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O Aprendizado da Escolha (Parte III de III)*

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por Clóvis de Barros Filho*

Só a boa vontade é tudo de bom, diria Kant. Todo o resto está sob suspeita. Dependerá sempre do que fizermos com ele. Estão na boa vontade toda a virtude e toda a dignidade. Nesse humanismo moderno de Kant, não faria nenhum sentido falar, por exemplo, de joelho ou olho virtuosos. Porque nada disso pode ter boa vontade. Nem qualquer tipo de vontade. Que supõe liberdade deliberativa. E joelhos e olhos não deliberam livremente. Pelo menos, supomos nós.

Dessa exaltação da boa vontade como fundamento da moral, quais as consequências? A primeira é a igualdade. Igualdade entre todos nós. Perante Deus, ainda dizem alguns. Perante a lei, garantem os textos constitucionais. A igualdade entre os homens não saiu mais do cardápio das ideias morais. Entendida como óbvia na maioria das sociedades em dias atuais, nem sempre esteve presente no debate sobre a melhor forma de conviver.

Com efeito. Na moral aristocrática dos gregos, só há superioridade e inferioridade. Hierarquia, em suma. Natural, moral e política. O poder exercido pelos melhores. Senhores e soberanos. Sobre os piores, escravos. Por isso, uma sociedade estratificada.

Claro que sempre fomos desiguais em talentos. Em recursos naturais. As faculdades do espírito, que me perdoe Descartes, são tão cruelmente concentradas nas mãos de dois ou três quanto as formosuras corpóreas – e as propriedades rurais em países sem distribuição de renda.

Mas já sabemos que, quando o assunto é moral, isso não tem muita importância. Porque os talentos, sejam eles quais forem, não têm, por si mesmos, nenhuma relevância moral. Podemos ser gênios canalhas. E virtuosos lerdinhos. Feios, brutos e malvados. Lindos, heróis ou vilões. O que importa mesmo é a liberdade para decidir bem. Fazer um bom uso desses talentos que são os nossos. Sejam eles quais forem. E essa liberdade, todos temos. Somos, portanto, igualmente livres para uma boa vontade. Para além da nossa natureza. Essa sim, cruel e injusta. Perceba o quanto a ideia de igualdade se choca com a perspectiva naturalista da moral aristocrática.

A segunda consequência dessa liberdade como boa vontade é o desinteresse. A ação virtuosa se confunde com a ação desinteressada. A liberdade, como vimos, é a capacidade de se deslocar da natureza. E, de certa forma, opor-lhe alguma resistência. Ora, o que entendemos por nossa natureza? O ritmo de nosso peristaltismo? A incrível propensão para micoses? Ou enxaquecas? Exemplos de manifestação da nossa natureza. Sem dúvida. Mas que têm pouco a ver com liberdade. Talvez porque nesses exemplos não haja a que se opor. A que resistir.

Por isso, a natureza que vai nos importar para entender a liberdade e a moral kantiana se materializa nas nossas inclinações. Que podem nos levar a nos ocupar exclusivamente de nós mesmos. Da nossa particularidade. Assim, descolar-se dela, ou resistir a ela, implica levar em conta os interesses dos outros. Dar lugar aos outros. Para isso, é preciso colocar-se entre parênteses. Considerar outros desejos além dos próprios. E essa autolimitação supõe que não sejamos 100% egoístas.

Essa reflexão está presente no nosso cotidiano. Todos sabemos distinguir uma conduta interessada de outra desinteressada. E atribuímos mais dignidade moral à segunda. Porque, sendo modernos, somos kantianos sem saber. Por isso achamos tão legal alguém nos fazer um favor do nada. Sem expectativa de retorno. E você enaltece aquele que, sem nunca tê-lo visto antes, devolve a carteira que você tinha perdido. Com todo dinheiro dentro. Menos valoroso é o taxista, que cobra pelo deslocamento. Menos ainda é o caroneiro sacana, que espera um pagamento em serviços eróticos. Mas a carona desinteressada, esta sim, é moralmente superior.

