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Filosofias de um Jagunço! (parte 1)

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Nonada. O que aqui apresento não carece de muita explicação não, assim como a vida, isto aqui não é entendível. Fiz por querer, por fina força fazer. Botei na cabeça e pronto. Fui digitando uns trechos que mais me trouxeram pensamentos, que mais me deram mesmo susto ou admiração do meu livro maior. É! Meu livro maior: o “Grande Sertão: Veredas” do mineiro João Guimarães Rosa. Frases e mesmo parágrafos em espécies de aforismas aqui apresento. Verdades filosofadas! Verdades assim contadas como filosofias de um jagunço sabido pelo riscado do viver: Riobaldo Tatarana. Frases aqui algumas que já se espalharam pela internet e redes sociais como sendo de autoria não do personagem, mas de seu autor. Porém, prefiro aqui dar crédito à criatura, uma vez que penso que todo criador deve se orgulhar de suas boas criações. Assim, trago Riobaldo a tratar da vida que é sempre travessia, completaria ele, nem chegada nem partida. Deus no meio!

Transcrevo algumas das falas desse cabra ajagunçado pelo correr perigoso da existência no sertão mineiro de um Brasil que já se foi. A obra de Rosa foi originalmente publicada no ano de 1957. Era certamente um outro sertão, um outro país sobre os quais ele escrevia. Mas os dizeres do jagunço aqui transcritos ainda assim ressoam para além do lugar-sertão, para além do tempo-passado, para além de um país-diferente. Falas, algumas delas, que mais tendem para ensinamentos sobre a vida, sobre amizade, amor, dor, tristezas e alegrias. Sabedorias. Falas-ensinamentos, nem precisa dizer, descontextualizados. Não preocupo. Vá quem quiser contextualizar. Leia a obra. Apenas uma advertência, não um desencorajamento, para os menos hábeis e desacostumados na leitura: este não é livro fácil. A escrita usada é de um estilo todo próprio. O tecido delas que vai sendo feito numa conversa com um doutor que nem nada fala, vai torcendo os rumos de uma história épica, grandiosa. Posso nem falar, sou apaixonado pela obra, me descuido só em elogios.

Sem mais demoras, deixo aí os incautos interessados e que não leram “Grande Sertão”, esperanço, ensimesmados com o sumo do palavreado de Riobaldo. Como entendo que quem quer se coça! Dá um jeito! Quem não entender, ou se dê por desentendido, ou vai lendo devagar, para entender esses dizeres no inteiriço deles. E agora deixo em duas postagens, a primeira sendo esta, essas filosofias curtas sobre as veredas da vida, a qual, como repito, e vivo nessa lengalenga repetida desde então: é sempre travessia!

<Os trechos a seguir foram retirados da seguinte edição da obra:

ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: veredas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.>

 

“… o sertão está em toda parte.” (p. 08)

“Viver é negócio muito perigoso…

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é a alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse… Mas não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele!? Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela – já o campo! Ah, a gente, na velhice carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar… Bem o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: ‘menino – trem do diabo?’ E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes. … O diabo na rua, no meio do redemunho…” (p. 10-11)

“Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuvas e negócios bons… de sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só.” (p. 15)

“O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…” (p. 19)

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais – mas que elas vão mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É a que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.” (p. 23)

“Somemos, não ache que religião afraca. Senhor ache o contrário. […]. Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.” (p. 23)

“Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é um ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?” (p. 35)

“Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o escuro, escuros.” (p. 36)

“Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.” (p. 40)

“Jagunço é homem já meio desistido por si…” (p. 51)

“Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final.” (p. 56)

“Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa.” (p. 56)

“Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dôr.” (p. 60)

“O amor? Pássaro que põe ovos de ferro”. (p. 61)

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia.” (p. 64)

“Viver é um descuido prosseguido.” (p. 70)

“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade!” (p. 84)

“No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…” (p. 85)

“Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!” (p. 87)

“O mal e o bem, estão é quem faz; não é no efeito que dão.” (p. 97)

“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alivanhado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. […]. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.” (p. 98-99)

“Ao que o digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, se não fosse cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa ideia me põe susto.” (p. 126)

“O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.” (p. 134)

“Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. – ‘Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos’ – me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu.  Por que? Diz-que-direi ao Senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.” (p. 138-139)

“Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O Senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.” (p. 140)

“Afirmo ao senhor, do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.” (p. 174)

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Contos Aéreos!

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A chuva caia fraca, neblinava, no começo da noite. A moça brincava na varanda com um gato meigo. A meiguice da cena. A beleza da moça. Assis olhou rente, esticou e reteve-se por instantes: a chuva, a moça e o gato. Mas a chuva ficou forte, a cena findou-se. Assis seguiu pela sombra da noite, se protegendo do engrossar da chuva, mas pensando na beleza da moça e seu gato meigo.

