por Clóvis de Barros Filho*

Só a boa vontade é tudo de bom, diria Kant. Todo o resto está sob suspeita. Dependerá sempre do que fizermos com ele. Estão na boa vontade toda a virtude e toda a dignidade. Nesse humanismo moderno de Kant, não faria nenhum sentido falar, por exemplo, de joelho ou olho virtuosos. Porque nada disso pode ter boa vontade. Nem qualquer tipo de vontade. Que supõe liberdade deliberativa. E joelhos e olhos não deliberam livremente. Pelo menos, supomos nós.

Dessa exaltação da boa vontade como fundamento da moral, quais as consequências? A primeira é a igualdade. Igualdade entre todos nós. Perante Deus, ainda dizem alguns. Perante a lei, garantem os textos constitucionais. A igualdade entre os homens não saiu mais do cardápio das ideias morais. Entendida como óbvia na maioria das sociedades em dias atuais, nem sempre esteve presente no debate sobre a melhor forma de conviver.

Com efeito. Na moral aristocrática dos gregos, só há superioridade e inferioridade. Hierarquia, em suma. Natural, moral e política. O poder exercido pelos melhores. Senhores e soberanos. Sobre os piores, escravos. Por isso, uma sociedade estratificada.

Claro que sempre fomos desiguais em talentos. Em recursos naturais. As faculdades do espírito, que me perdoe Descartes, são tão cruelmente concentradas nas mãos de dois ou três quanto as formosuras corpóreas – e as propriedades rurais em países sem distribuição de renda.

Mas já sabemos que, quando o assunto é moral, isso não tem muita importância. Porque os talentos, sejam eles quais forem, não têm, por si mesmos, nenhuma relevância moral. Podemos ser gênios canalhas. E virtuosos lerdinhos. Feios, brutos e malvados. Lindos, heróis ou vilões. O que importa mesmo é a liberdade para decidir bem. Fazer um bom uso desses talentos que são os nossos. Sejam eles quais forem. E essa liberdade, todos temos. Somos, portanto, igualmente livres para uma boa vontade. Para além da nossa natureza. Essa sim, cruel e injusta. Perceba o quanto a ideia de igualdade se choca com a perspectiva naturalista da moral aristocrática.

A segunda consequência dessa liberdade como boa vontade é o desinteresse. A ação virtuosa se confunde com a ação desinteressada. A liberdade, como vimos, é a capacidade de se deslocar da natureza. E, de certa forma, opor-lhe alguma resistência. Ora, o que entendemos por nossa natureza? O ritmo de nosso peristaltismo? A incrível propensão para micoses? Ou enxaquecas? Exemplos de manifestação da nossa natureza. Sem dúvida. Mas que têm pouco a ver com liberdade. Talvez porque nesses exemplos não haja a que se opor. A que resistir.

Por isso, a natureza que vai nos importar para entender a liberdade e a moral kantiana se materializa nas nossas inclinações. Que podem nos levar a nos ocupar exclusivamente de nós mesmos. Da nossa particularidade. Assim, descolar-se dela, ou resistir a ela, implica levar em conta os interesses dos outros. Dar lugar aos outros. Para isso, é preciso colocar-se entre parênteses. Considerar outros desejos além dos próprios. E essa autolimitação supõe que não sejamos 100% egoístas.

Essa reflexão está presente no nosso cotidiano. Todos sabemos distinguir uma conduta interessada de outra desinteressada. E atribuímos mais dignidade moral à segunda. Porque, sendo modernos, somos kantianos sem saber. Por isso achamos tão legal alguém nos fazer um favor do nada. Sem expectativa de retorno. E você enaltece aquele que, sem nunca tê-lo visto antes, devolve a carteira que você tinha perdido. Com todo dinheiro dentro. Menos valoroso é o taxista, que cobra pelo deslocamento. Menos ainda é o caroneiro sacana, que espera um pagamento em serviços eróticos. Mas a carona desinteressada, esta sim, é moralmente superior.

A terceira consequência dessa liberdade é o universalismo. A vontade, para ser uma boa vontade, deve se justificar universalmente. O dever, que resulta de uma atividade intelectiva, deve valer para qualquer um. No lugar de um deus universal, uma razão universal, ou capaz de parir o universal.

Nesse ponto, o senso comum moral se afasta do kantismo. Porque são muito comuns justificativas que se fundam na parcialidade do julgamento moral. O certo e o errado vai muito de cada um, decreta o palpiteiro com ares de erudição. Além do senso comum, pensadores legítimos, arautos da pós-modernidade, consideram que uns dos principais pontos de ruptura entre o pós e o simplesmente moderno reside nesse ponto, da universalidade moral. Michel Maffesoli, representante reconhecido dessa corrente pós-moderna, afirma que a sociedade de hoje é politeísta, em relação a sociedade moderna, monoteísta. E com esse politeísmo não quer dizer só muitos deuses, mas também muitos valores, várias formas de julgar moralmente.

Mas voltemos a Kant. Faça de tal maneira que a máxima que preside a sua ação possa ser universalizada. Possa ser transformada em lei.  Eis a fórmula do imperativo categórico. Perceba a tangência entre esse universalismo e o desinteresse. Afinal, toda pretensão de universalidade implica a negação da própria particularidade. A resistência frente aos próprios interesses. Ao egoísmo. Para levar em conta o interesse geral, o bem comum, é preciso considerar o interesse dos outros. Descolar-se da própria natureza egoísta.

Importa lembrar aqui que essa consideração do interesse do outro não é natural. Exige, portanto, um esforço. Em outras palavras, todo aquele que faz o que quer vive determinado pela própria natureza. É escravo de seus apetites. Para ser livre, ter boa vontade, considerar o outro e buscar o universal, é preciso remar contra a corrente, ir na contramão, estar, todo o tempo, focado no respeito ao dever.

Dessa forma, enquanto para os gregos a virtude corresponde à atualização dos talentos naturais, à realização da natureza em nós, para esse pensamento a virtude é uma resistência ou oposição a essa mesma natureza. A luta contra a natureza em nós. Disposição que se aprende. Por não ser inata. Que exige educação. De alunos, sem luz na etimologia. Porque a matéria bruta é sombria.

Assim, é preciso saber viver. Sentença titânica. Mas não nascemos sabendo. Resta-nos aprender. Porque a vontade tem de falar sempre. Já que nossa natureza se cala tão rápido. Porque a vida sempre vai depender de nossas intervenções. De nossas escolhas. Por sorte, para saber viver não temos de começar do zero. Outros já aprenderam tanto. Com seu próprio sofrimento. Podem nos ensinar. Para que algumas tristezas sejam evitadas. Só algumas. Porque nossa trajetória no mundo é inédita. E as experiências alheias ajudam até certo ponto. Sempre haverá uma boa parcela de mistério. Abacaxi que é só nosso. Para que descubramos saberes novos. E ensinemos também, algum dia. Só assim sentimo-nos partícipes da humanidade. Constituída por outros que, como nós, incautos, começaram a existir sem aviso prévio. E, como nós, têm de ir encontrando solução para uma existência que não é nem uma roubada nem um milagre. É o que é. E o que é acaba dependendo um pouco do que fazemos dela. Toda educação se volta para minimizar a angústia. Com maior ou menor consciência disso.

* BARROS FILHO, Clóvis de. “O aprendizado da escolha” In Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 3 – Trabalho e Educação (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

<http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html>

** Professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

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