A terceira consequência dessa liberdade é o universalismo. A vontade, para ser uma boa vontade, deve se justificar universalmente. O dever, que resulta de uma atividade intelectiva, deve valer para qualquer um. No lugar de um deus universal, uma razão universal, ou capaz de parir o universal.

Nesse ponto, o senso comum moral se afasta do kantismo. Porque são muito comuns justificativas que se fundam na parcialidade do julgamento moral. O certo e o errado vai muito de cada um, decreta o palpiteiro com ares de erudição. Além do senso comum, pensadores legítimos, arautos da pós-modernidade, consideram que uns dos principais pontos de ruptura entre o pós e o simplesmente moderno reside nesse ponto, da universalidade moral. Michel Maffesoli, representante reconhecido dessa corrente pós-moderna, afirma que a sociedade de hoje é politeísta, em relação a sociedade moderna, monoteísta. E com esse politeísmo não quer dizer só muitos deuses, mas também muitos valores, várias formas de julgar moralmente.

Mas voltemos a Kant. Faça de tal maneira que a máxima que preside a sua ação possa ser universalizada. Possa ser transformada em lei.  Eis a fórmula do imperativo categórico. Perceba a tangência entre esse universalismo e o desinteresse. Afinal, toda pretensão de universalidade implica a negação da própria particularidade. A resistência frente aos próprios interesses. Ao egoísmo. Para levar em conta o interesse geral, o bem comum, é preciso considerar o interesse dos outros. Descolar-se da própria natureza egoísta.

Importa lembrar aqui que essa consideração do interesse do outro não é natural. Exige, portanto, um esforço. Em outras palavras, todo aquele que faz o que quer vive determinado pela própria natureza. É escravo de seus apetites. Para ser livre, ter boa vontade, considerar o outro e buscar o universal, é preciso remar contra a corrente, ir na contramão, estar, todo o tempo, focado no respeito ao dever.

Dessa forma, enquanto para os gregos a virtude corresponde à atualização dos talentos naturais, à realização da natureza em nós, para esse pensamento a virtude é uma resistência ou oposição a essa mesma natureza. A luta contra a natureza em nós. Disposição que se aprende. Por não ser inata. Que exige educação. De alunos, sem luz na etimologia. Porque a matéria bruta é sombria.

Assim, é preciso saber viver. Sentença titânica. Mas não nascemos sabendo. Resta-nos aprender. Porque a vontade tem de falar sempre. Já que nossa natureza se cala tão rápido. Porque a vida sempre vai depender de nossas intervenções. De nossas escolhas. Por sorte, para saber viver não temos de começar do zero. Outros já aprenderam tanto. Com seu próprio sofrimento. Podem nos ensinar. Para que algumas tristezas sejam evitadas. Só algumas. Porque nossa trajetória no mundo é inédita. E as experiências alheias ajudam até certo ponto. Sempre haverá uma boa parcela de mistério. Abacaxi que é só nosso. Para que descubramos saberes novos. E ensinemos também, algum dia. Só assim sentimo-nos partícipes da humanidade. Constituída por outros que, como nós, incautos, começaram a existir sem aviso prévio. E, como nós, têm de ir encontrando solução para uma existência que não é nem uma roubada nem um milagre. É o que é. E o que é acaba dependendo um pouco do que fazemos dela. Toda educação se volta para minimizar a angústia. Com maior ou menor consciência disso.

* BARROS FILHO, Clóvis de. “O aprendizado da escolha” In Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 3 – Trabalho e Educação (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

<http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html>

** Professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

O Aprendizado da Escolha (Parte II de III)*

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por Clóvis de Barros Filho*

Passemos agora a outro sentido de liberdade. Que não é mais de agir, no sentido mais coloquial. Mas de pensar. Liberdade intelectual. Que tem por objeto o pensamento. Condição de um livre-pensador. Corresponde ao que Aristóteles já descrevia como to hékousian kai akousion – o intencional e o não intencional. A questão aqui é a liberdade de espírito. O direito, nos Estados ditos democráticos – por intermédio das liberdades públicas garantidas constitucionalmente –, já cuidou em parte do problema. Afinal, essa liberdade de pensamento de que falamos é correlata à de informação, de expressão, de culto etc.