Para a Musa inspiradora!

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Assis Rosa

Elogios? Os mais comuns que escuta,

Talvez sem muito lhe afetar,

De “Linda!”, “Boneca!” e “Gata!”

Já se sabes assim, é comum lugar.

Posto, de tanto repetirem-lhe elogios

Esses refrigérios do ego quedam-se vazios

Porém, atrevo-me, ouso ainda lhe elogiar

Mas, por ai, este mesmo, nunca vais escutar

Isso garanto por ser demais improvável

Ouvir de alguém: “Sua inexplicável! ”

 

Um ser deveras lindo

A distância espio

Expiação de pecados

Vindouros e passados

Beleza que dá gosto de se ver

Que ao olhar e sentidos dá prazer

Que ao longe me ilumina

Um corpo-arte, obra-prima

 

Desejo-te

Não, de fogo de paixão ainda não se trata,

Sim, para tal incêndio quase não se falta

Desejo-te

Daquele jeito que dá tesão e faz tremer

Daquele jeito que da razão se faz perder

Desejo-te,

Mesmo sabendo certa a mortífera afirmação:

“O desejo não sobrevive a sua satisfação! ”

Desejo-te, insisto,

Embora nunca a toque ou a tenha perto de mim

Pois não quero esse desejo acabado, decretado fim

 

Suas pernas, suas curvas, sua cintura

O que mais prende atento o meu olhar?

Seu rosto, sua pele, enfim, sua criatura

De olhos fixados, não consigo parar

Hipnotizado pela sua formosura

Acho-me perdido, vencido pela luxúria

Então, só me resta a você apelar:

“Vá! Foges logo desse olhar! ”

 

Se possível fosse…

Queria beijar o sorriso da tua voz

Se possível fosse…

Queria acariciar as palavras da tua boca

Se possível fosse…

Sentir a tua alma ao tocar seu corpo

Se possível fosse…

Agora, estaria com você, que distante

Já me faz demais um bem bastante

Um bem de te querer bem

Se possível fosse…

Tentaria saciar com teu sexo

Os instintos insaciáveis

Mas, não, nada disso é possível…

O que me é possível, então?

Ver-te! E nesse contemplar

descanso meu ego desejante,

imagino uma ponte ao pensar,

e atravesso-a em instantes!

Chego e me aconchego

na beleza do teu semblante!

 

Que forças astrais do alto

me tomam de assalto?!

No desembrulhar da vida

me perco e me acho,

mas, mesmo assombrado

pelos astros, sigo,

de encontros e desencontros

comigo. E assim, certa vez,

perdido no tempo-espaço,

fui no meu encalço,

e procurando me encontrar

achei você no ciberespaço,

e novamente me encontrei.

Através de ti voltei a me achar,

e agora encontrado, seguirei

nas idas e vindas sem cessar

dessa vida feita de virações

e caminhar. Só peço aos céus

uma coisa: que nos caminhos

e voltas do viver, eu nunca que

venha é me apartar de você…

RoxosparadoxoS!!!

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Poemas de Venâncio Raimundo

PORRALOUCO

Eu não componho, decomponho, interrogo,
respondo e não correspondo
eu não conservo, eu converso e desabotoo o peito
eu não ensino, envolvo, revolvo e aprendo
eu, outsider, não me preocupo com o lugar
que me cabe
com o silêncio que me é dado
não silencio, cago para a posteridade.
Porralouco eu acho é pouco
incapaz de me alçar aos céus
tatuo-me na epiderme d’agora
exijo d’eu demasiado humano
pantófilo, um fluxo perpétuo a lux.
Enclausurado em mim
escrevo meus escrotos escritos
molhando a pena no arco-íris
derramando sem pena
sobre o papel em fel
o voo das borboletas em casulo.

FACE A FACE

A olho nu olho-me
nu de corpo e alma
face a face
na contra-face do espelho.
Espalho-me todo
e um forte sentimento de ode e elegia
assalta-me diante de minha imagem
não-grega
profundamente marcada
pelas dobras dos anos passados
intensamente vividos, irreversíveis!
Canto mil cantares de alegria
comoção multiplicada
por ter sobrevivido sem grandes mágoas
a sucessivos tsunamis
emergido feliz de fundos de poços
de lama que eu chafurdei com gosto de gás.
Feito a caatinga que renasce
com os primeiros pingos de janeiro – pingos
de nada – olho-me a olho nu
nu de corpo e alma e me pergunto:
sexagenário ou sexogenário?

