Depois de um ano o Secundo Caderno está de volta!! E daí, né? Bem, se estás lendo essas linhas você se importou com algo por aqui. Tinha parado com o blog devido minhas ocupações docentes e de pesquisa, e resolvi voltar porque essas atividades nunca vão parar mesmo, e ai né… quer dizer, param talvez com a aposentadoria e definitivamente depois da minha ida deste plano existencial! E Deusulive que esta segunda parada seja tão cedo!! Amém!

Vou aqui trabalhar para que dessa vez possa publicar textos com mais periodicidade! Promessa que faço mais a mim mesmo, confesso. Ocupações intelectuais são sempre boas para o desenvolvimento de atividades docentes e reflexivas, mas no fim, a questão de voltar com o blog é de querência mesmo! E como o querer sempre resulta nas suas consequências: agora é dedicar um poucadinho de tempo para isso.

No mais, o Secundo Caderno (nome sugerido por um bom e fresco amigo) continua com as mesmas pretensões ou vontades intelectuais de disponibilizar textos, poesias, reclames e mesmo esculhambações (desde que válidas!), sejam de minha autoria ou de outrem, para os incautos de plantão!

E como escolhi, decidi, voltar com o blog, nada melhor do que filosofarmos com Clóvis de Barros Filho sobre a liberdade de escolha. O filósofo é hoje um dos intelectuais “webfamosos” junto com Mário Sérgio Cortella.

Você já pode tê-lo visto dando entrevista para o Jô Soares [https://www.youtube.com/watch?v=YkTDjMwNIOo] e mesmo em um vídeo que “viralizou” nas chamadas “redes sociais” (virtuais, acho melhor!) sobre a necessidade do “brio” para estudar [https://www.youtube.com/watch?v=85BsbUIFYlk].

Na minha concepção aerolandense esse bicho é uma figura. E é também, assim como Mário Sérgio Cortella, um intelectual incitador e dos bons!

Sem mais delongas, Clóvis de Barros Filho:

O Aprendizado da Escolha (Parte I de III)*

 por Clóvis de Barros Filho**

O livre arbítrio costuma ser apresentado como nosso bem mais precioso. Nosso traço distintivo. A liberdade de nossa vontade nos distingue do resto dos viventes. Vontade que nos confere uma dignidade ausente em qualquer outra criatura. Em nome desse livre arbítrio podemos ser sujeitos de direitos e obrigações, somos responsáveis pelos nossos atos, gozamos de cidadania, liberdades políticas e prerrogativas de expressão.

A que corresponde, então, esse fundamento de tanta coisa importante? Que nos torna tão especiais? Liberdade de fazer escolhas. De controlar as rédeas da própria existência. De definir uma trajetória em detrimento de tantas outras possíveis. De dizer sim ou não aos outros. De relacionar-se ou abortar relacionamentos. De se entupir de guloseimas ou jejuar. De votar nesse ou naquele candidato. Liberdade de deliberar sobre tantas coisas. Não falta materialidade prática para o tal livre arbítrio. Sem ele seríamos simples marionetes. Peras à espera de amadurecer para abandonar a pereira. Gatos regidos por sua natureza instintiva.

Mas não basta deliberar. Ainda é preciso que essa deliberação se converta em conduta de carne e osso. Por isso, além de sermos capazes de escolher nossos atos, seríamos dotados de uma força de vontade que nos constrangeria a agir de acordo com nossas deliberações e escolhas. A executar todas as decisões tomadas. Essa força de vontade permitiria ao homem viver de acordo com suas deliberações. E sua existência seria regida pela sua intelecção. Tornando-o criador de si mesmo, escultor de sua própria trajetória. Seríamos, portanto, nesse caso, o que quiséssemos ser. Se Deus criou o mundo do nada, o homem criaria a própria vida a partir de suas intenções, de seus princípios e valores.

Ao examinar a própria vida, nossas experiências parecem confirmar essa prerrogativa quase divina do homem. Afinal, se em muitos momentos ficamos de bobeira, jogamos conversa fora e deixamos a vida nos levar, também é frequente que concentremos nossos esforços para alcançar algum objetivo que deliberamos perseguir. Assim, decidimos por nos repaginar, nos reinventar, buscar novos horizontes e dar à vida um novo rumo. E chegamos a nos gabar da própria determinação para tudo isso. Da força de vontade que permitiu um renascer. Do empenho e da resistência contra todos os obstáculos. Como também abundam denominações e alcunhas pejorativas para os menos tinhosos. Muitas delas inspiradas em glúteos e sua falta de rigidez.

Apesar de nossas experiências triunfais, em que conseguimos o que decidimos conseguir, nada prova que a vontade seja efetivamente a causa de nossos esforços; nada garante que uma decisão tomada pela razão possa determinar aquele enorme investimento de energia que nos permitiu uma certa performance. E temos motivos de sobra para desconfiar dessa relação entre deliberação de vontade e disposição para ação. Isso porque todos nós, em muitas outras situações, a despeito de tomar decisões, fazer projetos e identificar o que tinha de ser feito, adiamos dia a dia sua execução sem manifestar entusiasmo algum.

Lembro-me de um livro que tinha de terminar. E sempre arrumava alguma coisa para fazer no lugar. Do projeto de poupar algum dinheiro para a velhice. De um amigo da faculdade que assegurava estar enrolando havia 12 anos para se divorciar. De outro que, apesar de todos os sinais positivos da amada, não ousava propor o conluio. Sem falar das dietas, do cigarro, da fidelidade conjugal que a cada virada de ano povoam as intenções de tanta gente. Quanto fracasso!

