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Filosofias de um jagunço! (parte 2)

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Pronto! Segue a segunda e última postagem de uns trechinhos das verdades filosofias de vida do jagunço Tatarana, o Riobaldo de Guimarães Rosa. Como deixei claro anteriormente aqui não cabe contexto – arengo e repito: vá contextualizar quem quiser ler a obra (“Grande sertão: veredas”). Repasso aqui as últimas sabedorias sobre essa vida travessia que a obra me trouxe e ainda me põem a refletir sobre as veredas do viver… “negócio perigoso!”, como diz Riobaldo. É sim, Seu Tatarana, por vezes e vezes é, angustiante e desafiador, mas é o que temos a fazer ou arredamos pé… e nonada disso! Amém!

<Os trechos foram retirados da seguinte edição da obra:

ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: veredas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.>

“Ações? O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.” (p. 178)

“E grande aviso, naquele dia, eu tinha recebido; mas menos do que ouvi, real, do que do que eu tinha de certo modo adivinhado. De que valeu? Aviso. Eu acho que, quase toda vez que ele vem, não é para se evitar o castigo, mas só para se ter consolo legal, depois que o castigo passou e veio. Aviso? Rompe ferro!” (p. 178-179)

“Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.” (p. 180)

“Se eu fosse filho de mais ação, e menos ideia…” (p. 184)

“Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência. Mal. O senhor fia? Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva.” (p. 185)

“Acho que o espírito da gente é cavalo que escolha estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom. Seja?” (p. 186)

“Tem um ponto de marca, que dele não se pode mais voltar para trás. Tudo tinha me torcido para um rumo só, minha coragem regulada somente para diante, somente para diante;” (p. 213-214)

“Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…” (p. 221)

“O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante todo o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto – inteligência só.” (p. 237)

“Em desde aquele tempo, eu já achava que a vida da gente vai em êrros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava.” (p. 244-245)

“O vau do mundo é a alegria! […] Vau do mundo é a coragem…” (p. 305)

“Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o bêco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga.” (p. 307)

“Travessia, Deus no meio.” (p. 309)

“Sertão: é dentro da gente.” (p. 309)

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.” (p. 310)

“Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma coisa só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe.” (p. 311)

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.” (p. 318)

“Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem a gente; os em vir, também. Só o presente é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isto, já aprendi.” (p. 343)

“De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo o medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea.” (p. 389)

“Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo vivente medroso, um menino tremor, todos perigam – o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero –: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!” (p. 394)

“ ‘Vida’ é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia.” (p. 398)

“Mas o cabedal é um só, do misturado do viver de todos, que mal varêia, e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta.” (p. 400)

“… pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.” (p. 410)

“Rir, antes da hora, engasga. E eu me enviava pelo sério.” (p. 410-411)

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.” (p. 413)

“Ser forte é parar quieto; permanecer.” (p. 420)

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.” (p. 461)

“Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel…” (p. 484).

“E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões.” (p. 490)

“A vida é um vago variado.” (p. 500)

“O que os meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’manhã.” (p. 518)

“O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…” (p. 522)

“Travessia perigosa, mas é a da vida.” (p. 542)

“Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia?” (p. 559)

“O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos… Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me enguliu, depois me cuspiu do quente da boca… o senhor crê minha narração?” (p. 585)

“A vida da gente nunca tem termo real.” (p. 599)

“Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o diabo não existe. Pois não? O senhor é homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.” (p. 608)

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Filosofias de um Jagunço! (parte 1)

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Nonada. O que aqui apresento não carece de muita explicação não, assim como a vida, isto aqui não é entendível. Fiz por querer, por fina força fazer. Botei na cabeça e pronto. Fui digitando uns trechos que mais me trouxeram pensamentos, que mais me deram mesmo susto ou admiração do meu livro maior. É! Meu livro maior: o “Grande Sertão: Veredas” do mineiro João Guimarães Rosa. Frases e mesmo parágrafos em espécies de aforismas aqui apresento. Verdades filosofadas! Verdades assim contadas como filosofias de um jagunço sabido pelo riscado do viver: Riobaldo Tatarana. Frases aqui algumas que já se espalharam pela internet e redes sociais como sendo de autoria não do personagem, mas de seu autor. Porém, prefiro aqui dar crédito à criatura, uma vez que penso que todo criador deve se orgulhar de suas boas criações. Assim, trago Riobaldo a tratar da vida que é sempre travessia, completaria ele, nem chegada nem partida. Deus no meio!