SOUL

Por força do habitus
pergunto-me:
que dizem o que sou?
Como não tenho o hábito
do álibi
como a túnica é única
necessário não se faz
menstruar o bode
da paideguice cearencês
menos ainda lançar  dardos, dados,
búzios, cartas, farpas
para saber o que dizem o que sou.
Como o hábito faz o monge
e o monge faz o hamurábi
e a boca de Asdrúbal já
arrombou o trombone
e a vox populi não é a Vox de Deus.
Lanço mão do ibope
da pesquisa inútil e estéril
para saber o que dizem o que sou.
Como não nasci para Pilatos
não lavo aqui as mãos:
quem atira a primeira pedra?

DAS DUAS, NENHUMA

Entre o crente e o ateu,
sou a toa
Entre o vício e o verme,
sou  a verve
Entre o caminho e a distância
sou o atalho
Entre o efêmero e o perene
sou a história
Entre a teoria e a prática
sou a práxis
Entre o pathos e o ethos,
sou o logos
Entre o doce e o amargo,
sou o âmago
Entre o côncavo e o convexo
sou o orgasmo
Entre o permitido e o proibido
sou a transgressão
Entre o lugar e o comum
sou a exceção
Entre a clara e a gema
sou o novo
Entre eu e você
sou o nó(s).

PONTO FINAL

Quando tudo está perdido
não há mais o que perder
Quando tudo já foi dito
não há mais o que dizer
Quando tudo já foi visto
não há mais nada a ver
Quando tudo já foi previsto
não há mais o que prever
Quando tudo já foi experimentado
não há mais o que provar
Quando tudo já foi esquecido
não há mais o que lembrar
Quando tudo já foi escrito
Não há mais além do ponto final.

SABEDORIA IMPOPULAR

Para quem pensa
que boa romaria faz
quem em sua casa
está em paz
é bom lembrar
que um dia a casa cai.
Para quem pensa
que não se tem para onde correr
é bom não esquecer
que se pode ficar
pegar e comer o bicho.
Para quem pensa
que andar na linha
é o meio mais seguro
para se viver
é bom lembrar
que toda linha tem um fim
se antes o trem
não passar por cima
e não deixar osso sobre osso
pra contar a história.

DE PROFUNDIS

Quando eu extrair o mel
e o fel do meu ego
e deixar de ser cativo
dos ismos e sofismos
desta minha condição
de anjo caído
de antro saído
do fundo da profunda caverna
e me desfizer da vaidade
das sombras e das cobras
que rastejam
como um onda
que em espuma se esvai
nas areias da praia
e preso a uma linha voar
como uma arraia
sujeito aos lanceios
de quem me prende aos ares
quando eu deixar de ser assim
esta ambição desvairada
diante de mim
quem sabe assim como vim
eu não me afogue em vão
nas profundas mágoas
do mar das tormentas que sou.

DA NOITE PARA O DIA

Sabe um daqueles dias
em que nada dá certo
em que você se odeia
mais do que odeia aos outros
que você se sente um monstro
um crápula, um verme, um párvulo
o mais vil dos mortais?
Um daqueles dias
que você está liso, leso e puto da vida
em que você sente escorrer
sangue até por entre os dentes
que você não vê
a hora de amanhã ser outro dia?
pois justo num dia desses, sabe,
dia obscuro, sinistro,
você cruzou meu caminho
brilhando mais do que o sol
do meio dia do nordeste do Brasil
em tempos de seca e cólera
e aí da noite para o dia
alegria, alegria, alegria
adeus dia menstrual, feliz dia novo
um daqueles dias, sabe,
dias de sábado à noite
dias radiantes, santificados
em que tudo dá certo
tudo está por perto, na mão?

QUEM???

Quem cavará a própria cova
em busca de esperança?
Quem intentará acusação a si
para se justificar perante Pilatos?
Quem repetirá erros
No anseio de ser humano?
Quem correrá atrás de prejuízo
para não correr risco de vida?
Quem se atreverá fechar portas
que Deus abriu
no ensejo de mostrar poder?
Quem subirá paredes
para descer ao fundo do poço?
Quem ousará ser luz
sem carregar a própria cruz?
Quem na história ficará
quando em vida
ficou a ver navios em brancas nuvens?
Quem interrogará acerca do nada
Na ideia que sabe de tudo?
Quem???

TROCANDO EM MIÚDOS

Olho por alho
dente por bugalho
serpente por parente
confetes e serpentinas
genitálias na vitrine
canivetes e meninos
perigo à vista
em módicas prestações.
Amor com amorfo se paga?
Mofo deu-se
será que eu virei bolor?
Pragas por pregas
pregos em barra de sabão
otários metidos a espertos
engana-me
que eu me amarro:
basta por bosta?

