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Por que Mentir*

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Clóvis de Barros Filho **

A mentira é, para muitos, sempre condenável. Inaceitável. Porque corroeria a premissa importantíssima da vida e da convivência. Já, para outros, nem sempre é assim. Será mentir um vício em qualquer situação? Proponho a reflexão e não consigo me impedir de escutar os gritos do meu pai, condenando categoricamente a mentira e ameaçando-me de severa punição.

Para poder viver, supomos a existência de muitas coisas que, naquele instante de deliberação, não estão diante de nós. Coisas que não podemos verificar por nós mesmos. Quando alguém que se encontra sentado sente inopinada necessidade de urinar, levanta-se e procura uma toalete. Este gesto só se justifica pela certeza de haver uma toalete próxima de onde se está. Mesmo que não tenham ainda flagrado o vaso, a busca é pertinente. Senão, urinariam onde estão. Em nome da inércia ou do menor esforço.

Esta certeza sobre mundos não verificados concerne também à nossa convivência com os demais. Suas ações, seus discursos. Na hora de agir, de escolher uma conduta entre outras, de jogar no lixo soluções da vida em nome daquela que nos parece melhor, servimo-nos de uma série de certezas sobre a conduta dos demais que prescindem de constatação. Confiança para alguns, fé para outros.

Agora mesmo, no momento que transcrevo este texto […], suponho que a editora honrará seu compromisso em publicá-la. Suponho também algum leitor. Conversas em torno do texto. E nada disso posso verificar. Simplesmente porque, neste caso, nada disso tem, no instante em que digito, materialidade alguma. Mas sem estas certezas eu não estaria aqui, diante do micrinho, com tantos atrativos naturais por perto, desdenhando da minha ausência.

Da mesma forma, quando interagimos, recebemos informações de terceiros sobre coisas que não podemos checar. Não tem outro jeito. Precisamos saber muito mais do que nossos olhos enxergam. Do que a posição de nosso corpo no mundo autoriza a perceber. Por isso, só nos resta acreditar no que nos contam.

Pela mídia o jornalista apresenta suas manchetes. Que anunciam fatos jornalísticos. Sabemos que ele, seus patrões e anunciantes têm muitos interesses neste trabalho. Que costumam apresentar as coisas do jeito que mais lhe convém. Até porque é preciso escolher na hora de fechar uma pauta. O mundo é grande demais para tão poucas páginas ou segundos de notícias.

Mas na hora que você se baixa de manhã para recolher o jornal que lhe foi entregue por assinatura e se dispõe a ler, é porque tem certeza de que tudo aquilo aconteceu mesmo. E quando você, conduzindo seu veículo, muda de trajeto por conta de uma informação de trânsito ouvida na rádio, é por estar seguro de que o caminho habitual está congestionado, pelas razões anunciadas.

Da mesma forma, quando alguém, agora longe da mídia, conversando com você num bar, se apresenta como professor de ética da universidade, como admirador de música sertaneja, como louco por fígado acebolado e grão-de-bico com salada de agrião, você dá continuidade ao diálogo presumindo que tudo isso seja verdade.

Porque se mentirmos sobre nós mesmos, impedimos nossos interlocutores de conhecer nossas práticas, hábitos, apetites, em suma, para falar simples, de saber quem somos. O que impediria nossa identificação. E qualquer confiança na veracidade de nossas informações.

O efeito benéfico de qualquer afirmação mentirosa é sempre de curto alcance. Pouco sustentável. Porque uma vez associada a prática ao autor, suas declarações tornam-se doravante suspeitas. “Este não é de confiança”, dizemos. E, se por hipótese, todos se tornassem mentirosos, se a mentira virasse regra universal, qualquer iniciativa mentirosa seria ineficaz. Ninguém daria crédito a um mentiroso, sabendo tratar-se de um. O que tornaria a convivência impossível. Por tudo isso, só podemos concluir, então, que mentir não é adequado. Não ajuda a viver e conviver bem.

Por que mentimos assim mesmo?*

Mas, apesar de toda esta argumentação, o fato é que mentimos com frequência. Uns mais, outros menos, é fato. Então, de duas uma: ou somos ignorantes e não sabemos viver, servimo-nos de uma razão viciada e erramos a cada mentira; ou, então, a mentira nos parece, em situações concretas da vida, muito conveniente. Conveniência nossa, do mentiroso, mas também conveniência do outro. A quem pretendemos proteger da verdade.

Comecemos pelo mais comum. Mentir para atender a conveniência de quem mente. Conveniência do canalha, que age mal com vistas a um benefício próprio. Daquele que sonega suas verdadeiras intenções para fazer crer no que não pretende e auferir benefícios desta falsa crença. Conveniência do xavequeiro, do paquerador, que, com escopo de cópula singular, faz crer em projetos de longa duração, com direito a nomes para a prole, bairro e arquitetura da futura residência e envelhecimento compartilhado.

