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A Sociologia como “câmera escondida”*

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Diogo Tourino de Sousa e Fernando Perlatto**

Max Weber escreve, em 1906, o importante “As seitas protestantes e o espírito do capitalismo”, que antecipa, de alguma forma, suas reflexões, posteriormente publicadas, sobre a Sociologia das Religiões. No texto, Weber descreve um batismo protestante por ele presenciado nos EUA, numa viagem feita entre a escrita da primeira e segunda parte de sua obra mais famosa – “A ética protestante e o espírito do capitalismo” – que abriu espaço para pensarmos numa curiosa imagem: uma família protestante, no início do século XX, realizava um ritual de batismo conforme sua crença religiosa, e era assistida por um alemão, de aspecto austero e exibindo uma barba hirsuta.

A família protestante até poderia achar que tratava-se de uma pessoa, digamos, “normal”. No entanto, o espectador era Max Weber, um dos mais influentes clássicos da Sociologia, que esquadrinhava a cena dentro de um sofisticado quadro conceitual, tomando o fato como exemplo para consubstanciar sua tese sobre direcionamento religioso, a singularidade do Ocidente e o desencantamento do mundo.

Todos que começam a estudar a Sociologia logo compartilham, quase instintivamente, desse comportamento, descrito de maneira exemplar pelo sociólogo norte-americano Charles Wright Mills (1916-1962) a partir da ideia de “imaginação sociológica”. Em linhas gerais, é uma forma de pensamento que possibilita aos indivíduos a enxergarem o quadro histórico e social complexo e amplo do qual fazem parte, levando-os a relacionar os seres humanos em suas sociedades, a biografia individual e a história, capacitando-os a entenderem a criminalidade, o analfabetismo, o divórcio e demais fenômenos sociais não como problemas pessoais, mas como questões sociais. Desde que se adquira uma “imaginação sociológica” o mundo se torna permanentemente alvo de interpretações que são capazes, por certo, de perceber tramas maiores imperceptíveis ao olhar mais ligeiro e descuidado.

Uma boa metáfora para entender melhor um comportamento comum de sociólogos é a da “câmera escondida” utilizada pelo jornalismo investigativo e presença constante na denúncia de casos de corrupção e descaso. Prática criticada por muitos profissionais como antiética, pois o jornalista ao esconder a câmera não avisa ao “entrevistado” que ele está sendo gravado, e alvo inclusive de pedidos de indenização em alguns casos, ela continua presente nos noticiários. Quase sempre com o mesmo enredo: o jornalista, a partir de uma denúncia, se passa por uma pessoa qualquer que estaria interessada num serviço, ou mesmo disfarça-se de corruptor, e provoca o transgressor para que ele entregue toda a verdade, sem saber, é claro, que está sendo filmado.

A provocação que sugerimos a partir dessa metáfora, para pensarmos no comportamento padrão dos sociólogos, é a de que esses profissionais carregam uma espécie de “câmera escondida” dentro da cabeça. Tal como no exemplo de Weber, pessoas comuns revelam-se cotidianamente aos sociólogos, supondo conversarem com um interlocutor “normal”. No entanto, ao ouvi-las é inevitável que o que digam ou façam seja sempre enquadrado dentro de quadros conceituais e teóricos que fazem parte já de uma longa tradição de pensamento científico.

A “câmera escondida” presente no fazer dos sociólogos quase sempre é incomunicável ao ouvinte ou interlocutor, pois, por vezes, este não pactua com os mesmos modos de ver e pensar a realidade. No entanto, assim como o jornalista “denuncia” o que filma, a Sociologia é capaz de construir, por meio da leitura da realidade dentro do quadro conceitual e teórico herdado da sua tradição científica, refeito e sempre revisto, afirmativas sobre a sociedade, capazes de elucidar a relação existente entre biografias particulares e a realidade social que as cerca.

* Este texto é um trecho de parte do Caderno de Exercícios 33, intitulado “O papel dos clássicos no discurso sociológico”, da revista Sociologia, edição 40, ano IV, abril/maio de 2012, p. 47 a 49. Eu, Francisco Secundo Neto, autor deste blog, digitei e adaptei algumas poucas passagens desse texto, mas sem prejuízo de sentido final para as ideias nele trabalhadas originalmente por seus autores.

** Diogo Tourino é sociólogo e professor do curso de Ciências Sociais da UFV e Fernando Perlatto é historiador e professor do curso de Ciências Sociais da UFJF.

