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Por uns velhos vão motivos, somos cegos e cativos

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Ubiracy de Souza Braga*

Um dos maiores escritores de todos os tempos, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839. Poeta, romancista, novelista, contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e crítico, fundou a Academia Brasileira de Letras e foi seu primeiro presidente. Não se sabe ao certo, se frequentou escolas formalmente. Antes de ser jornalista e cronista, “foi caixeiro de livraria, tipografia e revisor”. Em 1855, publicou a poesia “A palmeira”, no jornal Marmota Fluminense, artesanalmente editado numa livraria que havia se transformado em ponto de encontro de escritores da época. Entre suas obras mais conhecidas estão os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), onde “o verdadeiro tema é a nossa mortalidade, o que não constitui assunto para descaso e gracejo, pois o tema enseja uma perspectiva, ao mesmo tempo, distanciada e hilária. O gênio da ironia propiciou-nos poucos exemplos à altura do escritor afro-brasileiro (…), a meu ver, o maior literato negro surgido até o presente” (Bloom, 2003: 687).

Para concordarmos com Alfredo Bosi (2007), no clássico e singular livro Machado de Assis. O enigma do olhar, Machado de Assis não foi, “nem conservador, nem evolucionista, nem positivista, nem cientificista, nem republicano, nem militante abolicionista, embora inequivocamente simpático ao movimento antiescravista dos anos 70 e 80. Machado educara o seu olhar em valores e modos de pensar que vinham da tradição analítica e moral seis-setecentista. Valores e modos de pensar que permearam o seu distanciamento estratégico e deram à sua linguagem um quê de discreto e picante que pode até parecer clássico” (Bosi, 2007:163).

E para reiterarmos ainda o ensaísta e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, coordenador do projeto arrojado do centenário de Machado, além do dandismo (alegre, irônico e exuberante) e do talento estético, ele tinha habilidade de manter “distância das lutas políticas do império”, mas fez literatura “como missão”, no sentido que emprega (Sevcenko, 1998; 1998). A qualidade se revelou no fim de 1866, quando Machado assumiu interinamente a direção do Diário do Rio de Janeiro, com a ausência do diretor Saldanha de Marinho (1816-1895) e do diretor-chefe, Henrique César Muzzio. Com a vida relativamente estabilizada, Machado de Assis “ganhou o mundo” ao lado de Carolina: cresceu no serviço público, coisa rara nestes em que vivemos um “Minotauro Imperial” (cf. Braga, 2009), onde galgou e teve sossego para escrever, fato caro entre nós nesses dias e mesmo no decorrer da historia. Seus anos românticos chegaram ao fim.

De outra parte, já a atriz e diretora de produção, mutatis mutandis, do espetáculo cearense sobre Machado de Assis, Ana Cristina Viana nos conta que celebrar seus 25 anos de cena montando este texto representa, inicialmente, “concretizar um projeto de quatro anos”. Assim, afirma: “Então, que não me torrem a paciência dizendo que a montagem veio na esteira do centenário de Machado ou da minissérie de Luiz Fernando de Carvalho, ´Capitu`. Segundo a atriz que encara Capitu em três momentos de sua vida, com ênfase na velhice (nada tão machadiano), ir em frente foi inevitável, apesar da possibilidade de comparações. Foi ela quem incentivou Ceronha Pontes a topar fazer a adaptação, talvez estimulada pela sensibilidade diante de ´Uma Branca sombra Pálida`, conto de Lygia Fagundes Telles, levado ao palco há alguns anos” (cf. Diário do Nordeste. Fortaleza, 31.03.2009).