Sempre se poderia argumentar que as delícias proporcionadas por uma aproximação física prazerosa, com um parceiro desejado, têm total primazia quando comparadas às miudezas de vidas a longo prazo. Afinal, sempre passam tantas coisas pela nossa cabeça quando cogitamos sobre o futuro. Nossas expectativas são quase tão confusas. Tão fugazes. Podemos deixar de querer rapidamente aquilo que, com muita intensidade, almejamos para nós num instante qualquer. E convenhamos: ninguém quer as mesmas coisas antes e depois de um orgasmo!

Mentir por conveniência nossa, com certeza. Mas também por conveniência do outro, do interlocutor, da vítima. Que terá no afastamento do real lesivo – proporcionado pela mentira – um unguento, uma sobrevida, um instante de alívio, ainda que temporário. Um bálsamo protetivo face a tristeza que supostamente ensejaria a verdade. Para quando a sinceridade parece cruel demais. Será que um doente em estado terminal, precisa mesmo de relatos verídicos?

E você, senhora, na hora de dar um fora em seu parceiro, no momento de se justificar, precisa mesmo revelar que encontrou outro com melhores condições de proporcionar prazer? Com apetrechos e dotes que não consegue tirar da cabeça? Precisa falar daquela linguetada em diagonal acompanhada do atrito com a ponta do nariz que faz badalar os sinos da Catedral de Notre Dame, mesmo longe de Paris?  Do número de investidas por encontro? Sobretudo para um marido de mais de uma década, de pegada frouxa, esporádica e inconsistente. Que nunca faz tocar nem a campainha de casa. Será tão necessário assim passar em revista os talentos e competências profissionais do pretendente? Do sucesso econômico – vencimentos diários superiores ao minguado salário docente? Da farta cabeleira face às fracassadas tentativas de implante?

Você imagina as causas do novo amor. Ou, pelo menos, os atributos determinantes da troca. Mas, na hora de justificar ao incrédulo cônjuge sua decisão, você mente. Diz que o problema é com você. Que não se sente à altura. Que o outro é legal em demasia. Que se pudesse escolher alguém para passar a vida eterna, não hesitaria em procurá-lo novamente. Mentiras. Por compaixão. Porque a verdade pode agredir muito. E muitos de nós não suportamos dar causa à tristeza do outro. Seja o outro quem for.

Resumindo: parece óbvio que a mentira não convém. E, ao mesmo tempo, parece inevitável mentir. Não é mesmo fácil aprender a viver. […].

* “Por que mentir?” e “Por que mentimos assim mesmo?” são tópicos do capítulo Ética e Vida Boa da obra A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade de autoria de Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu, professores de ética, respectivamente, pela USP e PUC-Rio.

**Clóvis de Barros Filho é bacharel em Direito e Filosofia pela USP e em Comunicação Social pela Cásper Libero. É pós-graduado em Direito Constitucional e em Sociologia do Direito pela Universidade de Paris II. Leciona Ética na ECA-USP.

Filosofias de um jagunço! (parte 2)

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Pronto! Segue a segunda e última postagem de uns trechinhos das verdades filosofias de vida do jagunço Tatarana, o Riobaldo de Guimarães Rosa. Como deixei claro anteriormente aqui não cabe contexto – arengo e repito: vá contextualizar quem quiser ler a obra (“Grande sertão: veredas”). Repasso aqui as últimas sabedorias sobre essa vida travessia que a obra me trouxe e ainda me põem a refletir sobre as veredas do viver… “negócio perigoso!”, como diz Riobaldo. É sim, Seu Tatarana, por vezes e vezes é, angustiante e desafiador, mas é o que temos a fazer ou arredamos pé… e nonada disso! Amém!

<Os trechos foram retirados da seguinte edição da obra:

ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: veredas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.>

“Ações? O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.” (p. 178)

“E grande aviso, naquele dia, eu tinha recebido; mas menos do que ouvi, real, do que do que eu tinha de certo modo adivinhado. De que valeu? Aviso. Eu acho que, quase toda vez que ele vem, não é para se evitar o castigo, mas só para se ter consolo legal, depois que o castigo passou e veio. Aviso? Rompe ferro!” (p. 178-179)

“Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.” (p. 180)

“Se eu fosse filho de mais ação, e menos ideia…” (p. 184)

“Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência. Mal. O senhor fia? Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva.” (p. 185)

“Acho que o espírito da gente é cavalo que escolha estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom. Seja?” (p. 186)

“Tem um ponto de marca, que dele não se pode mais voltar para trás. Tudo tinha me torcido para um rumo só, minha coragem regulada somente para diante, somente para diante;” (p. 213-214)

“Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…” (p. 221)

