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Os efeitos coloniais da violência contra jovens pobres e negros, de Luiz Fábio Paiva

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[No Estudo publicado pela UNICEF e a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará agora em 2017, intitulado Trajetórias Interrompidas (segue o link: https://www.unicef.org/brazil/pt/trajetorias_interrompidas.pdf) o perfil sociocultural e econômico dos jovens assassinados nas periferias de Fortaleza e de mais seis municípios do Ceará, entre eles Caucaia, Maracanaú, Sobral e Juazeiro do Norte, é o seguinte: mais de 70% são pardos ou negros, do sexo masculino, tem média de idade de 17 anos e moram em bairros pobres. A violência que atinge as “pessoas de bem” ou “os cidadão”, como se costuma falar maiormente hoje, está estreitamente ligada com esse quadro social. Se “os cidadão” estão a sofrer com o medo da violência urbana ao seu lado a juventude da periferia das capitais desse país há muito sangra. O professor do departamento de Ciências Sociais da UFC e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência, Luiz Fábio Paiva, nos traz a seguir uma breve reflexão sobre esse quadro assombroso que é essa “indústria de assassinatos” de jovens nas periferias do Brasil atual.]
 Secundo Neto, professor e sociólogo

Os efeitos coloniais da violência contra jovens pobres e negros

Luiz Fábio Paiva*

A morte de jovens pobres e negros do sexo masculino, nas periferias urbanas do Brasil, não é um fenômeno novo. Trata-se de algo que sempre esteve presente nas áreas mais pobres das cidades brasileiras. A diferença dos últimos anos é que temos dados que retratam e possibilitam que esse fenômeno seja evidenciado em sua extensão e gravidade para a população mais pobre de cidades como Fortaleza. A morte de pobres e negros, em sua juventude, é um fenômeno colonial. Eles sempre morreram e viveram a dor de suas perdas em silêncio. Atualmente, jovens de 15 e 16 anos das periferias urbanas brasileiras já experimentaram a perda de pais, parentes e amigos. Alguns conhecem dezenas de mortos e vivem conscientes de que sua hora chegará em breve. Portanto, a vida lhe parece um momento efêmero e curto. São jovens que aprendem desde cedo a não sonhar e não ter grandes ambições, pois lhes é dito todos os dias que não são pessoas dignas. Quando cometem crimes e são assassinados, morreram porque eram “bandidos”. Quando não cometem crimes e são assassinados, morreram porque eram suspeitos de serem “bandidos”. Quando onze morreram na chacina de Messejana (bairro de Fortaleza-CE), o Governo do Estado não veio a público, primeiramente, para mostrar sua indignação e responsabilidade diante de um acontecimento trágico. Primeiro, comunicaram a população cearense que iriam levantar os antecedentes criminais das vítimas. Os jovens pobres e negros são os “bandidos”, independente do que eles façam. Suas mortes são sofridas apenas pelos seus familiares que, em muitos casos, se resume a sua mãe. Sofrem em silêncio, conformadas ao destino trágico escrito e cumprido a risca. Morto muitas vezes por outro jovem, apresentado a sociedade em programas policiais que retratam a sua “frieza”. Mostram como ele matou friamente, questionando a sua incapacidade de dar valor à vida do outro. Esquecem que ele também não atribui valor nenhum a sua própria vida e diante disso é impossível construir relações de alteridade, reconhecimento e convivialidade. Esquecem que é impossível existir uma comunidade política e moral quando não existe cuidado de uns com os outros e que a responsabilidade por esses jovens que estão morrendo e matando é coletiva. Justificam a indiferença alegando que a maior parte dos pobres não cometem crimes, mesmo vivendo de maneira miserável. Estão certos! A maior parte dos pobres não irá cometer crimes, mas alguns irão olhar para suas vidas, para vida dos outros e sentir uma profunda injustiça entre o que lhes foi oferecido em troca da sua obediência à constituição de um País injusto e desigual. Enquanto esses jovens forem os “inimigos”, alvos da violência policial por excelência, o que iremos cultivar são números que nos envergonham por retratar a configuração deprimente de nossa sociedade. Uma sociedade construída por um processo colonial marcado não apenas pela destruição física das populações indígenas e negras, mas também pelo silêncio a respeito das injustiças e violências que sofreram. É isso que esses jovens sofrem todos os dias! Sua dor, diariamente esquecida, só impacta quando os números retratados pelos relatórios de pesquisa evidenciam a dimensão da violência nas periferias urbanas. Passado o efeito do impacto dos números, feitos os discursos hipócritas de governo, os assassinatos continuam, afetando sempre as mesmas pessoas em um processo contínuo de eliminação dos indesejados jovens pobres e negros das periferias.

