herança africana incorporada ao léxico da língua portuguesa no Brasil. A associação entre o termo e o sentido de “canalhice”, por exemplo, é, provavelmente, oriunda da maneira como o negro foi incorporado ao passado colonial brasileiro. É sabido que as marcas deixadas pela violência física nos castigos sofridos pelos negros não foram as únicas que permaneceram depois do fim da escravidão em terras brasílicas. A violência do preconceito contra o negro é uma dessas marcas que ainda persiste.

A primeira aparição da expressão “Ceará moleque” foi na obra ficcional de Manuel de Oliveira Paiva (*1861 – †1892), A Afilhada, publicada em formato de folhetim no jornal O Libertador de Fortaleza nos inícios do ano de 1889 – esta obra só fora publicada em livro no ano de 1960. Na trama, o apelido “moleque” para designar o “Ceará” aparece na forma de um comentário do narrador. O contexto é o seguinte: Vicente, o jovem educado na sede do Império, escutava sua tia, Dona Fabiana, falar sobre tal Visconde de São Galo. Segundo aquela senhora, este era um nobre titular da cidade e Dona Fabiana aspirava casar sua filha, Das Dores, com o Visconde, apesar da discordância do marido, o Desembargador Osório. Assim, a Sra. Góis só tinha elogios para o aristocrático futuro genro:

“No meio da conversa, como era hábito seu adquirido, trazia sempre o Visconde de São Galo. Conhecia-o? O chefe da nobreza da província. Não? Digno dos nossos antepassados! O desembargador ou concordava, ou não tugia. Mas o engenheiro é que ficou embatucado.

Senhor, que nobreza era aquela no Ceará moleque?! Enfim, como não conhecia aquilo bem…” (PAIVA, 1993, p. 188).

O “Ceará moleque” aqui indica “não nobreza” e “atraso”. O narrador parece querer dizer: como poderia haver alguma família ou pessoa nobre naquela província? Era uma fidalguia cabeça-chata isso sim! A compreensão era de que Fortaleza nunca fora uma “cidade nobre”, nunca fora aristocrática e, mesmo naquele período, com as poucas mudanças urbanas pelas quais passava, ainda estava longe de ser uma cidade “moderna e civilizada”. No início do romance, o narrador avança uma similar compreensão: “A Fortaleza não tinha aristocracia, nem classes, e não sei se hoje tem; por modos que a florescente cidade poderia comparar-se a um or­ganismo em formação, a uma semente fermentando, onde só o olho do sábio divisa o que terá de ser caule, folha, raiz” (PAIVA, 1993, p. 163). A então capital da Província do Ceará, retratada no romance, era uma tradicional cidade sertaneja “meio metida a besta”, mas “atrasada”, conforme sugere o autor.

Três anos após a primeira aparição impressa da expressão “Ceará moleque”, ela ressurge no romance A Normalista de Adolfo Caminha (*1867 – †1897), publicado em livro no Rio de Janeiro no ano de 1893. Nesta obra literária, a Fortaleza provinciana e seus habitantes são descritos com desprezo e em um tom pejorativo. No livro de Adolfo Caminha são expostas impiedosamente as “mazelas morais” da sociedade fortalezense da década de 1880 – período de ambientação do enredo. No romance, o apodo “Ceará moleque” possui um sentido pejorativo e aparece na fala de uma personagem que desdenha de um “alcoviteiro” pasquim. Eis o contexto: a estudante da Escola Normal, Maria do Carmo, personagem principal do romance, reclama a Lídia, sua amiga e confidente, do pasquim A Matraca – de acordo com o narrador, “um jornaleco imundo que falava da vida alheia” – o qual escrevera versos sobre seu namorico com o Zuza, um estudante de Direito de Pernambuco que passava férias em Fortaleza. Veja-se o trecho:

“– Estás vendo, menina? Lê isto aqui. E apontou com o dedo.

Eram uns versos de pé de viola que contavam o recente namoro do Zuza:

‘A normalista do Trilho,

ex-irmã de caridade,

está caída pelo filho

dum titular da cidade

O rapazola é elegante

e usa flor na botoeira:

D. Juan feito estudante

A namorar uma freira

Eis porque, caros leitores,

eu digo como o Bahia:

– Falem baixo, minhas flores,

Senão… a chibata chia!’

Lídia achou graça na versalhada. Ela também já saíra na Matraca.

– Um desaforo, não achas? Perguntou a normalista indignada.

– Que se há de fazer, minha filha? Ninguém está livre destas coisas no Ceará Moleque. Não se pode conversar com um rapaz, porque não faltam alcoviteiros” (CAMINHA, 1997, p. 36-37, grifo do autor).

Além dos referidos “jornalecos imundos”, o narrador se refere ao Café Java[2], às boticas e bodegas como sendo os espaços nos quais os assuntos preferidos eram os escândalos domésticos e os fatos particulares. O “Ceará moleque”, nesse caso, seria um rótulo para indicar aqueles que prestavam atenção na vida alheia e que insultavam com os outros. Era no que basicamente se constituía, para Adolfo Caminha, o “canalhismo de Província”.