Somos o tíbio povo dos heróis assinalados!

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Vendo estas Minas tão mofinas, quem diria, desatinado, escarmentado, somos o povo destinado? Somos os o tíbio povo dos heróis assinalados. Eles aí estão, há séculos, a nos cobrar amor à liberdade. Filipe grita, Joaquim José responde:

Libertas quae sera tamen!

– Liberdade, aqui e agora. Já!

[…]. O destino caiu, corou desta vez a cabeça de Joaquim José, condenado pela Rainha Louca a morrer morte natural na forca, ser esquartejado e exposto para escarmento do povo. Despedaçado, lá ficaram suas partes apodrecendo, até que o tempo as consuma como queria Dona Maria. Os quatro quartos plantados fedendo, na Estrada Real. A cabeça com a cabeleira e a barba, bastas, alçadas num poste alto, em Ouro Preto, guardada por famintos urubus asas de ferro, bicos agudos: tenazes. Estes foram, só eles, seus coveiros. Acabado assim tão acabado, sem ao menos a caridade da cal virgem, Tiradentes não se acabou nem se acaba. Prossegue em nós, latejando. Pelos séculos continuará clamando na carne dos netos de nossos netos, cobrando de cada qual sua dignidade, seu amor à liberdade.

As barbas. As barbas. As barbas.

Aqui permaneceram.

À espera doutra cara e doutra vergonha.

Estes são os nossos heróis assinalados, símbolos de uma grandeza recôndita que havia.     Ainda há, eu quero crer, mais rara que os ouros, por garimpar. Maior que eles dois, porém, é a multidão que vou chamar. Veja:

— Venham, eu os convoco, venham todos. Venham aqui dizer da dor dos nervos dilacerados, do cansaço dos músculos esgotados. Venham todos, com suas tristes caras, com suas murchas ilusões, venham vestidos ou nus, tal como foram enterrados, se foram. Venham morrer aqui de novo suas miúdas mortes inglórias.

Venha primeiro você, você mineiro anônimo que furtou o crânio de Tiradentes, rezou por sua alma e o sepultou. Mas venham todos!

Você os vê? Foram milhões de almas vestidas de corpos mortais, doídos, os que aqui nessas Minas se gastaram. Olhe de novo pra eles, olhe bem. Veja só. No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, logo, veja só: eram já multidões de mestiços, crioulos, daqui mesmo.

Esses milhões de gentes tantas são as mulas desta gueena de lavar cascalhais. Vê você como eles todos nos olham, olhos baixos, temerosos, perguntando calados:

— Quem somos nós? Existimos, para quê? Por quê? Para nada?

Somos o povo dos heróis assinalados, mas somos mesmo é o povo dessas multidões medonhas de gentes, enganadas e gastadas. O povo escarmentado na carne e na alma. Somos o povo que viu e que vê. O povo que vigia e espera.

Trecho do romance “Migo” (1988) de Darcy Ribeiro

Por que Mentir*

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Clóvis de Barros Filho **

A mentira é, para muitos, sempre condenável. Inaceitável. Porque corroeria a premissa importantíssima da vida e da convivência. Já, para outros, nem sempre é assim. Será mentir um vício em qualquer situação? Proponho a reflexão e não consigo me impedir de escutar os gritos do meu pai, condenando categoricamente a mentira e ameaçando-me de severa punição.

Para poder viver, supomos a existência de muitas coisas que, naquele instante de deliberação, não estão diante de nós. Coisas que não podemos verificar por nós mesmos. Quando alguém que se encontra sentado sente inopinada necessidade de urinar, levanta-se e procura uma toalete. Este gesto só se justifica pela certeza de haver uma toalete próxima de onde se está. Mesmo que não tenham ainda flagrado o vaso, a busca é pertinente. Senão, urinariam onde estão. Em nome da inércia ou do menor esforço.

Esta certeza sobre mundos não verificados concerne também à nossa convivência com os demais. Suas ações, seus discursos. Na hora de agir, de escolher uma conduta entre outras, de jogar no lixo soluções da vida em nome daquela que nos parece melhor, servimo-nos de uma série de certezas sobre a conduta dos demais que prescindem de constatação. Confiança para alguns, fé para outros.