Ele, Machado de Assis, pode ser, para este nosso século XX, se nos permitem uma digressão, e claro, se estivermos atentos para as mudanças nas estruturas econômicas, sociais e políticas vista na pena e na dimensão histórica por Eric Hobsbawm, como aparece nos estudos clássicos “A Era das Revoluções”, “Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”, “Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz”, “Nações e Nacionalismo desde 1780”, entre outros, com uma visão acuradíssima dos dias de hoje, com elementos etnobiográficos “ditos e escritos” em “Tempos Interessantes”. Nasceu no Egito ainda sob o domínio britânico. Obteve nacionalidade britânica. Nessa época, tanto a Áustria quanto a Alemanha sofriam com a crise econômica e a convulsão social, consequências diretas da Primeira Grande Guerra (1914-18). Seu pai morreu em 1929, e tornou-se órfão quando sua mãe faleceu em 1931. Ele e sua irmã foram adotados pela tia materna Gretl e seu tio paterno Sydney que se casaram e tiveram um filho chamado Peter. Mudou-se para Londres em 1933. Hobsbawm casou-se duas vezes, primeiro com Muriel Seaman em 1943, divorciando-se em 1951 e logo com Marlene Schwarz. Com esta última teve dois filhos, Julia e Andy, e um filho chamado Joshua de uma relação afetiva anterior.

Isto posto, Machado de Assis como letrado, na acepção gramsciana do termo (cf. Gramsci, 1974; 1975) percebeu um mundo em  “agonia”, sendo “uma voz inquietante que fala baixo mas provoca sempre”. Sua literatura e biografia alcançaram, talvez, o maior patamar a que se pode almejar nesse campo de conhecimento no Brasil, e de resto no mundo. Em 1904, desgraçadamente com o falecimento de sua mulher e companheira de 35 anos de casamento, Machado de Assis perde o prazer de viver, como ocorre nos grandes romances, como o de Luiz Carlos Prestes e Olga Banário, ou, Jorge Amado e Zélia Gattai reconhecidamente uma de nossas maiores escritoras que veio a falecer por estes dias aos 91 anos de idade, em Salvador.  De todo modo, ainda para insistirmos no caso da literatura, mutatis mutandis lembramo-nos de Manuel Bomfim o que diz respeito ao fato de que ele recebe o “facho” das mãos de João Francisco Lisboa e Oliveira Lima, transmitindo-o, mais brilhante, às de José Honório Rodrigues, Nelson Werneck Sodré, João Cruz Costa, historiadores que deixaram a sua marca na concepção de história e, portanto, na memória, seja no plano individual, seja no plano coletivo.  Não importa que o Brasil pareça confuso, desorganizado; das suas contradições sairão grandes sínteses: “é a Mensagem de Fé e Esperança, de Bomfim”. Não era Manoel Bomfim, assim, um jacobino que escrevia dando murros na mesa: “era um [homem] dolorosamente apaixonado pelo Brasil, como Unamuno pela Espanha, não pelo gosto amargo do paradoxo, porém pelo incontrolável desejo de vê-lo se purificando na catarse”.

Para o que nos interessa, no conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, propugna uma análise do comportamento de alguns membros da sociedade. Descreve-os de maneira extremamente clara, precisa, com um humor recatado, ironizando-os usando como background uma conversa aparentemente inocente como a de um pai com um filho. Ora, a tese freudiana de que “se os pais soubesse educar os filhos, os filhos não precisariam de pais ao que parece se repete”. Esse conto, um dos mais deliciosos libelos do escritor contra a mediocridade intelectual e política, é satírico por excelência, lembrando a ironia filosófica dos relatos curtos de Voltaire. Praticamente sem ação, seu núcleo temático gira em torno de uma exposição de ideias cínicas, através do diálogo entre pai & filho. Teoria do Medalhão desenvolve com muita ironia as mesmas questões levantadas pelo conto O Espelho. O narrador cede seu espaço à reprodução das falas das duas únicas personagens: pai & filho. O tom terrivelmente irônico da fala do pai revela, obviamente, “a denúncia feita pelo Autor por trás do conto em relação a uma sociedade burguesa medíocre e arrogante, que prega o sucesso a qualquer preço, mesmo à custa do empobrecimento da vida interior e das relações sociais e políticas”. A atualidade é medonha se for analisado o discurso paternalista de Tasso Jereisati no e para o Senado, ou mesmo o discurso bonachão do governador Cid Gomes enumerando obras faraônicas de seu governo como se fosse um Petrus Ramus.