“O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante todo o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto – inteligência só.” (p. 237)

“Em desde aquele tempo, eu já achava que a vida da gente vai em êrros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava.” (p. 244-245)

“O vau do mundo é a alegria! […] Vau do mundo é a coragem…” (p. 305)

“Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o bêco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga.” (p. 307)

“Travessia, Deus no meio.” (p. 309)

“Sertão: é dentro da gente.” (p. 309)

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.” (p. 310)

“Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma coisa só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe.” (p. 311)

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.” (p. 318)

“Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem a gente; os em vir, também. Só o presente é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isto, já aprendi.” (p. 343)

“De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo o medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea.” (p. 389)

“Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo vivente medroso, um menino tremor, todos perigam – o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero –: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!” (p. 394)

“ ‘Vida’ é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia.” (p. 398)

“Mas o cabedal é um só, do misturado do viver de todos, que mal varêia, e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta.” (p. 400)

“… pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.” (p. 410)

“Rir, antes da hora, engasga. E eu me enviava pelo sério.” (p. 410-411)

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.” (p. 413)

“Ser forte é parar quieto; permanecer.” (p. 420)

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.” (p. 461)

“Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel…” (p. 484).

“E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões.” (p. 490)

“A vida é um vago variado.” (p. 500)

“O que os meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’manhã.” (p. 518)

“O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…” (p. 522)

“Travessia perigosa, mas é a da vida.” (p. 542)

“Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia?” (p. 559)

“O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos… Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me enguliu, depois me cuspiu do quente da boca… o senhor crê minha narração?” (p. 585)

“A vida da gente nunca tem termo real.” (p. 599)

“Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o diabo não existe. Pois não? O senhor é homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.” (p. 608)

Filosofias de um Jagunço! (parte 1)

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Nonada. O que aqui apresento não carece de muita explicação não, assim como a vida, isto aqui não é entendível. Fiz por querer, por fina força fazer. Botei na cabeça e pronto. Fui digitando uns trechos que mais me trouxeram pensamentos, que mais me deram mesmo susto ou admiração do meu livro maior. É! Meu livro maior: o “Grande Sertão: Veredas” do mineiro João Guimarães Rosa. Frases e mesmo parágrafos em espécies de aforismas aqui apresento. Verdades filosofadas! Verdades assim contadas como filosofias de um jagunço sabido pelo riscado do viver: Riobaldo Tatarana. Frases aqui algumas que já se espalharam pela internet e redes sociais como sendo de autoria não do personagem, mas de seu autor. Porém, prefiro aqui dar crédito à criatura, uma vez que penso que todo criador deve se orgulhar de suas boas criações. Assim, trago Riobaldo a tratar da vida que é sempre travessia, completaria ele, nem chegada nem partida. Deus no meio!

Transcrevo algumas das falas desse cabra ajagunçado pelo correr perigoso da existência no sertão mineiro de um Brasil que já se foi. A obra de Rosa foi originalmente publicada no ano de 1957. Era certamente um outro sertão, um outro país sobre os quais ele escrevia. Mas os dizeres do jagunço aqui transcritos ainda assim ressoam para além do lugar-sertão, para além do tempo-passado, para além de um país-diferente. Falas, algumas delas, que mais tendem para ensinamentos sobre a vida, sobre amizade, amor, dor, tristezas e alegrias. Sabedorias. Falas-ensinamentos, nem precisa dizer, descontextualizados. Não preocupo. Vá quem quiser contextualizar. Leia a obra. Apenas uma advertência, não um desencorajamento, para os menos hábeis e desacostumados na leitura: este não é livro fácil. A escrita usada é de um estilo todo próprio. O tecido delas que vai sendo feito numa conversa com um doutor que nem nada fala, vai torcendo os rumos de uma história épica, grandiosa. Posso nem falar, sou apaixonado pela obra, me descuido só em elogios.

Sem mais demoras, deixo aí os incautos interessados e que não leram “Grande Sertão”, esperanço, ensimesmados com o sumo do palavreado de Riobaldo. Como entendo que quem quer se coça! Dá um jeito! Quem não entender, ou se dê por desentendido, ou vai lendo devagar, para entender esses dizeres no inteiriço deles. E agora deixo em duas postagens, a primeira sendo esta, essas filosofias curtas sobre as veredas da vida, a qual, como repito, e vivo nessa lengalenga repetida desde então: é sempre travessia!