FOLHETIM

Antes do apagar definitivo das luzes
anseio viver uma paixão lamacenta
bem novela das nove bem Janete clair
cheia de intrigas e fofocas
traições pueris
amor mercadoria
melodrama de quinta categoria
escrito nas coxas
campeã de audiência
protagonista, mocinho, vilão
sobrancelhas erguidas beicinhos
chorando lágrimas de crocodilo
colírio moura Brasil
tudo de acordo com o figurino
porém sem final feliz
nem casamentos a mis
com reprise do último capítulo
em sábado de aleluia.

LÁPIDE

Na hora H
de mim nada ficará
do mundo nada levarei
Na hora H
nada terá sido válido
nada terá sido em vão
Na hora H
resistir
será
minha grande ambição.

MEDITABUNDO

Quis mudar o mundo
por pouco muito pouco mesmo
não virei presunto.
Tornei-me então vagamundo
com tudo o que tinha direito
abundei no desbunde.
Armei barraco no submundo
fiz-me um ser imundo
vagabundo
dei a velha volta por cima
neste vasto mundo.
Não é por acaso
que eu me chamo
Venâncio Raimundo!

RoxosParadoxos!!

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Poemas de Venâncio Raimundo

TENDÊNCIA SUICIDA

De boa eu até me mataria
se me fosse dado fazer
a faxina do meu cadáver
vestir a minha mortalha
fazer a sala para as visitas
puxar o terço no velório
e encomendar minha alma
a Deus
consolar os familiares
parentes e amigos em geral
ir ao enterro e me auto sepultar
voltar para casa
livre de mim, de todos e de tudo
e pronto para outras!

NORDESTINADO

Para não nascer, nasci
Escapei fedendo
e na jihad da sobrevivência
guerra sem trégua, sem régua
nem compasso
a madrasta da vida
não cansa de me pregar peças
quebrar minhas pregas
preparar-me armadilhas
sinucas de bico
becos sem saída.
Comigo não tem escolha
mesmo assim escolho
é plantar sonhos e colher discórdias
misericórdia de mim, ó vida!

FUNDO DE POÇO

No fundo de poço
o sol não gira
não se cultiva rosas, margaridas
orquídeas
produz-se dores, enganos,
desenganos
em grandes plantações.
No fundo de poço
libélulas não vacilam
porque lá, ventos
não movem suas asas.
No fundo de poço
ratos humanos
feito títeres metidos a titãs
armam tendas
tentam firmar seus passos
no charco de lodo
lama movediça, fétida
como se fosse rocha inabalável.
Fundo de Poço: algo tão vivo
quanto um epitáfio.
Quem se atreve a me visitar?

SUJEITO DA ORAÇÃO

Na transgressão do verbo
que tudo principiou
fiz-me sujeito da oração,
às vezes simples, às vezes composto.
No contexto da vida,
pronome pessoal  reto, oblíquo,
conjugo-me em todos os tempos
– passado, presente e futuro –.
Substantivo
às vezes próprio, às vezes comum
às vezes concreto, outras, abstrato
masculino, feminino,
comum de dois
plural na singularidade
às vezes um prefixo
outras vezes, sufixo
sempre radical
uma vírgula à esquerda
da esquerda da esquerda
até o dia de ser
um mero ponto final!

VIDA DE POETA

Arrisco-me na densa e tensa
mata da poética
no encalce da palavra.
Ao tê-la em meu alcance
não poupo munição:
haja caneta e papel!
Ao abatê-la,
anseio ressuscitá-la
plena e bela.
Não raro o tiro
sai pela culatra
então se reinicia a peleja
do esconde- esconde
do pega- pega
do passarinho no ninho
da cobra no buraco.
Camaleoa
a palavra na ponta da língua
camufla-se
tenta escapar,
matar-me no cansaço!
Não raro sai dessa refrega
depois de tanto esforço
feito pão quentinho do forno
um novo poema.
Aí é só correr pra galera!

COBRA CRIADA

Antes de nascer, existi…
Antes de pensar, dispensei…
antes de engatinhar, corri…
antes de falar, cantei…
antes de escrever, poetei!
Não sabia dos segredos
e escancarava
não sabia dos degredos
e seguia
não sabia da chuva
e chorava
não sabia dos prazeres
e gozava
não sabia das ordens
e subvertia
não te conhecia e já te amava!

OLHARES

Verdades inválidas
veladas
relevantes
revelantes
incontidas
incontáveis
ambíguas
língua na língua
nos dentes, d’antes
capta o instantâneo
o olhar do instante
distante
indigente
indecente
recusa o ordinário
amplia o extraordinário.
Na tensão do orgânico
e o fragmento
situo-me
tesudo e fértil
sedutor
torcendo
para que haja
sempre celulose
para que haja
sempre poesia…
em meus olhos!