No caso machadiano, o diálogo familiar acontece numa noite às onze horas, após um jantar comemorativo dos 21 anos do filho. Quando pai & filho ficam a sós na sala, este aconselha o filho a se tornar um Medalhão, ou seja, “um homem que ao chegar à velhice, tenha adquirido respeito e fama na sociedade do Rio de Janeiro do século XIX”. Para tanto, será necessário que ele mude seus hábitos e costumes e passe a viver “sob uma máscara, anulando os seus gostos pessoais e suas atitudes”. E nisso disserta sobre a necessidade do filho “de sempre manter-se neutro, usar e abusar de palavras sem sentido, conhecer pouco, ter vocabulário limitado” etc. Ao final, é uma bela ironia machadiana sobre como se encontram os valores da sociedade de sua época, e porque não analogamente nos dias de hoje na sociedade cearense. Portanto, o medalhão, tipo criado pelo Autor neste conto, se caracteriza por “aparentar ser o que não é”. Caracteriza-se, sobretudo, por ter, como nos medalhões, “uma face oculta e sem atrativos, voltada apenas para o corpo do dono, e outra, vistosa, virada para o exterior, para ser vista e admirada, respeitada”.

A Teoria do medalhão é um dos contos que mostra Machado de Assis como um crítico afiado da sociedade brasileira no que ela tem de mais profundo: “a mediocridade condecorada, a troca de favores como motor básico das relações sociais, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime”. O conto é uma lição a todo homem que almeja ter prestígio, ser reconhecido pela sociedade e que elimina qualquer expressão da subjetividade em nome da absorção ao senso comum, “uma reflexão sem juízo” na definição de Hans-Georg Gadamer, à opinião da maioria no sentido político do termo. Os “papéis sociais” para fazermos referência a Talcott Parsons, no conto machadiano, pertencem, num primeiro momento, a um grupo restrito: pai & filho. As personagens não possuem nomes e são, portanto, caracterizadas somente pela posição que ocupam no grupo familiar. Num segundo momento, no decorrer da narrativa, há a construção de um terceiro papel social, este pertencente a um grupo mais amplo: o Medalhão.

No diálogo estabelecido no conto, há a presença das formas de tratamento. O pai dirige-se ao filho sempre utilizando a 2ª pessoa pronominal: tu, te, contigo, teu etc.; o filho, por sua vez, utiliza-se a 3ª pessoa, com valor de 2ª pessoa: vosmecê, lhe, o senhor etc. No primeiro caso, a presença da 2ª pessoa dá um valor de proximidade ao discurso (ou tentativa de), dando um maior sentimento de intimidade. No segundo caso, o uso da 3ª pessoa, mostra uma aceitação do discurso paterno, e, portanto o que remete ao paternalismo político, como se não houvesse outro meio de discussão. É a aceitação pacífica do papel social que cabe ao filho no final do século XIX. Daí a atualidade sempre marcante de Machado de Assis na sociedade brasileira, e de resto no mundo, quando precipita como um balão de ensaio na estufa, a mediocridade condecorada na velha política destes nossos dias, seja com o discurso bonachão de um Tasso Jereissati, seja com a aliança política do governo Cid Gomes, a troca de favores com o governo federal, como tem sido sobejamente acalentada por políticos como o Sr. Pimentel ou Eunício para o Senado, “os senadores do Lula” (sic), tendo como “combustível” básico das relações sociais e políticas, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime em momentos em que não se configura crise de hegemonia política na sociedade brasileira e particularmente no estado do Ceará. Daí a melancolia do cantor Taiguara quando afirma: “por uns velhos vãos motivos, somos cegos e cativos…Eu desisto não existe essa manhã que eu perseguia, um lugar que me dê trégua e me sorria…”.

Bibliografia Geral Consultada

ALVES FILHO, Aluizio, Pensamento Político no Brasil. Manoel Bomfim: um ensaista esquecido. Rio de Janeiro: Achiamé/Socii, 1979.

_____________, “Nietzsche e Monteiro Lobato”. In: Jornal O Estado de São Paulo, 6.9.1988.

ASSIS, Machado de, Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora  José Aguilar, 1959.