<Os trechos a seguir foram retirados da seguinte edição da obra:

ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: veredas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.>

 

“… o sertão está em toda parte.” (p. 08)

“Viver é negócio muito perigoso…

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é a alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse… Mas não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele!? Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela – já o campo! Ah, a gente, na velhice carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar… Bem o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: ‘menino – trem do diabo?’ E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes. … O diabo na rua, no meio do redemunho…” (p. 10-11)

“Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuvas e negócios bons… de sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só.” (p. 15)

“O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…” (p. 19)

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais – mas que elas vão mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É a que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.” (p. 23)

“Somemos, não ache que religião afraca. Senhor ache o contrário. […]. Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.” (p. 23)

“Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é um ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?” (p. 35)

“Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o escuro, escuros.” (p. 36)

“Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.” (p. 40)

“Jagunço é homem já meio desistido por si…” (p. 51)

“Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final.” (p. 56)

“Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa.” (p. 56)

“Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dôr.” (p. 60)

“O amor? Pássaro que põe ovos de ferro”. (p. 61)

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia.” (p. 64)

“Viver é um descuido prosseguido.” (p. 70)

“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade!” (p. 84)

“No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…” (p. 85)

“Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!” (p. 87)

“O mal e o bem, estão é quem faz; não é no efeito que dão.” (p. 97)

“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alivanhado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. […]. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.” (p. 98-99)

“Ao que o digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, se não fosse cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa ideia me põe susto.” (p. 126)

“O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.” (p. 134)

“Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. – ‘Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos’ – me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu.  Por que? Diz-que-direi ao Senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.” (p. 138-139)

“Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O Senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.” (p. 140)

“Afirmo ao senhor, do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.” (p. 174)

Contos Aéreos!

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A chuva caia fraca, neblinava, no começo da noite. A moça brincava na varanda com um gato meigo. A meiguice da cena. A beleza da moça. Assis olhou rente, esticou e reteve-se por instantes: a chuva, a moça e o gato. Mas a chuva ficou forte, a cena findou-se. Assis seguiu pela sombra da noite, se protegendo do engrossar da chuva, mas pensando na beleza da moça e seu gato meigo.

RoxosparadoxoS!!!

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Poemas de Venâncio Raimundo

PORRALOUCO

Eu não componho, decomponho, interrogo,
respondo e não correspondo
eu não conservo, eu converso e desabotoo o peito
eu não ensino, envolvo, revolvo e aprendo
eu, outsider, não me preocupo com o lugar
que me cabe
com o silêncio que me é dado
não silencio, cago para a posteridade.
Porralouco eu acho é pouco
incapaz de me alçar aos céus
tatuo-me na epiderme d’agora
exijo d’eu demasiado humano
pantófilo, um fluxo perpétuo a lux.
Enclausurado em mim
escrevo meus escrotos escritos
molhando a pena no arco-íris
derramando sem pena
sobre o papel em fel
o voo das borboletas em casulo.

FACE A FACE

A olho nu olho-me
nu de corpo e alma
face a face
na contra-face do espelho.
Espalho-me todo
e um forte sentimento de ode e elegia
assalta-me diante de minha imagem
não-grega
profundamente marcada
pelas dobras dos anos passados
intensamente vividos, irreversíveis!
Canto mil cantares de alegria
comoção multiplicada
por ter sobrevivido sem grandes mágoas
a sucessivos tsunamis
emergido feliz de fundos de poços
de lama que eu chafurdei com gosto de gás.
Feito a caatinga que renasce
com os primeiros pingos de janeiro – pingos
de nada – olho-me a olho nu
nu de corpo e alma e me pergunto:
sexagenário ou sexogenário?

SOUL

Por força do habitus
pergunto-me:
que dizem o que sou?
Como não tenho o hábito
do álibi
como a túnica é única
necessário não se faz
menstruar o bode
da paideguice cearencês
menos ainda lançar  dardos, dados,
búzios, cartas, farpas
para saber o que dizem o que sou.
Como o hábito faz o monge
e o monge faz o hamurábi
e a boca de Asdrúbal já
arrombou o trombone
e a vox populi não é a Vox de Deus.
Lanço mão do ibope
da pesquisa inútil e estéril
para saber o que dizem o que sou.
Como não nasci para Pilatos
não lavo aqui as mãos:
quem atira a primeira pedra?

DAS DUAS, NENHUMA

Entre o crente e o ateu,
sou a toa
Entre o vício e o verme,
sou  a verve
Entre o caminho e a distância
sou o atalho
Entre o efêmero e o perene
sou a história
Entre a teoria e a prática
sou a práxis
Entre o pathos e o ethos,
sou o logos
Entre o doce e o amargo,
sou o âmago
Entre o côncavo e o convexo
sou o orgasmo
Entre o permitido e o proibido
sou a transgressão
Entre o lugar e o comum
sou a exceção
Entre a clara e a gema
sou o novo
Entre eu e você
sou o nó(s).

PONTO FINAL

Quando tudo está perdido
não há mais o que perder
Quando tudo já foi dito
não há mais o que dizer
Quando tudo já foi visto
não há mais nada a ver
Quando tudo já foi previsto
não há mais o que prever
Quando tudo já foi experimentado
não há mais o que provar
Quando tudo já foi esquecido
não há mais o que lembrar
Quando tudo já foi escrito
Não há mais além do ponto final.