1964 – 1985…

Na gigantesca e
dantesca desova Brazil
Os urubus verdes-olivas
empapuçados de presunto
defecam
urinam
e esporram
o mórbido prazer
sobre uma multidão
de corpos decompostos
em valas abertas.
Aos pulos berram felizes
e cheiram orgulhosos
o nauseabundo odor da putrefação.
Incansáveis
saltam e peidam
e aplaudem a si e pedem bis
sob o brilho de seus fuzis.

MAGIA

Quando você chega
o milagre da primeira vez se repete
como se fosse a primeira vez:
o céu desce à terra
aí tudo azula
fico na maior felicidade
esqueço até que esta infeliz cidade
é uma fortaleza de nenhuma assunção.
Imune à força da gravidade
pisando em nuvens
no mundo da lua
em pleno mar da tranquilidade
viajo ao doce deleite do vento
via láctea mundo afora.
Cinderelo Lunático
esqueço até que meia noite
tem hora pra chegar.
Como da primeira vez
sempre que você se vai
todo o encanto se esvai
aí tudo cinza
e mais do que nunca
a in feliz cidade se mostra
a masmorra que é
até pelo menos você chegar de novo
e tudo recomeçar
como se fosse a primeira vez…!!!

MERA QUIMERA

Ai quem me dera
– mera quimera –
poetar me fosse fácil
como parece ser
para muitos poetas.
Ai quem me dera
– mera quimera –
possuísse eu o dom
de ouvir estrelas ou
ler o que nelas está escrito
ser apenas uma das vozes
da Grande Voz
de fazer baixar em mim
santos e musas.
Ai quem me dera
– mera quimera –
não fosse preciso desfiar
tripa por tripa o coração
encher de calo a alma
num simples verso.
Ai quem me dera!

ROXOSPARADOXOS

Nasci um só
e fui me fazendo múltiplo.
Nesta profusão de personas
que me tornei
no desdobrar-se de mim
não sei mais de minha matriz.
Que outros são esses
agregados a mim
como se fossem espelhos
que usam meu rosto
minha voz minha verve
meus gostos, meus vermes
que me fazem esquecer
os muitos eus que já se foram?
E quando definitivamente eu me for
quantos eu terei sido?
quantos deitaram nesta social rede d’eu
que a cada dia teço versos a fio?
Quais serão os sepultados junto a mim
ou morrerei um só?
E os que não se forem comigo
ficarão rondando, espectros,
performáticos expondo minhas nóias
nos palcos da vida a fora?

Roxosparadoxos

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Poemas de Venâncio Raimundo

Nos inícios dos idos de 1995, quase aos 16 anos de nascido, nesta cidade de Fortaleza, eu chegava como aluno novato para cursar o Segundo Grau no colégio Nossa Senhora de Assunção (parece-me que hoje extinto), o qual se localizava na rua Pe Valdevino, nas imediações do Ginásio Paulo Sarasate. Na primeira semana de aulas no Assunção, entrou na sala uma figura de estatura cearense “baixim”, magro, cabeludo, camiseta preta com estampa de rock, estilo headbanger e bastante enérgico: era o meu professor de História Venâncio. Um sujeito provocador que considerando o colégio católico do qual fazia parte como professor, ao ministrar a sua primeira aula, sobre a Idade Média, chegou em sala e proferiu uma frase que ainda hoje me recordo como se fosse agora: “A Igreja Católica é a maior puta da História!” Eu me retive na cadeira, espantado, chocado, abestalhado. “Como é isso?!” “Esse cara não tem medo de pecar assim contra a santa amada Igreja?!” Para um “menino véi” vindo de uma educação familiar e escolar católica, que frequentava as missas todo domingo na minha beloved Aerolândia, e que já era mesmo batizado e catequizado, aquilo fora uma afronta, certamente.

Todavia, aquela sentença blasfemadora não saiu da minha cabeça, e me instigou a ver isso melhor, eu queria saber, eu tinha que saber sobre aquilo… “maior puta da História?!??” Bem, com o tempo descobri sim que a instituição Igreja Católica ao longo de sua existência esteve sempre do lado dos poderes políticos e econômicos e de modo mais do que “putanesco” até. Ao fim do cristianismo primitivo, com a romanização de Cristo, emerge A Igreja Católica Apostólica Romana, instituição da religião oficial do Império Romano à época. Igreja que serviu, desde então e por vezes, não apenas para abençoar Reis e Rainhas justos e injustos, mas iniciou guerras contra “infiéis” (vide as Cruzadas, para ficar neste exemplo) e jogou mulheres ditas “bruxas”, pagãos, judeus e pessoas de credos diferentes no fogo das Inquisições.

