por Clóvis de Barros Filho*

Passemos agora a outro sentido de liberdade. Que não é mais de agir, no sentido mais coloquial. Mas de pensar. Liberdade intelectual. Que tem por objeto o pensamento. Condição de um livre-pensador. Corresponde ao que Aristóteles já descrevia como to hékousian kai akousion – o intencional e o não intencional. A questão aqui é a liberdade de espírito. O direito, nos Estados ditos democráticos – por intermédio das liberdades públicas garantidas constitucionalmente –, já cuidou em parte do problema. Afinal, essa liberdade de pensamento de que falamos é correlata à de informação, de expressão, de culto etc.

Por causa dela e por ela somos responsáveis. Afinal, não se trata apenas de fazer o que se quer. Mas de ter consciência das próprias decisões. De agir com conhecimento de causa, como se diz. Isso acontece quando, na hora de agir, várias possibilidades passam por nossa cabeça. E uma delas é escolhida. Como resultado de um exercício intelectivo. Da aplicação de um critério, ou de uma máxima de conduta.

Mas, para além da política, haverá liberdade intelectiva quando estamos em plena resolução de um problema matemático que já tem uma resposta certa? Não estaríamos, nesse caso, constrangidos por uma resolução que se impõe a nós. Não será uma forma de escravidão ter de seguir certos passos para chegar a um resultado que não podemos contornar? Penso que não. Afinal, continuo pensando o que quero. Sem nenhum constrangimento externo. O espírito pensa o que quer. Sem obedecer a ninguém. Porque é livre. E, se busca a resolução verdadeira, faz o que quer. Porque quer. Se encontra o resultado verdadeiro do problema, consuma aí sua própria liberdade. Porque, se não se buscasse livremente a verdade, estaria à deriva, delirante.

O que falta deixar claro? Que aqui a liberdade nada tem a ver com escolha. Porque a área de um quadrado corresponde ao quadrado do seu lado. E o triângulo retângulo que o divide em dois tem a sua área definida pela metade da área do quadrado. Necessariamente. E chamamos de liberdade esse discernimento. De uma verdade que nunca se impôs. Mas que, com liberdade, é alcançada. Se a verdade matemática escravizasse, quantos erros eu mesmo não teria cometido, quantas notas baixas em geometria teria evitado… A liberdade na verdade não se confunde com a liberdade na escolha. Porque aquela é necessária. Essa é simples contingência.

Até aqui apresentamos dois sentidos para a liberdade. A de fazer e a de pensar. Discutimos se somos livres para fazer o que queremos. Liberdade física de agir sobre o mundo. E se somos livres para pensar o que queremos. Liberdade de pensar sobre o mundo. Mas esses dois sentidos não permitiram ainda enquadrar a provocação inicial deste artigo. Afinal, como vimos, não basta ser livre para fazer ou pensar o que queremos. Ainda é preciso ser livre para querer o que queremos. Aqui o sentido de liberdade mudou. Antes de tudo porque passou a ser outro seu objeto.

No primeiro sentido, ser livre é questão de poder agir. Seu objeto é, portanto, a ação. A liberdade é física. De fazer ou não. No segundo sentido, ser livre é questão de poder pensar. Seu objeto é, então, o pensamento. A liberdade é intelectiva. De pensar ou não. Nesse terceiro sentido, ser livre é questão de querer. E o objeto agora passou a ser a vontade. A liberdade deixou de ser simplesmente física ou intelectiva. Por isso, muitos a denominam metafísica. E até absoluta ou sobrenatural. Liberdade de querer. Ou não.

Afinal, seremos livres para querer o que queremos? Vocês que estão lendo este exemplar [texto]. Nada nem ninguém os obrigou. Leem, então, porque querem. Movidos pela própria vontade. Em algum instante tiveram vontade de ler. Neste preciso instante, terão sido livres para querer ler este exemplar [texto]?

Consideramos uma eleição democrática, quando o povo, livremente, escolhe seus representantes. De fato, respeitada as regras eleitorais e a oferta do mercado das candidaturas, cada cidadão comparece à urna e vota, sem constrangimento. Liberdade de votar, liberdade física de apertar os botões correspondentes ao candidato que considera mais adequado. Que pressupõe uma vontade anterior. Uma intenção de voto. Mas, ainda assim, cabe a pergunta: terá havido liberdade de querer votar neste ou naquele dos postulantes?