SABEDORIA IMPOPULAR

Para quem pensa
que boa romaria faz
quem em sua casa
está em paz
é bom lembrar
que um dia a casa cai.
Para quem pensa
que não se tem para onde correr
é bom não esquecer
que se pode ficar
pegar e comer o bicho.
Para quem pensa
que andar na linha
é o meio mais seguro
para se viver
é bom lembrar
que toda linha tem um fim
se antes o trem
não passar por cima
e não deixar osso sobre osso
pra contar a história.

DE PROFUNDIS

Quando eu extrair o mel
e o fel do meu ego
e deixar de ser cativo
dos ismos e sofismos
desta minha condição
de anjo caído
de antro saído
do fundo da profunda caverna
e me desfizer da vaidade
das sombras e das cobras
que rastejam
como um onda
que em espuma se esvai
nas areias da praia
e preso a uma linha voar
como uma arraia
sujeito aos lanceios
de quem me prende aos ares
quando eu deixar de ser assim
esta ambição desvairada
diante de mim
quem sabe assim como vim
eu não me afogue em vão
nas profundas mágoas
do mar das tormentas que sou.

DA NOITE PARA O DIA

Sabe um daqueles dias
em que nada dá certo
em que você se odeia
mais do que odeia aos outros
que você se sente um monstro
um crápula, um verme, um párvulo
o mais vil dos mortais?
Um daqueles dias
que você está liso, leso e puto da vida
em que você sente escorrer
sangue até por entre os dentes
que você não vê
a hora de amanhã ser outro dia?
pois justo num dia desses, sabe,
dia obscuro, sinistro,
você cruzou meu caminho
brilhando mais do que o sol
do meio dia do nordeste do Brasil
em tempos de seca e cólera
e aí da noite para o dia
alegria, alegria, alegria
adeus dia menstrual, feliz dia novo
um daqueles dias, sabe,
dias de sábado à noite
dias radiantes, santificados
em que tudo dá certo
tudo está por perto, na mão?

QUEM???

Quem cavará a própria cova
em busca de esperança?
Quem intentará acusação a si
para se justificar perante Pilatos?
Quem repetirá erros
No anseio de ser humano?
Quem correrá atrás de prejuízo
para não correr risco de vida?
Quem se atreverá fechar portas
que Deus abriu
no ensejo de mostrar poder?
Quem subirá paredes
para descer ao fundo do poço?
Quem ousará ser luz
sem carregar a própria cruz?
Quem na história ficará
quando em vida
ficou a ver navios em brancas nuvens?
Quem interrogará acerca do nada
Na ideia que sabe de tudo?
Quem???

TROCANDO EM MIÚDOS

Olho por alho
dente por bugalho
serpente por parente
confetes e serpentinas
genitálias na vitrine
canivetes e meninos
perigo à vista
em módicas prestações.
Amor com amorfo se paga?
Mofo deu-se
será que eu virei bolor?
Pragas por pregas
pregos em barra de sabão
otários metidos a espertos
engana-me
que eu me amarro:
basta por bosta?

FOLHETIM

Antes do apagar definitivo das luzes
anseio viver uma paixão lamacenta
bem novela das nove bem Janete clair
cheia de intrigas e fofocas
traições pueris
amor mercadoria
melodrama de quinta categoria
escrito nas coxas
campeã de audiência
protagonista, mocinho, vilão
sobrancelhas erguidas beicinhos
chorando lágrimas de crocodilo
colírio moura Brasil
tudo de acordo com o figurino
porém sem final feliz
nem casamentos a mis
com reprise do último capítulo
em sábado de aleluia.

LÁPIDE

Na hora H
de mim nada ficará
do mundo nada levarei
Na hora H
nada terá sido válido
nada terá sido em vão
Na hora H
resistir
será
minha grande ambição.

MEDITABUNDO

Quis mudar o mundo
por pouco muito pouco mesmo
não virei presunto.
Tornei-me então vagamundo
com tudo o que tinha direito
abundei no desbunde.
Armei barraco no submundo
fiz-me um ser imundo
vagabundo
dei a velha volta por cima
neste vasto mundo.
Não é por acaso
que eu me chamo
Venâncio Raimundo!

RoxosParadoxos!!

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Poemas de Venâncio Raimundo

TENDÊNCIA SUICIDA

De boa eu até me mataria
se me fosse dado fazer
a faxina do meu cadáver
vestir a minha mortalha
fazer a sala para as visitas
puxar o terço no velório
e encomendar minha alma
a Deus
consolar os familiares
parentes e amigos em geral
ir ao enterro e me auto sepultar
voltar para casa
livre de mim, de todos e de tudo
e pronto para outras!