Agora mesmo, no momento que transcrevo este texto […], suponho que a editora honrará seu compromisso em publicá-la. Suponho também algum leitor. Conversas em torno do texto. E nada disso posso verificar. Simplesmente porque, neste caso, nada disso tem, no instante em que digito, materialidade alguma. Mas sem estas certezas eu não estaria aqui, diante do micrinho, com tantos atrativos naturais por perto, desdenhando da minha ausência.

Da mesma forma, quando interagimos, recebemos informações de terceiros sobre coisas que não podemos checar. Não tem outro jeito. Precisamos saber muito mais do que nossos olhos enxergam. Do que a posição de nosso corpo no mundo autoriza a perceber. Por isso, só nos resta acreditar no que nos contam.

Pela mídia o jornalista apresenta suas manchetes. Que anunciam fatos jornalísticos. Sabemos que ele, seus patrões e anunciantes têm muitos interesses neste trabalho. Que costumam apresentar as coisas do jeito que mais lhe convém. Até porque é preciso escolher na hora de fechar uma pauta. O mundo é grande demais para tão poucas páginas ou segundos de notícias.

Mas na hora que você se baixa de manhã para recolher o jornal que lhe foi entregue por assinatura e se dispõe a ler, é porque tem certeza de que tudo aquilo aconteceu mesmo. E quando você, conduzindo seu veículo, muda de trajeto por conta de uma informação de trânsito ouvida na rádio, é por estar seguro de que o caminho habitual está congestionado, pelas razões anunciadas.

Da mesma forma, quando alguém, agora longe da mídia, conversando com você num bar, se apresenta como professor de ética da universidade, como admirador de música sertaneja, como louco por fígado acebolado e grão-de-bico com salada de agrião, você dá continuidade ao diálogo presumindo que tudo isso seja verdade.

Porque se mentirmos sobre nós mesmos, impedimos nossos interlocutores de conhecer nossas práticas, hábitos, apetites, em suma, para falar simples, de saber quem somos. O que impediria nossa identificação. E qualquer confiança na veracidade de nossas informações.

O efeito benéfico de qualquer afirmação mentirosa é sempre de curto alcance. Pouco sustentável. Porque uma vez associada a prática ao autor, suas declarações tornam-se doravante suspeitas. “Este não é de confiança”, dizemos. E, se por hipótese, todos se tornassem mentirosos, se a mentira virasse regra universal, qualquer iniciativa mentirosa seria ineficaz. Ninguém daria crédito a um mentiroso, sabendo tratar-se de um. O que tornaria a convivência impossível. Por tudo isso, só podemos concluir, então, que mentir não é adequado. Não ajuda a viver e conviver bem.

Por que mentimos assim mesmo?*

Mas, apesar de toda esta argumentação, o fato é que mentimos com frequência. Uns mais, outros menos, é fato. Então, de duas uma: ou somos ignorantes e não sabemos viver, servimo-nos de uma razão viciada e erramos a cada mentira; ou, então, a mentira nos parece, em situações concretas da vida, muito conveniente. Conveniência nossa, do mentiroso, mas também conveniência do outro. A quem pretendemos proteger da verdade.

Comecemos pelo mais comum. Mentir para atender a conveniência de quem mente. Conveniência do canalha, que age mal com vistas a um benefício próprio. Daquele que sonega suas verdadeiras intenções para fazer crer no que não pretende e auferir benefícios desta falsa crença. Conveniência do xavequeiro, do paquerador, que, com escopo de cópula singular, faz crer em projetos de longa duração, com direito a nomes para a prole, bairro e arquitetura da futura residência e envelhecimento compartilhado.

Sempre se poderia argumentar que as delícias proporcionadas por uma aproximação física prazerosa, com um parceiro desejado, têm total primazia quando comparadas às miudezas de vidas a longo prazo. Afinal, sempre passam tantas coisas pela nossa cabeça quando cogitamos sobre o futuro. Nossas expectativas são quase tão confusas. Tão fugazes. Podemos deixar de querer rapidamente aquilo que, com muita intensidade, almejamos para nós num instante qualquer. E convenhamos: ninguém quer as mesmas coisas antes e depois de um orgasmo!

Mentir por conveniência nossa, com certeza. Mas também por conveniência do outro, do interlocutor, da vítima. Que terá no afastamento do real lesivo – proporcionado pela mentira – um unguento, uma sobrevida, um instante de alívio, ainda que temporário. Um bálsamo protetivo face a tristeza que supostamente ensejaria a verdade. Para quando a sinceridade parece cruel demais. Será que um doente em estado terminal, precisa mesmo de relatos verídicos?

