Francisco Secundo da Silva Neto

O livro A ralé brasileira: quem é e como vive de Jessé Souza recebeu uma edição revista e ampliada neste ano de 2018. O autor atualmente figura entre os mais vendidos do mercado editorial no Brasil. O seu público mais leigo, não necessariamente especializado das Ciências Sociais e afins, o tem em alta conta muito por ele assumir publicamente uma fala acintosa contra a ascensão do discurso de Direita e de uma criminalização da política por parte dos grandes meios de comunicação. Mais precisamente uma criminalização que se voltou nos últimos anos para um único partido no Brasil: o Partido dos Trabalhadores (PT). Um partido que certamente nos 13 anos que esteve a frente do poder governamental brasileiro trouxe melhorias significativas para a vida de uma parte da população brasileira, a qual na estrutura social de nossa sociedade ocupa a parte mais baixa.

Jessé inicia sua obra alertando que para chegar até este livro teve que percorrer um longo caminho de estudos e pesquisas que o levou a enfrentar três importantes desafios teóricos e metodológicos. 1º Fazer uma leitura alternativa do pensamento social e político brasileiro; 2º Estudar a teoria liberal conservadora internacionalmente dominante; e 3º Apropriar-se teoricamente da possibilidade de fazer pesquisa empírica nas Ciências Sociais que não reproduzam obviedades do senso comum.

Fazer uma leitura alternativa do pensamento social e político brasileiro significou desvendar os pressupostos pseudocientíficos das teorias de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda sobre a formação sociocultural brasileira. Pressupostos que revelam um “liberalismo conservador”. Tal tipo de liberalismo foi o que criou uma “sociologia espontânea” acerca do Brasil e do povo brasileiro. Tal “sociologia espontânea” desses sociólogos e intérpretes da cultura brasileira ensejou uma “teoria liberal conservadora” que percebe o Estado e a sociedade no Brasil destacando e “denunciando” o patrimonialismo e o “populismo” como problemas centrais que atravancam o desenvolvimento pleno do país. Esse primeiro desafio está mais bem trabalhado nas obras de Jessé Souza A modernização seletiva (2000) e A tolice da inteligência brasileira (2015).

Estudar a teoria liberal conservadora internacionalmente dominante significou teorizar o capitalismo mundial na sua realidade moral e extra-econômica comum. A dimensão moral e simbólica do capitalismo. Dimensão moral que aponta os países adiantados do capitalismo como possuidores de “estoques culturais” ou “estoques civilizatórios” distintos dos países atrasados. Dimensão moral que embasa um “racismo ontológico” na modernização capitalista ou que é a base racista de uma teoria da modernização. Desafio que está mais bem trabalhado na sua obra A construção social da subcidadania (2003).

Apropriar-se teoricamente da possibilidade de fazer pesquisa empírica nas Ciências Sociais que não reproduzam obviedades do senso comum, segundo Souza (2018), é importante para que se possa compreender que existem verdades ocultas ou não refletidas no cotidiano dos agentes sociais. Busca que o autor procurou ao lançar mão da teoria de Pierre Bourdieu, especificamente no conceito de habitus, que diz respeito a um sistema de disposição socialmente incorporado, literalmente no corpo das pessoas, nos seus gestos e práticas e que orienta de modo irrefletido as ações e pensamentos dos indivíduos. Com tal conceito é possível demonstrar que nossas escolhas e nosso comportamento prático nem sempre é intencional e refletido. As lógicas que movimentam os mundos sociais, por vezes, não são transparentes para os agentes sociais, enfim. Esse último desafio é o que torna possível descobrir que existe uma “hierarquia moral invisível” ou não consciente que qualifica/desqualifica a “ralé brasileira”.

A ralé X a personalidade sensível e o produtor útil

O “privilégio estético” que significa ter “bom gosto” ou possuir a “capacidade cognitiva” para fruir, por exemplo, a música clássica ou um quadro de Picasso é próprio daqueles que são “civilizados”. Aqueles e aquelas que, geralmente, são europeus e norte-americanos ou que compõem as classes abastadas e dominantes nas sociedades modernas hoje. Esses e essas que possuem tal “privilégio estético” desenvolvem uma “personalidade sensível”. Uma estrutura social de personalidade, de outro modo, que não é própria dos “marginalizados” das periferias do sistema econômico mundial.

O habitus que se torna privilégio de classe está na criação das crianças nascidas nas classes abastadas e médias das sociedades capitalistas que recebem uma herança cultural de berço. Herança familiar que propicia o desenvolvimento dessa estrutura social da “personalidade sensível”. Crianças que nascem em meios sociais propícios e que cedo aprendem a ter o “bom gosto” dos pais e dos seus professores. Adquirem, desse jeito, o habitus de seus criadores e educadores.