NORDESTINADO

Para não nascer, nasci
Escapei fedendo
e na jihad da sobrevivência
guerra sem trégua, sem régua
nem compasso
a madrasta da vida
não cansa de me pregar peças
quebrar minhas pregas
preparar-me armadilhas
sinucas de bico
becos sem saída.
Comigo não tem escolha
mesmo assim escolho
é plantar sonhos e colher discórdias
misericórdia de mim, ó vida!

FUNDO DE POÇO

No fundo de poço
o sol não gira
não se cultiva rosas, margaridas
orquídeas
produz-se dores, enganos,
desenganos
em grandes plantações.
No fundo de poço
libélulas não vacilam
porque lá, ventos
não movem suas asas.
No fundo de poço
ratos humanos
feito títeres metidos a titãs
armam tendas
tentam firmar seus passos
no charco de lodo
lama movediça, fétida
como se fosse rocha inabalável.
Fundo de Poço: algo tão vivo
quanto um epitáfio.
Quem se atreve a me visitar?

SUJEITO DA ORAÇÃO

Na transgressão do verbo
que tudo principiou
fiz-me sujeito da oração,
às vezes simples, às vezes composto.
No contexto da vida,
pronome pessoal  reto, oblíquo,
conjugo-me em todos os tempos
– passado, presente e futuro –.
Substantivo
às vezes próprio, às vezes comum
às vezes concreto, outras, abstrato
masculino, feminino,
comum de dois
plural na singularidade
às vezes um prefixo
outras vezes, sufixo
sempre radical
uma vírgula à esquerda
da esquerda da esquerda
até o dia de ser
um mero ponto final!

VIDA DE POETA

Arrisco-me na densa e tensa
mata da poética
no encalce da palavra.
Ao tê-la em meu alcance
não poupo munição:
haja caneta e papel!
Ao abatê-la,
anseio ressuscitá-la
plena e bela.
Não raro o tiro
sai pela culatra
então se reinicia a peleja
do esconde- esconde
do pega- pega
do passarinho no ninho
da cobra no buraco.
Camaleoa
a palavra na ponta da língua
camufla-se
tenta escapar,
matar-me no cansaço!
Não raro sai dessa refrega
depois de tanto esforço
feito pão quentinho do forno
um novo poema.
Aí é só correr pra galera!

COBRA CRIADA

Antes de nascer, existi…
Antes de pensar, dispensei…
antes de engatinhar, corri…
antes de falar, cantei…
antes de escrever, poetei!
Não sabia dos segredos
e escancarava
não sabia dos degredos
e seguia
não sabia da chuva
e chorava
não sabia dos prazeres
e gozava
não sabia das ordens
e subvertia
não te conhecia e já te amava!

OLHARES

Verdades inválidas
veladas
relevantes
revelantes
incontidas
incontáveis
ambíguas
língua na língua
nos dentes, d’antes
capta o instantâneo
o olhar do instante
distante
indigente
indecente
recusa o ordinário
amplia o extraordinário.
Na tensão do orgânico
e o fragmento
situo-me
tesudo e fértil
sedutor
torcendo
para que haja
sempre celulose
para que haja
sempre poesia…
em meus olhos!

1964 – 1985…

Na gigantesca e
dantesca desova Brazil
Os urubus verdes-olivas
empapuçados de presunto
defecam
urinam
e esporram
o mórbido prazer
sobre uma multidão
de corpos decompostos
em valas abertas.
Aos pulos berram felizes
e cheiram orgulhosos
o nauseabundo odor da putrefação.
Incansáveis
saltam e peidam
e aplaudem a si e pedem bis
sob o brilho de seus fuzis.

MAGIA

Quando você chega
o milagre da primeira vez se repete
como se fosse a primeira vez:
o céu desce à terra
aí tudo azula
fico na maior felicidade
esqueço até que esta infeliz cidade
é uma fortaleza de nenhuma assunção.
Imune à força da gravidade
pisando em nuvens
no mundo da lua
em pleno mar da tranquilidade
viajo ao doce deleite do vento
via láctea mundo afora.
Cinderelo Lunático
esqueço até que meia noite
tem hora pra chegar.
Como da primeira vez
sempre que você se vai
todo o encanto se esvai
aí tudo cinza
e mais do que nunca
a in feliz cidade se mostra
a masmorra que é
até pelo menos você chegar de novo
e tudo recomeçar
como se fosse a primeira vez…!!!

MERA QUIMERA

Ai quem me dera
– mera quimera –
poetar me fosse fácil
como parece ser
para muitos poetas.
Ai quem me dera
– mera quimera –
possuísse eu o dom
de ouvir estrelas ou
ler o que nelas está escrito
ser apenas uma das vozes
da Grande Voz
de fazer baixar em mim
santos e musas.
Ai quem me dera
– mera quimera –
não fosse preciso desfiar
tripa por tripa o coração
encher de calo a alma
num simples verso.
Ai quem me dera!