Em todas essas situações, será que tudo é só culpa da falta de vontade? Não, bradaremos todos nós, coro dos fracassados. Mas nesse caso, temos de admitir também que quando tudo dá certo, não foi só a força de vontade a responsável. Parece provável que, tanto num caso quanto no outro, o essencial sobre o que vai mesmo acontecer conosco na hora de agir acaba escapando a nossa vontade. O essencial do jogo aparentemente é jogado longe dos nossos planos. Ao arrepio de nossas ótimas intenções. E das ideias caricaturais que temos sobre nós mesmos e sobre o queremos vir a ser. Comecemos com uma provocação. Um aquecimento.

Muitos leitores, se perguntados sobre liberdade, dirão, espontaneamente, que somos livres quando fazemos o que queremos. Nesse caso, nossa ação seria livre quando adequada a um querer que lhe fosse anterior. Portanto, primeiro haveria um querer; e só depois, a possibilidade de livremente agir de acordo com ele. Primeiro o querer degustar uma berinjela gratinada e, depois, a liberdade para degustá-la. Ora, se é assim, o querer é condição da liberdade. Se eu não quisesse tanto a tal da berinjela, a liberdade para comê-la não teria a menor relevância.

Em outras palavras, a ação livre seria determinada pelo querer. Submetida aos desejos. E, nesse caso, de livre não teria nada. Já que toda liberdade supõe indeterminação. A liberdade não passaria, então, de uma escravidão. Constatação absurda. Por isso, quem faz o quer não é tão livre quanto pensa.

E você, que um dia mandou tudo às favas, e a bordo de um carro conversível foi se refestelar na praia, cabelos ao vento, em pleno dia de semana, antecipando as delícias de um banho de mar, só será livre para publicitários de calças para jovens ou de absorventes de mulheres modernas e emancipadas. Provocação feita. Ser livre não pode corresponder a viver segundo um querer. Mas então a que corresponderá? Tomo você pela mão e passeio por pensamentos ilustres. Como o de Schopenhauer. Filósofo interessado no tema do livre arbítrio.

O primeiro sentido de liberdade é mesmo esse a que nos referimos acima: de fazer o que se quer. Liberdade de agir. De fazer alguma coisa. Liberdade física. De movimento, de deslocamento. Liberdade evidente num animal selvagem. Sobre a qual não pairam dúvidas. Sua realidade é comprovada o tempo todo. Pela experiência de cada um. Um animal que age apenas por sua vontade é livre. Nesse sentido físico da liberdade. Também dizemos que uma pessoa é livre, ou dona do seu nariz, quando pode agir de acordo com sua vontade. Como na degustação de um pastel de feira acompanhado por um copo de caldo de cana. O mesmo diríamos de todo um povo. Que é livre quando pode definir sua própria trajetória. Afinal, a liberdade política é, antes de tudo, física.

Essa liberdade para agir é o contrário da obrigação. Ou da escravidão. Ou ainda, como observa Hobbes, ausência de qualquer impedimento que se oponha ao movimento. A água que se encontra no copo não é livre. Por que este último impede seu dispersar. Fica mais claro quando o obstáculo é removido. O copo se rompe. E a água recupera sua liberdade. Também os antigos espartilhos ou as mais recentes meias antivarizes. Impedimento à expansão das carnes e das gorduras. Da mesma forma, qualquer um de nós será livre para agir quando nada nem ninguém impedir seus movimentos.

Essa liberdade nunca é nula. Nem absoluta. Na vida que vivemos, os movimentos de nosso corpo estão sempre entre dois extremos ideais, imobilidade total e mobilidade absoluta. O que nos leva a graus de liberdade de ação. Porque mesmo quando só há obstáculos algum movimento é sempre possível. No copo, líquidos se agitam. Roupas apertadas se esgarçam com o tempo. E ainda, na cela, o prisioneiro simplesmente se levanta, comanda operações de tráfico ou até mesmo toda uma revolução contra o poder do Estado. De fato, enquanto houver vida em seres moventes, nunca é nula a liberdade de movimento.

Em contrapartida, essa mesma liberdade também nunca será absoluta. Afinal, ninguém pode fazer, a todo momento, tudo o que quer. Porque não estamos sós. E deslocamentos produzem efeitos. Afetam a trajetória alheia. Convertendo toda convivência numa sequência de obstáculos.

Muitos desses obstáculos ganham estatuto de lei. E é, paradoxalmente, graças a ela, que algumas liberdades remanescentes se tornam efetivas. Não há liberdade sem lei, ensina Locke. É como abrir mão de um pedaço da torta para ter certeza de dispor do resto. Ao qual passamos a ter direito. Resto que podemos exigir. Porque a mesma força que nos limita, limita os outros. Podendo assim, garantir uma liberdade que, mesmo não sendo absoluta, tem realidade e valor incontestável.

FIM DA PARTE 1 ____________

* BARROS FILHO, Clóvis de. “O aprendizado da escolha” In Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 3 – Trabalho e Educação (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

<http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html>

** Professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

O texto aqui reproduzido foi dividido em 3 partes. Na próxima semana, na 2ª parte, o autor continua com sua explanação sobre outros sentidos do conceito de liberdade. O primeiro sentido é o de ser livre, é a questão de poder agir. Seu objeto é, portanto, a ação. A liberdade é física. De fazer ou não. No segundo sentido, ser livre é questão de poder pensar. Seu objeto é, então, o pensamento. A liberdade é intelectiva. De pensar ou não. Nesse terceiro sentido, ser livre é questão de querer. E o objeto agora passa a ser a vontade.

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