Poemas de Venâncio Raimundo

Nos inícios dos idos de 1995, quase aos 16 anos de nascido, nesta cidade de Fortaleza, eu chegava como aluno novato para cursar o Segundo Grau no colégio Nossa Senhora de Assunção (parece-me que hoje extinto), o qual se localizava na rua Pe Valdevino, nas imediações do Ginásio Paulo Sarasate. Na primeira semana de aulas no Assunção, entrou na sala uma figura de estatura cearense “baixim”, magro, cabeludo, camiseta preta com estampa de rock, estilo headbanger e bastante enérgico: era o meu professor de História Venâncio. Um sujeito provocador que considerando o colégio católico do qual fazia parte como professor, ao ministrar a sua primeira aula, sobre a Idade Média, chegou em sala e proferiu uma frase que ainda hoje me recordo como se fosse agora: “A Igreja Católica é a maior puta da História!” Eu me retive na cadeira, espantado, chocado, abestalhado. “Como é isso?!” “Esse cara não tem medo de pecar assim contra a santa amada Igreja?!” Para um “menino véi” vindo de uma educação familiar e escolar católica, que frequentava as missas todo domingo na minha beloved Aerolândia, e que já era mesmo batizado e catequizado, aquilo fora uma afronta, certamente.

Todavia, aquela sentença blasfemadora não saiu da minha cabeça, e me instigou a ver isso melhor, eu queria saber, eu tinha que saber sobre aquilo… “maior puta da História?!??” Bem, com o tempo descobri sim que a instituição Igreja Católica ao longo de sua existência esteve sempre do lado dos poderes políticos e econômicos e de modo mais do que “putanesco” até. Ao fim do cristianismo primitivo, com a romanização de Cristo, emerge A Igreja Católica Apostólica Romana, instituição da religião oficial do Império Romano à época. Igreja que serviu, desde então e por vezes, não apenas para abençoar Reis e Rainhas justos e injustos, mas iniciou guerras contra “infiéis” (vide as Cruzadas, para ficar neste exemplo) e jogou mulheres ditas “bruxas”, pagãos, judeus e pessoas de credos diferentes no fogo das Inquisições.

Os anos se foram e outros professores também, mas aquela frase do professor Venâncio ainda ecoava na minha cabeça de cearense. Entrei para as Ciências Sociais na UECE em 1999, tornei-me ateu, depois voltei a crer em “algo” e me considero hoje um “cristão-teísta-racionalista” a la carte – tipo de crença inventada por mim em que eu escolho que ideias espirituais e racionais devo seguir no menu das religiões e dos conhecimentos popularizados pela ciência –, virei mestre e doutorando em sociologia pela UFC e há uns seis anos tornei-me professor. Depois de todos esses anos desde 1995, um dia desses, através de uma boa amiga em comum, pelo Facebook, encontrei o professor Venâncio, aquele sacrílego, iconoclasta dos meus tempos de Segundo Grau. Grata surpresa, conversamos, discutimos, nos cumprimentamos pelo mundo virtual zuckerbergiano. Um dia desses nos encontramos ao vivo, mas de modo rápido, em trânsito pela cidade e pela vida. Não sei muito sobre o professor Venâncio, nem antes nem hoje, lembro apenas dos anos passados dele ter falado que participou do movimento estudantil e sindical de contestação a Ditadura Militar nos anos 1970, que fora preso pelo DOI-CODI (o famigerado “Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna”) e logo depois auto-exilado, indo para Portugal de Navio. Mas também pouco importa agora. Só sei que ele vive aqui, outsider (como próprio se considera) neste mesmo plano existencial que o resto de nós, e que respira, anda, dorme, sonha, come, caga, goza, fica puto e alegre, enfim, faz uma ruma de coisa que gente humana faz. Mas, diferente de muitos, faz poesia, sim poesia. Poesias viscerais, saídas das entranhas do humano que é. Vivente, gente que sente e transborda seus sentimentos em versos e prosas!

Ah! Fiquei sabendo agora dele que também tem justamente vários livros de poesia prontos para serem publicados, todos no “prego”, doidos pelo prelo. E é com a permissão do próprio que o Secundo Caderno começa a publicar algumas das poesias de Venâncio, o meu “ex anti-professor” (sic, como se autodefine) de História. Nesta semana e noutras vindouras apresento aqui, com a graça de Deus e do poeta, alguns poemas – aqueles que mais me tocaram na alma e me arranharam a pele – do inédito livro “Face a Face – Roxosparadoxos” de Venâncio Raimundo. Sem mais, lá vai:

 

Roxosparadoxos!!