____________, Contos; seleção de Deomira Stefani, texto integral. 6ª edição. São Paulo: Ática, 1977.

____________, Crônicas Escolhidas. São Paulo: Ática, 1994.

____________, Memórias Póstumas de Brás Cubas. 22ª edição. São Paulo: Ática, 1997.

BLOOM, Harold, Gênio – Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

BOSI, Alfredo, Machado de Assis: o enigma do olhar. 4ª edição. São Paulo: VMF/Martins Fontes, 2007.

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Teu saber nada valerá se não souberem que tens saber”. Disponível em: https://secundo.wordpress.com/2010/08/07.

FERNANDES, Florestan, A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

FOUCAULT, Michel, “Deux essais sur le sujet et le pouvoir”. In: DREYFUS, Hubert e RABINOW, Paul. Michel Foucault, Un parcous philosophique. Paris: Gallimard, 1984

GADAMER, Hans-Georg, Wahrheit und Methode: Grundzüge einer philosophischen Hermeneutik.Tübingen, Mohr, 1960.

GRAMSCI, Antonio, Conceito de nacional-popular.Teoria. Obras Escolhidas. Vol. II. Lisboa: Editorial Estampa, 1974.

____________, Gli intellettuali e l`organizazione della cultura. Torino: Ed. Einaudi, 1975.

HEGEL, G. W. F., Fenomenologia dello Spirito. Florença: La Nuova Itália, 1973, 2 volumes.

SEVCENKO, Nicolau, (org.), História da vida privada no Brasil 3 – República: da Belle Époque à era do rádio. Dir. Fernando A. Novais. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

_____________, Literatura como missão: tensões sociais na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1999.

* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (uece).

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“Vamos lutar até o fim”, bradam os mineiros chilenos

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Ubiracy de Souza Braga*

Vale lembrar que nenhum dos povos das Américas constitui uma nacionalidade multiétnica. Em todos os casos, seu processo de formação foi suficientemente violento para compelir a fusão das matrizes originais em novas unidades homogêneas. Somente o Chile, por sua formação peculiar, guarda no contingente Araucano, uma micro etnia diferenciada da nacional, historicamente reivindicante do direito de ser ela própria, ao menos como modo diferenciado de participação na sociedade nacional. Os chilenos e os paraguaios contrastam também com os outros Povos-Novos, na descrição etnográfica de Darcy Ribeiro (1968; 1983), “pela ascendência principalmente indígena de sua população e pela ausência do contingente negro escravo, bem como do sistema de plantation”, que tiveram papel tão saliente na formação dos brasileiros, dos antilhanos, dos colombianos e dos venezuelanos. Ambos conformam, por isto, juntamente com a matriz étnica original dos rio-platenses, uma variante dos Povos-Novos.

Como tem sido noticiada na chamada grande imprensa, em claro sinal de abalo emocional, os 33 mineiros isolados há mais de três semanas no interior da mina de San José, em Copiapó, no Chile, gravam um novo vídeo agradecendo às famílias pelo apoio afirmando que: “vamos lutar até o fim”. Lembra-nos peremptoriamente o filme O Germinal (1993), que é considerado “um soco no estômago”, expressão que é utilizada quando alguma obra de arte nos causa “choque e horror”, mas aqui fora do sentido de um Ingmar Bergman, como vemos no artigo “Bergman e o espelho da angústia contemporânea” (cf. Braga, 2007) ou um Alfred Hitchcock, descrito no artigo “Fábulas de Solidariedade: Neruda, Kurosawa e Hitchcok” (cf. Braga, 2008). Produzido em 1993, o filme é baseado no romance francês Germinal de Émile Édouard Charles Antoine Zola, de 1881. Num cenário de extrema miséria econômica e degradação humana, ou a chamada “degradation of work” (cf. Braverman, 1976) a obra relata a realidade concreta dos operários franceses nas minas de carvão, no final do século XIX. Com 550 metros de profundidade a mina Voreux era formada por diferentes andares. Lá, a exploração do trabalho era contínua, tal como vemos nos dias de hoje no caso chileno.