Por hora, é preciso esclarecer, não é correto afirmar categoricamente que o apelido “Ceará moleque” tenha aparecido pela primeira vez em um livro ou em qualquer meio escrito. E, se antes tal expressão era popularmente conhecida e difundida em um linguajar cotidiano ou citado nas conversas dos intelectuais e escritores do Ceará daqueles tempos, também não é lícito afirmar por certo. Porém, o epíteto, aparece pela primeira vez nessas obras ficcionais antes citadas (A Afilhada [1889] e A Normalista [1892]). E surge aí com a intenção de demonstrar um tipo de “caráter cearense”, mais propriamente, uma faceta do comportamento dos fortalezenses. O mais importante aqui, no entanto, é notar que este “Ceará moleque” de início não apontava propriamente a ideia de um “povo irreverente e alegre”. O adjetivo “moleque” para o Ceará, ou melhor, para os cearenses, da maneira como aparece na crítica social que as referidas produções literárias realizaram, tem significados bem específicos, isto é, de atraso, de não nobreza e de canalhice. Destarte, n’A Afilhada e em A Normalista os autores não falavam de um “povo alegre e irreverente”; a rigor, se expressavam de forma preconceituosa, na sua interpretação da cidade, classificando como “gentinha atrasada e canalha aqueles que gostavam de bisbilhotar e zombar da vida alheia”, naquela Fortaleza dos anos finais do Império. Nos anos seguintes à publicação das obras de Paiva e Caminha, o apelido começa a aparecer com mais frequência em várias outras publicações e ocasiões – que aqui não cabe enumerar. E ao longo do século XX, com o movimento modernista nas artes e a valorização de tudo que fosse “popular”, o epíteto moleque foi, por muitas vezes, evocado para designar positivamente  um “caráter” alegre e irreverente do “povo cearense”.

Na atualidade, além dos “humoristas do Ceará”, que transformaram a cidade de Fortaleza como uma das únicas no mundo a oferecer shows humorísticos todos os dias da semana, em todo o ano, outros agentes também alimentam essa “cultura da molecagem”, em outras instâncias de produção, como exemplos: o empresário Gustavo Lobo, produtor de humor do estilo stand up comedy aqui em Fortaleza e proprietário de uma grife de camisas com estampas que exploram um “humor nordestino”, a NordWest – camisetas invocadas; a fan page Suricate Seboso da rede virtual de perfis pessoais Facebook, criação do jovem Diego Jovino morador de Messejana, bairro periférico de Fortaleza; os garotos do Xafurdaria, um grupo de jovens de Aracati, cidade do interior do Ceará, que fazem vídeos de humor e os postam em um canal no site de compartilhamento de vídeos na internet, Youtube. E sem sombra de dúvida podemos elencar agora o filme de Halder Gomes como mais uma produção artística que alimenta esse imaginário e memória coletivos sobre uma cearensidade gaiata.

Por fim, a expressão “Ceará moleque”, é ainda certo sublinhar, trata de um estereótipo, e é apenas por estereotipia que se pode falar de um humor nacional ou regional (ZINK, 2011). Porém, um estereótipo, segundo Rui Zink, é um produto cultural formado por circunstâncias históricas e pode ser certamente um instrumento de conhecimento ou um mapa que ajuda a ver uma dada realidade. “Infelizmente, um mapa no qual tenhamos sempre o nariz enfiado acabará por nos impedir de ver a realidade. A realidade para a
qual o mapa devia ser… um auxiliar.” (ZINK, 2011, p.47-48). Por um lado, a “molecagem cearense” é um estereótipo e, por tal condição, é inexato ou não confiável para descrever ou interpretar racionalmente determinadas práticas culturais artístico-lúdicas em uma dada configuração social. Por outro lado, pode haver um “corpus humorístico” reunido no
qual se encontra, com algum esforço, um padrão modular e temático (ZINK, 2011). Rui Zink afirma ser possível reunir um ou vários corpora com textos e discursos que configurem certas características próprias. Cine Hollíudy consegue reunir um corpora de expressões linguísticas que remetem ao regional, a uma “fala cearense”. Reforço de estereótipo ou não, o certo é que uma ruma (muita mesmo!) de gente nascida e criada nesta “cultura da molecagem” gosta de se ver como “moleque”. E agora irá poder se ver assim na tela do cinema.

*Sociólogo de formação e em formação, professor de sociologia do curso de Administração da Fametro. Realiza atualmente uma pesquisa sobre as relações entre humor, entretenimento e turismo no curso de doutorado em sociologia da Universidade Federal do Ceará.

Referências

BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios críticos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

CAMINHA, Adolfo. A Normalista. Fortaleza: Diário do Nordeste, 1997.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara; 1988.

HOBSBAWM, Eric e RANGER, Terence (Org.). A Invenção das Tradições. [edição especial]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. (Saraiva de Bolso)

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

PAIVA, Manuel de Oliveira. Obra Completa. Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 1993.

ZINK, Rui. “Da Bondade dos Estereótipos”. In: LUSTOSA, Isabel (org.). Imprensa, humor e caricatura: a questão dos estereótipos culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.



[1] Referências dessa natureza aparecem, por exemplo, nas seguintes obras literárias e de crônicas: A Afilhada (1889) de Manuel de Oliveira Paiva (1861-1892), A Normalista (1893) de Adolfo Caminha (1867-1897), Um Motim na Aldeia [O Cajueiro do Fagundes] (1911) de Araripe Júnior (1848-1911), Coberta de Tacos (1931) de Rodolfo Teófilo (1853-1932), Coisas que o Tempo Levou (1936) de Raimundo de Menezes (1903-1984), Ceará Moleque (1936) de Renato Sóldon (1903-), Fortaleza Velha: crônicas (1954) de João Nogueira, Ceará Gaiato (1955) de Plautus Cunha e Imagens do Ceará (1959) de Herman Lima (1897-1981).

[2] Um dos quatro cafés em estilo chalet francês instalados na década de 1880 na Praça do Ferreira, no centro comercial de Fortaleza.