ROXOSPARADOXOS

Nasci um só
e fui me fazendo múltiplo.
Nesta profusão de personas
que me tornei
no desdobrar-se de mim
não sei mais de minha matriz.
Que outros são esses
agregados a mim
como se fossem espelhos
que usam meu rosto
minha voz minha verve
meus gostos, meus vermes
que me fazem esquecer
os muitos eus que já se foram?
E quando definitivamente eu me for
quantos eu terei sido?
quantos deitaram nesta social rede d’eu
que a cada dia teço versos a fio?
Quais serão os sepultados junto a mim
ou morrerei um só?
E os que não se forem comigo
ficarão rondando, espectros,
performáticos expondo minhas nóias
nos palcos da vida a fora?

Roxosparadoxos

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Poemas de Venâncio Raimundo

Nos inícios dos idos de 1995, quase aos 16 anos de nascido, nesta cidade de Fortaleza, eu chegava como aluno novato para cursar o Segundo Grau no colégio Nossa Senhora de Assunção (parece-me que hoje extinto), o qual se localizava na rua Pe Valdevino, nas imediações do Ginásio Paulo Sarasate. Na primeira semana de aulas no Assunção, entrou na sala uma figura de estatura cearense “baixim”, magro, cabeludo, camiseta preta com estampa de rock, estilo headbanger e bastante enérgico: era o meu professor de História Venâncio. Um sujeito provocador que considerando o colégio católico do qual fazia parte como professor, ao ministrar a sua primeira aula, sobre a Idade Média, chegou em sala e proferiu uma frase que ainda hoje me recordo como se fosse agora: “A Igreja Católica é a maior puta da História!” Eu me retive na cadeira, espantado, chocado, abestalhado. “Como é isso?!” “Esse cara não tem medo de pecar assim contra a santa amada Igreja?!” Para um “menino véi” vindo de uma educação familiar e escolar católica, que frequentava as missas todo domingo na minha beloved Aerolândia, e que já era mesmo batizado e catequizado, aquilo fora uma afronta, certamente.

Todavia, aquela sentença blasfemadora não saiu da minha cabeça, e me instigou a ver isso melhor, eu queria saber, eu tinha que saber sobre aquilo… “maior puta da História?!??” Bem, com o tempo descobri sim que a instituição Igreja Católica ao longo de sua existência esteve sempre do lado dos poderes políticos e econômicos e de modo mais do que “putanesco” até. Ao fim do cristianismo primitivo, com a romanização de Cristo, emerge A Igreja Católica Apostólica Romana, instituição da religião oficial do Império Romano à época. Igreja que serviu, desde então e por vezes, não apenas para abençoar Reis e Rainhas justos e injustos, mas iniciou guerras contra “infiéis” (vide as Cruzadas, para ficar neste exemplo) e jogou mulheres ditas “bruxas”, pagãos, judeus e pessoas de credos diferentes no fogo das Inquisições.

Os anos se foram e outros professores também, mas aquela frase do professor Venâncio ainda ecoava na minha cabeça de cearense. Entrei para as Ciências Sociais na UECE em 1999, tornei-me ateu, depois voltei a crer em “algo” e me considero hoje um “cristão-teísta-racionalista” a la carte – tipo de crença inventada por mim em que eu escolho que ideias espirituais e racionais devo seguir no menu das religiões e dos conhecimentos popularizados pela ciência –, virei mestre e doutorando em sociologia pela UFC e há uns seis anos tornei-me professor. Depois de todos esses anos desde 1995, um dia desses, através de uma boa amiga em comum, pelo Facebook, encontrei o professor Venâncio, aquele sacrílego, iconoclasta dos meus tempos de Segundo Grau. Grata surpresa, conversamos, discutimos, nos cumprimentamos pelo mundo virtual zuckerbergiano. Um dia desses nos encontramos ao vivo, mas de modo rápido, em trânsito pela cidade e pela vida. Não sei muito sobre o professor Venâncio, nem antes nem hoje, lembro apenas dos anos passados dele ter falado que participou do movimento estudantil e sindical de contestação a Ditadura Militar nos anos 1970, que fora preso pelo DOI-CODI (o famigerado “Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna”) e logo depois auto-exilado, indo para Portugal de Navio. Mas também pouco importa agora. Só sei que ele vive aqui, outsider (como próprio se considera) neste mesmo plano existencial que o resto de nós, e que respira, anda, dorme, sonha, come, caga, goza, fica puto e alegre, enfim, faz uma ruma de coisa que gente humana faz. Mas, diferente de muitos, faz poesia, sim poesia. Poesias viscerais, saídas das entranhas do humano que é. Vivente, gente que sente e transborda seus sentimentos em versos e prosas!