*Professor de Sociologia da UFC
Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência – LEV

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Assis Rosa por Assis Rosa

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Assis Rosa é o único filho de

Assis das Dores e de

Rosa dos Outros

Assis ficou, assim, de nome completo,

Das Dores da Rosa dos Outros

É poeta e personagem da vida inventada…

Invenção que da vida tira as suas invencionices

E que dá de volta à vida, em forma de palavras,

as suas dores e dissabores.

É! Assis é assim…curtido no amargor do viver

e melancólico por querência

Mas não o tomem por pessimista…

Isso não! Assis é apenas um desacreditador

de que essa travessia, a da vida,

seja um não parar de alegrias,

pois Assis sabe que todo esse caminhar,

que é o do viver, é feito mesmo de rosas e de dores,

das dele e dos outros.

 

Assis Rosa

Darcy Ribeiro e o Óbvio

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Francisco Secundo Neto

Neste 1º de Maio de 2017, diante dessas Reformas Trabalhista e da Previdência no Brasil temeroso de hoje, é preciso ter em mente que tais propostas de um governo ilegítimo são, na verdade, oriundas e colocadas para frente por e para uma classe dominante e seus competentes auxiliares que aí estão para convencer a todos e todas, com muitas pesquisas e propagandas, como essas reformas são indispensáveis e urgentemente urgentes. Como afirmou Darcy Ribeiro (1986), desde os inícios de formação desse país, essa velha classe dominante tem sido e continua sendo promotora de uma prosperidade restrita e de um progresso contido ideal para o modelo de sociedade que buscam na satisfação de seus interesses. Então, lembro aqui um trecho da obra “Sobre o Óbvio” de Darcy Ribeiro:

Não há como negar um fato ululantemente óbvio: a nossa velha classe dominante tem sido altamente capaz na formulação e na execução do projeto de sociedade que melhor corresponde a seus interesses. Só que este projeto  para ser implantado e mantido precisa de um povo faminto, xucro e feio. Nunca se viu, em outra parte, ricos tão capacitados para gerar e desfrutar riquezas, e para subjugar o povo faminto no trabalho, como os nossos senhores empresários, doutores e comandantes. Quase sempre cordiais uns para com os outros, sempre duros e implacáveis para com os subalternos, e insaciáveis na apropriação dos frutos do trabalho alheio. Eles tramam e retramam, há séculos, a malha estreita dentro da qual cresce, deformado, o povo brasileiro. Deformado e constringido e atrasado. E, assim, é, sabemos agora, porque só assim a velha classe pode manter, sem sobressaltos, este tipo de prosperidade de que ele desfruta, uma prosperidade jamais generalizável aos que produzem com seu trabalho, mas uma prosperidade sempre suficiente para reproduzir, geração após geração, a riqueza, a distinção e a beleza de nossos ricos, suas mulheres e filhos. (p. 19)

RIBEIRO, Darcy. Sobre o Óbvio. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1986.  

A Sociologia como “câmera escondida”*

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Diogo Tourino de Sousa e Fernando Perlatto**

Max Weber escreve, em 1906, o importante “As seitas protestantes e o espírito do capitalismo”, que antecipa, de alguma forma, suas reflexões, posteriormente publicadas, sobre a Sociologia das Religiões. No texto, Weber descreve um batismo protestante por ele presenciado nos EUA, numa viagem feita entre a escrita da primeira e segunda parte de sua obra mais famosa – “A ética protestante e o espírito do capitalismo” – que abriu espaço para pensarmos numa curiosa imagem: uma família protestante, no início do século XX, realizava um ritual de batismo conforme sua crença religiosa, e era assistida por um alemão, de aspecto austero e exibindo uma barba hirsuta.

A família protestante até poderia achar que tratava-se de uma pessoa, digamos, “normal”. No entanto, o espectador era Max Weber, um dos mais influentes clássicos da Sociologia, que esquadrinhava a cena dentro de um sofisticado quadro conceitual, tomando o fato como exemplo para consubstanciar sua tese sobre direcionamento religioso, a singularidade do Ocidente e o desencantamento do mundo.