A chegada de Etienne, interpretado magistralmente por Gérard Depardieu, que em sua démarche consegue interpretar ainda com a mesma leveza e ousadia, desde um Danton – O Processo da Revolução; 1. 900; Memórias do Mal; 1 492 – A Conquista do Paraíso; Todas as Manhãs do Mundo, e neste caso, para o que nos interessa um “novo operário”, que promove importantes mudanças no cenário nas minas de carvão. O mineiro recém-chegado se espanta com a precariedade, ou, precarização, para utilizarmos expressão recente sobre as condições de trabalho e incentiva os operários a prepararem uma greve. Juntos eles percorrem as minas da região, chamando outros trabalhadores a juntarem-se ao movimento. A greve se alastra por toda a região. Porém, a Companhia ameaça fazer demissões e a fome dos trabalhadores aperta. Alguns querem voltar ao trabalho, outros decidem continuar a greve nem que para isso tenham que dar a vida.

Tudo em vão, Etienne é expulso da vila, “por ser o culpado de inculcar nos trabalhadores ideias de revoluções e esperanças”. Os mineiros retornam quietos ao trabalho. O Germinal nos demonstra as relações de exploração entre capitalistas e operários e a maturação do movimento sindical. Na França, na época da Revolução Industrial, em respostas às inúmeras formas de explorações, os operários buscaram se reunir politicamente para manifestar sua revolta e buscar seus interesses. Para tanto, era necessário juntar forças tanto no sentido social como de organização política, o que não está longe da utopia do cantor e compositor anarquista bahiano, Raul Seixas; é utopia, pois a palavra etimologicamente foi cunhada a partir dos radicais gregos ο, e τόπος, portanto, o “não-lugar” ou “lugar que não existe”, como compreendemos com a música de autoria de Raul Seixas e Claudio Roberto, O Dia em que a Terra Parou, mas que não trataremos agora.

No caso francês, do ponto de vista da análise comparada, o movimento operário se desenvolveu a partir da organização do sindicato e do partido político, tendo como objetivo defender não apenas os interesses dos associados, mas abrigar interesses de todo o operariado. Em 1868, durante o governo de Napoleão III, os operários franceses obtiveram o reconhecimento parcial de seus direitos de se organizarem legalmente, porém este aspecto de fato só veio a ocorrer em 1884 em associações e sindicatos. Em 1898, quando os socialistas e representantes progressistas da democracia burguesa, entre eles Emile Zola, Jean Jaurés, Anatole France, lançaram uma campanha a favor da revisão do caso Dreyfus (Alfred Dreyfus, 1859-1935), oficial judeu do Estado-Maior. General francês condenado à prisão perpétua em 1894. Este adquiriu um caráter político evidente, quando da campanha conduzida em sua defesa pela classe operária e pela intelectualidade progressista, que dividiu o país em dois campos: o dos republicanos e democratas, por um lado, e o bloco dos monárquicos, clericais, antissemitas e nacionalistas, por outro lado. Sob a pressão da opinião pública, em 1899, Dreyfus foi indultado e libertado; em 1906, por sentença do supremo tribunal, foi declarado inocente e reintegrado no exército. Neste sentido o livro Se Me Deixam Falar faz jus ao nome ao retratar a vida de Domitila, mulher, pobre, descendente de indígenas e esposa de um minerador, durante a ditadura militar no interior da Bolívia (Cf. Moema Viezzer, Se Me Deixam Falar. São Paulo: Símbolo, 1978).

Bibliografia geral consultada:

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Bergman e o espelho da angústia contemporânea”. Disponível em: http://dapraianet.blogspot.com/2007;

Idem,“Fabulas de Solidariedade: Neruda, Kurosawa e Hitchcok”. In: http://dapraianet.blogspot.com/2008. Max Krichanã Editor, 4.02.2008;

BRAVERMAN, Harry, Travail et capitalisme monopoliste. La dégradation du travail au XXe siècle. Paris: François Maspero, 1976;

Moema Viezzer, Se Me Deixam Falar. São Paulo: Símbolo, 1978; Berri, Claude, Germinal (idem, BEL, ITA, FRA, 170 min);

Darcy Ribeiro, O Processo Civilizatório. Etapas da Evolução Sociocultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968;

Idem, O Dilema da América Latina: estruturas de poder e forças insurgentes. Petrópolis (RJ): Vozes, 1983.

* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências da Comunicação junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).