Poemas de Venâncio Raimundo

PORRALOUCO

Eu não componho, decomponho, interrogo,
respondo e não correspondo
eu não conservo, eu converso e desabotoo o peito
eu não ensino, envolvo, revolvo e aprendo
eu, outsider, não me preocupo com o lugar
que me cabe
com o silêncio que me é dado
não silencio, cago para a posteridade.
Porralouco eu acho é pouco
incapaz de me alçar aos céus
tatuo-me na epiderme d’agora
exijo d’eu demasiado humano
pantófilo, um fluxo perpétuo a lux.
Enclausurado em mim
escrevo meus escrotos escritos
molhando a pena no arco-íris
derramando sem pena
sobre o papel em fel
o voo das borboletas em casulo.

FACE A FACE

A olho nu olho-me
nu de corpo e alma
face a face
na contra-face do espelho.
Espalho-me todo
e um forte sentimento de ode e elegia
assalta-me diante de minha imagem
não-grega
profundamente marcada
pelas dobras dos anos passados
intensamente vividos, irreversíveis!
Canto mil cantares de alegria
comoção multiplicada
por ter sobrevivido sem grandes mágoas
a sucessivos tsunamis
emergido feliz de fundos de poços
de lama que eu chafurdei com gosto de gás.
Feito a caatinga que renasce
com os primeiros pingos de janeiro – pingos
de nada – olho-me a olho nu
nu de corpo e alma e me pergunto:
sexagenário ou sexogenário?

SOUL

Por força do habitus
pergunto-me:
que dizem o que sou?
Como não tenho o hábito
do álibi
como a túnica é única
necessário não se faz
menstruar o bode
da paideguice cearencês
menos ainda lançar  dardos, dados,
búzios, cartas, farpas
para saber o que dizem o que sou.
Como o hábito faz o monge
e o monge faz o hamurábi
e a boca de Asdrúbal já
arrombou o trombone
e a vox populi não é a Vox de Deus.
Lanço mão do ibope
da pesquisa inútil e estéril
para saber o que dizem o que sou.
Como não nasci para Pilatos
não lavo aqui as mãos:
quem atira a primeira pedra?

DAS DUAS, NENHUMA

Entre o crente e o ateu,
sou a toa
Entre o vício e o verme,
sou  a verve
Entre o caminho e a distância
sou o atalho
Entre o efêmero e o perene
sou a história
Entre a teoria e a prática
sou a práxis
Entre o pathos e o ethos,
sou o logos
Entre o doce e o amargo,
sou o âmago
Entre o côncavo e o convexo
sou o orgasmo
Entre o permitido e o proibido
sou a transgressão
Entre o lugar e o comum
sou a exceção
Entre a clara e a gema
sou o novo
Entre eu e você
sou o nó(s).

PONTO FINAL

Quando tudo está perdido
não há mais o que perder
Quando tudo já foi dito
não há mais o que dizer
Quando tudo já foi visto
não há mais nada a ver
Quando tudo já foi previsto
não há mais o que prever
Quando tudo já foi experimentado
não há mais o que provar
Quando tudo já foi esquecido
não há mais o que lembrar
Quando tudo já foi escrito
Não há mais além do ponto final.

SABEDORIA IMPOPULAR

Para quem pensa
que boa romaria faz
quem em sua casa
está em paz
é bom lembrar
que um dia a casa cai.
Para quem pensa
que não se tem para onde correr
é bom não esquecer
que se pode ficar
pegar e comer o bicho.
Para quem pensa
que andar na linha
é o meio mais seguro
para se viver
é bom lembrar
que toda linha tem um fim
se antes o trem
não passar por cima
e não deixar osso sobre osso
pra contar a história.

DE PROFUNDIS

Quando eu extrair o mel
e o fel do meu ego
e deixar de ser cativo
dos ismos e sofismos
desta minha condição
de anjo caído
de antro saído
do fundo da profunda caverna
e me desfizer da vaidade
das sombras e das cobras
que rastejam
como um onda
que em espuma se esvai
nas areias da praia
e preso a uma linha voar
como uma arraia
sujeito aos lanceios
de quem me prende aos ares
quando eu deixar de ser assim
esta ambição desvairada
diante de mim
quem sabe assim como vim
eu não me afogue em vão
nas profundas mágoas
do mar das tormentas que sou.

DA NOITE PARA O DIA

Sabe um daqueles dias
em que nada dá certo
em que você se odeia
mais do que odeia aos outros
que você se sente um monstro
um crápula, um verme, um párvulo
o mais vil dos mortais?
Um daqueles dias
que você está liso, leso e puto da vida
em que você sente escorrer
sangue até por entre os dentes
que você não vê
a hora de amanhã ser outro dia?
pois justo num dia desses, sabe,
dia obscuro, sinistro,
você cruzou meu caminho
brilhando mais do que o sol
do meio dia do nordeste do Brasil
em tempos de seca e cólera
e aí da noite para o dia
alegria, alegria, alegria
adeus dia menstrual, feliz dia novo
um daqueles dias, sabe,
dias de sábado à noite
dias radiantes, santificados
em que tudo dá certo
tudo está por perto, na mão?

QUEM???

Quem cavará a própria cova
em busca de esperança?
Quem intentará acusação a si
para se justificar perante Pilatos?
Quem repetirá erros
No anseio de ser humano?
Quem correrá atrás de prejuízo
para não correr risco de vida?
Quem se atreverá fechar portas
que Deus abriu
no ensejo de mostrar poder?
Quem subirá paredes
para descer ao fundo do poço?
Quem ousará ser luz
sem carregar a própria cruz?
Quem na história ficará
quando em vida
ficou a ver navios em brancas nuvens?
Quem interrogará acerca do nada
Na ideia que sabe de tudo?
Quem???

TROCANDO EM MIÚDOS

Olho por alho
dente por bugalho
serpente por parente
confetes e serpentinas
genitálias na vitrine
canivetes e meninos
perigo à vista
em módicas prestações.
Amor com amorfo se paga?
Mofo deu-se
será que eu virei bolor?
Pragas por pregas
pregos em barra de sabão
otários metidos a espertos
engana-me
que eu me amarro:
basta por bosta?

FOLHETIM

Antes do apagar definitivo das luzes
anseio viver uma paixão lamacenta
bem novela das nove bem Janete clair
cheia de intrigas e fofocas
traições pueris
amor mercadoria
melodrama de quinta categoria
escrito nas coxas
campeã de audiência
protagonista, mocinho, vilão
sobrancelhas erguidas beicinhos
chorando lágrimas de crocodilo
colírio moura Brasil
tudo de acordo com o figurino
porém sem final feliz
nem casamentos a mis
com reprise do último capítulo
em sábado de aleluia.

LÁPIDE

Na hora H
de mim nada ficará
do mundo nada levarei
Na hora H
nada terá sido válido
nada terá sido em vão
Na hora H
resistir
será
minha grande ambição.

MEDITABUNDO

Quis mudar o mundo
por pouco muito pouco mesmo
não virei presunto.
Tornei-me então vagamundo
com tudo o que tinha direito
abundei no desbunde.
Armei barraco no submundo
fiz-me um ser imundo
vagabundo
dei a velha volta por cima
neste vasto mundo.
Não é por acaso
que eu me chamo
Venâncio Raimundo!

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