Ah! Fiquei sabendo agora dele que também tem justamente vários livros de poesia prontos para serem publicados, todos no “prego”, doidos pelo prelo. E é com a permissão do próprio que o Secundo Caderno começa a publicar algumas das poesias de Venâncio, o meu “ex anti-professor” (sic, como se autodefine) de História. Nesta semana e noutras vindouras apresento aqui, com a graça de Deus e do poeta, alguns poemas – aqueles que mais me tocaram na alma e me arranharam a pele – do inédito livro “Face a Face – Roxosparadoxos” de Venâncio Raimundo. Sem mais, lá vai:

 

Roxosparadoxos!!

 

POEMEFÁCIO

Em sendo poesia
o que diz ser os grandes mestres
do ofício da arte-mãe,
é lá poesia o que eu versejo!
Meus versos não são palavras apenas
olhando para si,
não é fingimento deveras!
Meus versos são rascunhos
passados a limpo
dos momentos concreto-mágicos
revelados por meu coração
de raio-x.
Na verdade sou poeta,
poeta de um poema só,
e com certeza, inacabado:
minha vida,
escrito a sangue e sêmen,
suor, lágrimas, tripas e coração,
nas páginas da minha história.
Afora este,
é lá poesia o que eu poeto!

SOBRE VIVER

Enquanto o coração
bater frenético
os pés suportarem
o peso da carcaça
descalcificada.
Enquanto a memória
não alzheimar
e a sede mirar a fonte
e a fonte  não se perder dos rios
e os rios, dos risos  e mares,
e a maresia impregnar o mundo
e a utopia não perder a euforia.
Enquanto a loucura delirar lírica
e os girassóis não se voltarem
às trevas,
e a poesia unir verso
a verso e ao reverso,
palavras em larvas e lavras
e o destino for um desatino,
vale a pena viver e como-te!

LAMENTAÇÃO

São muitas as corujas que desconhecem
outros cantos que não o seu próprio pio
pior: conheço muitos homens, que se dizem
maiorais, no entanto, todavia, entretanto…
não passam de ervas daninhas
diante de sequoias e baobás, eucaliptos e cedros
porquanto incapazes de se elevarem
ao alto de sua própria baixa autoestima.
Estes são como espantalhos entre milharais
indiferentes ao milho, aos pássaros,
e a canção da chuva e dos ventos,
aranhas que tecem suas armadilhas
para todos aqueles que podem e sabem voar
e não percebem o invisível belo que há
em cada coisa, em cada vida, em cada canto.

ELOGIO DA LOUCURA

Não, não é amor, não é paixão
Não é chamego, não é apego
Não é fissura, não é obsessão
tampouco compulsão.
Não é vício, não é dependência,
muito menos caduquice, esquisitice.
Sim, é loucura mesmo
Loucura e da pura
loucura digna de asilo
de louco varrido
do tipo que caga e come o que caga
mija e bebe o que mija
baba e se lambuza com o que baba
rasga dinheiro
bota e queima a mão no fogo.
Qualquer afago seu me afoga
qualquer bobagem sua me deixa
bobo de felicidade!
Tudo em você
denuncia e anuncia em mim
esta loucura
da qual Deus me livre de cura!

PROFECIA

Somos os que viriam
os que veriam e ouviriam
rock e ranger de dentes
e chorariam
e amaldiçoariam
o ventre que lhes gerou
o peito que lhes amamentou.
Somos os degredados filhos da erva,
gemendo e chorando nesse vale
de lágrimas,
os sem futuro,
sombras com medo da luz.
No entanto,
alguma coisa me diz
escuto no vento
sinto na pele:
nem tudo está perdido
ainda vamos rir, e melhor,
não vai ser por último
e nem só!

SORDIDEZ

você não pode roubar o meu sonho
dele eu até já acordei
e sonho não falta para se sonhar
continuo curtindo a vida
não mais adoidado
mas de cara e na coragem
a viagem segue sem script
tipo só danço o que me toca
posso estar sendo sórdido
em dizer logo hoje o que digo agora
mas o seu sabor está demais salobro
para o meu refinado paladar
por via das dúvidas
vou pedalar meu caranguejo
percorrer toda minha via crucis
quem sabe essa dor canalha
não pega o beco e sacode a poeira
na esquina da rua das ilusões
com a rua da aurora
quem sabe, né?
Deus é quem sabe!

BELEZA

A simetria de tuas formas
a musicalidade de tua voz
a leveza dos teus gestos
a graça do teu sorriso
o ritmo dos teus movimentos
a luminosidade do teu olhar
a harmonia do teu todo…
fazem de ti
uma obra prima da arte
e de mim
que posso contemplar-te
o mais feliz dos mortais.

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