Por causa dela e por ela somos responsáveis. Afinal, não se trata apenas de fazer o que se quer. Mas de ter consciência das próprias decisões. De agir com conhecimento de causa, como se diz. Isso acontece quando, na hora de agir, várias possibilidades passam por nossa cabeça. E uma delas é escolhida. Como resultado de um exercício intelectivo. Da aplicação de um critério, ou de uma máxima de conduta.

Mas, para além da política, haverá liberdade intelectiva quando estamos em plena resolução de um problema matemático que já tem uma resposta certa? Não estaríamos, nesse caso, constrangidos por uma resolução que se impõe a nós. Não será uma forma de escravidão ter de seguir certos passos para chegar a um resultado que não podemos contornar? Penso que não. Afinal, continuo pensando o que quero. Sem nenhum constrangimento externo. O espírito pensa o que quer. Sem obedecer a ninguém. Porque é livre. E, se busca a resolução verdadeira, faz o que quer. Porque quer. Se encontra o resultado verdadeiro do problema, consuma aí sua própria liberdade. Porque, se não se buscasse livremente a verdade, estaria à deriva, delirante.

O que falta deixar claro? Que aqui a liberdade nada tem a ver com escolha. Porque a área de um quadrado corresponde ao quadrado do seu lado. E o triângulo retângulo que o divide em dois tem a sua área definida pela metade da área do quadrado. Necessariamente. E chamamos de liberdade esse discernimento. De uma verdade que nunca se impôs. Mas que, com liberdade, é alcançada. Se a verdade matemática escravizasse, quantos erros eu mesmo não teria cometido, quantas notas baixas em geometria teria evitado… A liberdade na verdade não se confunde com a liberdade na escolha. Porque aquela é necessária. Essa é simples contingência.

Até aqui apresentamos dois sentidos para a liberdade. A de fazer e a de pensar. Discutimos se somos livres para fazer o que queremos. Liberdade física de agir sobre o mundo. E se somos livres para pensar o que queremos. Liberdade de pensar sobre o mundo. Mas esses dois sentidos não permitiram ainda enquadrar a provocação inicial deste artigo. Afinal, como vimos, não basta ser livre para fazer ou pensar o que queremos. Ainda é preciso ser livre para querer o que queremos. Aqui o sentido de liberdade mudou. Antes de tudo porque passou a ser outro seu objeto.

No primeiro sentido, ser livre é questão de poder agir. Seu objeto é, portanto, a ação. A liberdade é física. De fazer ou não. No segundo sentido, ser livre é questão de poder pensar. Seu objeto é, então, o pensamento. A liberdade é intelectiva. De pensar ou não. Nesse terceiro sentido, ser livre é questão de querer. E o objeto agora passou a ser a vontade. A liberdade deixou de ser simplesmente física ou intelectiva. Por isso, muitos a denominam metafísica. E até absoluta ou sobrenatural. Liberdade de querer. Ou não.

Afinal, seremos livres para querer o que queremos? Vocês que estão lendo este exemplar [texto]. Nada nem ninguém os obrigou. Leem, então, porque querem. Movidos pela própria vontade. Em algum instante tiveram vontade de ler. Neste preciso instante, terão sido livres para querer ler este exemplar [texto]?

Consideramos uma eleição democrática, quando o povo, livremente, escolhe seus representantes. De fato, respeitada as regras eleitorais e a oferta do mercado das candidaturas, cada cidadão comparece à urna e vota, sem constrangimento. Liberdade de votar, liberdade física de apertar os botões correspondentes ao candidato que considera mais adequado. Que pressupõe uma vontade anterior. Uma intenção de voto. Mas, ainda assim, cabe a pergunta: terá havido liberdade de querer votar neste ou naquele dos postulantes?