Todos que começam a estudar a Sociologia logo compartilham, quase instintivamente, desse comportamento, descrito de maneira exemplar pelo sociólogo norte-americano Charles Wright Mills (1916-1962) a partir da ideia de “imaginação sociológica”. Em linhas gerais, é uma forma de pensamento que possibilita aos indivíduos a enxergarem o quadro histórico e social complexo e amplo do qual fazem parte, levando-os a relacionar os seres humanos em suas sociedades, a biografia individual e a história, capacitando-os a entenderem a criminalidade, o analfabetismo, o divórcio e demais fenômenos sociais não como problemas pessoais, mas como questões sociais. Desde que se adquira uma “imaginação sociológica” o mundo se torna permanentemente alvo de interpretações que são capazes, por certo, de perceber tramas maiores imperceptíveis ao olhar mais ligeiro e descuidado.

Uma boa metáfora para entender melhor um comportamento comum de sociólogos é a da “câmera escondida” utilizada pelo jornalismo investigativo e presença constante na denúncia de casos de corrupção e descaso. Prática criticada por muitos profissionais como antiética, pois o jornalista ao esconder a câmera não avisa ao “entrevistado” que ele está sendo gravado, e alvo inclusive de pedidos de indenização em alguns casos, ela continua presente nos noticiários. Quase sempre com o mesmo enredo: o jornalista, a partir de uma denúncia, se passa por uma pessoa qualquer que estaria interessada num serviço, ou mesmo disfarça-se de corruptor, e provoca o transgressor para que ele entregue toda a verdade, sem saber, é claro, que está sendo filmado.

A provocação que sugerimos a partir dessa metáfora, para pensarmos no comportamento padrão dos sociólogos, é a de que esses profissionais carregam uma espécie de “câmera escondida” dentro da cabeça. Tal como no exemplo de Weber, pessoas comuns revelam-se cotidianamente aos sociólogos, supondo conversarem com um interlocutor “normal”. No entanto, ao ouvi-las é inevitável que o que digam ou façam seja sempre enquadrado dentro de quadros conceituais e teóricos que fazem parte já de uma longa tradição de pensamento científico.

A “câmera escondida” presente no fazer dos sociólogos quase sempre é incomunicável ao ouvinte ou interlocutor, pois, por vezes, este não pactua com os mesmos modos de ver e pensar a realidade. No entanto, assim como o jornalista “denuncia” o que filma, a Sociologia é capaz de construir, por meio da leitura da realidade dentro do quadro conceitual e teórico herdado da sua tradição científica, refeito e sempre revisto, afirmativas sobre a sociedade, capazes de elucidar a relação existente entre biografias particulares e a realidade social que as cerca.

* Este texto é um trecho de parte do Caderno de Exercícios 33, intitulado “O papel dos clássicos no discurso sociológico”, da revista Sociologia, edição 40, ano IV, abril/maio de 2012, p. 47 a 49. Eu, Francisco Secundo Neto, autor deste blog, digitei e adaptei algumas poucas passagens desse texto, mas sem prejuízo de sentido final para as ideias nele trabalhadas originalmente por seus autores.

** Diogo Tourino é sociólogo e professor do curso de Ciências Sociais da UFV e Fernando Perlatto é historiador e professor do curso de Ciências Sociais da UFJF.

Somos o tíbio povo dos heróis assinalados!

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Vendo estas Minas tão mofinas, quem diria, desatinado, escarmentado, somos o povo destinado? Somos os o tíbio povo dos heróis assinalados. Eles aí estão, há séculos, a nos cobrar amor à liberdade. Filipe grita, Joaquim José responde:

Libertas quae sera tamen!

– Liberdade, aqui e agora. Já!

[…]. O destino caiu, corou desta vez a cabeça de Joaquim José, condenado pela Rainha Louca a morrer morte natural na forca, ser esquartejado e exposto para escarmento do povo. Despedaçado, lá ficaram suas partes apodrecendo, até que o tempo as consuma como queria Dona Maria. Os quatro quartos plantados fedendo, na Estrada Real. A cabeça com a cabeleira e a barba, bastas, alçadas num poste alto, em Ouro Preto, guardada por famintos urubus asas de ferro, bicos agudos: tenazes. Estes foram, só eles, seus coveiros. Acabado assim tão acabado, sem ao menos a caridade da cal virgem, Tiradentes não se acabou nem se acaba. Prossegue em nós, latejando. Pelos séculos continuará clamando na carne dos netos de nossos netos, cobrando de cada qual sua dignidade, seu amor à liberdade.