E você, senhora, na hora de dar um fora em seu parceiro, no momento de se justificar, precisa mesmo revelar que encontrou outro com melhores condições de proporcionar prazer? Com apetrechos e dotes que não consegue tirar da cabeça? Precisa falar daquela linguetada em diagonal acompanhada do atrito com a ponta do nariz que faz badalar os sinos da Catedral de Notre Dame, mesmo longe de Paris?  Do número de investidas por encontro? Sobretudo para um marido de mais de uma década, de pegada frouxa, esporádica e inconsistente. Que nunca faz tocar nem a campainha de casa. Será tão necessário assim passar em revista os talentos e competências profissionais do pretendente? Do sucesso econômico – vencimentos diários superiores ao minguado salário docente? Da farta cabeleira face às fracassadas tentativas de implante?

Você imagina as causas do novo amor. Ou, pelo menos, os atributos determinantes da troca. Mas, na hora de justificar ao incrédulo cônjuge sua decisão, você mente. Diz que o problema é com você. Que não se sente à altura. Que o outro é legal em demasia. Que se pudesse escolher alguém para passar a vida eterna, não hesitaria em procurá-lo novamente. Mentiras. Por compaixão. Porque a verdade pode agredir muito. E muitos de nós não suportamos dar causa à tristeza do outro. Seja o outro quem for.

Resumindo: parece óbvio que a mentira não convém. E, ao mesmo tempo, parece inevitável mentir. Não é mesmo fácil aprender a viver. […].

* “Por que mentir?” e “Por que mentimos assim mesmo?” são tópicos do capítulo Ética e Vida Boa da obra A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade de autoria de Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu, professores de ética, respectivamente, pela USP e PUC-Rio.

**Clóvis de Barros Filho é bacharel em Direito e Filosofia pela USP e em Comunicação Social pela Cásper Libero. É pós-graduado em Direito Constitucional e em Sociologia do Direito pela Universidade de Paris II. Leciona Ética na ECA-USP.

Filosofias de um jagunço! (parte 2)

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Pronto! Segue a segunda e última postagem de uns trechinhos das verdades filosofias de vida do jagunço Tatarana, o Riobaldo de Guimarães Rosa. Como deixei claro anteriormente aqui não cabe contexto – arengo e repito: vá contextualizar quem quiser ler a obra (“Grande sertão: veredas”). Repasso aqui as últimas sabedorias sobre essa vida travessia que a obra me trouxe e ainda me põem a refletir sobre as veredas do viver… “negócio perigoso!”, como diz Riobaldo. É sim, Seu Tatarana, por vezes e vezes é, angustiante e desafiador, mas é o que temos a fazer ou arredamos pé… e nonada disso! Amém!

<Os trechos foram retirados da seguinte edição da obra:

ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: veredas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.>

“Ações? O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.” (p. 178)

“E grande aviso, naquele dia, eu tinha recebido; mas menos do que ouvi, real, do que do que eu tinha de certo modo adivinhado. De que valeu? Aviso. Eu acho que, quase toda vez que ele vem, não é para se evitar o castigo, mas só para se ter consolo legal, depois que o castigo passou e veio. Aviso? Rompe ferro!” (p. 178-179)

“Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.” (p. 180)

“Se eu fosse filho de mais ação, e menos ideia…” (p. 184)

“Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência. Mal. O senhor fia? Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva.” (p. 185)

“Acho que o espírito da gente é cavalo que escolha estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom. Seja?” (p. 186)

“Tem um ponto de marca, que dele não se pode mais voltar para trás. Tudo tinha me torcido para um rumo só, minha coragem regulada somente para diante, somente para diante;” (p. 213-214)

“Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…” (p. 221)

“O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante todo o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto – inteligência só.” (p. 237)

“Em desde aquele tempo, eu já achava que a vida da gente vai em êrros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava.” (p. 244-245)

“O vau do mundo é a alegria! […] Vau do mundo é a coragem…” (p. 305)

“Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o bêco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga.” (p. 307)

“Travessia, Deus no meio.” (p. 309)

“Sertão: é dentro da gente.” (p. 309)

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.” (p. 310)

“Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma coisa só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe.” (p. 311)

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.” (p. 318)

“Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem a gente; os em vir, também. Só o presente é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isto, já aprendi.” (p. 343)

“De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo o medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea.” (p. 389)

“Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo vivente medroso, um menino tremor, todos perigam – o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero –: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!” (p. 394)

“ ‘Vida’ é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia.” (p. 398)

“Mas o cabedal é um só, do misturado do viver de todos, que mal varêia, e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta.” (p. 400)

“… pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.” (p. 410)

“Rir, antes da hora, engasga. E eu me enviava pelo sério.” (p. 410-411)

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.” (p. 413)

“Ser forte é parar quieto; permanecer.” (p. 420)

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.” (p. 461)

“Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel…” (p. 484).