Ou será o voto o simples resultado mecânico da socialização política do eleitor – que aprendeu, na família, classe ou clã a que pertence, a definir suas escolhas com base em certos valores? Ou das inclinações emocionais de simpatia e antipatia patrocinadas pelo trabalho político de apresentação midiática dos candidatos, definidas por astuciosos marqueteiros? Ou ainda da construção identitária que nos leva – ainda que cada vez mais raramente – a nos apresentar socialmente como de esquerda e de direita, liberal ou conservador, simpatizante ou até militante deste ou daquele partido? Ou talvez de tantas outras variáveis que pretendam explicar cientificamente a intenção de voto? Nesse caso, votar livremente, em quem queremos, não implicaria estar refém de tantas condições que não resultam de nossa livre deliberação? Essa liberdade de querer, de vontade, metafísica, é a que mais interessa a filosofia. A que mais intriga. E que mais mereceu atenção de pensadores consagrados. Vamos recorrer a Kant. Porque sua influência é colossal. Porque seu pensamento é pano de fundo do que corriqueiramente entendemos por moral no mundo moderno.

Depois de ler este artigo, não se prive do prazer de degustar a primeira página do texto de Kant, intitulado Fundamento da Metafísica dos Costumes. Esse é o momento. Lágrimas rolam. De encantamento. Porque as linhas que seguem facilitam o acesso. O autor não demora para dar o tom. Mas, ao mesmo tempo, é implacável. Não perdoará nem um segundo de distração. Apresenta-se como herdeiro da antropologia de Rosseau. E em ruptura com o pensamento grego. Porque o que pode ser bom, virtuoso e digno não são nossos talentos naturais, nossas aptidões. Discernir, desenhar, cantar ou correr, nada disso é importante para definir a virtude ou a dignidade de uma pessoa.

Ou seja, não é por ser dotado de inegável talento, proporcionado por sua natureza, que você será moralmente excelente. O que realmente importa é o uso que fará desse talento. E esse uso, é você quem decide. É uma questão de liberdade. Liberdade para decidir o que fazer com as aptidões que são as nossas. As de cada um.

Ainda estamos nas primeiras páginas dos Fundamentos. Se minha memória não me trair, o que ele diz é mais ou menos isto: de tudo que pudermos conceber no mundo, e mesmo fora dele, só há uma coisa que possa ser dita, sem restrições como absolutamente boa: a boa vontade. Assim, a inteligência, a faculdade de comparar, de discernir o particular podem ser faculdades apreciáveis. Mas não são qualidades morais. E por que não? Porque todas essas faculdades, e todos os talentos naturais em geral, podem ser colocados tanto a serviço do bem quanto do mal. Nunca são, por si mesmos, bons ou maus.

Assim, podemos usar a inteligência para curar, alegrar, ensinar saberes que trarão alegrias. Em contrapartida, também podemos usar as mesmas faculdades do espírito para enganar, entristecer, iludir, mentir e muito mais. Perceba que nenhuma dessas faculdades pode ser boa em si mesma, porque dependerá do uso que delas fizermos. Da vontade. Da livre deliberação sobre um fim em detrimento de outros. Que poderá ser boa, uma boa vontade, ou não.

Assim, a beleza do corpo de um homem ou de uma mulher pode ser usada para encantar quem o contemple. Beleza para a alegria do outro. Como para ensejar o desejo. Estimular na distância a aproximação. Mas também para obter alguma vantagem ou privilégio. Como moeda de troca. Beleza que se converte numa forma de capital. Um capital estético. Beleza da jovem aluna de graduação, tortura para o professor em dias de verão. Quando a aproximação é impossível.