Os anos se foram e outros professores também, mas aquela frase do professor Venâncio ainda ecoava na minha cabeça de cearense. Entrei para as Ciências Sociais na UECE em 1999, tornei-me ateu, depois voltei a crer em “algo” e me considero hoje um “cristão-teísta-racionalista” a la carte – tipo de crença inventada por mim em que eu escolho que ideias espirituais e racionais devo seguir no menu das religiões e dos conhecimentos popularizados pela ciência –, virei mestre e doutorando em sociologia pela UFC e há uns seis anos tornei-me professor. Depois de todos esses anos desde 1995, um dia desses, através de uma boa amiga em comum, pelo Facebook, encontrei o professor Venâncio, aquele sacrílego, iconoclasta dos meus tempos de Segundo Grau. Grata surpresa, conversamos, discutimos, nos cumprimentamos pelo mundo virtual zuckerbergiano. Um dia desses nos encontramos ao vivo, mas de modo rápido, em trânsito pela cidade e pela vida. Não sei muito sobre o professor Venâncio, nem antes nem hoje, lembro apenas dos anos passados dele ter falado que participou do movimento estudantil e sindical de contestação a Ditadura Militar nos anos 1970, que fora preso pelo DOI-CODI (o famigerado “Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna”) e logo depois auto-exilado, indo para Portugal de Navio. Mas também pouco importa agora. Só sei que ele vive aqui, outsider (como próprio se considera) neste mesmo plano existencial que o resto de nós, e que respira, anda, dorme, sonha, come, caga, goza, fica puto e alegre, enfim, faz uma ruma de coisa que gente humana faz. Mas, diferente de muitos, faz poesia, sim poesia. Poesias viscerais, saídas das entranhas do humano que é. Vivente, gente que sente e transborda seus sentimentos em versos e prosas!

Ah! Fiquei sabendo agora dele que também tem justamente vários livros de poesia prontos para serem publicados, todos no “prego”, doidos pelo prelo. E é com a permissão do próprio que o Secundo Caderno começa a publicar algumas das poesias de Venâncio, o meu “ex anti-professor” (sic, como se autodefine) de História. Nesta semana e noutras vindouras apresento aqui, com a graça de Deus e do poeta, alguns poemas – aqueles que mais me tocaram na alma e me arranharam a pele – do inédito livro “Face a Face – Roxosparadoxos” de Venâncio Raimundo. Sem mais, lá vai:

 

Roxosparadoxos!!

 

POEMEFÁCIO

Em sendo poesia
o que diz ser os grandes mestres
do ofício da arte-mãe,
é lá poesia o que eu versejo!
Meus versos não são palavras apenas
olhando para si,
não é fingimento deveras!
Meus versos são rascunhos
passados a limpo
dos momentos concreto-mágicos
revelados por meu coração
de raio-x.
Na verdade sou poeta,
poeta de um poema só,
e com certeza, inacabado:
minha vida,
escrito a sangue e sêmen,
suor, lágrimas, tripas e coração,
nas páginas da minha história.
Afora este,
é lá poesia o que eu poeto!

SOBRE VIVER

Enquanto o coração
bater frenético
os pés suportarem
o peso da carcaça
descalcificada.
Enquanto a memória
não alzheimar
e a sede mirar a fonte
e a fonte  não se perder dos rios
e os rios, dos risos  e mares,
e a maresia impregnar o mundo
e a utopia não perder a euforia.
Enquanto a loucura delirar lírica
e os girassóis não se voltarem
às trevas,
e a poesia unir verso
a verso e ao reverso,
palavras em larvas e lavras
e o destino for um desatino,
vale a pena viver e como-te!

LAMENTAÇÃO

São muitas as corujas que desconhecem
outros cantos que não o seu próprio pio
pior: conheço muitos homens, que se dizem
maiorais, no entanto, todavia, entretanto…
não passam de ervas daninhas
diante de sequoias e baobás, eucaliptos e cedros
porquanto incapazes de se elevarem
ao alto de sua própria baixa autoestima.
Estes são como espantalhos entre milharais
indiferentes ao milho, aos pássaros,
e a canção da chuva e dos ventos,
aranhas que tecem suas armadilhas
para todos aqueles que podem e sabem voar
e não percebem o invisível belo que há
em cada coisa, em cada vida, em cada canto.

ELOGIO DA LOUCURA

Não, não é amor, não é paixão
Não é chamego, não é apego
Não é fissura, não é obsessão
tampouco compulsão.
Não é vício, não é dependência,
muito menos caduquice, esquisitice.
Sim, é loucura mesmo
Loucura e da pura
loucura digna de asilo
de louco varrido
do tipo que caga e come o que caga
mija e bebe o que mija
baba e se lambuza com o que baba
rasga dinheiro
bota e queima a mão no fogo.
Qualquer afago seu me afoga
qualquer bobagem sua me deixa
bobo de felicidade!
Tudo em você
denuncia e anuncia em mim
esta loucura
da qual Deus me livre de cura!

