[No Estudo publicado pela UNICEF e a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará agora em 2017, intitulado Trajetórias Interrompidas (segue o link: https://www.unicef.org/brazil/pt/trajetorias_interrompidas.pdf) o perfil sociocultural e econômico dos jovens assassinados nas periferias de Fortaleza e de mais seis municípios do Ceará, entre eles Caucaia, Maracanaú, Sobral e Juazeiro do Norte, é o seguinte: mais de 70% são pardos ou negros, do sexo masculino, tem média de idade de 17 anos e moram em bairros pobres. A violência que atinge as “pessoas de bem” ou “os cidadão”, como se costuma falar maiormente hoje, está estreitamente ligada com esse quadro social. Se “os cidadão” estão a sofrer com o medo da violência urbana ao seu lado a juventude da periferia das capitais desse país há muito sangra. O professor do departamento de Ciências Sociais da UFC e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência, Luiz Fábio Paiva, nos traz a seguir uma breve reflexão sobre esse quadro assombroso que é essa “indústria de assassinatos” de jovens nas periferias do Brasil atual.]
 Secundo Neto, professor e sociólogo

Os efeitos coloniais da violência contra jovens pobres e negros

Luiz Fábio Paiva*

A morte de jovens pobres e negros do sexo masculino, nas periferias urbanas do Brasil, não é um fenômeno novo. Trata-se de algo que sempre esteve presente nas áreas mais pobres das cidades brasileiras. A diferença dos últimos anos é que temos dados que retratam e possibilitam que esse fenômeno seja evidenciado em sua extensão e gravidade para a população mais pobre de cidades como Fortaleza. A morte de pobres e negros, em sua juventude, é um fenômeno colonial. Eles sempre morreram e viveram a dor de suas perdas em silêncio. Atualmente, jovens de 15 e 16 anos das periferias urbanas brasileiras já experimentaram a perda de pais, parentes e amigos. Alguns conhecem dezenas de mortos e vivem conscientes de que sua hora chegará em breve. Portanto, a vida lhe parece um momento efêmero e curto. São jovens que aprendem desde cedo a não sonhar e não ter grandes ambições, pois lhes é dito todos os dias que não são pessoas dignas. Quando cometem crimes e são assassinados, morreram porque eram “bandidos”. Quando não cometem crimes e são assassinados, morreram porque eram suspeitos de serem “bandidos”. Quando onze morreram na chacina de Messejana (bairro de Fortaleza-CE), o Governo do Estado não veio a público, primeiramente, para mostrar sua indignação e responsabilidade diante de um acontecimento trágico. Primeiro, comunicaram a população cearense que iriam levantar os antecedentes criminais das vítimas. Os jovens pobres e negros são os “bandidos”, independente do que eles façam. Suas mortes são sofridas apenas pelos seus familiares que, em muitos casos, se resume a sua mãe. Sofrem em silêncio, conformadas ao destino trágico escrito e cumprido a risca. Morto muitas vezes por outro jovem, apresentado a sociedade em programas policiais que retratam a sua “frieza”. Mostram como ele matou friamente, questionando a sua incapacidade de dar valor à vida do outro. Esquecem que ele também não atribui valor nenhum a sua própria vida e diante disso é impossível construir relações de alteridade, reconhecimento e convivialidade. Esquecem que é impossível existir uma comunidade política e moral quando não existe cuidado de uns com os outros e que a responsabilidade por esses jovens que estão morrendo e matando é coletiva. Justificam a indiferença alegando que a maior parte dos pobres não cometem crimes, mesmo vivendo de maneira miserável. Estão certos! A maior parte dos pobres não irá cometer crimes, mas alguns irão olhar para suas vidas, para vida dos outros e sentir uma profunda injustiça entre o que lhes foi oferecido em troca da sua obediência à constituição de um País injusto e desigual. Enquanto esses jovens forem os “inimigos”, alvos da violência policial por excelência, o que iremos cultivar são números que nos envergonham por retratar a configuração deprimente de nossa sociedade. Uma sociedade construída por um processo colonial marcado não apenas pela destruição física das populações indígenas e negras, mas também pelo silêncio a respeito das injustiças e violências que sofreram. É isso que esses jovens sofrem todos os dias! Sua dor, diariamente esquecida, só impacta quando os números retratados pelos relatórios de pesquisa evidenciam a dimensão da violência nas periferias urbanas. Passado o efeito do impacto dos números, feitos os discursos hipócritas de governo, os assassinatos continuam, afetando sempre as mesmas pessoas em um processo contínuo de eliminação dos indesejados jovens pobres e negros das periferias.

*Professor de Sociologia da UFC
Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência – LEV

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