FIM DA PARTE 2 ____________

* BARROS FILHO, Clóvis de. “O aprendizado da escolha” In Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 3 – Trabalho e Educação (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

<http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html>

** Professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

O texto aqui reproduzido foi dividido em 3 partes. Na próxima semana, na 3ª e última parte, Clóvis de Barros Filho ao concluir sua explanação sobre o aprendizado da escolha aborda a liberdade como “boa vontade” a partir de Imannuel Kant. Boa vontade que é o fundamento de uma moral baseada nas ideias de igualdade, desinteresse e universalidade. Igualdade que supõe que somos igualmente livres para uma boa vontade conosco e com os outros. Desinteresse que aponta que a ação virtuosa se confunde com a ação desinteressada, a boa ação que não visa interesses mesquinhos e egoístas. Universalidade que indica que uma vontade, para ser uma boa vontade, deve se justificar universalmente. Aja de tal maneira que a máxima que preside a sua ação possa ser universalizada. Possa ser transformada em lei para todos.

O Aprendizado da Escolha

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Depois de um ano o Secundo Caderno está de volta!! E daí, né? Bem, se estás lendo essas linhas você se importou com algo por aqui. Tinha parado com o blog devido minhas ocupações docentes e de pesquisa, e resolvi voltar porque essas atividades nunca vão parar mesmo, e ai né… quer dizer, param talvez com a aposentadoria e definitivamente depois da minha ida deste plano existencial! E Deusulive que esta segunda parada seja tão cedo!! Amém!

Vou aqui trabalhar para que dessa vez possa publicar textos com mais periodicidade! Promessa que faço mais a mim mesmo, confesso. Ocupações intelectuais são sempre boas para o desenvolvimento de atividades docentes e reflexivas, mas no fim, a questão de voltar com o blog é de querência mesmo! E como o querer sempre resulta nas suas consequências: agora é dedicar um poucadinho de tempo para isso.

No mais, o Secundo Caderno (nome sugerido por um bom e fresco amigo) continua com as mesmas pretensões ou vontades intelectuais de disponibilizar textos, poesias, reclames e mesmo esculhambações (desde que válidas!), sejam de minha autoria ou de outrem, para os incautos de plantão!

E como escolhi, decidi, voltar com o blog, nada melhor do que filosofarmos com Clóvis de Barros Filho sobre a liberdade de escolha. O filósofo é hoje um dos intelectuais “webfamosos” junto com Mário Sérgio Cortella.

Você já pode tê-lo visto dando entrevista para o Jô Soares [https://www.youtube.com/watch?v=YkTDjMwNIOo] e mesmo em um vídeo que “viralizou” nas chamadas “redes sociais” (virtuais, acho melhor!) sobre a necessidade do “brio” para estudar [https://www.youtube.com/watch?v=85BsbUIFYlk].

Na minha concepção aerolandense esse bicho é uma figura. E é também, assim como Mário Sérgio Cortella, um intelectual incitador e dos bons!

Sem mais delongas, Clóvis de Barros Filho:

O Aprendizado da Escolha (Parte I de III)*

 por Clóvis de Barros Filho**

O livre arbítrio costuma ser apresentado como nosso bem mais precioso. Nosso traço distintivo. A liberdade de nossa vontade nos distingue do resto dos viventes. Vontade que nos confere uma dignidade ausente em qualquer outra criatura. Em nome desse livre arbítrio podemos ser sujeitos de direitos e obrigações, somos responsáveis pelos nossos atos, gozamos de cidadania, liberdades políticas e prerrogativas de expressão.

A que corresponde, então, esse fundamento de tanta coisa importante? Que nos torna tão especiais? Liberdade de fazer escolhas. De controlar as rédeas da própria existência. De definir uma trajetória em detrimento de tantas outras possíveis. De dizer sim ou não aos outros. De relacionar-se ou abortar relacionamentos. De se entupir de guloseimas ou jejuar. De votar nesse ou naquele candidato. Liberdade de deliberar sobre tantas coisas. Não falta materialidade prática para o tal livre arbítrio. Sem ele seríamos simples marionetes. Peras à espera de amadurecer para abandonar a pereira. Gatos regidos por sua natureza instintiva.