PROFECIA

Somos os que viriam
os que veriam e ouviriam
rock e ranger de dentes
e chorariam
e amaldiçoariam
o ventre que lhes gerou
o peito que lhes amamentou.
Somos os degredados filhos da erva,
gemendo e chorando nesse vale
de lágrimas,
os sem futuro,
sombras com medo da luz.
No entanto,
alguma coisa me diz
escuto no vento
sinto na pele:
nem tudo está perdido
ainda vamos rir, e melhor,
não vai ser por último
e nem só!

SORDIDEZ

você não pode roubar o meu sonho
dele eu até já acordei
e sonho não falta para se sonhar
continuo curtindo a vida
não mais adoidado
mas de cara e na coragem
a viagem segue sem script
tipo só danço o que me toca
posso estar sendo sórdido
em dizer logo hoje o que digo agora
mas o seu sabor está demais salobro
para o meu refinado paladar
por via das dúvidas
vou pedalar meu caranguejo
percorrer toda minha via crucis
quem sabe essa dor canalha
não pega o beco e sacode a poeira
na esquina da rua das ilusões
com a rua da aurora
quem sabe, né?
Deus é quem sabe!

BELEZA

A simetria de tuas formas
a musicalidade de tua voz
a leveza dos teus gestos
a graça do teu sorriso
o ritmo dos teus movimentos
a luminosidade do teu olhar
a harmonia do teu todo…
fazem de ti
uma obra prima da arte
e de mim
que posso contemplar-te
o mais feliz dos mortais.

O Aprendizado da Escolha (Parte III de III)*

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por Clóvis de Barros Filho*

Só a boa vontade é tudo de bom, diria Kant. Todo o resto está sob suspeita. Dependerá sempre do que fizermos com ele. Estão na boa vontade toda a virtude e toda a dignidade. Nesse humanismo moderno de Kant, não faria nenhum sentido falar, por exemplo, de joelho ou olho virtuosos. Porque nada disso pode ter boa vontade. Nem qualquer tipo de vontade. Que supõe liberdade deliberativa. E joelhos e olhos não deliberam livremente. Pelo menos, supomos nós.

Dessa exaltação da boa vontade como fundamento da moral, quais as consequências? A primeira é a igualdade. Igualdade entre todos nós. Perante Deus, ainda dizem alguns. Perante a lei, garantem os textos constitucionais. A igualdade entre os homens não saiu mais do cardápio das ideias morais. Entendida como óbvia na maioria das sociedades em dias atuais, nem sempre esteve presente no debate sobre a melhor forma de conviver.

Com efeito. Na moral aristocrática dos gregos, só há superioridade e inferioridade. Hierarquia, em suma. Natural, moral e política. O poder exercido pelos melhores. Senhores e soberanos. Sobre os piores, escravos. Por isso, uma sociedade estratificada.

Claro que sempre fomos desiguais em talentos. Em recursos naturais. As faculdades do espírito, que me perdoe Descartes, são tão cruelmente concentradas nas mãos de dois ou três quanto as formosuras corpóreas – e as propriedades rurais em países sem distribuição de renda.

Mas já sabemos que, quando o assunto é moral, isso não tem muita importância. Porque os talentos, sejam eles quais forem, não têm, por si mesmos, nenhuma relevância moral. Podemos ser gênios canalhas. E virtuosos lerdinhos. Feios, brutos e malvados. Lindos, heróis ou vilões. O que importa mesmo é a liberdade para decidir bem. Fazer um bom uso desses talentos que são os nossos. Sejam eles quais forem. E essa liberdade, todos temos. Somos, portanto, igualmente livres para uma boa vontade. Para além da nossa natureza. Essa sim, cruel e injusta. Perceba o quanto a ideia de igualdade se choca com a perspectiva naturalista da moral aristocrática.

A segunda consequência dessa liberdade como boa vontade é o desinteresse. A ação virtuosa se confunde com a ação desinteressada. A liberdade, como vimos, é a capacidade de se deslocar da natureza. E, de certa forma, opor-lhe alguma resistência. Ora, o que entendemos por nossa natureza? O ritmo de nosso peristaltismo? A incrível propensão para micoses? Ou enxaquecas? Exemplos de manifestação da nossa natureza. Sem dúvida. Mas que têm pouco a ver com liberdade. Talvez porque nesses exemplos não haja a que se opor. A que resistir.

Por isso, a natureza que vai nos importar para entender a liberdade e a moral kantiana se materializa nas nossas inclinações. Que podem nos levar a nos ocupar exclusivamente de nós mesmos. Da nossa particularidade. Assim, descolar-se dela, ou resistir a ela, implica levar em conta os interesses dos outros. Dar lugar aos outros. Para isso, é preciso colocar-se entre parênteses. Considerar outros desejos além dos próprios. E essa autolimitação supõe que não sejamos 100% egoístas.