 

POEMEFÁCIO

Em sendo poesia
o que diz ser os grandes mestres
do ofício da arte-mãe,
é lá poesia o que eu versejo!
Meus versos não são palavras apenas
olhando para si,
não é fingimento deveras!
Meus versos são rascunhos
passados a limpo
dos momentos concreto-mágicos
revelados por meu coração
de raio-x.
Na verdade sou poeta,
poeta de um poema só,
e com certeza, inacabado:
minha vida,
escrito a sangue e sêmen,
suor, lágrimas, tripas e coração,
nas páginas da minha história.
Afora este,
é lá poesia o que eu poeto!

SOBRE VIVER

Enquanto o coração
bater frenético
os pés suportarem
o peso da carcaça
descalcificada.
Enquanto a memória
não alzheimar
e a sede mirar a fonte
e a fonte  não se perder dos rios
e os rios, dos risos  e mares,
e a maresia impregnar o mundo
e a utopia não perder a euforia.
Enquanto a loucura delirar lírica
e os girassóis não se voltarem
às trevas,
e a poesia unir verso
a verso e ao reverso,
palavras em larvas e lavras
e o destino for um desatino,
vale a pena viver e como-te!

LAMENTAÇÃO

São muitas as corujas que desconhecem
outros cantos que não o seu próprio pio
pior: conheço muitos homens, que se dizem
maiorais, no entanto, todavia, entretanto…
não passam de ervas daninhas
diante de sequoias e baobás, eucaliptos e cedros
porquanto incapazes de se elevarem
ao alto de sua própria baixa autoestima.
Estes são como espantalhos entre milharais
indiferentes ao milho, aos pássaros,
e a canção da chuva e dos ventos,
aranhas que tecem suas armadilhas
para todos aqueles que podem e sabem voar
e não percebem o invisível belo que há
em cada coisa, em cada vida, em cada canto.

ELOGIO DA LOUCURA

Não, não é amor, não é paixão
Não é chamego, não é apego
Não é fissura, não é obsessão
tampouco compulsão.
Não é vício, não é dependência,
muito menos caduquice, esquisitice.
Sim, é loucura mesmo
Loucura e da pura
loucura digna de asilo
de louco varrido
do tipo que caga e come o que caga
mija e bebe o que mija
baba e se lambuza com o que baba
rasga dinheiro
bota e queima a mão no fogo.
Qualquer afago seu me afoga
qualquer bobagem sua me deixa
bobo de felicidade!
Tudo em você
denuncia e anuncia em mim
esta loucura
da qual Deus me livre de cura!

PROFECIA

Somos os que viriam
os que veriam e ouviriam
rock e ranger de dentes
e chorariam
e amaldiçoariam
o ventre que lhes gerou
o peito que lhes amamentou.
Somos os degredados filhos da erva,
gemendo e chorando nesse vale
de lágrimas,
os sem futuro,
sombras com medo da luz.
No entanto,
alguma coisa me diz
escuto no vento
sinto na pele:
nem tudo está perdido
ainda vamos rir, e melhor,
não vai ser por último
e nem só!

SORDIDEZ

você não pode roubar o meu sonho
dele eu até já acordei
e sonho não falta para se sonhar
continuo curtindo a vida
não mais adoidado
mas de cara e na coragem
a viagem segue sem script
tipo só danço o que me toca
posso estar sendo sórdido
em dizer logo hoje o que digo agora
mas o seu sabor está demais salobro
para o meu refinado paladar
por via das dúvidas
vou pedalar meu caranguejo
percorrer toda minha via crucis
quem sabe essa dor canalha
não pega o beco e sacode a poeira
na esquina da rua das ilusões
com a rua da aurora
quem sabe, né?
Deus é quem sabe!

BELEZA

A simetria de tuas formas
a musicalidade de tua voz
a leveza dos teus gestos
a graça do teu sorriso
o ritmo dos teus movimentos
a luminosidade do teu olhar
a harmonia do teu todo…
fazem de ti
uma obra prima da arte
e de mim
que posso contemplar-te
o mais feliz dos mortais.

Anúncios