Secundo Neto, sociólogo e professor

 Em um sentido corriqueiro e bem conhecido “cultura” é entendida como a posse de um conjunto de conhecimentos ou gostos que dotam os indivíduos de uma certa importância ou status social, como na frase: “o professor Roberto gosta de ópera, ele tem cultura”. Há outros sentidos para o termo, todavia, quando se diz, por exemplo, “Os EUA possuem uma tradicional cultura de guerra”, isto significa dizer que, de modo geral, os nossos “Brothers” do norte das Américas cultivam desde tempos remotos uma forte tendência para resolver problemas nacionais guerreando com outras nações ou países – nos filmes de Hollywood eles guerreiam até com seres de outros planetas! Quando um executivo diz algo como “Tratar bem os funcionários é parte da cultura desta empresa” está indicando um modo de proceder ou uma prática costumeira que identifica e diferencia a empresa dele.

Mas, e afinal o que é “cultura”? Buscando a etimologia da palavra
descobre-se que sua origem vem do latim colere que significa cultivar. “Cultura” tanto pode significar o “cultivo do espírito”, numa acepção mais geral e corriqueira; como pode apontar o cultivo de usos e práticas comuns de um “povo”, grupo ou sociedade em um sentido sociológico e antropológico. Por volta dos séculos XVII e XVIII na Europa havia dois termos distintos para se referir à “cultura”: kultur, palavra alemã que significava as conquistas do espírito humano, como música, literatura e as artes em geral; e civilization, palavra francesa que significava as conquistas materiais da humanidade, como as
máquinas a vapor, o tear, a energia elétrica. O britânico Edward Tylor, um dos fundadores da antropologia no século XIX, unificou os termos kultur e civilization no vocábulo inglês culture atribuindo-lhe o seguinte significado: “todo complexo de crenças, valores, costumes, leis, moral, arte, e outras qualidades e hábitos adquiridos pelo ser humano em sociedade”.

Em uma definição mais atual baseada numa “antropologia interpretativa” (defendida pelo antropólogo americano Clifford Geertz) “cultura” diz respeito ao conjunto de ideias, valores, normas, crenças, costumes, hábitos e técnicas que dotam de significados o mundo humano e que orientam as ações e práticas dos indivíduos em sociedade. A cultura é, nesta última perspectiva, algo compartilhado coletivamente e não propriedade de alguns sujeitos na escala social. Cada coletividade (grupos ou sociedades) possui cultura. A cultura confere a essas coletividades as suas originalidades, tornando-as diferentes umas das outras.

Falando em diferenças, ressalte-se que se pode entender “cultura” em um sentido sócio antropológico através da diferenciação entre o homem e o animal, ou em outros termos, entre o que é humano e o que é natural. Diferente dos outros animais, os seres humanos possuem cultura. Um formigueiro e uma colmeia de abelhas possuem uma organização coletiva a fim de obter e manter a comida que os sustenta. Contudo, a forma de organização desses animais é herdada naturalmente, ou seja, faz parte da natureza das formigas e das abelhas. Nunca se ouviu falar de uma escola para formigas onde aprendem a fazer um formigueiro. Isso nasce com elas. De modo diferente, as nossas formas de morar (habitação), modos de se vestir (vestuário), o que e como comemos (alimentação) são ensinados ou repassados de uma geração para outra constituindo os elementos materiais da cultura. O que também passa pelo processo de aprendizagem é a religião que se professa, as noções de certo e errado no trato com as pessoas, os gostos musicais e maneiras de se divertir, os quais constituem os elementos imateriais da cultura. E todos esses elementos, sejam materiais ou imateriais, estão interligados e são aprendidos no meio social. Ninguém nasce sabendo se vestir e nem o que vestir, somos informados a respeito disso ao longo de nossas vidas. Os seres humanos constroem recipientes de barro, por exemplo, mas decidem que uns servem para cozinhar (panelas) e outros para enfeitar as casas (vasos). Assim, a cultura não é algo natural, ela é assimilada, ensinada e aprendida.

Mas, para além de apontar diferenças entre povos e grupos e diferenciar o homem do animal, o que de mais importante a “cultura” possui? Para os estudiosos da “cultura”, ela é também responsável pela evolução humana. O antropólogo norte-americano Alfred Kroeber publicou em 1917 um artigo intitulado “O Superorgânico”, no qual apontava a superioridade da cultura no desenvolvimento das sociedades e grupos humanos. Para ele, o advento da cultura fez com que o homem se diferenciasse do resto dos animais, ela possibilitou o aumento do aparato biológico humano e de sua adaptabilidade ao meio ambiente ao desenvolver a capacidade simbólica (comunicativa) e a capacidade de fabricar instrumentos (desenvolvendo o intelecto). Clifford Geertz (1978), o já mencionado antropólogo americano, aponta que a paleontologia demonstra que o corpo humano formou-se aos poucos. Hominídeos como o Austrolopiteco, com um 1/3 (um terço) do tamanho do cérebro do Homo Sapiens, já confeccionava objetos e caçava. Este fato leva Geertz (1978) a concluir que logicamente o crescimento cortical humano foi posterior e não anterior ao início da cultura. Assim, o desenvolvimento da cultura, neste ponto de vista, contribuiu para a transformação orgânica de certos primatas, ou seja, o homem não é somente produtor de cultura, ele também é produto dela.

Um dos exemplos mais significativos para se entender “o que é cultura”, nesta perspectiva sociológica e antropológica, é quando se pensa os “valores” que regem os indivíduos nas suas coletividades. “Valores” ou “princípios” são concepções gerais do “bem”, definem o que é “certo” e “errado”, enfim, são referências para as nossas ações. E os “valores” diferem de uma coletividade para outras e nos tempos históricos das próprias coletividades. O que era “certo” antes, no passado, pode ser “errado” hoje. As noções de beleza feminina, por exemplo. Nas sociedades ocidentais, de um modo geral, historicamente as mulheres mais gordas eram sinônimo de riqueza, beleza e desejo sexual. Hoje, nas sociedades contemporâneas e ocidentalizadas, a mulher magra ou aquela “bem feita de corpo” é que são as belas. Na Mauritânia, país islâmico situado no noroeste do continente africano, a obesidade feminina fora reverenciada tradicionalmente entre a população moura árabe ao ponto de as jovens meninas serem alimentadas a força em espécies de “fazendas de engorda de mulheres” (GIDDENS, 2012). Para arranjar um casamento na Mauritânia a mulher tinha que ter uns “quilinhos” a mais. O critério de beleza é sem dúvida um “valor” que é definido pela cultura das diversas coletividades.

Por fim, como aponta Roque de Barros Laraia (2006), antropólogo brasileiro, a cultura condiciona o modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais, tudo isso, é possível afirmar, são assim produtos de uma herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma determinada cultura.

 

REFERÊNCIAS

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e Resistência – Aspectos da cultura popular no Brasil. 6ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

GIDDENS, Anthony. Sociologia. 6ª ed. Porto Alegre: Penso, 2012.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 20ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

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