“E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões.” (p. 490)

“A vida é um vago variado.” (p. 500)

“O que os meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’manhã.” (p. 518)

“O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…” (p. 522)

“Travessia perigosa, mas é a da vida.” (p. 542)

“Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia?” (p. 559)

“O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos… Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me enguliu, depois me cuspiu do quente da boca… o senhor crê minha narração?” (p. 585)

“A vida da gente nunca tem termo real.” (p. 599)

“Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o diabo não existe. Pois não? O senhor é homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.” (p. 608)

Filosofias de um Jagunço! (parte 1)

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Nonada. O que aqui apresento não carece de muita explicação não, assim como a vida, isto aqui não é entendível. Fiz por querer, por fina força fazer. Botei na cabeça e pronto. Fui digitando uns trechos que mais me trouxeram pensamentos, que mais me deram mesmo susto ou admiração do meu livro maior. É! Meu livro maior: o “Grande Sertão: Veredas” do mineiro João Guimarães Rosa. Frases e mesmo parágrafos em espécies de aforismas aqui apresento. Verdades filosofadas! Verdades assim contadas como filosofias de um jagunço sabido pelo riscado do viver: Riobaldo Tatarana. Frases aqui algumas que já se espalharam pela internet e redes sociais como sendo de autoria não do personagem, mas de seu autor. Porém, prefiro aqui dar crédito à criatura, uma vez que penso que todo criador deve se orgulhar de suas boas criações. Assim, trago Riobaldo a tratar da vida que é sempre travessia, completaria ele, nem chegada nem partida. Deus no meio!

Transcrevo algumas das falas desse cabra ajagunçado pelo correr perigoso da existência no sertão mineiro de um Brasil que já se foi. A obra de Rosa foi originalmente publicada no ano de 1957. Era certamente um outro sertão, um outro país sobre os quais ele escrevia. Mas os dizeres do jagunço aqui transcritos ainda assim ressoam para além do lugar-sertão, para além do tempo-passado, para além de um país-diferente. Falas, algumas delas, que mais tendem para ensinamentos sobre a vida, sobre amizade, amor, dor, tristezas e alegrias. Sabedorias. Falas-ensinamentos, nem precisa dizer, descontextualizados. Não preocupo. Vá quem quiser contextualizar. Leia a obra. Apenas uma advertência, não um desencorajamento, para os menos hábeis e desacostumados na leitura: este não é livro fácil. A escrita usada é de um estilo todo próprio. O tecido delas que vai sendo feito numa conversa com um doutor que nem nada fala, vai torcendo os rumos de uma história épica, grandiosa. Posso nem falar, sou apaixonado pela obra, me descuido só em elogios.

Sem mais demoras, deixo aí os incautos interessados e que não leram “Grande Sertão”, esperanço, ensimesmados com o sumo do palavreado de Riobaldo. Como entendo que quem quer se coça! Dá um jeito! Quem não entender, ou se dê por desentendido, ou vai lendo devagar, para entender esses dizeres no inteiriço deles. E agora deixo em duas postagens, a primeira sendo esta, essas filosofias curtas sobre as veredas da vida, a qual, como repito, e vivo nessa lengalenga repetida desde então: é sempre travessia!

<Os trechos a seguir foram retirados da seguinte edição da obra:

ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande Sertão: veredas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.>

 

“… o sertão está em toda parte.” (p. 08)

“Viver é negócio muito perigoso…

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é a alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse… Mas não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele!? Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela – já o campo! Ah, a gente, na velhice carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar… Bem o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: ‘menino – trem do diabo?’ E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes. … O diabo na rua, no meio do redemunho…” (p. 10-11)

“Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuvas e negócios bons… de sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só.” (p. 15)

“O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…” (p. 19)

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais – mas que elas vão mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É a que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.” (p. 23)

“Somemos, não ache que religião afraca. Senhor ache o contrário. […]. Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.” (p. 23)

“Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é um ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?” (p. 35)

“Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o escuro, escuros.” (p. 36)

“Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.” (p. 40)

“Jagunço é homem já meio desistido por si…” (p. 51)

“Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final.” (p. 56)

“Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa.” (p. 56)

“Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dôr.” (p. 60)

“O amor? Pássaro que põe ovos de ferro”. (p. 61)

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia.” (p. 64)

“Viver é um descuido prosseguido.” (p. 70)

“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade!” (p. 84)

“No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…” (p. 85)

“Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!” (p. 87)

“O mal e o bem, estão é quem faz; não é no efeito que dão.” (p. 97)

“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alivanhado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. […]. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.” (p. 98-99)

“Ao que o digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, se não fosse cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa ideia me põe susto.” (p. 126)

“O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.” (p. 134)

“Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. – ‘Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos’ – me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu.  Por que? Diz-que-direi ao Senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.” (p. 138-139)

“Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O Senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.” (p. 140)

“Afirmo ao senhor, do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.” (p. 174)

Contos Aéreos!

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A chuva caia fraca, neblinava, no começo da noite. A moça brincava na varanda com um gato meigo. A meiguice da cena. A beleza da moça. Assis olhou rente, esticou e reteve-se por instantes: a chuva, a moça e o gato. Mas a chuva ficou forte, a cena findou-se. Assis seguiu pela sombra da noite, se protegendo do engrossar da chuva, mas pensando na beleza da moça e seu gato meigo.

Para a Musa inspiradora!

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Assis Rosa

Elogios? Os mais comuns que escuta,

Talvez sem muito lhe afetar,

De “Linda!”, “Boneca!” e “Gata!”

Já se sabes assim, é comum lugar.

Posto, de tanto repetirem-lhe elogios

Esses refrigérios do ego quedam-se vazios

Porém, atrevo-me, ouso ainda lhe elogiar

Mas, por ai, este mesmo, nunca vais escutar

Isso garanto por ser demais improvável

Ouvir de alguém: “Sua inexplicável! ”

 

Um ser deveras lindo

A distância espio

Expiação de pecados

Vindouros e passados

Beleza que dá gosto de se ver

Que ao olhar e sentidos dá prazer

Que ao longe me ilumina

Um corpo-arte, obra-prima

 

Desejo-te

Não, de fogo de paixão ainda não se trata,

Sim, para tal incêndio quase não se falta

Desejo-te

Daquele jeito que dá tesão e faz tremer

Daquele jeito que da razão se faz perder

Desejo-te,

Mesmo sabendo certa a mortífera afirmação:

“O desejo não sobrevive a sua satisfação! ”

Desejo-te, insisto,

Embora nunca a toque ou a tenha perto de mim

Pois não quero esse desejo acabado, decretado fim

 

Suas pernas, suas curvas, sua cintura

O que mais prende atento o meu olhar?

Seu rosto, sua pele, enfim, sua criatura

De olhos fixados, não consigo parar

Hipnotizado pela sua formosura

Acho-me perdido, vencido pela luxúria

Então, só me resta a você apelar:

“Vá! Foges logo desse olhar! ”

 

Se possível fosse…

Queria beijar o sorriso da tua voz

Se possível fosse…

Queria acariciar as palavras da tua boca

Se possível fosse…

Sentir a tua alma ao tocar seu corpo

Se possível fosse…

Agora, estaria com você, que distante

Já me faz demais um bem bastante

Um bem de te querer bem

Se possível fosse…

Tentaria saciar com teu sexo

Os instintos insaciáveis

Mas, não, nada disso é possível…

O que me é possível, então?

Ver-te! E nesse contemplar

descanso meu ego desejante,

imagino uma ponte ao pensar,

e atravesso-a em instantes!

Chego e me aconchego

na beleza do teu semblante!

 

Que forças astrais do alto

me tomam de assalto?!

No desembrulhar da vida

me perco e me acho,

mas, mesmo assombrado

pelos astros, sigo,

de encontros e desencontros

comigo. E assim, certa vez,

perdido no tempo-espaço,

fui no meu encalço,

e procurando me encontrar

achei você no ciberespaço,

e novamente me encontrei.

Através de ti voltei a me achar,

e agora encontrado, seguirei

nas idas e vindas sem cessar

dessa vida feita de virações

e caminhar. Só peço aos céus

uma coisa: que nos caminhos

e voltas do viver, eu nunca que

venha é me apartar de você…

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