Ou será o voto o simples resultado mecânico da socialização política do eleitor – que aprendeu, na família, classe ou clã a que pertence, a definir suas escolhas com base em certos valores? Ou das inclinações emocionais de simpatia e antipatia patrocinadas pelo trabalho político de apresentação midiática dos candidatos, definidas por astuciosos marqueteiros? Ou ainda da construção identitária que nos leva – ainda que cada vez mais raramente – a nos apresentar socialmente como de esquerda e de direita, liberal ou conservador, simpatizante ou até militante deste ou daquele partido? Ou talvez de tantas outras variáveis que pretendam explicar cientificamente a intenção de voto? Nesse caso, votar livremente, em quem queremos, não implicaria estar refém de tantas condições que não resultam de nossa livre deliberação? Essa liberdade de querer, de vontade, metafísica, é a que mais interessa a filosofia. A que mais intriga. E que mais mereceu atenção de pensadores consagrados. Vamos recorrer a Kant. Porque sua influência é colossal. Porque seu pensamento é pano de fundo do que corriqueiramente entendemos por moral no mundo moderno.

Depois de ler este artigo, não se prive do prazer de degustar a primeira página do texto de Kant, intitulado Fundamento da Metafísica dos Costumes. Esse é o momento. Lágrimas rolam. De encantamento. Porque as linhas que seguem facilitam o acesso. O autor não demora para dar o tom. Mas, ao mesmo tempo, é implacável. Não perdoará nem um segundo de distração. Apresenta-se como herdeiro da antropologia de Rosseau. E em ruptura com o pensamento grego. Porque o que pode ser bom, virtuoso e digno não são nossos talentos naturais, nossas aptidões. Discernir, desenhar, cantar ou correr, nada disso é importante para definir a virtude ou a dignidade de uma pessoa.

Ou seja, não é por ser dotado de inegável talento, proporcionado por sua natureza, que você será moralmente excelente. O que realmente importa é o uso que fará desse talento. E esse uso, é você quem decide. É uma questão de liberdade. Liberdade para decidir o que fazer com as aptidões que são as nossas. As de cada um.

Ainda estamos nas primeiras páginas dos Fundamentos. Se minha memória não me trair, o que ele diz é mais ou menos isto: de tudo que pudermos conceber no mundo, e mesmo fora dele, só há uma coisa que possa ser dita, sem restrições como absolutamente boa: a boa vontade. Assim, a inteligência, a faculdade de comparar, de discernir o particular podem ser faculdades apreciáveis. Mas não são qualidades morais. E por que não? Porque todas essas faculdades, e todos os talentos naturais em geral, podem ser colocados tanto a serviço do bem quanto do mal. Nunca são, por si mesmos, bons ou maus.

Assim, podemos usar a inteligência para curar, alegrar, ensinar saberes que trarão alegrias. Em contrapartida, também podemos usar as mesmas faculdades do espírito para enganar, entristecer, iludir, mentir e muito mais. Perceba que nenhuma dessas faculdades pode ser boa em si mesma, porque dependerá do uso que delas fizermos. Da vontade. Da livre deliberação sobre um fim em detrimento de outros. Que poderá ser boa, uma boa vontade, ou não.

Assim, a beleza do corpo de um homem ou de uma mulher pode ser usada para encantar quem o contemple. Beleza para a alegria do outro. Como para ensejar o desejo. Estimular na distância a aproximação. Mas também para obter alguma vantagem ou privilégio. Como moeda de troca. Beleza que se converte numa forma de capital. Um capital estético. Beleza da jovem aluna de graduação, tortura para o professor em dias de verão. Quando a aproximação é impossível.

FIM DA PARTE 2 ____________

* BARROS FILHO, Clóvis de. “O aprendizado da escolha” In Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 3 – Trabalho e Educação (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

<http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html>

** Professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

O texto aqui reproduzido foi dividido em 3 partes. Na próxima semana, na 3ª e última parte, Clóvis de Barros Filho ao concluir sua explanação sobre o aprendizado da escolha aborda a liberdade como “boa vontade” a partir de Imannuel Kant. Boa vontade que é o fundamento de uma moral baseada nas ideias de igualdade, desinteresse e universalidade. Igualdade que supõe que somos igualmente livres para uma boa vontade conosco e com os outros. Desinteresse que aponta que a ação virtuosa se confunde com a ação desinteressada, a boa ação que não visa interesses mesquinhos e egoístas. Universalidade que indica que uma vontade, para ser uma boa vontade, deve se justificar universalmente. Aja de tal maneira que a máxima que preside a sua ação possa ser universalizada. Possa ser transformada em lei para todos.

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