Concomitante a criação dessa estrutura social de “personalidade sensível”, no avançar das sociedades modernas e capitalistas criou-se a concepção de “produtor útil”. Concepção que, por outro lado e como consequência, despreza os referidos “marginalizados” do capitalismo mundial periférico como “indolentes”, não afeitos ou tendentes ao trabalho. Da mesma forma é pelo habitus que se explica tal diferença. Os filhos das classes abastadas e médias estão nas melhores escolas e, assim, podem aprender desde os inícios da vida a importância do trabalho e da disciplina. Possuem, diferente dos filhos das classes desfavorecidas, maiores possibilidades de estarem bem preparadas para ocupar cargos públicos e funções de boa remuneração no competitivo mercado de trabalho atual exigente de competências.

Contudo, para além do habitus de classe, que não é refletido ou pensado como uma explicação coerente para explicar as desigualdades sociais com as quais convivemos cotidianamente, existe no Brasil uma ideia difusa socialmente que aponta como o “povo brasileiro” é, por força da sua cultura, não adequado à vida democrática nem afeito ao mundo da disciplina e do trabalho. Ideia que tem raízes na concepção do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo.

Em sua obra Raízes do Brasil de 1936, este autor aponta que o “povo brasileiro” formado que foi nos quadros da estrutura familiar recebeu o peso das “relações de simpatia”. É um “homem de família”, personalista, patriarcal, afetivo com os seus e impiedoso com seus inimigos, mas sobretudo, tendente às afinidades nascidas das intimidades dos grupos primários. Não acha agradável as relações impessoais próprias da funcionalidade da vida pública e cidadã. A impessoalidade tem como consequência uma relação social gestada pela posição social e função do indivíduo na estrutura institucional e civil das sociedades e nos Estados modernos. O brasileiro, assim, estaria culturalmente condicionado para a indolência em relação ao trabalho e ao desapego no cuidado com a coisa pública.

Destarte, para Souza (2018), há aqui a criação de uma “hierarquia moral” não refletida e difusa socialmente em várias partes do mundo moderno que procura atestar a superioridade moral das populações “sensíveis e úteis” contra o resto do mundo de pessoas não sensíveis e improdutivas e isto por conta de suas próprias culturas. Persiste, assim, um “racismo ontológico” mundialmente difundido através dessa ideologia da “hierarquia moral” que divide o mundo social, grosso modo, em “superiores” e “inferiores” ou em “disciplinados cidadãos” e “indolentes sem consciência democrática”.

Souza (2018) indica ainda que tanto a “personalidade sensível” como o “produtor útil” estão ligados a valores morais originários na história fundadora das sociedades ocidentais e servem sim, certamente, para o aperfeiçoamento da humanidade como um todo. Contudo, há um problema grave quando tal moralidade se torna instrumento de exclusão, de opressão e humilhação de classe. Tal moralidade pode, dessa maneira, manter estruturas sociais desiguais e injustas.

O preconceito estético e o privilégio de classe

Essa “hierarquia moral” gera um “preconceito estético” das classes abastadas e médias contra as classes populares, o que legitima os privilégios das classes que ocupam as partes de cima da estrutura social. Os de “cima” na estrutura social das sociedades modernas possuem, por exemplo, o poder de comprar uma garrafa de vinho de 15 mil reais e tomam para si isso como um aspecto de sua DISTINÇÃO. Distinção no consumo certamente, mas que implica uma como que “superioridade inata” do “bom gosto”. Tal consumo distinto afasta as classes abastadas de todos aqueles das classes mais baixas que gostam de cerveja e cachaça baratas, ficando nesse exemplo. Porém, o mesmo raciocínio vale para todos os comportamentos e estilos de vida que servem como parâmetros de identificação de pertencimento ou do privilégio dessas classes.

Os privilégios de classe se legitimam, assim, através de redes de identificação entre os integrantes das classes abastadas e médias com seus pares, os quais possuem gostos e consumos similares o que pode gerar, e por vezes, produz sim, preconceito de classe contra a “ralé” ou a “mundiça”, justamente aqueles que não possuem os mesmo “bons gostos” e as mesmas sensibilidades apuradas.

“São essas redes de identificação e preconceito que irão definir as interações sociais reais de modo muito mais decisivo que os princípios legais da igualdade formal prevista em lei”. (SOUZA, 2018, p. 21).

Notas inconclusas

A leitura inicial sobre essa obra de Jessé demonstra o trabalho de um pesquisador das ciências sociais engajado politicamente, mas preocupado em manter um rigor acadêmico com sua explicação da realidade social. Um sociólogo de fato que procura demonstrar de que maneira as diferenças entre sociedades e dentro delas são produtos de processos sociais e históricos de aprendizado ou da ausência destes.

De pronto Jessé aponta que falar sobre a “ralé brasileira” é demonstrar como os que são percebidos por muitos de nós como ‘indignos’, como não devendo estar aqui no mundo, percebem e levam a sua vida. Uma parte da população que foi (e é ainda mais nos tempos atuais) historicamente desprovida das pré-condições sociais, morais, e culturais que permitem minimamente uma vida digna e cidadã na estratificada e desigual sociedade brasileira.

HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ªed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SOUZA, Jessé. A ralé brasileira: quem é e como vive. 3ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Editora Contracorrente, 2018.