As barbas. As barbas. As barbas.

Aqui permaneceram.

À espera doutra cara e doutra vergonha.

Estes são os nossos heróis assinalados, símbolos de uma grandeza recôndita que havia.     Ainda há, eu quero crer, mais rara que os ouros, por garimpar. Maior que eles dois, porém, é a multidão que vou chamar. Veja:

— Venham, eu os convoco, venham todos. Venham aqui dizer da dor dos nervos dilacerados, do cansaço dos músculos esgotados. Venham todos, com suas tristes caras, com suas murchas ilusões, venham vestidos ou nus, tal como foram enterrados, se foram. Venham morrer aqui de novo suas miúdas mortes inglórias.

Venha primeiro você, você mineiro anônimo que furtou o crânio de Tiradentes, rezou por sua alma e o sepultou. Mas venham todos!

Você os vê? Foram milhões de almas vestidas de corpos mortais, doídos, os que aqui nessas Minas se gastaram. Olhe de novo pra eles, olhe bem. Veja só. No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, logo, veja só: eram já multidões de mestiços, crioulos, daqui mesmo.

Esses milhões de gentes tantas são as mulas desta gueena de lavar cascalhais. Vê você como eles todos nos olham, olhos baixos, temerosos, perguntando calados:

— Quem somos nós? Existimos, para quê? Por quê? Para nada?

Somos o povo dos heróis assinalados, mas somos mesmo é o povo dessas multidões medonhas de gentes, enganadas e gastadas. O povo escarmentado na carne e na alma. Somos o povo que viu e que vê. O povo que vigia e espera.

Trecho do romance “Migo” (1988) de Darcy Ribeiro

Por que Mentir*

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Clóvis de Barros Filho **

A mentira é, para muitos, sempre condenável. Inaceitável. Porque corroeria a premissa importantíssima da vida e da convivência. Já, para outros, nem sempre é assim. Será mentir um vício em qualquer situação? Proponho a reflexão e não consigo me impedir de escutar os gritos do meu pai, condenando categoricamente a mentira e ameaçando-me de severa punição.

Para poder viver, supomos a existência de muitas coisas que, naquele instante de deliberação, não estão diante de nós. Coisas que não podemos verificar por nós mesmos. Quando alguém que se encontra sentado sente inopinada necessidade de urinar, levanta-se e procura uma toalete. Este gesto só se justifica pela certeza de haver uma toalete próxima de onde se está. Mesmo que não tenham ainda flagrado o vaso, a busca é pertinente. Senão, urinariam onde estão. Em nome da inércia ou do menor esforço.

Esta certeza sobre mundos não verificados concerne também à nossa convivência com os demais. Suas ações, seus discursos. Na hora de agir, de escolher uma conduta entre outras, de jogar no lixo soluções da vida em nome daquela que nos parece melhor, servimo-nos de uma série de certezas sobre a conduta dos demais que prescindem de constatação. Confiança para alguns, fé para outros.

Agora mesmo, no momento que transcrevo este texto […], suponho que a editora honrará seu compromisso em publicá-la. Suponho também algum leitor. Conversas em torno do texto. E nada disso posso verificar. Simplesmente porque, neste caso, nada disso tem, no instante em que digito, materialidade alguma. Mas sem estas certezas eu não estaria aqui, diante do micrinho, com tantos atrativos naturais por perto, desdenhando da minha ausência.

Da mesma forma, quando interagimos, recebemos informações de terceiros sobre coisas que não podemos checar. Não tem outro jeito. Precisamos saber muito mais do que nossos olhos enxergam. Do que a posição de nosso corpo no mundo autoriza a perceber. Por isso, só nos resta acreditar no que nos contam.

Pela mídia o jornalista apresenta suas manchetes. Que anunciam fatos jornalísticos. Sabemos que ele, seus patrões e anunciantes têm muitos interesses neste trabalho. Que costumam apresentar as coisas do jeito que mais lhe convém. Até porque é preciso escolher na hora de fechar uma pauta. O mundo é grande demais para tão poucas páginas ou segundos de notícias.