Transcrevo algumas das falas desse cabra ajagunçado pelo correr perigoso da existência no sertão mineiro de um Brasil que já se foi. A obra de Rosa foi originalmente publicada no ano de 1957. Era certamente um outro sertão, um outro país sobre os quais ele escrevia. Mas os dizeres do jagunço aqui transcritos ainda assim ressoam para além do lugar-sertão, para além do tempo-passado, para além de um país-diferente. Falas, algumas delas, que mais tendem para ensinamentos sobre a vida, sobre amizade, amor, dor, tristezas e alegrias. Sabedorias. Falas-ensinamentos, nem precisa dizer, descontextualizados. Não preocupo. Vá quem quiser contextualizar. Leia a obra. Apenas uma advertência, não um desencorajamento, para os menos hábeis e desacostumados na leitura: este não é livro fácil. A escrita usada é de um estilo todo próprio. O tecido delas que vai sendo feito numa conversa com um doutor que nem nada fala, vai torcendo os rumos de uma história épica, grandiosa. Posso nem falar, sou apaixonado pela obra, me descuido só em elogios.

Sem mais demoras, deixo aí os incautos interessados e que não leram “Grande Sertão”, esperanço, ensimesmados com o sumo do palavreado de Riobaldo. Como entendo que quem quer se coça! Dá um jeito! Quem não entender, ou se dê por desentendido, ou vai lendo devagar, para entender esses dizeres no inteiriço deles. E agora deixo em duas postagens, a primeira sendo esta, essas filosofias curtas sobre as veredas da vida, a qual, como repito, e vivo nessa lengalenga repetida desde então: é sempre travessia!

<Os trechos a seguir foram retirados da seguinte edição da obra:

ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: veredas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.>

 

“… o sertão está em toda parte.” (p. 08)

“Viver é negócio muito perigoso…

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é a alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse… Mas não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele!? Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela – já o campo! Ah, a gente, na velhice carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar… Bem o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: ‘menino – trem do diabo?’ E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes. … O diabo na rua, no meio do redemunho…” (p. 10-11)

“Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuvas e negócios bons… de sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só.” (p. 15)

“O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…” (p. 19)

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais – mas que elas vão mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É a que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.” (p. 23)

“Somemos, não ache que religião afraca. Senhor ache o contrário. […]. Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.” (p. 23)

“Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é um ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?” (p. 35)

“Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o escuro, escuros.” (p. 36)

“Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.” (p. 40)

“Jagunço é homem já meio desistido por si…” (p. 51)

“Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final.” (p. 56)

“Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa.” (p. 56)

“Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dôr.” (p. 60)

“O amor? Pássaro que põe ovos de ferro”. (p. 61)

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia.” (p. 64)

“Viver é um descuido prosseguido.” (p. 70)

“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade!” (p. 84)

“No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…” (p. 85)

“Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!” (p. 87)

“O mal e o bem, estão é quem faz; não é no efeito que dão.” (p. 97)

“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alivanhado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. […]. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.” (p. 98-99)

“Ao que o digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, se não fosse cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa ideia me põe susto.” (p. 126)

“O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.” (p. 134)

“Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. – ‘Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos’ – me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu.  Por que? Diz-que-direi ao Senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.” (p. 138-139)

“Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O Senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.” (p. 140)

“Afirmo ao senhor, do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.” (p. 174)

Contos Aéreos!

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A chuva caia fraca, neblinava, no começo da noite. A moça brincava na varanda com um gato meigo. A meiguice da cena. A beleza da moça. Assis olhou rente, esticou e reteve-se por instantes: a chuva, a moça e o gato. Mas a chuva ficou forte, a cena findou-se. Assis seguiu pela sombra da noite, se protegendo do engrossar da chuva, mas pensando na beleza da moça e seu gato meigo.