Poemas de Venâncio Raimundo

TENDÊNCIA SUICIDA

De boa eu até me mataria
se me fosse dado fazer
a faxina do meu cadáver
vestir a minha mortalha
fazer a sala para as visitas
puxar o terço no velório
e encomendar minha alma
a Deus
consolar os familiares
parentes e amigos em geral
ir ao enterro e me auto sepultar
voltar para casa
livre de mim, de todos e de tudo
e pronto para outras!

NORDESTINADO

Para não nascer, nasci
Escapei fedendo
e na jihad da sobrevivência
guerra sem trégua, sem régua
nem compasso
a madrasta da vida
não cansa de me pregar peças
quebrar minhas pregas
preparar-me armadilhas
sinucas de bico
becos sem saída.
Comigo não tem escolha
mesmo assim escolho
é plantar sonhos e colher discórdias
misericórdia de mim, ó vida!

FUNDO DE POÇO

No fundo de poço
o sol não gira
não se cultiva rosas, margaridas
orquídeas
produz-se dores, enganos,
desenganos
em grandes plantações.
No fundo de poço
libélulas não vacilam
porque lá, ventos
não movem suas asas.
No fundo de poço
ratos humanos
feito títeres metidos a titãs
armam tendas
tentam firmar seus passos
no charco de lodo
lama movediça, fétida
como se fosse rocha inabalável.
Fundo de Poço: algo tão vivo
quanto um epitáfio.
Quem se atreve a me visitar?

SUJEITO DA ORAÇÃO

Na transgressão do verbo
que tudo principiou
fiz-me sujeito da oração,
às vezes simples, às vezes composto.
No contexto da vida,
pronome pessoal  reto, oblíquo,
conjugo-me em todos os tempos
– passado, presente e futuro –.
Substantivo
às vezes próprio, às vezes comum
às vezes concreto, outras, abstrato
masculino, feminino,
comum de dois
plural na singularidade
às vezes um prefixo
outras vezes, sufixo
sempre radical
uma vírgula à esquerda
da esquerda da esquerda
até o dia de ser
um mero ponto final!

VIDA DE POETA

Arrisco-me na densa e tensa
mata da poética
no encalce da palavra.
Ao tê-la em meu alcance
não poupo munição:
haja caneta e papel!
Ao abatê-la,
anseio ressuscitá-la
plena e bela.
Não raro o tiro
sai pela culatra
então se reinicia a peleja
do esconde- esconde
do pega- pega
do passarinho no ninho
da cobra no buraco.
Camaleoa
a palavra na ponta da língua
camufla-se
tenta escapar,
matar-me no cansaço!
Não raro sai dessa refrega
depois de tanto esforço
feito pão quentinho do forno
um novo poema.
Aí é só correr pra galera!

COBRA CRIADA

Antes de nascer, existi…
Antes de pensar, dispensei…
antes de engatinhar, corri…
antes de falar, cantei…
antes de escrever, poetei!
Não sabia dos segredos
e escancarava
não sabia dos degredos
e seguia
não sabia da chuva
e chorava
não sabia dos prazeres
e gozava
não sabia das ordens
e subvertia
não te conhecia e já te amava!

OLHARES

Verdades inválidas
veladas
relevantes
revelantes
incontidas
incontáveis
ambíguas
língua na língua
nos dentes, d’antes
capta o instantâneo
o olhar do instante
distante
indigente
indecente
recusa o ordinário
amplia o extraordinário.
Na tensão do orgânico
e o fragmento
situo-me
tesudo e fértil
sedutor
torcendo
para que haja
sempre celulose
para que haja
sempre poesia…
em meus olhos!

1964 – 1985…

Na gigantesca e
dantesca desova Brazil
Os urubus verdes-olivas
empapuçados de presunto
defecam
urinam
e esporram
o mórbido prazer
sobre uma multidão
de corpos decompostos
em valas abertas.
Aos pulos berram felizes
e cheiram orgulhosos
o nauseabundo odor da putrefação.
Incansáveis
saltam e peidam
e aplaudem a si e pedem bis
sob o brilho de seus fuzis.

MAGIA

Quando você chega
o milagre da primeira vez se repete
como se fosse a primeira vez:
o céu desce à terra
aí tudo azula
fico na maior felicidade
esqueço até que esta infeliz cidade
é uma fortaleza de nenhuma assunção.
Imune à força da gravidade
pisando em nuvens
no mundo da lua
em pleno mar da tranquilidade
viajo ao doce deleite do vento
via láctea mundo afora.
Cinderelo Lunático
esqueço até que meia noite
tem hora pra chegar.
Como da primeira vez
sempre que você se vai
todo o encanto se esvai
aí tudo cinza
e mais do que nunca
a in feliz cidade se mostra
a masmorra que é
até pelo menos você chegar de novo
e tudo recomeçar
como se fosse a primeira vez…!!!

MERA QUIMERA

Ai quem me dera
– mera quimera –
poetar me fosse fácil
como parece ser
para muitos poetas.
Ai quem me dera
– mera quimera –
possuísse eu o dom
de ouvir estrelas ou
ler o que nelas está escrito
ser apenas uma das vozes
da Grande Voz
de fazer baixar em mim
santos e musas.
Ai quem me dera
– mera quimera –
não fosse preciso desfiar
tripa por tripa o coração
encher de calo a alma
num simples verso.
Ai quem me dera!

ROXOSPARADOXOS

Nasci um só
e fui me fazendo múltiplo.
Nesta profusão de personas
que me tornei
no desdobrar-se de mim
não sei mais de minha matriz.
Que outros são esses
agregados a mim
como se fossem espelhos
que usam meu rosto
minha voz minha verve
meus gostos, meus vermes
que me fazem esquecer
os muitos eus que já se foram?
E quando definitivamente eu me for
quantos eu terei sido?
quantos deitaram nesta social rede d’eu
que a cada dia teço versos a fio?
Quais serão os sepultados junto a mim
ou morrerei um só?
E os que não se forem comigo
ficarão rondando, espectros,
performáticos expondo minhas nóias
nos palcos da vida a fora?

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