Mas não basta deliberar. Ainda é preciso que essa deliberação se converta em conduta de carne e osso. Por isso, além de sermos capazes de escolher nossos atos, seríamos dotados de uma força de vontade que nos constrangeria a agir de acordo com nossas deliberações e escolhas. A executar todas as decisões tomadas. Essa força de vontade permitiria ao homem viver de acordo com suas deliberações. E sua existência seria regida pela sua intelecção. Tornando-o criador de si mesmo, escultor de sua própria trajetória. Seríamos, portanto, nesse caso, o que quiséssemos ser. Se Deus criou o mundo do nada, o homem criaria a própria vida a partir de suas intenções, de seus princípios e valores.

Ao examinar a própria vida, nossas experiências parecem confirmar essa prerrogativa quase divina do homem. Afinal, se em muitos momentos ficamos de bobeira, jogamos conversa fora e deixamos a vida nos levar, também é frequente que concentremos nossos esforços para alcançar algum objetivo que deliberamos perseguir. Assim, decidimos por nos repaginar, nos reinventar, buscar novos horizontes e dar à vida um novo rumo. E chegamos a nos gabar da própria determinação para tudo isso. Da força de vontade que permitiu um renascer. Do empenho e da resistência contra todos os obstáculos. Como também abundam denominações e alcunhas pejorativas para os menos tinhosos. Muitas delas inspiradas em glúteos e sua falta de rigidez.

Apesar de nossas experiências triunfais, em que conseguimos o que decidimos conseguir, nada prova que a vontade seja efetivamente a causa de nossos esforços; nada garante que uma decisão tomada pela razão possa determinar aquele enorme investimento de energia que nos permitiu uma certa performance. E temos motivos de sobra para desconfiar dessa relação entre deliberação de vontade e disposição para ação. Isso porque todos nós, em muitas outras situações, a despeito de tomar decisões, fazer projetos e identificar o que tinha de ser feito, adiamos dia a dia sua execução sem manifestar entusiasmo algum.

Lembro-me de um livro que tinha de terminar. E sempre arrumava alguma coisa para fazer no lugar. Do projeto de poupar algum dinheiro para a velhice. De um amigo da faculdade que assegurava estar enrolando havia 12 anos para se divorciar. De outro que, apesar de todos os sinais positivos da amada, não ousava propor o conluio. Sem falar das dietas, do cigarro, da fidelidade conjugal que a cada virada de ano povoam as intenções de tanta gente. Quanto fracasso!

Em todas essas situações, será que tudo é só culpa da falta de vontade? Não, bradaremos todos nós, coro dos fracassados. Mas nesse caso, temos de admitir também que quando tudo dá certo, não foi só a força de vontade a responsável. Parece provável que, tanto num caso quanto no outro, o essencial sobre o que vai mesmo acontecer conosco na hora de agir acaba escapando a nossa vontade. O essencial do jogo aparentemente é jogado longe dos nossos planos. Ao arrepio de nossas ótimas intenções. E das ideias caricaturais que temos sobre nós mesmos e sobre o queremos vir a ser. Comecemos com uma provocação. Um aquecimento.

Muitos leitores, se perguntados sobre liberdade, dirão, espontaneamente, que somos livres quando fazemos o que queremos. Nesse caso, nossa ação seria livre quando adequada a um querer que lhe fosse anterior. Portanto, primeiro haveria um querer; e só depois, a possibilidade de livremente agir de acordo com ele. Primeiro o querer degustar uma berinjela gratinada e, depois, a liberdade para degustá-la. Ora, se é assim, o querer é condição da liberdade. Se eu não quisesse tanto a tal da berinjela, a liberdade para comê-la não teria a menor relevância.

Em outras palavras, a ação livre seria determinada pelo querer. Submetida aos desejos. E, nesse caso, de livre não teria nada. Já que toda liberdade supõe indeterminação. A liberdade não passaria, então, de uma escravidão. Constatação absurda. Por isso, quem faz o quer não é tão livre quanto pensa.