Mas na hora que você se baixa de manhã para recolher o jornal que lhe foi entregue por assinatura e se dispõe a ler, é porque tem certeza de que tudo aquilo aconteceu mesmo. E quando você, conduzindo seu veículo, muda de trajeto por conta de uma informação de trânsito ouvida na rádio, é por estar seguro de que o caminho habitual está congestionado, pelas razões anunciadas.

Da mesma forma, quando alguém, agora longe da mídia, conversando com você num bar, se apresenta como professor de ética da universidade, como admirador de música sertaneja, como louco por fígado acebolado e grão-de-bico com salada de agrião, você dá continuidade ao diálogo presumindo que tudo isso seja verdade.

Porque se mentirmos sobre nós mesmos, impedimos nossos interlocutores de conhecer nossas práticas, hábitos, apetites, em suma, para falar simples, de saber quem somos. O que impediria nossa identificação. E qualquer confiança na veracidade de nossas informações.

O efeito benéfico de qualquer afirmação mentirosa é sempre de curto alcance. Pouco sustentável. Porque uma vez associada a prática ao autor, suas declarações tornam-se doravante suspeitas. “Este não é de confiança”, dizemos. E, se por hipótese, todos se tornassem mentirosos, se a mentira virasse regra universal, qualquer iniciativa mentirosa seria ineficaz. Ninguém daria crédito a um mentiroso, sabendo tratar-se de um. O que tornaria a convivência impossível. Por tudo isso, só podemos concluir, então, que mentir não é adequado. Não ajuda a viver e conviver bem.

Por que mentimos assim mesmo?*

Mas, apesar de toda esta argumentação, o fato é que mentimos com frequência. Uns mais, outros menos, é fato. Então, de duas uma: ou somos ignorantes e não sabemos viver, servimo-nos de uma razão viciada e erramos a cada mentira; ou, então, a mentira nos parece, em situações concretas da vida, muito conveniente. Conveniência nossa, do mentiroso, mas também conveniência do outro. A quem pretendemos proteger da verdade.

Comecemos pelo mais comum. Mentir para atender a conveniência de quem mente. Conveniência do canalha, que age mal com vistas a um benefício próprio. Daquele que sonega suas verdadeiras intenções para fazer crer no que não pretende e auferir benefícios desta falsa crença. Conveniência do xavequeiro, do paquerador, que, com escopo de cópula singular, faz crer em projetos de longa duração, com direito a nomes para a prole, bairro e arquitetura da futura residência e envelhecimento compartilhado.

Sempre se poderia argumentar que as delícias proporcionadas por uma aproximação física prazerosa, com um parceiro desejado, têm total primazia quando comparadas às miudezas de vidas a longo prazo. Afinal, sempre passam tantas coisas pela nossa cabeça quando cogitamos sobre o futuro. Nossas expectativas são quase tão confusas. Tão fugazes. Podemos deixar de querer rapidamente aquilo que, com muita intensidade, almejamos para nós num instante qualquer. E convenhamos: ninguém quer as mesmas coisas antes e depois de um orgasmo!

Mentir por conveniência nossa, com certeza. Mas também por conveniência do outro, do interlocutor, da vítima. Que terá no afastamento do real lesivo – proporcionado pela mentira – um unguento, uma sobrevida, um instante de alívio, ainda que temporário. Um bálsamo protetivo face a tristeza que supostamente ensejaria a verdade. Para quando a sinceridade parece cruel demais. Será que um doente em estado terminal, precisa mesmo de relatos verídicos?

E você, senhora, na hora de dar um fora em seu parceiro, no momento de se justificar, precisa mesmo revelar que encontrou outro com melhores condições de proporcionar prazer? Com apetrechos e dotes que não consegue tirar da cabeça? Precisa falar daquela linguetada em diagonal acompanhada do atrito com a ponta do nariz que faz badalar os sinos da Catedral de Notre Dame, mesmo longe de Paris?  Do número de investidas por encontro? Sobretudo para um marido de mais de uma década, de pegada frouxa, esporádica e inconsistente. Que nunca faz tocar nem a campainha de casa. Será tão necessário assim passar em revista os talentos e competências profissionais do pretendente? Do sucesso econômico – vencimentos diários superiores ao minguado salário docente? Da farta cabeleira face às fracassadas tentativas de implante?