Essa reflexão está presente no nosso cotidiano. Todos sabemos distinguir uma conduta interessada de outra desinteressada. E atribuímos mais dignidade moral à segunda. Porque, sendo modernos, somos kantianos sem saber. Por isso achamos tão legal alguém nos fazer um favor do nada. Sem expectativa de retorno. E você enaltece aquele que, sem nunca tê-lo visto antes, devolve a carteira que você tinha perdido. Com todo dinheiro dentro. Menos valoroso é o taxista, que cobra pelo deslocamento. Menos ainda é o caroneiro sacana, que espera um pagamento em serviços eróticos. Mas a carona desinteressada, esta sim, é moralmente superior.

A terceira consequência dessa liberdade é o universalismo. A vontade, para ser uma boa vontade, deve se justificar universalmente. O dever, que resulta de uma atividade intelectiva, deve valer para qualquer um. No lugar de um deus universal, uma razão universal, ou capaz de parir o universal.

Nesse ponto, o senso comum moral se afasta do kantismo. Porque são muito comuns justificativas que se fundam na parcialidade do julgamento moral. O certo e o errado vai muito de cada um, decreta o palpiteiro com ares de erudição. Além do senso comum, pensadores legítimos, arautos da pós-modernidade, consideram que uns dos principais pontos de ruptura entre o pós e o simplesmente moderno reside nesse ponto, da universalidade moral. Michel Maffesoli, representante reconhecido dessa corrente pós-moderna, afirma que a sociedade de hoje é politeísta, em relação a sociedade moderna, monoteísta. E com esse politeísmo não quer dizer só muitos deuses, mas também muitos valores, várias formas de julgar moralmente.

Mas voltemos a Kant. Faça de tal maneira que a máxima que preside a sua ação possa ser universalizada. Possa ser transformada em lei.  Eis a fórmula do imperativo categórico. Perceba a tangência entre esse universalismo e o desinteresse. Afinal, toda pretensão de universalidade implica a negação da própria particularidade. A resistência frente aos próprios interesses. Ao egoísmo. Para levar em conta o interesse geral, o bem comum, é preciso considerar o interesse dos outros. Descolar-se da própria natureza egoísta.

Importa lembrar aqui que essa consideração do interesse do outro não é natural. Exige, portanto, um esforço. Em outras palavras, todo aquele que faz o que quer vive determinado pela própria natureza. É escravo de seus apetites. Para ser livre, ter boa vontade, considerar o outro e buscar o universal, é preciso remar contra a corrente, ir na contramão, estar, todo o tempo, focado no respeito ao dever.

Dessa forma, enquanto para os gregos a virtude corresponde à atualização dos talentos naturais, à realização da natureza em nós, para esse pensamento a virtude é uma resistência ou oposição a essa mesma natureza. A luta contra a natureza em nós. Disposição que se aprende. Por não ser inata. Que exige educação. De alunos, sem luz na etimologia. Porque a matéria bruta é sombria.

Assim, é preciso saber viver. Sentença titânica. Mas não nascemos sabendo. Resta-nos aprender. Porque a vontade tem de falar sempre. Já que nossa natureza se cala tão rápido. Porque a vida sempre vai depender de nossas intervenções. De nossas escolhas. Por sorte, para saber viver não temos de começar do zero. Outros já aprenderam tanto. Com seu próprio sofrimento. Podem nos ensinar. Para que algumas tristezas sejam evitadas. Só algumas. Porque nossa trajetória no mundo é inédita. E as experiências alheias ajudam até certo ponto. Sempre haverá uma boa parcela de mistério. Abacaxi que é só nosso. Para que descubramos saberes novos. E ensinemos também, algum dia. Só assim sentimo-nos partícipes da humanidade. Constituída por outros que, como nós, incautos, começaram a existir sem aviso prévio. E, como nós, têm de ir encontrando solução para uma existência que não é nem uma roubada nem um milagre. É o que é. E o que é acaba dependendo um pouco do que fazemos dela. Toda educação se volta para minimizar a angústia. Com maior ou menor consciência disso.

* BARROS FILHO, Clóvis de. “O aprendizado da escolha” In Ética: pensar a vida e viver o pensamento, Edição 3 – Trabalho e Educação (organizador Clóvis de Barros Filho). São Paulo: Duetto Editorial, 2011.

<http://www.duettoeditorial.com.br/colecaoetica/index.html>

** Professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em comunicação pela USP com créditos realizados na Universidade de Navarra (Espanha). Mestre em ciência política pela Universidade de Paris III. Graduado em direito e filosofia pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero.

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