E você, que um dia mandou tudo às favas, e a bordo de um carro conversível foi se refestelar na praia, cabelos ao vento, em pleno dia de semana, antecipando as delícias de um banho de mar, só será livre para publicitários de calças para jovens ou de absorventes de mulheres modernas e emancipadas. Provocação feita. Ser livre não pode corresponder a viver segundo um querer. Mas então a que corresponderá? Tomo você pela mão e passeio por pensamentos ilustres. Como o de Schopenhauer. Filósofo interessado no tema do livre arbítrio.

O primeiro sentido de liberdade é mesmo esse a que nos referimos acima: de fazer o que se quer. Liberdade de agir. De fazer alguma coisa. Liberdade física. De movimento, de deslocamento. Liberdade evidente num animal selvagem. Sobre a qual não pairam dúvidas. Sua realidade é comprovada o tempo todo. Pela experiência de cada um. Um animal que age apenas por sua vontade é livre. Nesse sentido físico da liberdade. Também dizemos que uma pessoa é livre, ou dona do seu nariz, quando pode agir de acordo com sua vontade. Como na degustação de um pastel de feira acompanhado por um copo de caldo de cana. O mesmo diríamos de todo um povo. Que é livre quando pode definir sua própria trajetória. Afinal, a liberdade política é, antes de tudo, física.

Essa liberdade para agir é o contrário da obrigação. Ou da escravidão. Ou ainda, como observa Hobbes, ausência de qualquer impedimento que se oponha ao movimento. A água que se encontra no copo não é livre. Por que este último impede seu dispersar. Fica mais claro quando o obstáculo é removido. O copo se rompe. E a água recupera sua liberdade. Também os antigos espartilhos ou as mais recentes meias antivarizes. Impedimento à expansão das carnes e das gorduras. Da mesma forma, qualquer um de nós será livre para agir quando nada nem ninguém impedir seus movimentos.

Essa liberdade nunca é nula. Nem absoluta. Na vida que vivemos, os movimentos de nosso corpo estão sempre entre dois extremos ideais, imobilidade total e mobilidade absoluta. O que nos leva a graus de liberdade de ação. Porque mesmo quando só há obstáculos algum movimento é sempre possível. No copo, líquidos se agitam. Roupas apertadas se esgarçam com o tempo. E ainda, na cela, o prisioneiro simplesmente se levanta, comanda operações de tráfico ou até mesmo toda uma revolução contra o poder do Estado. De fato, enquanto houver vida em seres moventes, nunca é nula a liberdade de movimento.

Em contrapartida, essa mesma liberdade também nunca será absoluta. Afinal, ninguém pode fazer, a todo momento, tudo o que quer. Porque não estamos sós. E deslocamentos produzem efeitos. Afetam a trajetória alheia. Convertendo toda convivência numa sequência de obstáculos.

Muitos desses obstáculos ganham estatuto de lei. E é, paradoxalmente, graças a ela, que algumas liberdades remanescentes se tornam efetivas. Não há liberdade sem lei, ensina Locke. É como abrir mão de um pedaço da torta para ter certeza de dispor do resto. Ao qual passamos a ter direito. Resto que podemos exigir. Porque a mesma força que nos limita, limita os outros. Podendo assim, garantir uma liberdade que, mesmo não sendo absoluta, tem realidade e valor incontestável.

FIM DA PARTE 1 ____________

* BARROS FILHO, Clóvis de. “O aprendizado da escolha” In Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 3 – Trabalho e Educação (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

<http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html>

** Professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

O texto aqui reproduzido foi dividido em 3 partes. Na próxima semana, na 2ª parte, o autor continua com sua explanação sobre outros sentidos do conceito de liberdade. O primeiro sentido é o de ser livre, é a questão de poder agir. Seu objeto é, portanto, a ação. A liberdade é física. De fazer ou não. No segundo sentido, ser livre é questão de poder pensar. Seu objeto é, então, o pensamento. A liberdade é intelectiva. De pensar ou não. Nesse terceiro sentido, ser livre é questão de querer. E o objeto agora passa a ser a vontade.