Você imagina as causas do novo amor. Ou, pelo menos, os atributos determinantes da troca. Mas, na hora de justificar ao incrédulo cônjuge sua decisão, você mente. Diz que o problema é com você. Que não se sente à altura. Que o outro é legal em demasia. Que se pudesse escolher alguém para passar a vida eterna, não hesitaria em procurá-lo novamente. Mentiras. Por compaixão. Porque a verdade pode agredir muito. E muitos de nós não suportamos dar causa à tristeza do outro. Seja o outro quem for.

Resumindo: parece óbvio que a mentira não convém. E, ao mesmo tempo, parece inevitável mentir. Não é mesmo fácil aprender a viver. […].

* “Por que mentir?” e “Por que mentimos assim mesmo?” são tópicos do capítulo Ética e Vida Boa da obra A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade de autoria de Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu, professores de ética, respectivamente, pela USP e PUC-Rio.

**Clóvis de Barros Filho é bacharel em Direito e Filosofia pela USP e em Comunicação Social pela Cásper Libero. É pós-graduado em Direito Constitucional e em Sociologia do Direito pela Universidade de Paris II. Leciona Ética na ECA-USP.

Filosofias de um jagunço! (parte 2)

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Pronto! Segue a segunda e última postagem de uns trechinhos das verdades filosofias de vida do jagunço Tatarana, o Riobaldo de Guimarães Rosa. Como deixei claro anteriormente aqui não cabe contexto – arengo e repito: vá contextualizar quem quiser ler a obra (“Grande sertão: veredas”). Repasso aqui as últimas sabedorias sobre essa vida travessia que a obra me trouxe e ainda me põem a refletir sobre as veredas do viver… “negócio perigoso!”, como diz Riobaldo. É sim, Seu Tatarana, por vezes e vezes é, angustiante e desafiador, mas é o que temos a fazer ou arredamos pé… e nonada disso! Amém!

<Os trechos foram retirados da seguinte edição da obra:

ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: veredas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.>

“Ações? O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.” (p. 178)

“E grande aviso, naquele dia, eu tinha recebido; mas menos do que ouvi, real, do que do que eu tinha de certo modo adivinhado. De que valeu? Aviso. Eu acho que, quase toda vez que ele vem, não é para se evitar o castigo, mas só para se ter consolo legal, depois que o castigo passou e veio. Aviso? Rompe ferro!” (p. 178-179)

“Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.” (p. 180)

“Se eu fosse filho de mais ação, e menos ideia…” (p. 184)

“Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência. Mal. O senhor fia? Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva.” (p. 185)

“Acho que o espírito da gente é cavalo que escolha estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom. Seja?” (p. 186)

“Tem um ponto de marca, que dele não se pode mais voltar para trás. Tudo tinha me torcido para um rumo só, minha coragem regulada somente para diante, somente para diante;” (p. 213-214)

“Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…” (p. 221)

“O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante todo o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto – inteligência só.” (p. 237)

“Em desde aquele tempo, eu já achava que a vida da gente vai em êrros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava.” (p. 244-245)

“O vau do mundo é a alegria! […] Vau do mundo é a coragem…” (p. 305)

“Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o bêco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga.” (p. 307)

“Travessia, Deus no meio.” (p. 309)

“Sertão: é dentro da gente.” (p. 309)

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.” (p. 310)

“Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma coisa só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe.” (p. 311)

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.” (p. 318)

“Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem a gente; os em vir, também. Só o presente é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isto, já aprendi.” (p. 343)

“De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo o medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea.” (p. 389)

“Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo vivente medroso, um menino tremor, todos perigam – o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero –: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!” (p. 394)

“ ‘Vida’ é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia.” (p. 398)

“Mas o cabedal é um só, do misturado do viver de todos, que mal varêia, e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta.” (p. 400)

“… pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.” (p. 410)

“Rir, antes da hora, engasga. E eu me enviava pelo sério.” (p. 410-411)

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.” (p. 413)

“Ser forte é parar quieto; permanecer.” (p. 420)

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.” (p. 461)

“Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel…” (p. 484).

“E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões.” (p. 490)

“A vida é um vago variado.” (p. 500)

“O que os meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’manhã.” (p. 518)

“O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…” (p. 522)

“Travessia perigosa, mas é a da vida.” (p. 542)

“Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia?” (p. 559)

“O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos… Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me enguliu, depois me cuspiu do quente da boca… o senhor crê minha narração?” (p. 585)

“A vida da gente nunca tem termo real.” (p. 599)

“Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o diabo não existe. Pois não? O senhor é homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.” (p. 608)

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